segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Jan-Emmanuel De Neve


Joana Gorjão Henriques, jornalista, entrevistou Jan-Emmanuel De Neve, economista comportamental e cientista político sobre o resultado das suas investigações que pretendem clarificar a base genética da felicidade. Não sendo uma abordagem que particularmente me interesse, mas porque me pareceram honestas as respostas, aqui está na íntegra a entrevista publicada no Jornal Publico de ontem, com o título "A felicidade é tão complexa e tem tantas influências que não há nada que a explique a 100 por cento":

Haverá muitos genes que explicam a felicidade, mas o belga Jan-Emmanuel De Neve descobriu um deles: o 5-HTT. Economista comportamental e cientista político, diz que o gene ajuda a explicar por que é que há pessoas mais felizes do que outras. Mas avisa que há muito mais além da genética que explica a felicidade. Será que podemos mudá-la?
Costuma ver o copo meio cheio ou meio vazio? Parte da explicação pode estar nos genes, diz um estudo publicado em Maio, liderado pelo belga Jan-Emmanuel De Neve. Aos 32 anos, De Neve, economista comportamental e cientista político, "descobriu" o "gene da felicidade". O gene, 5-HTT, ajuda a explicar por que há pessoas mais felizes, mostram os resultados do estudo que De Neve publicou no Journal of Human Genetics, a partir da análise de 2574 participantes do National Longitudinal Study of Adolescent Health. Concluiu que quem tem versões longas do 5-HTT tem mais probabilidade de ser feliz. O 5-HTT é o gene do transportador da serotonina, um químico cerebral responsável pela sensação de bem-estar. Herdamos o gene, que pode ter uma versão longa ou uma versão curta, de cada um dos nossos pais. Podemos ter três combinações: longa-longa, longa-curta ou curta-curta. Segundo o estudo, quem tinha a primeira combinação tinha mais probabilidade de estar muito satisfeito com a vida: 35%, contra 19% dos últimos. Conversa em Londres com o investigador que não sabe se é feliz.

Não vem das ciências naturais mas sociais: foi uma limitação?
Fazer associações genéticas é muito diferente daquilo que fazemos nas ciências sociais - traz uma série de dificuldades e complexidades. Tive a sorte de ter a ajuda de James Fowler, o meu mentor, que me orientou em relação à metodologia. Por outro lado, lendo os textos escritos por geneticistas puros parece-me sempre que lhes falta olhar para um ser humano integrado no seu ambiente complexo.

Uma coisa é correlação e outra é relação de causalidade, o que significa exactamente que o gene 5-HTT está correlacionado com a felicidade?
Isso é uma questão fulcral. Aqui não se pode falar de relação causa-efeito, mas de correlação. Para se provar causalidade, teria que se confirmar que este tipo de gene, em todas as circunstâncias, para toda a gente, teria o mesmo efeito, qual a influência exacta e se não há mais nada que interfira nessa relação que explique os resultados. A felicidade é poligénica - há muitos genes que a influenciam, assim como factores ambientais. Por isso não se pode dizer que este gene seja a causa da felicidade. Dizer que o gene 5-HTT está correlacionado com a felicidade ajuda a explicar por que é que algumas pessoas são naturalmente felizes e dá-nos mais informação sobre por que alguns vêem o copo meio cheio e outros meio vazio.

Por que é que o estudo é importante?
Nos últimos anos, vários estudos sobre gémeos mostraram que os genes importam para a felicidade, mas ninguém encontrou uma correlação forte entre um gene em particular e a felicidade. Este é o primeiro.

O estudo revela que, dos que se sentem muito satisfeitos, 35,4% têm a versão longa do gene, contra apenas 19% que têm a versão curta. Quão significativa é esta diferença?
Há mais de 21 mil genes, por isso o efeito de um gene será sempre relativamente fraco. Comparando com outras variáveis como o casamento ou baixos salários - em que estes dois, por exemplo, explicam, cada, à volta de 3% da felicidade -, o efeito estatístico deste gene é bastante significativo. Os genes nunca explicarão a felicidade a 100%. Mas a felicidade é tão complexa e tem tantas influências que não há nada que a explique a 100%. Começámos a olhar para os genes porque psicólogos ou economistas comportamentais que estudam a felicidade descobriram que, mesmo quando coisas más ou coisas boas acontecem, não é preciso passar muito tempo para se voltar ao estado natural de felicidade. Por isso pensámos: será que há um patamar básico de felicidade no qual se gravita, que pode subir ou descer temporariamente, mas ao qual se regressa?

Quer dizer que não se pode fazer muita coisa para mudar os nossos níveis de felicidade?
Sim e não. Pensar que se pode mudar a felicidade de alguém de um extremo para outro é naif. Ao mesmo tempo, a genética explica qualquer coisa como entre um terço a metade da felicidade, mas variáveis socioeconómicas e ambientais - como a amizade ou o salário - ainda explicam a maioria das variações entre as pessoas, mais ainda do que o gene. No estudo dos gémeos, descobrimos que dois terços da felicidade se podem explicar com as experiências e variáveis socioeconómicas e um terço é mais ou menos estável através da genética e de traços de personalidade.

Mas então há um terço da felicidade que é determinista...
Não sei se tem irmãos, mas conhece-os desde sempre e há traços neles que não mudaram. Uns serão mais felizes. Portanto, a associação da felicidade a um gene não deveria ser surpresa, há determinadas coisas únicas em nós que são relativamente estáveis.

O estudo usa apenas uma pergunta, sobre o nível de satisfação das pessoas, para medir a felicidade. Como é que definiu o conceito de felicidade?
Não o definimos. É um conceito muito abrangente. A pergunta sobre o nível de satisfação com a vida é apenas uma - e mede algo que não abrange toda a questão da felicidade. Mas 20 anos de psicologia dizem que, se se tivesse apenas uma pergunta para fazer, seria esta. Porque, se se perguntar quão feliz a pessoa se sente neste momento, obtêm-se respostas mais hedónicas e mais relacionadas com o momento específico. Há um estudo que mostra que as medidas objectivas de qualidade de vida, como espaços, o tempo, etc., se relacionam de forma muito forte com medidas subjectivas de bem-estar. Portanto, a pergunta permite criar coerência entre os estudos sobre o assunto e fazer comparações, até entre países. Mas concordo que seria melhor ter um conceito abrangente que pudesse tentar medir todo o espectro da felicidade.

Este gene também está associado à depressão...
... Sim, o mesmo gene, mas a versão menos eficiente (mais curta).

Diria que felicidade e depressão são duas faces da mesma moeda?
A minha resposta imediata seria sim, mas muito provavelmente não, porque a depressão só afecta uma minoria da população enquanto a felicidade é algo que é importante para toda a gente em qualquer altura. Como objecto de estudo, a depressão foca-se mais num grupo específico, enquanto a felicidade diz respeito à população toda.

A felicidade tornou-se um enorme campo de pesquisa, muitas vezes ligada à psicologia positiva, e há países que até estão a pensar em medir os níveis de felicidade, ao lado do PIB. Por que é que se tornou uma preocupação no Ocidente?
As pessoas sempre falaram e estiveram interessadas na felicidade. Aristóteles terá sido dos primeiros. Porque importa. Se se perguntar às pessoas qual é a coisa mais importante na vida, elas põem a felicidade primeiro, da Amazónia a Nova Iorque. O movimento da psicologia positiva, liderado por Martin Seligman nos anos 1990, começou a olhar não para os problemas mentais, mas para o outro lado, para as pessoas que são optimistas e felizes. Nos últimos 20 anos, tornou-se um subcampo. Houve um grande salto nestes últimos 20 anos na ciência da felicidade, por isso se vêem muitos mais livros e académicos, artigos, pessoas a falar sobre o assunto. Os cientistas e académicos começaram a levar a felicidade mais a sério e têm meios para a estudar de forma mais sofisticada. Agora começamos a olhar para as consequências da felicidade: o que é que as pessoas que são felizes fazem de diferente?

E o que é?
Usam cintos de segurança mais frequentemente, estão menos envolvidas em acidentes de viação, vivem mais tempo, são mais saudáveis. Por isso esta é a razão mais importante pela qual os políticos se devem focar no bem-estar como um objectivo. Porque, se se focarem no bem-estar, as consequências são bastante positivas. As pessoas felizes são mais cuidadosas, por razões óbvias: gozam mais a vida e têm mais cuidado com os riscos físicos.

Mas para alguns a ideia de risco torna-as felizes. Como o explica?
Sim, coisas como bungee jumping envolvem adrenalina e risco, e há pessoas que o procuram. Mas estou a falar de riscos quotidianos. Aquilo que descobrimos é que as pessoas mais felizes também tendem a atrair salários mais altos, mas isso explica-se porque recebem mais atenção, são mais populares, atraem mais pessoas, mais facilmente se tornam líderes e assumem posições de chefia. Quanto à longevidade e saúde, é porque sentir-se bem tem influências psicológicas, o que significa que a saúde física tem menos problemas.

Há um movimento nos EUA que critica fortemente a psicologia positiva. Como responde a isto?
Concordo. Aristóteles via a felicidade não apenas como algo que tem a ver com sentirmo-nos bem ou mal, mas era um conceito que tinha a ver com relações e com o sentido da vida. O próprio Martin Seligman, que iniciou o movimento da psicologia positiva, reconhece que o movimento da psicologia positiva se foca demasiado nas emoções positivas, no conceito de felicidade em sentido limitado, e que de certa forma devíamos alargá-lo para um conceito que inclui emoções positivas mas também compromisso, relações, sentido da vida...

A felicidade é um tema tão popular que pedi no Facebook que me sugerissem perguntas. Aqui estão algumas: este mesmo gene influencia outros comportamentos?
O gene do transportador de serotonina influencia muitos outros comportamentos, doenças mentais, como a depressão, não apenas a felicidade.

Será que alguma vez vamos ser capazes de encontrar todos os genes responsáveis pelo nosso comportamento social?
No futuro distante, acho que sim. Vamos ter uma ideia cada vez melhor sobre que genes têm um impacto específico em diferentes comportamentos, da felicidade à liderança. Ao mesmo tempo, vamos poder mapear os efeitos específicos de determinados genes e os caminhos que levam a determinados comportamentos. Acho que nunca se terá o quadro completo, mas saberemos muito mais, isso é certo.

Isso significa que vamos poder ser mais felizes?
Se conseguíssemos descobrir todos os genes que influenciam a felicidade, combiná-los e gerar uma criança com eles, poderíamos ter alguém com mais predisposição para a felicidade - mas isso não significa que iria ser necessariamente mais feliz.

O que é a felicidade, é algo estável ou pode mudar?
Há um patamar que é bastante estável e único em cada um de nós ao longo da vida à volta do qual a felicidade gravita. Algumas coisas terão um impacto positivo, outras negativo, algumas experiências terão um impacto mais duradouro, como emprego, mas no final de contas tendemos a voltar ao nosso patamar base de felicidade. Pode mudar? Algumas pessoas dizem que se pode mudar um pouco esse patamar, outras que não - estou mais deste lado, acho que os patamares de felicidade são bastante estáveis.

A felicidade faz parte da evolução humana?
Sem dúvida. Há imensos académicos que estão a estudar se o facto de se ser feliz ou infeliz tem um bom ou mau efeito na evolução. Isso basicamente resume-se nesta pergunta: as pessoas têm mais ou menos filhos consoante são felizes ou não? Alguns defendem que as pessoas felizes atraem um parceiro mais facilmente, daí terem mais crianças, e esta predisposição é passada entre gerações. Há outros que dizem o oposto, que ser mais realista e não necessariamente optimista tem vantagens.

Este gene é específico dos humanos? Se não, que animais têm a versão longa e curta?
A maior parte dos animais tem sistema neurotransmissor, mas não tenho a certeza se têm a versão curta ou longa do gene.

É feliz?
Não sei! (Risos) Depende. Isso significa que a pergunta sobre a satisfação com a vida é limitada! Se alguém me perguntasse se estava satisfeito com a vida, não sei o que diria e não sei como é que a resposta mudaria se me perguntassem noutra altura. Mas a questão é esta: para as pessoas individualmente pode não fazer muito sentido, mas se se perguntar a 2000 pessoas detectam-se padrões. Daí a importância destes estudos.



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