O psiquiatra e psicanalista, António Coimbra de Matos, em ENTREVISTA
sábado, 23 de janeiro de 2016
quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
Falsos Deuses - cuidado com a nossa bondade
Peter Blake, from Illustrations to Through the Looking-Glass
and to show you I'm not proud, you may shake hands with me 1970
Não precisamos de falsas autoridades, pessoas ou ideologias que possam confirmar o nosso valor e que reduzam a nossa dignidade, sob uma imagem de respeito ou preocupação, mas que escondem a sua negatividade ou o seu ódio. O que não faz de nós poderosos. Faz de nós responsáveis pela nossa própria vida. Só precisamos do amor nas suas variadas formas.
De um autor preferido, para reflectirmos que sentido faz atribuirmos poder a certas pessoas ou entidades:
“Nós que ainda estamos ancorados na compaixão temos de aprender a ser consequentes. Não no sentido de poderosos, mas no sentido de deixarmos de querer seja o que for daqueles que nada têm para dar. É a calamidade interior, a necessidade inadmitida de nos fazermos amar pelo inimigo, que impossibilita lidarmos de forma consequente com o Mal. Quando os adeptos deste reclamam a nossa comiseração, não temos de mostrar-lhes que os amamos. O que está por detrás de tal altitude é o desejo deles nos amarem, e esse torna-se a nossa desgraça por queremos algo deles. É este o ensinamento mais duro, porque sempre estamos dispostos a acreditar que toda a gente é capaz de sentir o amor.
Mas na realidade há gente que está separada de si a tal ponto que o nosso desejo de grandeza se nos torna fatal. Não lhes entregarmos o poder, privamo-los do amor por não o esperarmos deles, é o antídoto com que podemos vencê-los. Quando eles deixarem de poder jogar com as nossas expectativas, terão perdido o seu poder sobre nós e nós podemos dedicar-nos à construção do mundo, em vez de passarmos o tempo a consertar o rasto de destruição que eles vão deixando atrás de si.”
Arno Gruen Falsos Deuses Editora Paz
O psicanalista Arno Gruen nasceu em Berlin em 1923. Faleceu em Outubro de 2015.
ENTREVISTA a Boris Cyrulnik
Tema: Resiliência
Entrevista realizada por Lic. Patricia Faur em 2014, Toulon, Francia, nas IV Jornadas de SAPINE.
Uma outra entrevista, em: http://www.sab.org.br/portal/
Dr Boris Cyrulnik é neurologista, psiquiatra e psicanalista. Foi um dos fundadores do Grupo de Etologia Humana, ensina Etologia e dirige um grupo de investigação na Faculdade de Medicina de Marselha. Publicou, Memória de Macaco e Palvras de Homem e Sob o Signo do Afeto; Os patinhos feios entre outras obras.
Entrevista realizada por Lic. Patricia Faur em 2014, Toulon, Francia, nas IV Jornadas de SAPINE.
Uma outra entrevista, em: http://www.sab.org.br/portal/
Dr Boris Cyrulnik é neurologista, psiquiatra e psicanalista. Foi um dos fundadores do Grupo de Etologia Humana, ensina Etologia e dirige um grupo de investigação na Faculdade de Medicina de Marselha. Publicou, Memória de Macaco e Palvras de Homem e Sob o Signo do Afeto; Os patinhos feios entre outras obras.
sexta-feira, 25 de dezembro de 2015
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
A distinção entre imigrante e refugiado vale em tempo de paz. Mas estamos em tempo de guerra
Entrevista da Ana Dias Cordeiro a Roberto Beneduce, que saíu no Jornal
Publico,a 30.11.2015, com o título “A distinção entre imigrante e
refugiado vale em tempo de paz. Mas estamos em tempo de guerra”
"Temos a nossa quota-parte de responsabilidade na crise que agora
nos sufoca", diz Roberto Beneduce, fundador do Centro Franz Fanon, de
apoio psicológico aos imigrantes e refugiados, em Itália.
O psiquiatra e antropólogo italiano
Roberto Beneduce dirige em Turim o Centro Frantz Fanon, de apoio psicológico a
imigrantes e refugiados, que fundou em 1996. Na semana passada, esteve em
Lisboa a convite do Instituto de Ciências Sociais (ICS) para a apresentação da
palestra Europa, refugiados e retóricas de crise no IV Fórum da Associação Portuguesa
de Antropologia. Em entrevista ao PÚBLICO, o professor da Universidade de Turim
e autor de variadíssimos estudos académicos diz que “a fragilidade dos
imigrantes e refugiados é materialmente produzida” pelos sistemas europeus, e
“não unicamente pelos [seus] passados traumáticos”.
Quando os refugiados chegam a um país de
acolhimento do que precisam concretamente?
A primeira necessidade é a de ser protegido relativamente a um mundo que é
entendido como um mundo que ameaça, que persegue. É preciso imaginar os
cuidados como uma protecção. É a partir dessa relação de protecção que podemos
considerar um trabalho terapêutico autêntico. Os imigrantes perderam a
confiança no mundo. É preciso saber trabalhar com pessoas que se sentem
vigiadas, ameaçadas.
Esse é um dos desafios para os países
que acolhem?
A imigração obriga-nos a reflectir ao mesmo tempo sobre nós mesmos e sobre os
outros, sobre as nossas sociedades, os nossos sistemas, a nossa formação do
Estado, a nossa História. A mensagem que tento passar — e tentei passar na
conferência de quinta-feira — é que temos de imaginar uma abordagem nova
relativamente à questão da imigração. Não apenas de um ponto de vista
administrativo e das leis, mas também de um ponto de vista do conhecimento
daqueles que cuidam dos refugiados. A ideia é aceitar o desafio da incerteza.
Eu trabalho desde o início dos anos 90, mas tenho de começar sempre, e de novo,
a pensar os problemas. Não é uma questão de retórica.
Porque as circunstâncias das pessoas que
chegam são sempre diferentes?
As suas circunstâncias são, em cada momento, diferentes. Mas ao mesmo tempo, ao
longo dos anos, tudo muda: as leis europeias, o perfil dos refugiados, o
contexto geopolítico. Durante a guerra na ex-Jugoslávia houve uma atitude
positiva e agora há uma resistência.
As pessoas são menos tolerantes agora do
que eram nos anos 90?
Não é apenas isso. O caso do Balcãs foi um caso em que fomos [os países
europeus] de certa maneira responsáveis. Decidimos de certa maneira intervir.
Os problemas eram muito próximos de nós e sentíamos uma necessidade moral, não
só política, de intervir. Agora, é como uma coisa imprevista que
quereríamos repelir e que continua a pôr em causa as escolhas políticas dos
nossos governos. Nós somos co-produtores da imigração, não somos apenas países
que acolhem. Somos co-responsáveis pelo que se passa. Devemos reconhecer de
forma autocrítica a nossa responsabilidade passada e presente.
O desafio é inédito ou o maior que
alguma vez existiu desde os anos 40?
O desafio é inédito, porque põe a nu os erros de uma política internacional que
começam em 2001 com o ataque às torres gémeas [em Nova Iorque]. A partir de
2001, reproduzimos erros atrás de erros. E construímos um território de guerra
do Iraque e Afeganistão até à Líbia. Temos por isso a nossa quota-parte de
responsabilidade na crise que agora nos sufoca.
Quando diz nós, refere-se a quem? Aos
governos europeus e também aos Estados Unidos?
Sim. É preciso reconhecer que há uma ignorância dos nossos ministros dos
Negócios Estrangeiros que não são capazes de prever o que se passa. Somos, cada
vez mais, confrontados com problemas que nos ultrapassam. E os nossos governos
não são capazes de assumir a responsabilidade de uma ignorância que é trágica,
com as consequências que daí resultam.
Atribui o mesmo tipo de responsabilidade
à Europa e aos Estados Unidos?
Não posso generalizar a todos os países europeus. Cada país assume a sua
própria política. Mas não podemos deixar de nos interrogar sobre o que, por exemplo,
a França fez na Líbia ou no Mali, e a Inglaterra no Iraque. Não nos podemos
limitar a reconhecer os erros quando há milhares de mortes entre civis. Vamos
estar perante estes problemas por muito tempo. Muito trabalho será exigido. As
dificuldades económicas que estão, há anos, na origem deste problema migratório
não encontram respostas para já. As desigualdades estão a aumentar. E as
desigualdades dos direitos são uma das razões fundamentais deste processo
caótico de imigração.
O compromisso de recolocar 160 mil
refugiados foi assumido no Conselho Europeu no final de Setembro. Dois meses
depois, o processo continua muito atrasado. Qual a razão?
Não é difícil reconhecer a distância entre a dimensão do problema e a pequena
medida da solução. O número de refugiados não pára de aumentar. Não podemos
fazer uma divisão destas pessoas [por diferentes países] e pensar que, com
isso, os problemas ficam resolvidos. É um esforço, um começo de resposta, mas
verdadeiramente apenas o início. A lentidão da nossa resposta só aumenta o
ressentimento dos imigrantes.
Esta demora cria um impacto
psicológico nas pessoas?
Esta imprevisibilidade das leis, que não tem nada que ver com uma ideia de
direito, de assistência, uma ideia de saúde ou de vulnerabilidade, cria o
problema e produz sintomas. Estamos a criar um mal-estar, um sofrimento, uma
sintomatologia, mas também uma agressividade. Amigos meus refugiados dizem-me
que, se os governos continuarem a não dar respostas autênticas à situação dos
refugiados, criarão problemas sociais ainda maiores. Não podemos pensar que as
pessoas permaneçam anos a fio à espera nestes territórios, em campos, face a
leis que mudam consoante o país, consoante o governo. Não há direitos humanos
que sejam reconhecíveis, apesar da retórica utilizada.
Cada país de acolhimento devia ter
centros de apoio psicológico aos refugiados, como aquele que dirige em Turim?
Absolutamente. É preciso imaginar estruturas com competências. Na Itália, os
serviços públicos não têm necessariamente a competência para escutar este tipo
de problemas, muito complexos e não apenas ligados à língua ou à cultura. É
preciso desenvolver competências entre os profissionais da saúde e ter centros
que possam ser considerados também como laboratórios onde outros conceitos
comecem a ser postos em prática. Na Itália, na França, na Suíça e em
Inglaterra, houve nos anos passados centros que deram um contributo para
repensar os meios da cura e a eficácia da escuta. E agora existem outros
centros. O nosso centro continua a ser uma referência.
Ao cruzar os conhecimentos da
antropologia e a psiquiatria?
No nosso centro, os colegas questionaram-se sobre os limites do conhecimento e
encontraram na antropologia um território necessário no trabalho com pessoas
provenientes de um outro contexto geopolítico e cultura. Passaram a ter uma
dupla competência: clínica, terapêutica, e ao mesmo tempo antropológica. Não
podemos imaginar cuidar dos refugiados sem repensarmos os nossos instrumentos,
as nossas categorias.
No centro, acolhem todos os migrantes:
refugiados de guerra ou imigrantes económicos?
O apoio psicológico é dado a todos sem distinção, pessoas com ou sem estatuto
de refugiado, em situação clandestina, pessoas cujos problemas psicológicos ou
psicossociais precisam de ser tratados. O contexto de quem, há décadas, está
confrontado com uma guerra de alta ou baixa intensidade provoca pobreza,
incerteza e cria imigrantes económicos que vêm de contextos de guerras. E
vice-versa: a pobreza alimenta conflitos e violências de todo o tipo.
Mas não é necessário distinguir entre
refugiado e imigrante, quando são assumidos compromissos para o
acolhimento?
É uma distinção que pode valer em tempo de paz. Mas estamos em tempo de guerra.
A Líbia, o Mali, o Iraque, o Afeganistão são países cujas economias foram
destruídas. Uma pessoa que não estava directamente exposta à violência, à
tortura ou à guerra está, mesmo assim, exposta à pobreza, à incerteza, e tem o
mesmo direito de escapar a tudo isso do que um sírio. Um escritor senegalês
dizia que o jovem que emigra de um país procura fugir de um destino de
mediocridade. Acho este diagnóstico sociológico muito eficaz. Se não há uma
guerra, há um destino de mediocridade que ninguém pode tolerar, hoje.
A perda de confiança dos imigrantes
não é apenas no seu país de origem?
Consideremos os países em guerra, onde o inimigo pode ser também o vizinho, ou
pode estar na mesma rede familiar. Essa é a primeira ferida. A guerra e a
violência fazem ruir a nossa classificação do mundo. O amigo e o inimigo deixam
de ser reconhecíveis como antes. Mas, além disso, ao longo dessa viagem
dramática para a Europa, os outros são, muitas vezes, uma ameaça, porque
exploram o desejo da pessoa de chegar ao destino. Mesmo aquele que viaja
connosco pode transformar-se numa pessoa que manipula o nosso projecto e que
pode roubar o nosso dinheiro. A fuga dos países de origem
é acompanhada de uma enorme crise moral.
Essa perda de confiança no mundo
acentua-se à chegada ao destino?
Com toda a bagagem de sofrimento, quando chegam à Europa e são confrontados com
leis, muitas vezes, inexplicáveis, ou com limites burocráticos que parecem
ignorar completamente a tragédia pela qual passaram, continuam a questionar-se
sobre o que fazer para serem reconhecidos como seres humanos, antes de serem
reconhecidos como refugiados. A fragilidade é materialmente produzida e
construída pelos nossos sistemas, e não unicamente pelos passados traumáticos
destas pessoas. E se, durante muitos anos, uma pessoa não tem o direito de
trabalhar, nem a possibilidade de ter residência, o mundo desaba todos os dias
debaixo dos seus pés. É preciso dar uma protecção, no longo prazo, à
fragilidade destas pessoas, que não podem ser de novo confrontadas com sistemas
persecutórios e unicamente de controlo.
O traumatismo pode ser permanente?
Há traumatismos que deixam feridas profundas, mas essa profundidade pode ser um
reflexo da falta de respostas e da sensibilidade nas sociedades de acolhimento.
Por isso, digo que o traumatismo é, em muitos casos, terrível e que muitos
deles têm um futuro que está comprometido. Muitas vezes, pessoas que conheceram
tragédias deste tipo revelam-se incapazes de responder às expectativas dos
outros. Manifestam frequentemente sintomas muito graves. Não podemos pensar que
somos omnipotentes, que somos capazes de responder a todos os problemas. Mas à
medida que aumentamos a nossa sensibilidade, os traumatismos muito graves podem
recompor-se. Conheci muitas histórias em que houve uma melhoria na capacidade
de restabelecer relações e de voltar a imaginar projectos. Na minha experiência
clínica, vi muitas pessoas que tinham passado por dramas e que foram capazes de
recomeçar a sua vida e de imaginar uma família. E também de se tornar um sujeito político, que pensa como resolver o
problema dos outros.
domingo, 29 de novembro de 2015
É preciso dar sentido ao medo, torná-lo inteligível
A entrevista de Ana Gerschenfeld a Hélène Romano que saiu no Jornal
Publico a 20.11.2015, com o título “É
preciso dar sentido ao medo, torná-lo inteligível”:
“É difícil imaginar o medo
que sentiram – e sentem – os parisienses no rescaldo dos atentados terroristas
de há uma semana na sua cidade. A psicóloga francesa Hélène Romano dá-nos
algumas chaves para o perceber.
Hélène Romano é especialista em psico-traumatismo e
trabalhou durante mais dez anos na célula de urgência médico-psicológica do
Val-de-Marne (arredores de Paris). Lida sobretudo com os problemas das crianças
e das suas famílias na sequência de eventos traumáticos e, nos últimos dias,
tem sido solicitada não só no terreno, mas também pelos media franceses
para aconselhar os pais sobre como explicarem aos seus filhos os ataques
terroristas de 13 Novembro. Em conversa telefónica com o PÚBLICO, falou-nos das
especificidades desse medo – que de terror imediato pode transformar-se numa
coisa tóxica, crónica, que invade e envenena a vida – e de possíveis maneiras
de o controlar.
O principal objectivo do terrorismo é provocar o medo
– o terror – nas populações. Quais são as manifestações específicas do medo na
sequência de atentados como os do 13 de Novembro em Paris?
O medo evolui com o tempo: há o medo no próprio dia, no dia seguinte, há o medo
das crianças, dos adultos. No momento do atentado, o que as pessoas sentem é
mesmo terror, porque não percebem, há um sentimento de irrealidade, de
pesadelo. É um medo a que não conseguimos dar um nome, que não conseguimos
perceber. E nesse instante, pode haver reacções totalmente inadaptadas – por
exemplo, as pessoas não procuram abrigo, estão em negação total, fogem, entram
em pânico.
Passadas 48 horas, começa a haver informação,
começa-se a perceber melhor. A grande maioria das pessoas costuma recuperar
minimamente – e o terror transforma-se num medo mais “razoável”, por assim
dizer, um medo que percebemos porque sabemos o que aconteceu, onde aconteceu e
eventualmente por que aconteceu. É um terror mais elaborado e as nossas
reacções tornam-se mais adaptadas.
É preciso dizer que o medo é uma reacção adaptativa, é
um modo de defesa que inicialmente nos protege, que nos permite permanecer
alerta – é algo de positivo. Mas pode tornar-se tóxico – e podemos dizer que,
nas semanas a seguir, vemos por vezes o medo evoluir e transformar-se num
transtorno. O medo adquire um carácter irrazoável, que se pode manifestar
por perturbações como ansiedade, fobias, atitudes de evitamento, transtornos
obsessivos-compulsivos e ainda outras patologias.
Portanto, o medo tem vários rostos ao longo do tempo.
Passa-se frequentemente de um medo sem nome, que é o terror, a um medo que
começa a ser decodificado – sabemos por que temos medo. E finalmente, em certos
casos, mas não em todos, vemos um medo que se torna patológico, tóxico, e onde
a pessoa fica novamente esmagada, sem capacidade para descrever o porquê e o
como.
Qual é a proporção de pessoas que evoluem desta forma?
Os estudos de acompanhamento de pessoas que foram confrontadas com
acontecimentos traumáticos mostram que cerca de 37% desenvolvem transtornos
persistentes. Não é a maioria, mas é um número substancial.
No primeiro mês, em termos psicopatológicos, não
falamos em transtornos. Nesse período, as reacções de stress agudo são
consideradas como adaptativas. O que não quer dizer que não façamos nada
entretanto: começamos logo a reconfortar as pessoas, a acompanhá-las para que
não fiquem sozinhas, para evitar precisamente que as coisas se tornem
patológicas.
Só começamos a falar em transtornos patológicos
preocupantes quando, volvido pelo menos um mês desde os acontecimentos
traumáticos, os problemas subsistem pelo menos mais um mês. Ou seja, só
consideraremos que os problemas de ansiedade de uma pessoa, decorrentes dos
atentados do 13 de Novembro, se possam tornar patológicos a partir de 13 de
Dezembro. É só falaremos mesmo em transtornos instalados, crónicos, a partir de
13 de Janeiro de 2016.
O que complica a situação é que, por vezes, os
transtornos surgem muito rapidamente, mas noutros casos as pessoas não parecem
perturbadas e só descompensam mais tarde.
Por exemplo, telefonou-me uma amiga que estava em
Paris aquando da onda de atentados de 1995 [atribuídos ao Grupo Islâmico
Armado, entre outros, na estação de metro Saint-Michel]. Tinha sido
ligeiramente ferida, mas tinha ultrapassado bem a situação.
Ela vive hoje na região de Charente (Sudoeste da
França), mas desde os atentados de 13 de Novembro que não consegue sair de
casa, por causa dos pesadelos que tem tido, não sobre estes ataques recentes,
mas sobre os atentados de 1995.
Desenvolveu agora comportamentos fóbicos,
ritualizados, que antes não tinha. Mas os acontecimentos traumáticos que a
assombram remontam a 20 anos!
A minha amiga está actualmente a viver uma situação
insuportável, que invade a sua vida toda. Foi ver um médico, que lhe disse para
ser razoável. Mas é precisamente isso que acontece com os transtornos
pós-traumáticos: manifestam-se muito tempo depois.
Um outro exemplo diz respeito aos atentados de Janeiro
[noCharlie Hebdo]: vemos pessoas que tinham recuperado bastante bem, mas
que agora estão a desmoronar-se completamente, porque os ataques da semana
passada reactivaram angústias de atentados, de insegurança, o sentimento de
terem perdido o controlo da situação.
De facto, qualquer estalido pode reactivar o medo e
suscitar reacções complicadas. E as sirenes de ambulância tornam-se
assustadoras.
Este medo é diferente do medo provocado por outras
vivências traumáticas, tais como acidentes de viação, a morte de pessoas
chegadas, a violência e o abuso sexuais?
A especificidade deste medo é que é provocado por algo que não pode ser
circunscrito, na medida é que um acontecimento destes pode surgir em qualquer
altura.
Isso é gerador de uma grande insegurança psíquica. Por
exemplo, em relação aos atentados nos aviões, as pessoas podem simplesmente
deixar de viajar de avião; e para evitar os acidentes da estrada, basta deixar
de andar de carro. Mas no caso de atentados como os de agora em Paris, a única
solução é não sair à rua. E, a menos que se fique fechado dentro de casa, não
há estratégia de evitamento possível, o que é obviamente complicado e difícil de
suportar.
O medo das pessoas que foram fisicamente atingidas
pelos ataques – os sobreviventes – é diferente do medo daquelas que viram os
ataques na televisão?
É. As pessoas que estavam nos locais atacados viram imagens, cheiraram odores,
ouviram ruídos. Isso é algo de altamente gerador de trauma. As pessoas que
viram os ataques na televisão viram imagens, mas o impacto traumatogénico da
experiência sensorial dos sobreviventes é certamente muito maior.
É possível lutar contra esse medo? Existem estratégias
que permitem controlá-lo?
Há 15 anos que trabalho com vítimas de atentados enquanto especialista de
psico-traumatismos, nomeadamente em meio hospitalar.
A primeira coisa a fazer é não ficar em negação. Mais
vale reconhecer que temos medo e saber o que fazer com ele. Saber como esse
medo se manifesta – e que varia de uma pessoa para outra. De facto, para
controlar melhor o medo é preciso pôr nomes nas coisas. E no caso das crianças,
por exemplo, tentar determinar quando é que o medo de cada uma é mais intenso,
para poder pôr em prática, nessas alturas, estratégias de reconforto.
É preciso dar sentido ao medo, torná-lo inteligível –
e é isso que tentamos fazer no nosso trabalho. E uma vez ultrapassado o estado
de negação, quando as pessoas percebem que não devem ter medo do medo, têm de
se perguntar o que é que mais as ajuda quando têm medo. Em termos pessoais,
individuais, e também em termos colectivos.
É desta forma que conseguimos ajudar uma criança ou um
adulto a recuperar a sua capacidade psíquica de resistir às situações
complicadas. E é isso que fazemos. Não no próprio dia, claro, porque logo a
seguir ao acontecimento é sobretudo preciso dar-lhes reconforto e permitir-lhes
encontrar um ambiente onde se sintam seguros, mas mal começam a surgir transtornos
irracionais.
Em relação às crianças, o que se deve fazer? É
importante falar com elas? Nós próprios temos dificuldade em perceber o sentido
dos atentados, o que dificulta ainda as explicações que podemos dar às
crianças…
Pois. As crianças precisam sobretudo de saber que os seus pais estão lá, que
não os vão deixar cair. O facto de os pais explicarem o que se passa pode
ajudar uma criança de quatro, cinco anos, a perceber por que é que agora, em
Paris, há na rua tantos militares por todo o lado. Porque é um facto que a vida
dos parisienses mudou, pelo menos nalguns bairros. É preciso explicar que há
maus muito, muito maus – pode mesmo falar-se em terroristas e dizer que não são
uns maus quaisquer.
Mas se os pais acharem muito complicado explicar essas
coisas aos filhos, então podem sempre admitir, tanto aos mais pequenos como aos
mais velhos, que acham complicado e que não conseguem explicar, porque não
percebem bem o que está a acontecer.
E, sempre, repetir que estão junto deles, que gostam
muito deles e que nunca os irão abandonar. Abraçá-los e dar-lhes beijinhos para
os reconfortar. Isso dá às crianças um sentimento de segurança, o que já por si
é um passo enorme, enorme.
Mas os pais de crianças mais velhas têm de lhes dar os
meios de se protegerem quando estão na rua.
Sim, e é por isso que, em relação às crianças já com três, quatro anos, que vão
a escola e que vêem o que se passa na rua, convém clarificar as coisas e
explicar que vivemos num contexto particular. Os pequenos sabem o que é a
guerra através dos filmes. Não se trata de lhes dizer que o país
inteiro está em guerra, porque a realidade também não é essa, mas que há actos
de guerra, chamados actos terroristas, explicando-lhes que são pessoas más,
más, más. E a partir dos cinco, seis anos, também é possível transmitir-lhes,
embora elas possam não perceber logo, a ideia de que estes terroristas são
“ideólogos” – que são pessoas que, quando os outros não pensam como elas,
querem destruí-los. E que as vezes até estão dispostos a se destruírem a si próprios
para destruir os outros.
Tudo isso permite dar sentido às coisas. É um pouco
como quando um pai ou uma mãe tem um cancro. Como a palavra cancro mete medo a
toda a gente porque é conotada com a morte, as crianças dizem que o pai ou a
mãe “está doente”. Mas de cada vez que alguém estiver doente, a criança vai
achar que é a mesma coisa. E nós vemos, nas crianças que acompanhamos, que é
mais reconfortante e estruturante pôr as palavras certas nas coisas, e dizer
que a mãe ou o pai tem uma doença muito, muito, muito grave – e eventualmente
rara –, chamada cancro. É uma doença particular. O mesmo vale para as doenças
psiquiátricas. “Não vamos falar em esquizofrenia”, ouvimos dizer, “é muito
complicado!”. Mas em última análise, dizer a uma criança que alguém tem “um
dói-dói na cabeça” não a faz sentir-se mais segura.
Publicou um livro com o neuropsiquiatra francês Boris
Cyrulnik, conhecido pelo seu trabalho sobre a noção de resiliência psicológica.
O que é a resiliência?
A resiliência é a capacidade de se desligar de um impacto traumático. E o que
sabemos através de estudos sobre a resiliência é que não estamos todos em pé de
igualdade nesta matéria.
A resiliência depende dos recursos prévios, do
contexto do trauma e dos recursos disponíveis a seguir. Os recursos prévios são
a capacidade de se proteger. Uma criança que foi criada num clima de confiança
em si e nos outros sabe que, quando acontece um drama, pode contar com os
outros, que não está sozinha no mundo.
Depois há o contexto: durante os atentados, uma
criança que estivesse sozinha, que não tivesse o pai ou a mãe para a
reconfortar, enfrenta agora uma situação extremamente complicada. É o caso, por
exemplo, de um menino que estou actualmente a acompanhar, que tem cinco anos e
que perdeu o pai e a mãe nos ataques de 13 de Novembro.
Quanto aos recursos posteriores, sabemos que uma
criança ou um adulto que consigam reencontrar um ambiente seguro, protector, os
seus marcos de referência, que tenham pessoas que cuidam deles vão sair-se
muito melhor do que alguém que fica sozinho. E mais ainda, quando está com
pessoas que lhe dizem que afinal não está assim tão mal – nem sequer morreu. É
por vezes difícil ser reconhecido como vítima, como ferido psíquico de um
atentado.
Há personalidades mais resilientes do que outras face
a ataques terroristas? Isso pode dar pistas sobre o que fazer para as pessoas
se prepararem para acontecimentos futuros?
A resiliência de que fala Boris é a resiliência individual – e é certo que há
pessoas mais resilientes do que outras. Mas há também um outro tipo de
resiliência, que não é uma ideia nova – e que não faz de todo parte da cultura
francesa. É a noção de resiliência colectiva, isto é, do grupo. A força da
comunidade, da família, a valorização desses aspectos. A França é um país muito
individualista.
Mas tem havido sinais, nos últimos dias, de uma certa
resiliência colectiva por parte dos parisienses.
Sim, e o que esperamos é que a mobilização a que temos assistido nos últimos
dias, com uma identificação mais forte das pessoas do que a seguir ao
ataque ao Charlie Hebdo, permita que as pessoas reaprendam a
cuidar de si e dos outros.
Em Janeiro, para além de a mobilização ter sido mais
limitada (circunscrita a uma certa profissão e a questões religiosas), foi de
curta duração, as pessoas esqueceram. O que esperamos é que agora ela dure mais
do que uns dias.
domingo, 22 de novembro de 2015
Narciso por Carlos Amaral Dias
“Retomaríamos aqui, ainda que de outra forma, o mito de
Narciso. A tragédia que o mito de Narciso descreve não diz respeito apenas à
incapacidade de amar, ou ao amor voltado para si mesmo e que exclui o outro,
mas também nos remete para a impossibilidade de alguns sujeitos terem uma vida própria,
na medida em submergem no desejo ou na dificuldade de quem cuidou deles nos
momentos iniciais, É que a mãe de Narciso, por temer que a beleza dele pudesse
ofender os deuses ignora e interdita nele o que ele tem de mais particular: a
sua beleza. Narciso, por sua vez, submetendo-se ao temor materno, fica cego em
relação à sua própria beleza, desconhecendo o que há de mais singular em si
próprio”.
Carlos Amaral Dias O obscuro fio do desejo Fim de século
A mãe de Narciso ao não reconhecer e aceitar o que o seu filho tinha de
particular - a sua beleza -, e por temor dessa diferença, interpela sobre o
futuro, Tirésias, que simboliza a autoridade do perito, o especialista, o poder
masculino.
É a metáfora da obsessão pela normalidade, de uma mãe frágil, insegura do
seu papel, estendendo estas dificuldades ao filho, que se manifesta, por
isso, incapaz de trilhar a sua identidade única e singular.
O meu tributo a Carlos Amaral Dias, com quem se aprende sempre, penetrante, o que só acontece com os grandes autores.
Pintura de Jorge Rodriguez Gerada
Subscrever:
Mensagens (Atom)





