sábado, 9 de julho de 2016

Vinculação: um amor tranquilo

Imagem do filme "O belo António"

“Este amor tão verdadeiro, tão profundo pode nada ter de erótico. Acontece ao homem amar profundamente uma mulher que lhe é indispensável, mas pela qual não sente qualquer desejo erótico…é capaz de fazer amor com todas as mulheres do mundo exceto com a sua. “
Francesco Alberoni O Erotismo

Com base nas minhas leituras dos clássicos, este laço afetivo com a mulher com quem não se tem relações sexuais, ou melhor dizendo, por quem não se tem desejo erótico, é a vinculação*, entendida por certos autores psicanalistas, Mary Ainsworth e outros, como sendo uma forma de amor em que os parceiros tendem a manter-se próximos um do outro, não por dependência, mas para satisfação de funções de apego, embora desprovidas das emoções da paixão.

A sua característica essencial, nas palavras de um outro autor, J. Bowlby, refere-se à escolha do parceiro. Na vinculação, a escolha não é feita ao acaso. Se a ligação perdura, e tende para a durabilidade, aquele/a parceiro/a é o preferido para satisfazer certas necessidades.
A minha vontade em escrever, neste momento, acerca deste tema, é naturalmente por considerar profícuo entendermos que o amor pode ser considerado um espetro, como um arco iris, que vai do êxtase amoroso até à vinculação tranquila, o que ajuda, penso eu, a compreendermos que se pode estar muito apaixonado por alguém fora do casal legal, mas permanecer-se ligado, e não dependente, do parceiro legitimo.

* A ideia é defendida por Boris Cyrulnik em Sob o signo do afecto

terça-feira, 21 de junho de 2016

Atlas das Emoções



ABOUT THIS ATLAS

This Atlas was created to increase understanding of how emotions influence our lives, giving us choice, (at least some of the time) about which emotion we are experiencing, and how our emotions influence what we say and do. While emotions are central to our lives – providing the joy, alerting us to threats, a force for change, a warning against what is toxic, and calling to others for help – we don’t choose what to feel or when to feel it. The Atlas of Emotions was created to give us more awareness of our emotions, and sometimes even some choice about what we are feeling, through better understanding of how emotions work.

sábado, 21 de maio de 2016

Pessoas difíceis

Henry Fuseli, O pesadelo

“…nos indivíduos neuróticos, por exemplo, muitas vezes não se sabe se estamos diante de uma atitude consciente ou inconsciente, uma vez que devido à dissociação de personalidade, ora aparece uma metade, ora outra, confundindo o nosso julgamento. Por essa razão é tão difícil conviver com pessoas neuróticas.”
C.G. Jung Estudos sobre a psicologia analítica

Acho muito relevante considerarmos que as pessoas difíceis são aquelas que não se dão conta que os seus pensamentos e sentimentos face a acontecimentos passados, são revividos no presente, de um modo mágico e animista, desenquadrados do contexto “… (estas atitudes inconscientes) são de outro universo e funcionam de acordo com uma outra lógica. É como se existisse dentro de nós um teatro, no qual vai decorrendo uma peça onde entram e saem personagens bizarras, que se relacionam entre si, de uma maneira diferente daquela que estamos habituados ou que conhecemos conscientemente” (Frederico Pereira), que na relação com um interlocutor na vida real, podem, ao ser despertadas, desumanizá-lo e agredi-lo.
Estas personagens coabitam no mesmo individuo, com outras, racionais e lógicas, sem que ele consiga através destas, tomar consciência do seu interior psíquico - dissociação de personalidade - e, dominar os seus "demónios."


domingo, 15 de maio de 2016


The Big SleepThe scene where Martha Vickers tries to sit in Humphrey Bogart's lap while he's standing up

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Freud: "Esforçamo-nos mais por evitar o sofrimento do que na busca do prazer"

Joaquín Sorolla y Bastida, The Bath, Jávea, 1905

Assinala-se hoje o 160º aniversário de Sigmund Freud.

Procurar na vida  "não estar mal" que é diferente do "querer estar bem":
"Privamo-nos para mantermos a nossa integridade, poupamos a nossa saúde, a nossa capacidade de gozar a vida, as nossas emoções, guardamo-nos para alguma coisa sem sequer sabermos o que essa coisa é. E este hábito de reprimirmos constantemente as nossas pulsões naturais é que faz de nós seres tão refinados. Porque é que não nos embriagamos? Porque a vergonha e os transtornos das dores de cabeça fazem nascer um desprazer mais importante que o prazer da embriaguez. Porque é que não nos apaixonamos todos os meses de novo? Porque, por altura de cada separação, uma parte dos nossos corações fica desfeita. Assim, esforçamo-nos mais por evitar o sofrimento do que na busca do prazer."
Sigmund Freud, in 'Correspondência (1883)


terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O narcisista e os seus parceiros #1

Pretendo deixar-vos algumas considerações sobre as relações íntimas, em que um elemento do casal ou os dois, apresentam um Transtorno Narcisista de Personalidade (TNP).
Outra ideia a salientar é que a dinâmica da relação irá depender da gravidade da perturbação.

Na fase de enamoramento ou da paixão, os indivíduos com esta perturbação não costumam demonstrar as características narcísicas. Pelo contrário, manifestam atitudes que fazem o outro acreditar que é interessante e mais do que isso, especial. Os sinais de alarme podem ser inexistentes. Muito mais tarde, após muitos meses, um ano ou dois, começam a surgir as dificuldades na relação. Pode-se ser até surpreendido com o primeiro ataque de fúria, exagerada, face ao que a despoletou.
A falta de empatia para com as necessidades e interesses do outro, e sobretudo, a necessidade de salvar a face (o seu narcisismo) em detrimento de um encontro amoroso e protector, evidenciam-se.

Mas estas dinâmicas não são fáceis de interpretar, porque o indivíduo com este transtorno, pode alternar comportamentos de prepotência e arrogância com desprezo pelos sentimentos do outro, até ao absoluto sentimento de dependência e necessidade de amparo. Esta necessidade, que não é assumida, pode manifestar-se de modo pouco evidente, misturada com agressividade, sem que se perceba qual a queixa.
Porém, o que parece ser a vontade de ser apoiado ou ter companhia, não invalida que o outro não seja maltratado, por vezes, com prazer. Maltratado de diversos modos, por não ser levado em conta, por não ser valorizado pela pessoa que é... A inveja, outra das características da perturbação narcísica desempenha também um papel na dinâmica da relação. O controle e o domínio, também.

Muitos casamentos terminam no inicio das dificuldades. Nos que se mantêm, qual o perfil da mulher ou do marido que suporta este tipo de relação?
Concordo em absoluto com o psicanalista Mário Quilici, num texto que deu o título a este post, que considera que quando o marido sofre de TNP (Transtorno Narcisista de Personalidade), é frequente o caso da mulher sofrer de Transtorno de Personalidade Dependente (TPD), e vice versa. Estas personalidades são descritas por este autor nos seguintes termos: “Elas (TPD) são carentes, precisam de muita ajuda e são submissas. Elas têm muito medo do abandono e, assim, agarram-se ao parceiro tenazmente. Seu comportamento geralmente é imaturo mas isso as ajuda a manter o relacionamento com os seus parceiros ou esposos de quem dependem. Não importa qual o tipo de abuso que os seus parceiros possam infringir, ainda assim, elas permanecem no relacionamento.” Retiram, naturalmente, gratificações pessoais desta condição.
Atrevo-me a dizer: os dois vivem um "delírio" -  a negação da  necessidade de amar e ser amado.