domingo, 29 de novembro de 2015

É preciso dar sentido ao medo, torná-lo inteligível



A entrevista de Ana Gerschenfeld a Hélène Romano que saiu no Jornal Publico a 20.11.2015, com o título “É preciso dar sentido ao medo, torná-lo inteligível”:

“É difícil imaginar o medo que sentiram – e sentem – os parisienses no rescaldo dos atentados terroristas de há uma semana na sua cidade. A psicóloga francesa Hélène Romano dá-nos algumas chaves para o perceber.
Hélène Romano é especialista em psico-traumatismo e trabalhou durante mais dez anos na célula de urgência médico-psicológica do Val-de-Marne (arredores de Paris). Lida sobretudo com os problemas das crianças e das suas famílias na sequência de eventos traumáticos e, nos últimos dias, tem sido solicitada não só no terreno, mas também pelos media franceses para aconselhar os pais sobre como explicarem aos seus filhos os ataques terroristas de 13 Novembro. Em conversa telefónica com o PÚBLICO, falou-nos das especificidades desse medo – que de terror imediato pode transformar-se numa coisa tóxica, crónica, que invade e envenena a vida – e de possíveis maneiras de o controlar.
O principal objectivo do terrorismo é provocar o medo – o terror – nas populações. Quais são as manifestações específicas do medo na sequência de atentados como os do 13 de Novembro em Paris?
O medo evolui com o tempo: há o medo no próprio dia, no dia seguinte, há o medo das crianças, dos adultos. No momento do atentado, o que as pessoas sentem é mesmo terror, porque não percebem, há um sentimento de irrealidade, de pesadelo. É um medo a que não conseguimos dar um nome, que não conseguimos perceber. E nesse instante, pode haver reacções totalmente inadaptadas – por exemplo, as pessoas não procuram abrigo, estão em negação total, fogem, entram em pânico.

Passadas 48 horas, começa a haver informação, começa-se a perceber melhor. A grande maioria das pessoas costuma recuperar minimamente – e o terror transforma-se num medo mais “razoável”, por assim dizer, um medo que percebemos porque sabemos o que aconteceu, onde aconteceu e eventualmente por que aconteceu. É um terror mais elaborado e as nossas reacções tornam-se mais adaptadas.
É preciso dizer que o medo é uma reacção adaptativa, é um modo de defesa que inicialmente nos protege, que nos permite permanecer alerta – é algo de positivo. Mas pode tornar-se tóxico – e podemos dizer que, nas semanas a seguir, vemos por vezes o medo evoluir e transformar-se num transtorno. O medo adquire um carácter irrazoável, que se pode manifestar por perturbações como ansiedade, fobias, atitudes de evitamento, transtornos obsessivos-compulsivos e ainda outras patologias.
Portanto, o medo tem vários rostos ao longo do tempo. Passa-se frequentemente de um medo sem nome, que é o terror, a um medo que começa a ser decodificado – sabemos por que temos medo. E finalmente, em certos casos, mas não em todos, vemos um medo que se torna patológico, tóxico, e onde a pessoa fica novamente esmagada, sem capacidade para descrever o porquê e o como.
Qual é a proporção de pessoas que evoluem desta forma?
Os estudos de acompanhamento de pessoas que foram confrontadas com acontecimentos traumáticos mostram que cerca de 37% desenvolvem transtornos persistentes. Não é a maioria, mas é um número substancial. 

No primeiro mês, em termos psicopatológicos, não falamos em transtornos. Nesse período, as reacções de stress agudo são consideradas como adaptativas. O que não quer dizer que não façamos nada entretanto: começamos logo a reconfortar as pessoas, a acompanhá-las para que não fiquem sozinhas, para evitar precisamente que as coisas se tornem patológicas.
Só começamos a falar em transtornos patológicos preocupantes quando, volvido pelo menos um mês desde os acontecimentos traumáticos, os problemas subsistem pelo menos mais um mês. Ou seja, só consideraremos que os problemas de ansiedade de uma pessoa, decorrentes dos atentados do 13 de Novembro, se possam tornar patológicos a partir de 13 de Dezembro. É só falaremos mesmo em transtornos instalados, crónicos, a partir de 13 de Janeiro de 2016.
O que complica a situação é que, por vezes, os transtornos surgem muito rapidamente, mas noutros casos as pessoas não parecem perturbadas e só descompensam mais tarde.
Por exemplo, telefonou-me uma amiga que estava em Paris aquando da onda de atentados de 1995 [atribuídos ao Grupo Islâmico Armado, entre outros, na estação de metro Saint-Michel]. Tinha sido ligeiramente ferida, mas tinha ultrapassado bem a situação.
Ela vive hoje na região de Charente (Sudoeste da França), mas desde os atentados de 13 de Novembro que não consegue sair de casa, por causa dos pesadelos que tem tido, não sobre estes ataques recentes, mas sobre os atentados de 1995.
Desenvolveu agora comportamentos fóbicos, ritualizados, que antes não tinha. Mas os acontecimentos traumáticos que a assombram remontam a 20 anos!
A minha amiga está actualmente a viver uma situação insuportável, que invade a sua vida toda. Foi ver um médico, que lhe disse para ser razoável. Mas é precisamente isso que acontece com os transtornos pós-traumáticos: manifestam-se muito tempo depois.
Um outro exemplo diz respeito aos atentados de Janeiro [noCharlie Hebdo]: vemos pessoas que tinham recuperado bastante bem, mas que agora estão a desmoronar-se completamente, porque os ataques da semana passada reactivaram angústias de atentados, de insegurança, o sentimento de terem perdido o controlo da situação.
De facto, qualquer estalido pode reactivar o medo e suscitar reacções complicadas. E as sirenes de ambulância tornam-se assustadoras.
Este medo é diferente do medo provocado por outras vivências traumáticas, tais como acidentes de viação, a morte de pessoas chegadas, a violência e o abuso sexuais?
A especificidade deste medo é que é provocado por algo que não pode ser circunscrito, na medida é que um acontecimento destes pode surgir em qualquer altura.

Isso é gerador de uma grande insegurança psíquica. Por exemplo, em relação aos atentados nos aviões, as pessoas podem simplesmente deixar de viajar de avião; e para evitar os acidentes da estrada, basta deixar de andar de carro. Mas no caso de atentados como os de agora em Paris, a única solução é não sair à rua. E, a menos que se fique fechado dentro de casa, não há estratégia de evitamento possível, o que é obviamente complicado e difícil de suportar.
O medo das pessoas que foram fisicamente atingidas pelos ataques – os sobreviventes – é diferente do medo daquelas que viram os ataques na televisão?
É. As pessoas que estavam nos locais atacados viram imagens, cheiraram odores, ouviram ruídos. Isso é algo de altamente gerador de trauma. As pessoas que viram os ataques na televisão viram imagens, mas o impacto traumatogénico da experiência sensorial dos sobreviventes é certamente muito maior.

É possível lutar contra esse medo? Existem estratégias que permitem controlá-lo?
Há 15 anos que trabalho com vítimas de atentados enquanto especialista de psico-traumatismos, nomeadamente em meio hospitalar.

A primeira coisa a fazer é não ficar em negação. Mais vale reconhecer que temos medo e saber o que fazer com ele. Saber como esse medo se manifesta – e que varia de uma pessoa para outra. De facto, para controlar melhor o medo é preciso pôr nomes nas coisas. E no caso das crianças, por exemplo, tentar determinar quando é que o medo de cada uma é mais intenso, para poder pôr em prática, nessas alturas, estratégias de reconforto.
É preciso dar sentido ao medo, torná-lo inteligível – e é isso que tentamos fazer no nosso trabalho. E uma vez ultrapassado o estado de negação, quando as pessoas percebem que não devem ter medo do medo, têm de se perguntar o que é que mais as ajuda quando têm medo. Em termos pessoais, individuais, e também em termos colectivos.
É desta forma que conseguimos ajudar uma criança ou um adulto a recuperar a sua capacidade psíquica de resistir às situações complicadas. E é isso que fazemos. Não no próprio dia, claro, porque logo a seguir ao acontecimento é sobretudo preciso dar-lhes reconforto e permitir-lhes encontrar um ambiente onde se sintam seguros, mas mal começam a surgir transtornos irracionais.
Em relação às crianças, o que se deve fazer? É importante falar com elas? Nós próprios temos dificuldade em perceber o sentido dos atentados, o que dificulta ainda as explicações que podemos dar às crianças…
Pois. As crianças precisam sobretudo de saber que os seus pais estão lá, que não os vão deixar cair. O facto de os pais explicarem o que se passa pode ajudar uma criança de quatro, cinco anos, a perceber por que é que agora, em Paris, há na rua tantos militares por todo o lado. Porque é um facto que a vida dos parisienses mudou, pelo menos nalguns bairros. É preciso explicar que há maus muito, muito maus – pode mesmo falar-se em terroristas e dizer que não são uns maus quaisquer.

Mas se os pais acharem muito complicado explicar essas coisas aos filhos, então podem sempre admitir, tanto aos mais pequenos como aos mais velhos, que acham complicado e que não conseguem explicar, porque não percebem bem o que está a acontecer.
E, sempre, repetir que estão junto deles, que gostam muito deles e que nunca os irão abandonar. Abraçá-los e dar-lhes beijinhos para os reconfortar. Isso dá às crianças um sentimento de segurança, o que já por si é um passo enorme, enorme.
Mas os pais de crianças mais velhas têm de lhes dar os meios de se protegerem quando estão na rua.
Sim, e é por isso que, em relação às crianças já com três, quatro anos, que vão a escola e que vêem o que se passa na rua, convém clarificar as coisas e explicar que vivemos num contexto particular. Os pequenos sabem o que é a guerra através dos filmesNão se trata de lhes dizer que o país inteiro está em guerra, porque a realidade também não é essa, mas que há actos de guerra, chamados actos terroristas, explicando-lhes que são pessoas más, más, más. E a partir dos cinco, seis anos, também é possível transmitir-lhes, embora elas possam não perceber logo, a ideia de que estes terroristas são “ideólogos” – que são pessoas que, quando os outros não pensam como elas, querem destruí-los. E que as vezes até estão dispostos a se destruírem a si próprios para destruir os outros.

Tudo isso permite dar sentido às coisas. É um pouco como quando um pai ou uma mãe tem um cancro. Como a palavra cancro mete medo a toda a gente porque é conotada com a morte, as crianças dizem que o pai ou a mãe “está doente”. Mas de cada vez que alguém estiver doente, a criança vai achar que é a mesma coisa. E nós vemos, nas crianças que acompanhamos, que é mais reconfortante e estruturante pôr as palavras certas nas coisas, e dizer que a mãe ou o pai tem uma doença muito, muito, muito grave – e eventualmente rara –, chamada cancro. É uma doença particular. O mesmo vale para as doenças psiquiátricas. “Não vamos falar em esquizofrenia”, ouvimos dizer, “é muito complicado!”. Mas em última análise, dizer a uma criança que alguém tem “um dói-dói na cabeça” não a faz sentir-se mais segura.  
Publicou um livro com o neuropsiquiatra francês Boris Cyrulnik, conhecido pelo seu trabalho sobre a noção de resiliência psicológica. O que é a resiliência?
A resiliência é a capacidade de se desligar de um impacto traumático. E o que sabemos através de estudos sobre a resiliência é que não estamos todos em pé de igualdade nesta matéria.

A resiliência depende dos recursos prévios, do contexto do trauma e dos recursos disponíveis a seguir. Os recursos prévios são a capacidade de se proteger. Uma criança que foi criada num clima de confiança em si e nos outros sabe que, quando acontece um drama, pode contar com os outros, que não está sozinha no mundo.
Depois há o contexto: durante os atentados, uma criança que estivesse sozinha, que não tivesse o pai ou a mãe para a reconfortar, enfrenta agora uma situação extremamente complicada. É o caso, por exemplo, de um menino que estou actualmente a acompanhar, que tem cinco anos e que perdeu o pai e a mãe nos ataques de 13 de Novembro.
Quanto aos recursos posteriores, sabemos que uma criança ou um adulto que consigam reencontrar um ambiente seguro, protector, os seus marcos de referência, que tenham pessoas que cuidam deles vão sair-se muito melhor do que alguém que fica sozinho. E mais ainda, quando está com pessoas que lhe dizem que afinal não está assim tão mal – nem sequer morreu. É por vezes difícil ser reconhecido como vítima, como ferido psíquico de um atentado.
Há personalidades mais resilientes do que outras face a ataques terroristas? Isso pode dar pistas sobre o que fazer para as pessoas se prepararem para acontecimentos futuros?
A resiliência de que fala Boris é a resiliência individual – e é certo que há pessoas mais resilientes do que outras. Mas há também um outro tipo de resiliência, que não é uma ideia nova – e que não faz de todo parte da cultura francesa. É a noção de resiliência colectiva, isto é, do grupo. A força da comunidade, da família, a valorização desses aspectos. A França é um país muito individualista.

Mas tem havido sinais, nos últimos dias, de uma certa resiliência colectiva por parte dos parisienses.
Sim, e o que esperamos é que a mobilização a que temos assistido nos últimos dias, com uma identificação mais forte das pessoas do que a seguir ao ataque ao Charlie Hebdo, permita que as pessoas reaprendam a cuidar de si e dos outros.

Em Janeiro, para além de a mobilização ter sido mais limitada (circunscrita a uma certa profissão e a questões religiosas), foi de curta duração, as pessoas esqueceram. O que esperamos é que agora ela dure mais do que uns dias.


domingo, 22 de novembro de 2015

Narciso por Carlos Amaral Dias

“Retomaríamos aqui, ainda que de outra forma, o mito de Narciso. A tragédia que o mito de Narciso descreve não diz respeito apenas à incapacidade de amar, ou ao amor voltado para si mesmo e que exclui o outro, mas também nos remete para a impossibilidade de alguns sujeitos terem uma vida própria, na medida em submergem no desejo ou na dificuldade de quem cuidou deles nos momentos iniciais, É que a mãe de Narciso, por temer que a beleza dele pudesse ofender os deuses ignora e interdita nele o que ele tem de mais particular: a sua beleza. Narciso, por sua vez, submetendo-se ao temor materno, fica cego em relação à sua própria beleza, desconhecendo o que há de mais singular em si próprio”.

Carlos Amaral Dias O obscuro fio do desejo Fim de século

A mãe de Narciso ao não reconhecer e aceitar o que o seu filho tinha de particular - a sua beleza -, e por temor dessa diferença, interpela sobre o futuro, Tirésias, que simboliza a autoridade do perito, o especialista, o poder masculino.
É a metáfora da obsessão pela normalidade, de uma mãe frágil, insegura do seu papel, estendendo estas dificuldades ao filho, que se manifesta, por isso, incapaz de trilhar a sua identidade única e singular.

O meu tributo a Carlos Amaral Dias, com quem se aprende sempre, penetrante, o que só acontece com os grandes autores.

Pintura de Jorge Rodriguez Gerada


sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Entrevista a Carl Gustav Jung


Entrevista realizada com o psicólogo suíço Carl Gustav Jung em sua residência, na cidade de Zurique, Suíça.

sábado, 17 de outubro de 2015

Sentido e significado

Daniel Blaufuks

O jovem de hoje, quando pergunta se você “está ligado?”, não está sendo tonto e nem superficial, como podem pensar os seus pais. Não se trata no “tá ligado?” de uma banal linguagem fática, de testagem do canal comunicativo. O que ele pergunta é se o que faz sentido para ele, de uma forma única, faz sentido para você. Sentido e não significado. Algo que toca um, também toca o outro, mas de maneira diferente. E essa diferença é sustentável. As pessoas não precisam compartir o mesmo significado para estarem juntas. “
Jorge Forbes Girassois clinicando as psicoses.


Cada um de nós ao longo da vida experienciou situações diferentes, com pessoas distintas, e em contextos emocionais irrepetíveis. Dessas vivências, em particular na família, vingaram significados pessoais sobre as coisas – a posse do outro sinónimo de “amor”; mais tarde, numa relação, achar que não é amado quando o outro se distancia….
O princípio de ficar próximo é compreendermos que,  com este património pessoal de significados, ouvir o outro é mudarmos a nossa percepção, desbravar memórias até ao osso, por vezes chegadas de tão longe, de maneira a nos aproximarmo-nos do seu real pensar e sentir, e encontrarmos, não necessariamente o mesmo significado – que milagre seria -, mas sentidos partilhados.
Não perceber o que toca ao outro, a persistir, é a expressão da não ligação, sem violência, sem crueldade, mas desoladora. Não há vida em conjunto para viver. 


sábado, 3 de outubro de 2015

Raivas adolescentes

Uma passagem do artigo de Daniel Sampaio psiquiatra e terapeuta familiar, editado na Pública de 29 de Maio 2011, com o título Raivas adolescentes:
 "  (...)
 A raiva é sempre destruidora se for deixada crescer sem a entendermos. Se a enterrarmos, poderá contribuir para uma depressão. Se a "tratarmos" com álcool ou drogas, procurando que essas substâncias a acalmem, passaremos a ter mais um problema. Se a exteriorizarmos sempre, poderemos transformar-nos em alguém conflituoso e insuportável.
    É fundamental conhecer a raiva destes adolescentes agressivos. Muitas vezes viveram com pessoas sem controlo emocional, que veicularam sempre a ideia de que a violência tudo pode resolver. Noutros casos, viveram em famílias "perfeitas", onde ninguém podia gritar e qualquer manifestação agressiva era associada à loucura: na adolescência, na luta pela autonomia, a raiva finalmente libertada encontra nos mais próximos o alvo preferido. Por vezes, são vinganças face a pais maltratantes na infância (abusadores, por exemplo), que explodem quando o medo físico dos familiares é agora ultrapassado por um corpo juvenil cheio de energia.
    Compreender não significa mudar. Feita a história da relação, é crucial intervir. Conhecer a raiva. Compreender que não se fica agressivo para sempre. Perceber que não se pode ficar parado, num ritual de progressiva auto-humilhação. Concluir que intimidar os outros nos pode deixar mais sós (....)"


AJUDAR OS ADOLESCENTES A DISCRIMINAR AS EMOÇÕES QUE ESTÃO NA BASE DA RAIVA (de modo a definir um plano de ação)



quarta-feira, 9 de setembro de 2015

A metáfora do Turista e do Vagabundo


Jef f- Wall The Trinker, 1986

“Manter o jogo curto significa tomar cuidado com os compromissos a longo prazo. Recusar-se a “se fixar” de uma forma ou de outra. Não se prender a um lugar, por mais agradável que a escolha possa parecer. Não se ligar à vida, a uma vocação. Não jurar carência e lealdade a nada ou a ninguém (…) consequentemente, já não há “para a frente” ou “para trás” o que conta é exatamente a habilidade de se mover e não ficar parado.”
Zygmunt Bauman “O mal – estar da pós modernidade” Zahar Editor

Podem ser variados os ambientes em que nos depararmos com pessoas que não mostram interesse em conhecer e se comprometer com o outro e com a organização na qual estão inseridos. Comportam-se como se não tivessem obrigações, e se lhes detetamos alguma adesão a um objetivo comum, quando damos por nós, já perderam a firmeza - conectam e desconectam como no mundo virtual. E, se se movem, não parece que o façam com conhecimento das matérias/realidades e com séria vontade em resolver os problemas. 
Ao desabafarmos a nossa indignação ou perplexidade, com alguém da velha guarda ligado à saúde mental, para além de considerar que poderá revelar-se uma  postura  altamente danosa caso ocorra em certos contextos, - na saúde, educação, justiça,,,- dirá que essas personagens encontram-se na linha do psicótico autista, pela ausência de consciência e ligação com o real.
Mas, outra leitura deste mesmo fenónemo está caracterizado no livro “O mal – estar da pós modernidade” do sociólogo Zygmunt Bauman, cap.VI, que recorre a uma metáfora para descrever a experiência dos indivíduos na atualidade - os turistas, que se movem, mas sem objetivos definidos e que “colocam os sonhos de nostalgia acima das realidades da casa”, e os vagabundos que se julgam livres por não terem de viajar de um lado para outro, sendo o movimento para estes, uma imposição.
Ambos detetam-se pela inconstância e incoerência, pelo que, a ideia não é criar, descobrir um modo de ser, mas impedir que uma identidade se cole demasiado depressa ao corpo.  
São seres errantes, tal como reafirma Carlos Amaral Dias, em “O obscuro fio do desejo”, dotados de desinvestimento afetivo, falta de ancoragem, sem lealdade para com as pessoas e para com os lugares.
Se as minhas palavras não vos seduziram, devo dizer-vos que a leitura de Zygmunt Bauman divertiu-me imenso, é muito humorada, mas tive de pensar em alguém em particular, no mundo do trabalho. É assustador e hilariante ao mesmo tempo, relembrar que até a postura se assimilava à personagem incarnada, e consoante as pressões do ambiente (prazos a cumprir…), verificou-se a alternância de vagabundo para turista, sem contudo perder a fluidez.


Acrescente-se que, todos nós, qualquer organização e respetiva liderança, podemos estar confinados a nos situarmos num contínuo entre o “turista perfeito” e o “vagabundo incurável”.