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sábado, 9 de julho de 2016

Vinculação: um amor tranquilo

Imagem do filme "O belo António"

“Este amor tão verdadeiro, tão profundo pode nada ter de erótico. Acontece ao homem amar profundamente uma mulher que lhe é indispensável, mas pela qual não sente qualquer desejo erótico…é capaz de fazer amor com todas as mulheres do mundo exceto com a sua. “
Francesco Alberoni O Erotismo

Com base nas minhas leituras dos clássicos, este laço afetivo com a mulher com quem não se tem relações sexuais, ou melhor dizendo, por quem não se tem desejo erótico, é a vinculação*, entendida por certos autores psicanalistas, Mary Ainsworth e outros, como sendo uma forma de amor em que os parceiros tendem a manter-se próximos um do outro, não por dependência, mas para satisfação de funções de apego, embora desprovidas das emoções da paixão.

A sua característica essencial, nas palavras de um outro autor, J. Bowlby, refere-se à escolha do parceiro. Na vinculação, a escolha não é feita ao acaso. Se a ligação perdura, e tende para a durabilidade, aquele/a parceiro/a é o preferido para satisfazer certas necessidades.
A minha vontade em escrever, neste momento, acerca deste tema, é naturalmente por considerar profícuo entendermos que o amor pode ser considerado um espetro, como um arco iris, que vai do êxtase amoroso até à vinculação tranquila, o que ajuda, penso eu, a compreendermos que se pode estar muito apaixonado por alguém fora do casal legal, mas permanecer-se ligado, e não dependente, do parceiro legitimo.

* A ideia é defendida por Boris Cyrulnik em Sob o signo do afecto

domingo, 28 de outubro de 2012

O verdadeiro amor agradece sempre

 Jamie Beck Paris Love
  

"Alegria nascida do sentimento de uma reconciliação; cessa a necessidade de nos defendermos, de desconfiar, de nos punirmos. Cessa o desejo de atacar, a não ser pelo prazer. E tudo isso graças a um único ser. Uma gratidão imensa relativamente a este ser: o verdadeiro amor agradece sempre, do mais profundo de si mesmo, a existência do outro, o simples fato de ser. Reconhecimento que é doce sentir e no qual, por sua vez, se alimenta a alegria de que ele mesmo procede. Prazer da gratidão que compensa os pavores do ciúme. Prazer de uma atenção intensa, sustentada e concentrada, sem qualquer esforço, sobre um outro individuo, exterior a nós próprios, graças à coincidência nele da identidade e da alteridade. Amo-te porque és a melhor parte de mim mesmo. Amo-te porque és o que não sou, o que nunca poderei ser. Objeto fascinante, aquele que torna possível tal convergência! Assim, todo o amante está atento e todo o amor é, por essência atenção. Sabia-o bem aquele moralista que declarou com indiferença uma incomensurável injuria ao ódio. O maior preconceito é o de julgar que alguém não tem qualquer valor. O maior favor é o de preferi-lo a todos, considera-lo, se não tudo, pelo menos uma abertura para a totalidade." 

Christian David O Estado Amoroso, Ensaios Psicanalíticos Palas Editores 1971










sábado, 13 de outubro de 2012

O infiel

Coleção Berardo

Diz Ernest Jones "A infidelidade marital tem, com maior frequência do que se crê, origem neurótica; não revela liberdade, nem potência, mas o contrário.” Mais frequente ainda do que o medo neurótico dos vínculos é, contudo, uma vinculação neurótica, o medo de qualquer mudança de objeto.
Otto Fenichel Teoria psicanalítica das neuroses Edições Athneu
Sobre a infidelidade, devo dizer que acho muito digno assumir para com o marido ou mulher, que se tem outra pessoa, em vez de se manter situações clandestinas e derespeituosas.
Será que a infidelidade marital revela medo da intimidade, vivida em exclusividade com alguém, ou revela sobretudo a ansiedade, nunca resolvida, em se libertar do compromisso com uma imagem fantasiosa e por quem em imaginário, se depende, razão pela qual pode ser procurada sem cessar, nesta ou naquela pessoa?

quinta-feira, 28 de junho de 2012

A alma gémea

Frederic Leighton O Pescador e a Sereia

“A fantasia universal de ter um gémeo (alma gémea)….
….
Segundo ela (Melanie Klein) esta figura gémea representaria aquelas partes dissociadas que o individuo deseja recuperar com a esperança de conseguir a plenitude. Tive ocasião de verificar que esta fantasia estava implícita nos estados de enamoramento ou dependência extrema de alguns indivíduos para com certas pessoas que possuiriam, por identificação projetiva, as características vivenciadas como correspondentes às qualidades perdidas. Comportavam-se às vezes, como verdadeiros dependentes destes objetos, cuja companhia procuravam desesperada e compulsivamente, com a finalidade de recuperar esses aspetos.”
León Grinberg Culpa e Depressão Climepsi

A alma gémea que muitos secretamente desejam encontrar e que com ela acreditam que irão viver um estado de simbiose, ou julgam já o ter alcançado, não é mais do que a ilusão de ver no outro, partes de nós mesmos que desconhecemos, mas que nos fazem falta para que nos possamos compreender e sentir compreendidos. Revela-se um amor narcísico.
O desejo de se complementar, na expressão do autor, é um sentimento de solidão interior que não conseguimos situar.
Nós somos inteiros e a esperança deveria estar em não vivermos em função da ideia da alma gémea, mas aprendermos a cuidar de nós próprios e a sermos capazes de integrar as características inesperadas do outro.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Nós sempre teremos Paris!




Rick Blaine (Humphrey Bogart) a IIlsa Laszlo (Ingrid Bergman): Nós sempre teremos Paris! 
Filme Casablanca

“Quando o individuo está seguro de si e o investimento do objecto é genital, o objecto por muito que se ame é substituível.”
Coimbra de Matos Mais Amor Menos Doença Climepsi Editores

No filme Casablanca, Ilsa Lund Laszlo foge para a América com o marido e deixa o seu amante Rick Blaine para trás. Recusa-se contudo,  a partir. Não sabe como sobreviverá sem ele.
Tal como no filme, ou numa situação de luto ou separação, bem conseguidas, o respeito pela realidade prevalecerá sobre o laço afectivo.
Mas espera-a um processo lento em que a presença errante de recordações serve para enganar o desespero, e conservar o vínculo. É preciso acreditar que, onde quer ele esteja, com quem quer que esteja, ele pensa nela mesmo que seja num momento difuso e fugaz.
Pedaço por pedaço, parte por parte, a imagem dele solta-se, enfim, e ela encontra-se livre, inteira e desembaraçada para amar outra pessoa.
O outro por muito que se ame, é substituível.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Ser verdadeiro



As circunstâncias são difíceis. Cada um é casado com outra pessoa.
ELE: “O sentimento que temos um pelo outro, é verdadeiro para ti como é para mim, não é?”
ELA: “Sim, é verdadeiro”.

O dilema da vida: ser verdadeiro ou não.
Uma pessoa que se coloca em frente a outra e é autentica. Primeiro, encontra em si essa verdade, depois com o outro.
Os seus corpos e almas irão recordá-lo para sempre.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Dirty Mistress - O que leva a que a ciumenta destine toda a sua raiva numa rival

Jack Vettriano, The Set up

“A maldade e a destrutividade passam a ser vistas no rival; ele é condenado, e contra ele pode ser dirigido o ódio sem implicar o sentimento de culpa”.
Melaine Klein e Joan Riviere, Amor Ódio e Reparação, Imago Editora

O que leva a que a ciumenta destine toda a sua raiva numa rival (real ou fantasiada), e poupe a pessoa que ama? O mesmo para o ciumento.
A torturante amargura do ciúme faz-nos odiar quem amamos. Sentimo-nos preocupadas e culpadas que a nossa agressividade possa destruir o outro e a relação. 
“Transferir” a maldade e destrutividade para uma rival, é uma maneira de atenuar esta tortura, e pouparmos do nosso ódio, a pessoa que amamos.
 Ao condenarmos uma amante, podemos assim descarregar todos esses sentimentos nela. Sem culpas, por isso.
 Este mecanismo projecção, permite ao odiar a outra, não lidar também com a dúvida sobre nós próprias, que talvez não sejamos dignas de sermos amadas.



sábado, 2 de abril de 2011

A amante

Jack Vettriano, Ship of Dreams


É o caso de “recolher muitos ovos em cestas diferentes”; diminui o perigo de frustração e insucesso, e o risco da voracidade ou da crueldade de cada um vir a desgastar ou a destruir a coisa boa a que se tem apreço ou a pessoa amada …”.
Melanie Klein e Joan Riviere, Amor Ódio e Reparação, Imago Editora

O que podem ter em comum aquelas pessoas que têm uma vida social intensa, e as pessoas que conservam uma amante ou um amante durante tempos e tempos, sem vontade de definir a situação?
Estes dois tipos de pessoas, as populares e as infiéis, se podemos assim as chamar, têm em comum inúmeras estratégias relacionais que permitem manter a fantasia que podem ter tudo o que desejam, sem que, ao desagradar, destruam quem têm apreço ou quem amam.
Ao não se entregarem a ninguém totalmente, salvaguardam ainda, a necessidade de perante si próprias, se julgarem boas pessoas, porque, ao colocarem os ovos em cestas diferentes, os estragos serão menores para si e para os outros.
Com este funcionamento, também tiram o benefício de, se alguma pessoa lhes faltar, poderem procurar consolo em outra.
Poderá esta explicação, contribuir para justificar a utilidade de um amante ou de uma amante, na vida de um homem ou de uma mulher.



domingo, 6 de março de 2011

Allen Gomes

No artigo de Andreia Sanches sobre o casamento e as uniões de facto, publicado no Jornal Publico de ontem, Allen Gomes, psiquiatra e sexólogo, é entrevistado em conjunto com outros especialistas destas matérias. Dessa entrevista retirei a seguinte parte:

Allen Gomes: "As pessoas passam boa parte do seu tempo no trabalho, almoçam com os colegas, sentados, a conversar, algo que se calhar não fazem à noite, quando chegam a casa, com a família. E acabam por criar relações de maior intimidade do que aquelas que têm com o marido ou com a mulher."
Andreia Sanches: Chegam a ser amorosas, estas cumplicidades nas empresas?
Allen Gomes "Há a noção de que, se houver sexo, essa relação estoira, a amizade acaba, por isso protege-se a relação - e protege-se a culpa. Fica esta espécie de amor platónico, nem sei como chamar-lhe."

Na minha opinião, Allen Gomes pode não saber que denominação dar a estas relações, mas explica-as muito bem.
Quem estabelece estas regras ou as aceita, não convive com a outra pessoa na sua totalidade, quer seja, conforme o caso, com a sua mulher ou marido, em casa, ou com a sua colega ou seu colega, no trabalho. O mesmo mecanismo está subjacente nos casos de divórcio em que o casal mantém relações...agora sou eu que não sei como chamar-lhes.
O que se tenta é isolar o amor e todas as emoções positivas de um lado e as agressividades e insatisfações, de outro, de modo a que não interfiram sentimentos negativos com os positivos. Pretende-se salvaguardar assim, a vida e a saúde física e mental nossa, e daqueles a quem dependemos.
É um modo de viver fragmentado, podendo ser gerador de ansiedade. O desafio será, como sempre escrevo, amar uma pessoa real apesar de, por vezes, nos desapontar.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O amante




Sobre o amor:
"Por que razão durar é melhor que arder?" Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso