terça-feira, 31 de maio de 2011
sexta-feira, 27 de maio de 2011
O ódio branco
Peter Blake Viewpoint 1979
Ódio parece-nos um sentimento muito forte. Neste caso do ódio branco, não se trata de uma força destrutiva que persegue e mata. Não neste caso. Mas não deixa de ser mortífero na mesma, porque expressa-se de uma maneira indirecta, sub-reptícia, atacando o amor-próprio daquele a quem se dirige. Por isso se chama de ódio branco ou violência oculta.
São todas aquelas atitudes em que um recusa-se a tratar o outro como pessoa, ignorando-o, negando-lhe o direito a uma opinião, a um lugar.
Algumas vezes, o ódio é de tal forma intenso que leva à destruíção da consciência dele mesmo (Otto Kernberg). Pelo que, não permite que o indivíduo corrija os comportamentos e os efeitos nocivos que causou no outro.
Constituem atitudes perversas, cuja natureza não permite que as enfrentemos directamente. Quando são denunciadas, é frequente a vítima ser acusada de ser sensível demais, ou ter manias de perseguição.
É um ódio muito presente nas nossas vidas pessoais e laborais.
“Perante ele (esse ódio branco), a única relação justa consiste então - já que o outro, por sua vontade, se ausentou da relação – em sermos justos para connosco: importa recorrer a uma força de resistência para salvaguardamos o nosso lugar e defendermos os nossos direitos, e tal força terá de ser pelo menos igual à força que o outro utiliza para no-los negar. “
O Ódio Necessário Nicole Jeammet Editorial Estampa
(Mas não necessariamente uma força com os mesmos métodos)
terça-feira, 24 de maio de 2011
Isabel Leal (2ª Parte)
Isabel Leal é psicóloga clínica. É professora no Instituto Superior de Psicologia Aplicada (Lisboa). É presença regular em jornais e revistas.
Deu uma entrevista com o título - O orgasmo pode não ser especialmente bom - a Anabela Mota Ribeiro do Jornal Publico, em 2009, da qual retirei esta parte:
Estamos num tempo em que mais facilmente se pratica coito do que se dá um abraço?
Isabel Leal: Gostava tanto de saber responder a isso...
O que está implícito na minha pergunta/provocação, por um lado, é a existência de um novo paradigma e, mais que tudo, a noção de intimidade.
Isabel Leal: Temos a ideia de que as relações sexuais são uma coisa banalizada. Isso é verdade para um grupo de pessoas, e é mais visível do que foi noutras épocas. Mas não penso que a maioria das pessoas seja muito promíscua e que vá para a cama a torto e a direito com toda a gente.
Os relatos de casais adeptos do swing fazem páginas de revistas...
Isabel Leal: As pessoas não têm uma relação com a sexualidade tão sacralizada, culpabilizada e angustiada como noutras épocas. Mas consome-se pornografia de uma forma crescente. Se podem ter uma vida sexual tão diversificada e intensa, por que é que recorrem maciçamente à estimulação ou visualização da pornografia? (Isto sem nenhum preconceito em relação à pornografia.) O mercado que ela cria diz-nos que há ainda uma relação com a sexualidade que não está naturalizada.
Como entender, então, que ela apareça, sobretudo na comunicação social, como uma coisa banalizada?
Isabel Leal: Como se vivêssemos numa total desinibição.
Vivemos em equívocos. Há muitos mundos paralelos. A dimensão da ternura física, que remete para a noção de segurança, afecto, vinculação, é constitutiva do que somos. Precisamos imenso disso. O sexo, o coito, também são precisos. Mas, do ponto de vista desenvolvimental, o abraço vem sempre antes.
Vivemos em equívocos. Há muitos mundos paralelos. A dimensão da ternura física, que remete para a noção de segurança, afecto, vinculação, é constitutiva do que somos. Precisamos imenso disso. O sexo, o coito, também são precisos. Mas, do ponto de vista desenvolvimental, o abraço vem sempre antes.
O sexo é um patamar de comunicação diferente do da ternura.
O sexo pode ser exercício físico, desligado de afectos. Há pessoas que falam do sexo desligado de afectos, há pessoas que falam dos afectos sem sexo. Provavelmente, a maior parte das pessoas andará algures entre uma coisa e outra, e lá vai conseguindo, como pode e sabe, relacionar uma coisa com a outra.
Em encontros episódicos, de sábado à noite, existe espaço para a intimidade? Procura-se a intimidade ou vestígios disso?
Isabel Leal. A sexualidade (em sentido estrito) pode não ter nada que ver com o universo afectivo. O que há de residual da moral judaico-cristã, em países velhos e católicos como o nosso, em que as noções estão esbatidas, mas estão lá, é que a sexualidade deve estar ao serviço dos afectos.
Não são compreensíveis um sem o outro - esse é o discurso oficial.
O que os pais ensinam aos filhos é isso. Há imensas pessoas a dizer: "Não sou capaz de ter uma relação sexual sem gostar do outro." Digo que isto é residual em relação à moral cristã porque é como se o pecado da carne fosse desculpado e legitimado pela pureza do sentimento. Não acho que seja assim. Às vezes o sexo é mesmo exercício físico. Corresponde para muitas pessoas a uma dimensão de luxúria.
Isso é válido para homens e mulheres?
Isabel Leal: Sim. Há o discurso tradicional, que considero verdadeiro, que [diz que] tendencialmente as mulheres, ainda hoje, usam o sexo para chegar ao amor. E vice-versa para os homens. Muitas vezes enganam-se a si próprios nesse processo. Uma mulher precisa de se reconhecer apaixonada para ser capaz de desenvolver uma estratégia de sedução ou aproximação sexual. Encontro imensas pessoas que têm relações ocasionais e que estão sempre à procura do homem e da mulher perfeita - mesmo que o sexo seja do mais instrumental que há.
Está a dizer que nas relações ocasionais continuam a procurar o grande amor? Que dessa vez lhes saia a sorte grande?
Isabel Leal: Pode não fazer sentido, mas acontece. Uma coisa é o sexo, outra coisa é a simbólica do sexo. Homens e mulheres andam em busca do príncipe encantado e cada encontro sexual é simbolicamente uma tentativa de o encontrar. Quem está de fora diz: "Então tu vais todas as semanas com uma pessoa diferente para a cama, como é que estavas à espera que corresse?" Mas, no discurso que as pessoas fazem, percebe-se que havia ali uma espécie de romance. Aqueles cinco minutos em que houve troca de olhares, a tentativa de encaixe, a festa no cabelo, o gesto simpático, a maneira como dormiram... Coisas que para quem está de fora são banalidades, mas que as pessoas valorizam e a que dão importância.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
...não lhe foi possível ser dramaturgo como Shakespeare e Goethe
Sobre Fernando Pessoa:
"Pessoa, Poeta Dramático, vive dentro de si o DRAMA em GENTE, sem gente, sem verdadeiros protagonistas.
"Pessoa, Poeta Dramático, vive dentro de si o DRAMA em GENTE, sem gente, sem verdadeiros protagonistas.
Vive-o dramaticamente e expressa-o com qualidade literária inexcedível, mas dentro de si, num jogo de espelhos onde se reflectem os seus Objectos Internos difusos e ambíguos, pouco diferenciados. Por isso não lhe foi possível ser dramaturgo como Shakespeare e Goethe que tanto admirava.
Os seus POEMAS DRAMÁTICOS são estáticos."
Celeste Malpique Fernando em Pessoa, ensaios de reflexão psicanalítica Fenda
É uma rosa
É uma rosa. É real, fotografei-a ontem.
Foi um dia maravilhoso. Muito contribuiu ter passado a tarde concentrada em pouca coisa: fotografar rosas.
Foi uma boa ideia reduzir os estímulos. A repetir. E não sou eu só a dizê-lo, a ciência da felicidade, também.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Quero a emoção de vê-la traindo...
Visconde de Valmont: “Quero a emoção de vê-la traindo tudo o que acha mais importante.”
Filme Ligações perigosas
Madame de Tourvel é de uma comovente candura e seriedade de costumes e sentimentos.
O Visconde de Valmont ao ambicionar que Madame de Tourvel desrespeite tudo em que acredita - transponha as suas fronteiras - procura desorientá-la e destruir a sua serenidade. Não ama a Madame de Tourvel. Irá amá-la tarde demais.
O Visconde de Valmont ao ambicionar que Madame de Tourvel desrespeite tudo em que acredita - transponha as suas fronteiras - procura desorientá-la e destruir a sua serenidade. Não ama a Madame de Tourvel. Irá amá-la tarde demais.
Para o visconde, este seu propósito, além de acreditar ser um direito inalienável, torna a sua a vida incrivelmente intensificada. Resgata-o do tédio, e permite-lhe uma orgástica sensação de triunfo.
O triunfo não se dá sobre a Madame de Tourvel, mas sobre a sua consciência moral que tenta anular, num banquete de omnipotência que só o vazio pode justificar.
Conceitos chaves: defesa maníaca; omnipotência; narcisismo.
A mais bela declaração sobre os limites do amor:
“O desenvolvimento da capacidade de amar consiste em aceitar as fronteiras de nós próprios e dos outros, ao mesmo tempo que permanecemos vulneráveis e expostos a ser feridos em redor dessas fronteiras.” Gillian Rose (filósofo)
terça-feira, 17 de maio de 2011
O desabar do mundo nos momentos de decepção
“Nos momentos de decepção deste tipo, que todos nós vivemos sob uma ou outra forma, dir-se-ia que o próprio tecido da realidade se rompe, e que descobrimos que o mundo que conhecíamos, ou pensávamos conhecer, se perdeu; como se o desabar do mundo simbólico equivalesse de facto ao desabar do mundo físico.”
Ivan Ward Fobia Almedina
Uma palavra. Um gesto. Como estamos magoados “só por isso”, interrogam-nos com um certo constrangimento. Porém, aquela palavra, aquele gesto, tornaram-se emblemáticos de quem é o outro.
Não conseguimos dar nome às emoções, e receamos que se lhes tocarmos com as palavras, elas despertem a dor. O mundo que conhecíamos até aí deixa de existir. O futuro é ausente. Estamos emparedados.
Não conseguimos dar nome às emoções, e receamos que se lhes tocarmos com as palavras, elas despertem a dor. O mundo que conhecíamos até aí deixa de existir. O futuro é ausente. Estamos emparedados.
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