sábado, 17 de outubro de 2015

Sentido e significado

Daniel Blaufuks

O jovem de hoje, quando pergunta se você “está ligado?”, não está sendo tonto e nem superficial, como podem pensar os seus pais. Não se trata no “tá ligado?” de uma banal linguagem fática, de testagem do canal comunicativo. O que ele pergunta é se o que faz sentido para ele, de uma forma única, faz sentido para você. Sentido e não significado. Algo que toca um, também toca o outro, mas de maneira diferente. E essa diferença é sustentável. As pessoas não precisam compartir o mesmo significado para estarem juntas. “
Jorge Forbes Girassois clinicando as psicoses.


Cada um de nós ao longo da vida experienciou situações diferentes, com pessoas distintas, e em contextos emocionais irrepetíveis. Dessas vivências, em particular na família, vingaram significados pessoais sobre as coisas – a posse do outro sinónimo de “amor”; mais tarde, numa relação, achar que não é amado quando o outro se distancia….
O princípio de ficar próximo é compreendermos que,  com este património pessoal de significados, ouvir o outro é mudarmos a nossa percepção, desbravar memórias até ao osso, por vezes chegadas de tão longe, de maneira a nos aproximarmo-nos do seu real pensar e sentir, e encontrarmos, não necessariamente o mesmo significado – que milagre seria -, mas sentidos partilhados.
Não perceber o que toca ao outro, a persistir, é a expressão da não ligação, sem violência, sem crueldade, mas desoladora. Não há vida em conjunto para viver. 


sábado, 3 de outubro de 2015

Raivas adolescentes

Uma passagem do artigo de Daniel Sampaio psiquiatra e terapeuta familiar, editado na Pública de 29 de Maio 2011, com o título Raivas adolescentes:
 "  (...)
 A raiva é sempre destruidora se for deixada crescer sem a entendermos. Se a enterrarmos, poderá contribuir para uma depressão. Se a "tratarmos" com álcool ou drogas, procurando que essas substâncias a acalmem, passaremos a ter mais um problema. Se a exteriorizarmos sempre, poderemos transformar-nos em alguém conflituoso e insuportável.
    É fundamental conhecer a raiva destes adolescentes agressivos. Muitas vezes viveram com pessoas sem controlo emocional, que veicularam sempre a ideia de que a violência tudo pode resolver. Noutros casos, viveram em famílias "perfeitas", onde ninguém podia gritar e qualquer manifestação agressiva era associada à loucura: na adolescência, na luta pela autonomia, a raiva finalmente libertada encontra nos mais próximos o alvo preferido. Por vezes, são vinganças face a pais maltratantes na infância (abusadores, por exemplo), que explodem quando o medo físico dos familiares é agora ultrapassado por um corpo juvenil cheio de energia.
    Compreender não significa mudar. Feita a história da relação, é crucial intervir. Conhecer a raiva. Compreender que não se fica agressivo para sempre. Perceber que não se pode ficar parado, num ritual de progressiva auto-humilhação. Concluir que intimidar os outros nos pode deixar mais sós (....)"


AJUDAR OS ADOLESCENTES A DISCRIMINAR AS EMOÇÕES QUE ESTÃO NA BASE DA RAIVA (de modo a definir um plano de ação)



quarta-feira, 9 de setembro de 2015

A metáfora do Turista e do Vagabundo


Jef f- Wall The Trinker, 1986

“Manter o jogo curto significa tomar cuidado com os compromissos a longo prazo. Recusar-se a “se fixar” de uma forma ou de outra. Não se prender a um lugar, por mais agradável que a escolha possa parecer. Não se ligar à vida, a uma vocação. Não jurar carência e lealdade a nada ou a ninguém (…) consequentemente, já não há “para a frente” ou “para trás” o que conta é exatamente a habilidade de se mover e não ficar parado.”
Zygmunt Bauman “O mal – estar da pós modernidade” Zahar Editor

Podem ser variados os ambientes em que nos depararmos com pessoas que não mostram interesse em conhecer e se comprometer com o outro e com a organização na qual estão inseridos. Comportam-se como se não tivessem obrigações, e se lhes detetamos alguma adesão a um objetivo comum, quando damos por nós, já perderam a firmeza - conectam e desconectam como no mundo virtual. E, se se movem, não parece que o façam com conhecimento das matérias/realidades e com séria vontade em resolver os problemas. 
Ao desabafarmos a nossa indignação ou perplexidade, com alguém da velha guarda ligado à saúde mental, para além de considerar que poderá revelar-se uma  postura  altamente danosa caso ocorra em certos contextos, - na saúde, educação, justiça,,,- dirá que essas personagens encontram-se na linha do psicótico autista, pela ausência de consciência e ligação com o real.
Mas, outra leitura deste mesmo fenónemo está caracterizado no livro “O mal – estar da pós modernidade” do sociólogo Zygmunt Bauman, cap.VI, que recorre a uma metáfora para descrever a experiência dos indivíduos na atualidade - os turistas, que se movem, mas sem objetivos definidos e que “colocam os sonhos de nostalgia acima das realidades da casa”, e os vagabundos que se julgam livres por não terem de viajar de um lado para outro, sendo o movimento para estes, uma imposição.
Ambos detetam-se pela inconstância e incoerência, pelo que, a ideia não é criar, descobrir um modo de ser, mas impedir que uma identidade se cole demasiado depressa ao corpo.  
São seres errantes, tal como reafirma Carlos Amaral Dias, em “O obscuro fio do desejo”, dotados de desinvestimento afetivo, falta de ancoragem, sem lealdade para com as pessoas e para com os lugares.
Se as minhas palavras não vos seduziram, devo dizer-vos que a leitura de Zygmunt Bauman divertiu-me imenso, é muito humorada, mas tive de pensar em alguém em particular, no mundo do trabalho. É assustador e hilariante ao mesmo tempo, relembrar que até a postura se assimilava à personagem incarnada, e consoante as pressões do ambiente (prazos a cumprir…), verificou-se a alternância de vagabundo para turista, sem contudo perder a fluidez.


Acrescente-se que, todos nós, qualquer organização e respetiva liderança, podemos estar confinados a nos situarmos num contínuo entre o “turista perfeito” e o “vagabundo incurável”.



domingo, 2 de agosto de 2015

Entrevistas na rádio


Shrink Rap Radio is a popular psychology podcast hosted by David Van Nuys, Ph.D., and features many leading experts in various categories of psychology, psychotherapy, and other mind/body related topics.  You can find this podcast by searching iTunes for “Shrink Rap Radio” under podcasts or go to the website www.shrinkrapradio.com and download the many interviews Dr Van Nuys has freely available. We would also encourage regular listeners to financially support Shrink Rap Radio as it is a wonderful treasure house of wisdom and knowledge for all psychologists and therapists alike.

http://shrinkrapradio.com/

segunda-feira, 13 de julho de 2015

A mais eficaz defesa contra a depressão

Leonardo da Vinci Estudos para a cabeça de dois soldados

“A melhor e mais eficaz defesa contra a depressão é a paranoia: a defesa à fase anterior da relação de objeto.”…”(Matos 1981)

Esta agressividade dirigida para fora é a melhor e mais eficaz defesa contra a recusa a entristecer e se colocar em questão, que poderia levar à autodestruição.
Vive-se, como se não se conseguisse identificar o ressentimento e a raiva, insuportáveis, mas que criam um estado de tensão que atravessa tudo, a exigir descarga de emergência, projetada nos outros, como se eles fossem a causa do seu sofrimento.
Não se tenta perceber porquê, podem pensar o que quiserem, os outros são o inimigo, os exploradores, aqueles de quem se deve suspeitar e com quem se tem de reagir, intensa e persistentemente. A angústia acalma assim que é encontrado o outro/objecto que atemoriza.
A maior esperança é que  “…(os outros) se corresponsabilizem pelos seus impulsos e não se limitem a criticá-los por causa deles” (Domingos Neto).
O único conhecimento que se tem de si próprio é o que advém desse controle e sobre o qual se ergue o culto do eu.

sábado, 13 de junho de 2015

Da confiança

Alex Colville, Snow

“A um nível superior, as decisões dos indivíduos parecem ser guiadas por uma tendência geral em confiar nos outros, em detrimento de uma simples aproximação à maximização da utilidade esperada. No fundo, tal significa que estamos dispostos a aceitar algum grau de vulnerabilidade caso tenhamos uma expetativa positiva acerca do comportamento dos outros.”
Luís Fructuoso Martinez Uma questão de confiança Psicologia para todos
  
É preciso que se reafirme a ideia, a personalidade saudável tem como características a capacidade de confiar nos outros e saber em quem é conveniente confiar (John Bowlby), e, acrescento eu, na disfuncionalidade da relação, travar a tempo, antes da perda de confiança em si mesmo.  
É uma das nossas riquezas, a necessidade de acreditarmos no outro e de não estarmos sempre à defesa. 
Resta-nos esta dependência, que nos deixa à mercê de um encontro que irá trazer desilusões e introduzir contradições no eu, mas ao não ser perfeito, que se possa encontrar o semelhante, se encontrar no seu olhar, e que ele tenha um sentido de afeto.