Mostrar mensagens com a etiqueta Pensamentos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pensamentos. Mostrar todas as mensagens

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Os que vivem a "vida plena"


Moreno Bondi Parole di Pietra (detalhe)

 “ (…) Parece-me que os pacientes que fizeram progressos significativos na terapia vivem de um modo mais íntimo com os seus sentimentos dolorosos, mas vivem também mais intensamente os seus sentimentos de felicidade; a cólera é mais claramente sentida, mas o amor também; o medo é uma experiencia feita mais profundamente, mas também a coragem. E a razão pela qual eles podem viver de uma maneira tão plena num campo tão vasto é que eles têm em si mesmos uma confiança subjacente de serem instrumentos dignos de confiança para enfrentar a vida.(…) Estou convencido de que este processo da “vida plena” não é um género de vida que convenha  aos que desanimam facilmente. Este processo implica a expansão e a maturação de todas as potencialidades de uma pessoa. Implica a coragem de ser.”

Carl Rogers Tornar-se pessoa Moraes Editores

Não tenho muita simpatia pela ideia que a pessoa que evolui ao mais alto nível espiritual, definida pela capacidade de consciência e de harmonia que desenvolve consigo e com os outros, deverá aspirar como que a um perpétuo estado Zen. Aconselha-se por ai: utilizar estes atributos  - não ouvir, não ver, não dizer -  na família, na sociedade e no trabalho. Distanciar-se dos estímulos negativos, pressuponho. Desenganem-se. 
Estou convencida que as pessoas que se tornam mais plenamente humanas, têm profundidade emocional, diferenciam mais facilmente o certo do errado e estão ancoradas aos seus sentimentos, o que muito conta para a união ardente com o outro, para a indignação e para a coragem se a situação o exigir. 

Um belo e profundamente sabedor texto, sobre este assunto, com o título The Moral Bucket List da autoria de David Brooks, em: 
http://www.nytimes.com/opinion/sunday/david-brooks-the-moral-bucket-list.html?_r=1

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Dia dos Namorados

Foto de  Ranak Martin

A capacidade de cativar. De se tornar desejável. A sorte se o outro repara:

“…uma competência de que todos precisamos: a capacidade de fazer com que outra pessoa se preocupe connosco.”
 Stephen Grosz A vida em exame Temas e debates

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Da indiferença

foto de Richard Huschman

“Queres que fique zangado contigo, porque se me zangar contigo, isso significa que eu acho que poderias ser diferente do que és. Se estiver zangado contigo, isso significa que poderemos arranjar aquilo que está estragado”

Stephen Grosz A vida em exame. Como nos perdemos e como nos encontramos. Temas e debates

Escolhi este pequeno texto porque me parece que ele contém uma explicação para certas pessoas preferirem, ou preferirem em determinados momentos de vida, ver o outro zangado do que indiferente. 
Parece que se infringe as leis da natureza, mas paradoxalmente a agressividade também serve para manter os vínculos. 
Questiono-me contudo, porque os gestos travados, o fio cortado pelo silêncio, nunca isento de hostilidade, pode ser tão intolerável. 
Tornar-se humilde, avançar ou não avançar, tornar-se desprezível, comportar-se de modo desajustado, pensar-se no que resta fazer, são tudo formas de provocar a zanga. Por aqui seria possível encontrar uma zona, o limite das águas que permitiria o sentimento iminente da redenção.


segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O nível a que me encontro

Cesare Viazzi Mountain Spirit

“As pessoas da sua vida são um bom indicador do espaço onde está a operar a nível emocional. Os semelhantes atraem-se. À medida que vai mudando, dirige-se automaticamente e é automaticamente dirigido para um tipo de pessoa diferente.”
Susan Jeffers Apesar do Medo Sinais de fogo

Esta é a época em que inevitavelmente recebemos muitas mensagens cujo conteúdo é nos orientar para que vivamos melhor 2014. Até que ponto nos queremos libertar e até que ponto nos queremos proteger?
É tempo de novas decisões?
Fiquei a pensar que apesar de ouvirmos ou lermos conselhos inspiradores, pô-los em prática poderia depender de uma maior consciência acerca do que necessita ser mantido ou corrigido. Para chegarmos a esse conhecimento, as pessoas que escolhemos livremente para fazer parte da nossa vida, são um bom indicador da realidade que criamos para nós, daquilo que somos, pelo menos nesse momento. Será uma maneira de nos vermos, saindo de nós. São como um espelho.
O nosso narcisismo, a pretensão de julgarmos que o que pensamos sobre elas, pode não ter a ver connosco - não nos afeta - , poderá ser um entrave a esta análise. 
Este quadro de interpretação foi próprio da minha juventude quando, a propósito de companhias não aprovadas por meus pais, ouvia “Diz-me com quem andas e te direi quem és.” Reagia mal, porque na vontade de me fazer gente, jamais poderia tolerar que a pessoa que eu era, ou queria ser, fosse definida pelo tipo de amigos que tinha. A verdade é que ao estarmos juntos, os nossos desejos encontravam –se. De alguma forma eramos semelhantes. 
Também com as pessoas que ainda hoje passam e com as que ficam, com aquelas que, por julgar não ter tomado qualquer decisão, nada faço para estreitar os laços, não posso ignorar que preenchem necessidades que são minhas e me dizem quem eu sou,  ou se desejar, em que fase do meu progresso me encontro.

Ideias para viver melhor 2014:

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Autoestima é autodisciplina


Casa da Sorte, Rossio - Lisboa

Se nos sentimos válidos, sentimos que o nosso tempo é valioso, e se sentimos que o nosso tempo é valioso, queremos utilizá-lo bem.”
M.Scott PecK O caminho menos percorrido Sinais de fogo
Depois das férias, vem a pretensão de definir um propósito que possa ajudar a tirar o que não importa.
Como a gestão do tempo que dispomos é assunto central nas nossas vidas, os meus carrascos internos dizem-me que esta vontade talvez aconteça por estar stressada e sem disposição para estar com certa pessoa ou em tal situação.
Como se sabe se isto ocorre por stress, ou por outras razões ligadas ao processo de envelhecimento, como se nos estivéssemos a despedir da desalinhada avidez da juventude? Ou será uma manifestação de autoproteção, por me considerar com valor e por tal, evitar expor–me a determinados acontecimentos?
Dependerá da firmeza do que queremos ser. A sensação de segurança identitária ajuda a que nos disciplinemos ao ponto de tomarmos conta de nós, e que utilizemos melhor o nosso tempo e investimentos. Sobrará mais para o novo e para o bom, pelo que, progride a par da libertação psíquica.
É uma estrada longa. Tempo sobre tempo, é anúncio de amor-próprio que se encontra na maior utilidade que damos às nossas escolhas.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Amores vadios

Margritte René Dangerous Liaisons 1926

“Ela transformou a minha vida em um inferno, mas eu me sinto arrasado sem ela. Ela sempre fazia alguma coisa excitante, até ultrajante. Às vezes desaparecia durante semanas seguidas nem mesmo explicava aonde tinha ido. Nós gastamos até ao último centavo de um monte de dinheiro, todas as minhas economias, a hipoteca da casa. Mas ela realmente me fazia sentir vivo. Minha mente ficava sempre confusa quando ela estava por perto. Eu não conseguia pensar claramente a respeito de mais nada, a não ser nela.” O casamento terminou de modo doloroso para ele quando a esposa foi morar com outro homem. “Ela não deixou nem um bilhete.”*
Robert D. Hare Sem consciência- o mundo perturbador dos psicopatas que vivem entre nós Armed
Como nos poderemos rever na frase “Minha mente ficava sempre confusa quando ela estava por perto. Eu não conseguia pensar claramente a respeito de mais nada, a não ser nela.”!
Se compreendemos tão bem o que isto é, certamente nos relembramos do quanto ensaiamos atitudes a tomar, mas na presença do amado, perde-se essa capacidade e não percecionamos mais nada, a não ser, nesse momento, ele, numa aceitação simples das desculpas.
Mas o que me interessa agora é perceber as razões que nos podem ligar a experiencias amorosas semelhantes ao testemunho apresentado, que são mais complexas e contraditórias que as habituais.
Se permitimos estes episódios na nossa vida, uma parte de nós gosta disto, ou precisa disto, delegando no outro, componentes nossas, desconhecidas, necessidades mais profundas reprimidas, que são vividas através do amado. 
Não sendo uma explicação suficiente, a literatura refere que a pessoa que embarca nestes jogos amorosos estaria habituada desde criança, a erotizar a submissão, a viver as primeiras ligações afetivas num sistema perverso de recompensas e punições, e, quando se perde o sentido de si mesmo, a alimentar mais tarde o núcleo masoquista que todos nós temos.
*Testemunho de um colega do Dr Robert Hare

domingo, 30 de junho de 2013

A intimidade


Rubens Portrait of wife, son and self (detalhe)

“ A intimidade impõe o abandono da couraça que protege o nosso núcleo mais intimo, sede do pudor e da vergonha: quanto mais partilhada mais o outro tem livre acesso às nossas coisas secretas. Mas só a tolerância e uma grande estima de nós próprios nos levam a viver este despirmo-nos como uma oportunidade e não como uma ameaça. Quem pensa que deve esconder as partes de si mesmo que mantém inconfessáveis, inevitavelmente vive a intimidade como um risco”
Willy Pasini Intimidade, O outro lado da afetividade Difusão Cultural
Na ordem do desejo que nos liberta das habituais fronteiras entre o corpo e o espirito. Entre nós e o outro. Partículas de energia, numa dança, ao ritmo de termos sido capazes de nos colocarmos na sua pele sem nos perdermos, e disponíveis para o deixar entrar, sem medo de sermos devorados por ele. Alheados da fórmula que permitiu que o milagre tivesse lugar, não nos contentamos com o conforto do inolvidável encontro. Surge a ideia insana que pode não se repetir, e a urgência de o reviver.
Ideia chave: são necessários dois processos psicológicos para que a intimidade seja possível – a identificação projetiva e introjetiva - empatia e ressonância afetiva.

O outro lado da espiritualidade

Dali Ascension

Muitos pacientes que já passaram por este começo dizem-me: ”Não sou muito religioso. Não vou à igreja. Já não acredito em muita coisa que a igreja e os meus pais me disseram. Não tenho a fé dos meus pais. Acho que não sou muito espiritual.” É muitas vezes um choque para eles quando questiono a realidade do pressuposto de que não são seres espirituais. “Você tem uma religião,” poderei dizer-lhes, “ bastante profunda. Venera a verdade. Acredita que pode evoluir e melhorar: a possibilidade de progresso espiritual. Com a força da sua religião, está disposto a sofrer as dores do desafio e as agonias de desaprender. Assume o risco da terapia, e fá-lo pela sua religião. Não me parece nada realista dizer que é menos espiritual do que os seus pais; pelo contrário, suspeito que a realidade é que evoluiu espiritualmente mais do que os seus pais, que a sua espiritualidade é consideravelmente mais avançada do que a deles, que é insuficiente para que tenham coragem sequer para questionar.
M. Scott Peck O caminho menos percorrido Sinais de fogo
Habitualmente considera-se que este caminho nos afasta da dimensão espiritual. Uma educação com base na submissão, pode ter contribuído para aceitarmos esta crença, sem a questionarmos.
Se nos levar na direção da humildade, chegaremos ao lugar onde habita toda a religiosidade.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

O amor não é um sentimento


Diálogo do filme "A essência do amor ( To the wonder): " O amor não é apenas um sentimento. O amor demonstra-se"

“Já afirmei que o amor é uma ação, uma atividade. Isso leva-nos à ultima das principais conceções erradas que temos de abordar. O amor não é um sentimento. (…) A vulgar tendência para confundir o amor com o sentimento de amor, permite às pessoas todas as formas de se enganarem a si próprias. (…) O amor é como o amor age. O amor e o não-amor, como o bem e o mal, são fenómenos objetivos e não puramente subjetivos.”
M. Scott Peck O caminho menos percorrido Sinais de Fogo
Nunca gostei daquela frase do livro “O principezinho” que diz qualquer coisa do género: “O essencial é invisível para os olhos, só se vê com o coração”. Se tivesse vontade de alcançar os seus possíveis sentidos ocultos, a afirmação poderia tornar-se mais aceitável. Não tenho vontade. Não gosto, porque acredito que o amor e o não-amor, como o bem e o mal, demostram-se pelas ações de cada um.
Mas a nossa natureza resiste. Procuramos significados no comportamento do outro que simbolizam amor, mesmo que as mensagens possam ser ambíguas, ou mesmo contraditórias. Poderemos ficar presos na procura da obscura revelação. Mais um gesto nosso, só mais um, ele talvez se revele, e se renda.
Olhando para trás, sentimos que é de fato doloroso e difícil procurar essas provas e aceitá-las, se se recebeu menos amor do que se desejava ter recebido.
A reter que o amor é ação, dá-nos a responsabilidade e a necessidade de compromisso perante o outro. Estamos prontos para convocar o amor?




sábado, 27 de abril de 2013

Estar só e solidão


foto de Aimish boy
 
“Faço distinção entre estar só e solidão. A solidão é a indisponibilidade de pessoas com quem comunicar a qualquer nível. (…) Estar só, contudo, é a indisponibilidade de alguém com quem comunicar ao seu nível de consciência.”
M. Scott Peck O caminho menos percorrido Sinais de fogo
 
Depois deste e daquele outro dispensados, reparte-se com poucos, um certo nível de consciência do que se passa e a se ser compreendido. Suponho que acontece aos mais afortunados.
Outros há, que não parecem encontrar alguém com quem possam alcançar o fascínio pelo entendimento acerca da complexidade das coisas. Estão simplesmente sós, mas mantêm o diálogo com a realidade e são uma boa companhia de si próprios.
Revisitar as antigas e insatisfatórias relações, soaria a parar num tempo desconjuntado e teatral. Imediatamente afastados dessas memórias, somos mais nós. É o poder espiritual.

sábado, 20 de abril de 2013

Compreender


Théodore Géricault

“Se soubermos o que uma coisa é, poderemos pelo menos começar a pensar nela e a planear uma orientação da ação de molde a tentarmos lidar com ela.”
Ricky Emmanuel Ansiedade Almedina
Situamos este texto se pensarmos nos momentos intranquilos que nos consumiam enquanto esperámos, por exemplo, por um diagnóstico médico que tardava.
Faltava-nos um nome sobre o qual pudéssemos nomear a experiencia, e com isso, delimitar a angústia. Com o diagnóstico, estamos agora mais capazes de definir um plano de ação.
O mesmo se passa no campo das emoções. É por se descobrir o que se está a sentir e o que isso significa, que os medos se tornam mais manejáveis. Para alguns de nós não parece ser o percurso para a felicidade, por acreditarmos que o que não sabemos não nos pode magoar. Pensar-se assim é uma armadilha. São pelos fragmentos do compreensível que nos vinculamos à vida.
Mas até que ponto compreendemos o que uma coisa é?  Talvez saibamos, mas não sabemos como dizê-lo. Tentamos contudo, explicar, e até num certo plano percebemos as coisas, mas só as compreendemos realmente, se as aceitamos e as integramos na personalidade e nas atitudes. A transformação de quem gosta de evoluir. 

terça-feira, 16 de abril de 2013

Boas maneiras

Gustave Klimt Death and Life

“Por outro lado, um individuo que ama genuinamente age com amor e de forma construtiva para com uma pessoa com quem conscientemente não gosta, sem na verdade sentir amor pela pessoa nessa altura e até achando a pessoa de alguma maneira repugnante.”
M. Scott Peck O caminho menos percorrido Sinais de Fogo



Como acredito ser verdade! É uma das minhas teorias – quem tem capacidade de amar, age com respeito e cordialidade mesmo que não goste da outra pessoa. Basta ver nela um represente da humanidade, da qual todos fazemos parte, e que tem o direito de ser encarado como independente de nós.
Esta isenção, é um estado dos seres que cresceram espiritualmente. Deve estar aqui o princípio da repugnância face às atitudes malcriadas e grosseiras, que algumas pessoas provocam.
Devíamos dizer para nós próprios: Nem sei nem quero saber o que muita gente à minha volta sente por mim, o que pensam de mim. Só quero saber como agem comigo.

quinta-feira, 21 de março de 2013

A individualização




 

“ Um dos problemas é que muito poucos desenvolvem uma vida pessoal distinta. Tudo em nós parece em segunda mão, até as emoções. Em muitos casos, temos de nos valer de informação em segunda mão para funcionarmos. Aceito a palavra de um médico, dum cientista, dum agricultor, na base da confiança. Não gosto de o fazer. Tenho que o fazer, porque eles detêm conhecimentos da vida em que sou ignorante. Sou capaz de conviver com a informação em segunda mão sobre o estado dos meus rins, os efeitos do colesterol e a criação de galinhas. Mas quando toca a questões de significado, propósito e morte, a informação em segunda mão não me serve. Não consigo sobreviver com uma fé em segunda mão num Deus em segunda mão. Tem que haver uma palavra pessoal, uma confrontação única, para poder sentir-me vivo.”

Alan Jones* Journey Into Christ
*teólogo


imagem de nathanspotts.com

sexta-feira, 8 de março de 2013

Pensar

Martin Stavars Portrait of a tree

“Para pensarmos, precisamos de isolar, separar, fazer a triagem das nossas experiencias. Precisamos de privilegiar certas facetas, obrigando-nos forçosamente a negligenciar outras.
E no entanto, esse movimento de isolamento, que é um tempo indispensável para a coerência de todo o pensamento, poderá ser uma armadilha tanto mais perigosa quanto mais favorável a lucidez e facultar um seguro conforto intelectual. Famílias de pensamento nascem assim em torno de campos particulares de compreensão, que poderão erigir-se em gueto na medida em que o consenso intelectual no interior dessas famílias vem reforçar então um sentimento de evidência”.
Nicole Jeammet O Ódio Necessário Editorial Estampa
A intenção de abordar este texto não se faria sentir se não estivesse a ler um autor que me vai obrigar a repensar em alguns temas deste blogue. É como diz Gregory Bateson em Metadiálogos: “…para ter pensamentos novos ou para dizer coisas novas, temos de separar todas as ideias já prontas e misturar os pedaços outra vez”.
Seria uma armadilha se permanecesse no conforto das ideias antigas ou se o esforço não permitisse alcançar um conhecimento mais amplo e profundo.
Não é só a nova leitura que me impulsiona a realizar este exercício. São também os modos como as pessoas, incluindo eu própria, analisam as suas experiências de vida e as resistências que colocam em deter-se, de maneira a encontrar o significado que tem para si, tal e tal situação. Requer vontade e humildade em se aceitar.
Mas o coração teme e não nos queremos relembrar. Julgamos que nos retira de um qualquer êxtase, ou porque perdemos o sentido da nossa existência.
Somos também impacientes. Indisciplinados. Mas precisamos para nos clarificarmos, de um tempo para parar e ligar os pensamentos acerca das nossas vivências, às emoções que lhes estão associadas. E de um tempo para viver e se emocionar. E se deixar levar.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Os pequenos passos

James Nizam Tree in room
 “…é por se ter a impressão de se darem pequenos passos sem consequências que se avança.”
Jean-Claude Kaufmann * O labirinto conjugal – O casal e o seu guarda – roupa Notícias Editorial
A importância dos pequenos passos, tal como eu imagino que assim se fazem muitas das nossas boas decisões. Alivia o peso do desassossego, não se apostar numa realidade que julgamos ainda não existir, mas que sem darmos conta, entramos nela, por momentos, através de escolhas que irrompem. Parecem-nos contudo, pequenos nadas que nos fazem crer que ainda há tudo para fazer.
Não conseguimos reter a ideia de mudança que se está a dar, misturamos a vida, mas esse tempo encerra uma sabedoria distinta. Reconhecemo-la num dia qualquer. Desejamos então, somente seguir em frente.

* Sociólogo

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A esperança pode estar onde menos se espera

L. Escaler Maleina
“No entanto, o paradoxo da nossa existência consiste no fato do fracasso da autonomia poder também constituir um não fracasso. Acontece que a autonomia pode passar à clandestinidade e esconder-se com recurso à sujeição, à subserviência e ao abandonar-se à vontade de outrem. E isso dá esperança. "
Arno Gruen A traição do eu Assírio e Alvim
Na necessidade de nos afirmarmos ou de nos defendermos, achamos muitas das vezes como certo, não perdemos as oportunidades de reagirmos à altura das situações. À altura das situações deverá ser, preferencialmente, como nos dizem todos os manuais, termos uma atitude assertiva, ou seja, resguardarmos o nosso espaço, perante o outro, sem recuarmos e sem o agredir.
Mas há conjunturas em que já percebemos que não é possível estabelecermos com aquela pessoa, a relação que desejaríamos e que corresponderia melhor às nossas necessidades. Perdemos a fé no outro, e parece-nos que esse investimento seria uma perda de energia e recursos, importantes a utilizar para quem, ou no que, verdadeiramente interessa. É como se atirássemos para o fundo de nós, sem conflito e temporariamente, as nossas posições sobre as coisas do mundo. Só temporariamente, quem sabe, até o contexto se alterar e pormos outras ideias em prática. E isso dá esperança.





domingo, 28 de outubro de 2012

Investir em si próprio


 Mikko Lagerstedt Is this my path
 
" A palavra - chave da existência é transformação" António Coimbra de Matos Vária Climepsi
Viver no seu tempo. Parar é morrer, já diz o povo. O que importa é sentirmos, que no tumulto do tempo, não nos perdemos em vão.
Que construamos a nossa casa para além das paragens e dos recuos, mesmo que nunca se saiba ao certo, nada. Investir em si próprio num perpétuo movimento de preservarmo-nos psiquicamente e construirmo-nos, que são duas faces da mesma moeda, onde cravamos as raízes da vida.
 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O vazio

Tabitha Soren Running



“ Todos esses livros mal lidos, esses amigos mal amados, essas cidades mal visitadas, essas mulheres mal possuídas! Eu fazia gestos por enfado ou por distração. Os seres vinham logo atrás, queriam agarrar-se, mas não havia nada, e era a infelicidade. Para eles. Porque, quanto a mim, eu esquecia. Nunca me lembrei senão de mim mesmo.”

Albert Camus A Queda

Há muito tempo que estou para escrever sobre esta falta de sentido de ligação às pessoas e ao mundo, não por um estado depressivo, mas como o vazio de ser, em que as expressões afetivas não correspondem a sentimentos reais. Nem acredito que seja devido à condição de “Quero fazer-te aquilo que tenho terrivelmente medo que tu me faças”.
É como se entre essa pessoa e a outra, existisse uma parede de vidro que anulasse a capacidade de a reconhecer e valorizar,  sem culpa nem angústia, e a arriscar nesse caminho, continuamente, pelo que, as aproximações não permitem a reparação, sendo esta mais uma condição própria da natureza do vazio.
Procuro a dificuldade. Como situar quem só existe em rosto e lá dentro habita "o nada"? Como identificar quem não dá valor nem significado ao que tem? Que deveria estar e não está? Como nomear as emoções que provoca, de esperas, desesperanças e traições?
Para quem se relaciona com alguém com esta frágil solidez, é o infortúnio das almas rendidas que dão uma segunda oportunidade e não têm medo de ver o vazio bem fundo, não ignorando que este  pode ser a fonte para toda a violência. 

*O derradeiro impulso para escrever sobre este tema, surgiu quando recomendava a uma mãe aflita, que falasse ao ex-marido sobre o filho de ambos. Insisti neste indicação, ao que ela respondeu-me sempre de modo firme: “Não vale a pena”.






















quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O encanto

René Magritte Le Miroir Magique

“Achavam-me encanto, imagine! Sabe o que é isto de encanto: uma maneira de ouvir responder sim, sem ter feito nenhuma pergunta clara.”  Albert Camus, A Queda
Fascinada pelo outro, pretendo que as minhas palavras o influenciem magicamente, que o enfeiticem. Avanço nesta busca. Mas o pensamento não parece obedecer por estar desencontrado das palavras que se deveriam sexualizar, e cancelar as indecisões sobre a perfeição do encontro. O embaraço atinge-me. Só me ocorre dizer sim.
Mais tarde, recupero as palavras, o corpo. Tento explicar uma inquietação: não sei se falei demais, ou de menos e se o seu desejo desapareceu entre o meu modo desajeitado.
(O estado de encantamento não permite a lucidez e a frieza da afirmação da personagem de “A Queda”, pelo que, é uma expressão de cinismo.)
 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O desespero

imagem do filme O Cavaleiro das Trevas Renasce

 “… quando tende a agir, tende a não perceber e quando efetivamente percebe, nada pode fazer de prático com suas perceções. A lucidez dessas perceções, contraposta à atuação compulsiva e quase sempre desastrada, pode gerar um grau insuportável de desespero que o conduza, inclusive, ao suicídio.”
Luís Cláudio Figueiredo O Caso-limite e as Sabotagens do Prazer Revista Latino Americana de Psicopatologia Fundamental, III, 2,61-87 (é sobre a patologia borderline)

Dizendo este texto respeito à dor, por dificuldade em se desembaraçar do conflito após ter agido mal, relembrei-me ontem deste assunto enquanto assistia ao ultimo filme do Batman O Cavaleiro das Trevas Renasce (do qual retirei a imagem do poço que ilustra este post ), que é uma fantástica metáfora à vida.
Batman que embora tenha escolhido a solidão, permitiu-se enfrentar os demónios do passado, explorar sentimentos e daí descobrir forças novas.
Se há uma moral da história, poderá ser:o que importa é, apesar de cair várias vezes ao tentar escapar por aquele poço, tentou reparar as situações e ultrapassou os obstáculos