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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

As nossas mentiras


Carolyn Gregoire publicou um artigo online* que me parece muito interessante por apresentar uma síntese de 10 estudos científicos que poderão mudar as ideias que temos de nós próprios.
Com o título  We constantly try to justify our experiences so that they make sense to us, refere-se à dissonância cognitiva, que é uma teoria que diz que os seres humanos têm uma propensão natural para evitar o conflito psicológico provocado por situações que envolvem ideias, crenças ou opiniões incoerentes.
Quando a realidade desafia-nos, apanha-nos por dentro, não se ajusta às nossas expetativas, gera-se ambivalência, por pensarmos de uma maneira mas agirmos de outra. Deixamos de viver num plano integrado, a condição fundamental da existência. Ao procurarmos a explicação para as nossas contradições - ao mentirmos a nós próprios - , tudo se move para suster a vida, antes que a desordem entre sentimentos que não correspondem uns aos outros, possa invadir a personalidade. O seu efeito tranquilizador, faz a nossa história pessoal ficar mais legível e aceitável.
Este esforço de sentido, afasta-nos dos primeiros estádios da personalidade. Do fragmentado. É um resgate para o caminho da vida, um direito de poder ser incoerente de vez em quando, mas pode ser um declínio se essa defesa insiste em trair a honestidade que devemos ter para connosco, que se faz sentir, em particular, nas relações difíceis, quando não conseguimos colocar travão à necessidade de encontrarmos justificações ilógicas para o comportamento do outro. 
*10 Psychological Studies That Will Change What You Think You Know About Yourself (AQUI)


Gif retirado de :http://www.freakoutincolor.com/2013_07_01_archive.html

Sobre Distorções cognitivas, o artigo "20 Cognitive Distortions and How They Affect Your Life": 
http://www.goodtherapy.org/blog/20-cognitive-distortions-and-how-they-affect-your-life-0407154

sábado, 19 de outubro de 2013

A parte psicótica da personalidade em todos nós


de Erik Johansson

“Nos legados de Bion, um ponto muito importante é o que ele denomina como parte psicótica e não psicótica da personalidade. Essa parte psicótica não equivale a um diagnóstico psiquiátrico, mas sim a um modo de funcionamento mental, coexistente a outros tantos. A PPP (parte psicótica da personalidade) designa comportamentos mais regressivos, com núcleos primitivos enquistados na personalidade de qualquer indivíduo.” 

Trabalho sobre o seminário de Bion. Coordenador Dr José Luiz Petrucci. Candidata Rosa Beatriz Santoro Squeff, Agosto 2006 (disponível online, aqui )

Revolucionária esta ideia que Bion nos deixou, que tanto os indivíduos psicóticos (com estrutura psicótica: esquizofrénicos…), como os neuróticos, assim como as pessoas psicologicamente saudáveis, têm partes psicóticas na personalidade. E todos têm também, partes saudáveis (não psicóticas), o que significa que a neurose, a psicose e a normalidade não são entidades clínicas puras, mas coexistem em qualquer pessoa.
Se isto vos parece uma teoria como tantas outras, devo dizer-vos que para mim é absolutamente genial, útil para a vida, já que a parte psicótica da personalidade identificada por Bion, e existente em todos nós, manifesta-se através de comportamentos de recusa da verdade, com preferência pelo mundo das ilusões, de enorme oposição à mudança e rejeição da realidade tal como ela é. Ou seja, manifesta-se na nossa vida quotidiana quando evidenciamos intolerância à frustração, medo de procurar e descobrir coisas, discursos destrutivos e relações afetivas envoltas em ambivalência - que são as características próprias dos psicóticos.
Nas pessoas chamadas pela linguagem popular, “bem resolvidas”, estes comportamentos existem ou poderão ser desencadeados em situações de crise psicossocial, mas habitualmente são tornados conscientes, integrados na personalidade e transformados com vista ao crescimento como pessoa e à qualidade das relações interpessoais. 
Em outros indivíduos, a parte psicótica mantém-se separada do resto da personalidade, como um quisto, com dificuldade em ser transformada em saúde mental, que irrompe nos comportamentos intempestivos, inesperados, a despropósito e frequentemente ofensivos - a arrogância (identificada por Bion como característica da parte psicótica da personalidade). É fonte de agressividade.
A "quantidade" da parte psicótica na personalidade da pessoa, determina o grau de sanidade da mesma.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Esther Perel - O segredo do desejo...



O segredo do desejo num relacionamento a longo-prazo - inteligência erótica.
Esther Perel é sexóloga
Conferência traduzida em várias línguas (aqui)

sábado, 28 de janeiro de 2012

Receio-te quando te aproximas, amo-te quando estás longe

“Receio-te quando te aproximas, amo-te quando estás longe” O Outro Canto de Baile, Assim Falava Zarathustra, Nietzsche

Não me surpreende que Nietzsche tenha tido, na realidade, este tipo de sentimento de ambivalência (a vontade de destruir e o desejo de reter), pressuponho que por uma mulher, pelo que se sabe das suas opiniões sobre as mesmas. Num abuso de confiança da minha parte, utilizo a sua confissão para ilustrar a imagem do “porco-espinho”: ao idealizar o outro e faze-lo acreditar que é alvo de atenções especiais, este envaidecido aproxima-se, mas devido a essa proximidade, vê-se repelido. Esta reação ocorre porque o sujeito receia ser dominado.
Torna-se enlouquecedor, porque tende-se a ser mal tratado em ambas as situações, o que confunde e culpabiliza a vítima, e colocando-a numa relação de dependência, aumenta a fantasia grandiosa de poder do sujeito. 
Está próximo da expressão brasileira “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, ou seja, “o outro torna-se ameaçador quando está demasiado perto ou demasiado afastado” (Os estados – limite, Patrick Charrier e Astrid Hirschelmann-Ambrosi, Ed. Climepsi).
Um ótimo conselho: "Não confundir intensidade (destas relações quando levadas ao extremo) com intimidade", aqui.
É um modo de "amar" típico na patologia borderline.

domingo, 27 de novembro de 2011

sábado, 10 de setembro de 2011

Para que haja amor, é preciso que haja ódio algures

Peter Blake, Tuesday, 1961

Para poder idealizar um novo objecto de amor e manter a relação amorosa, um perverso tem necessidade de projectar tudo o que é mau sobre o parceiro precedente tornado bode expiatório. Tudo que é obstáculo a uma nova relação amorosa deve ser destruído como objecto incómodo. Assim, para que haja amor, é preciso que haja ódio algures. A nova relação amorosa constrói-se sobre o ódio ao parceiro precedente. Aquando das separações, este processo não é raro, mas o mais frequente é o ódio esfumar-se pouco a pouco, ao mesmo tempo que se esfuma a idealização do novo parceiro.”
Marie- France Hirigoyen Assédio Coação e Violência no Quotidiano Pergaminho

No percorrer as nossas experiências de vida, esta narrativa não nos parece de imediato familiar. É enigmática. Mas certamente já nos cruzamos com aqueles casais cujo ditado popular identifica como “A 1ªmulher (ou marido) é trapo a 2ªmulher (ou marido) é guardanapo”. Ter sido trapo, tem o significado de ter sido mal amada, ou até mal tratada.
Nas personalidades perversas, aquando da separação, ou com um novo amor, é com surpresa que as vemos amorosamente tolerantes para com a nova relação. Ao projectar sobre o parceiro anterior tudo de ruim, salvam o novo amor dos sentimentos de frustração que este lhes causa e que não conseguem tolerar a não ser através do maltrato ao parceiro anterior. Sendo esta a sua função, o que quer que este faça não costuma contribuir para melhorar a situação, a não ser esperar que “se esfume a idealização do novo parceiro”, e naturalmente, cuidar de si.
Acredito que "fazer-se de bonzinho" só com algumas pessoas, quer na vida amorosa, quer na vida social e profissional, é uma necessidade do perverso - faz-me lembrar aquela frase "até os psicopatas precisam de amor". É como se precisasse de se convencer que é capaz. de se fazer amar. Só que esta relação, não é igualitária, estabelecesse com base nas suas condições, mais tarde ou mais cedo, só ele a controla, só ele tem direitos.

sábado, 11 de junho de 2011

Viver a dependência amorosa

Serge Hefez

Pergunta: Separado de uma pessoa diagnosticada "narcisista perverso", como é que anos mais tarde, apesar dos confrontos e feridas, ainda tenho uma forte ligação com essa pessoa (eu não posso vê-la), de uma maneira quase obsessiva? A lógica e análise são simples... Como a emoção tem precedência sobre a reconstrução, e como podemos treinar o controle de uma emoção?


Serge Hefez, psiquiatra e psicanalista, chefe da unidade de terapia familiar no departamento de psiquiatria da criança e do adolescente no hospital da Salpêtrière, responde a esta e outras perguntas dos leitores do Jornal Le Monde, aqui.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Foge ao meu controlo


A exigência compulsiva de demonstrações de ser um “homem de reputação”.Ora o ódio, ora o amor.
O ódio venceu.

Cena do filme "ligações Perigosas"

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O erro de Einstein


E Einstein? Qual foi, afinal, o erro de Einstein? Einstein achava que as mulheres não tinham aptidão para a ciência por não serem criativas. Apesar disso, nutria sincera admiração por Madame Curie, considerando-a uma excepção à regra. Tal não o impediu de comentar a um amigo que ela "não era suficientemente atraente para ser perigosa para quem quer que seja". Einstein cometeu erros. Mas a depreciação que fez das mulheres foi, decerto, o seu maior erro.
Carlos Fiolhais, Físico, Professor universitário, Jornal Publico, 7/01/11


São atribuídos a Einstein um conjunto de pensamentos inspirados sobre o amor, que nos fazem pressentir a existência de uma alma gentil e delicada face às emoções do coração. Por esta razão, aproveitar o desabafo que Einstein fez ao amigo sobre Madame Curie, pode ser considerado no mínimo, uma apropriação selvagem que desconhece de igual modo a moralidade de uma época.
Mesmo assim prossigo. Os cientistas sociais chamar-lhe-iam um preconceito, uma crença, mas um prefiro considerá-lo um comportamento ambivalente – que manifesta uma atitude que desqualifica as mulheres e em simultâneo, um desejo por elas.

Einstein não conseguiu dar-se conta que a mulher também pode ser intelectualmente criativa.
Há múltiplas variantes desta fantasia: como pode ser bela e inteligente? Como pode ser moderna e sofisticada e saber governar uma casa?

A necessidade de isolar de um modo estanque, o bom de um lado e o mau de outro, tem na base a dificuldade em tolerar sentimentos positivos e negativos, pela mesma pessoa. E gostar dela ou amá-la para além disso.
O resultado costuma ser a dificuldade em confiar nas outras pessoas, cujos comportamentos mais evidentes, serão as manifestações de amor mas também de agressividade, por uma em particular. O conflito pode não ter solução.
De acordo com o modelo psicanalítico, “separar todas as pessoas e todas as coisas em categorias de comportamento completamente antitéticas”*, corresponde a uma fase de desenvolvimento, primitiva.

*Otto Fenichel, Teoria Psicanalítica das Neuroses


sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A ambivalência (2)

Eric: “Tive para com ela (Sofia) insolências e ternuras alternadas, todas visando um mesmo objectivo, que era o de fazê-la amar e sofrer mais, e a vaidade comprometeu-me para com ela como teria feito o desejo. Mais tarde quando ela contou para mim, suprimi as palavras meigas”
Marguerite Yourcenar, O Golpe de Misericórdia

O meu interesse em comentar este romance entre Eric e Sofia, escrito em 1930, mas vivido na Guerra de 1914, está ligado ao que lhe deu origem: retratar a “desordem moral” que continua “a ser aquela em que estamos ainda e mais do que nunca mergulhados”, e não a época histórica, como escreve a sua autora no Prefácio.

O verdadeiro amor
Será que Eric é capaz de amar, uma outra, com um amor verdadeiro?
O amor verdadeiro é a fase de desenvolvimento que se segue à fase da ambivalência. Mas nem todos lá chegamos. E se Eric tem ambivalência como traço de carácter, é capaz de amar nesse registo, como o próprio nos descreve acima, e não com amor verdadeiro. Amar, situa-se para além da ambivalência. Ama-se, apesar do outro nos “tirar do sério”. Com sentimentos protectores.

O ajudante mágico
Citando Otto Fenichel, em Teoria Psicanalítica das NeurosesMesmo as pessoas ambivalentes… precisam de um objecto (pessoa) que lhes dê afeição, interesse, confirmação, protecção, uma espécie de ajudante mágico…O relacionamento com o ajudante mágico é necessariamente ambivalente: os ajudantes são odiados …pelo facto de que é inadequado o poder protectivo que eles têm.” Porque a origem do sofrimento está em outro “sítio", não no amante.

O narcisismo
Considerei a possibilidade de Eric ter como traço de carácter, a ambivalência, porque ama e odeia a mesma pessoa, e devido ao perfil psicológico apresentado no livro: “o seu horror de ser vitima de logro…” “ o seu receio de se expor encerra-o numa couraça de dureza…” “a sua altivez…”. São características do narcisismo.

O novo amor
É preciso que se diga que este amor, que não foi vivido, não tanto devido às circunstâncias da guerra, mas sobretudo pelo carácter das suas personagens, termina com a execução de Sofia. Sofia tinha encontrado, no final do romance, o “amor verdadeirona pessoa dum jovem camponês russo” , como nos relata Eric, mas estava agora, do lado do inimigo, a que ele próprio pertencia.

A culpa persecutória
No momento da execução, Sofia pede para que seja Eric a disparar o tiro. O primeiro tiro destruiu-lhe o rosto. Nem as razões da Guerra o justificavam. Nem o comportamento de Sofia, reconhecido por ele como uma boa pessoa. É um ódio, fruto de uma dor inominável, sem objecto. A aparente ligeireza com que Eric a mata, pode ser entendido como uma manifestação da culpa persecutória, por a ter feito sofrer. Há quem, por gerir mal a culpa, provoque mais dano do que o causado inicialmente.

A violência inconsciente
A necessidade de vingança de Sofia pode ter sido a razão do pedido. Se Eric lhe provocou violência oculta, esta costuma ser sentida algum tempo depois do episódio que a gerou, como nos refere Coimbra de Matos em “Violência Inconsciente”, publicado na Revista Portuguesa de Pedopsiquiatria, Nº 2, 1991.

A omnipotência
A história termina com Eric a nos dizer “Com mulheres destas, cai-se sempre no laço.”
Há em Eric uma omnipotência, por acreditar que Sofia havia de amá-lo até ao fim da vida só porque ele assim o desejava.











sábado, 4 de setembro de 2010

A ambivalência (1)

Eric: “Tive para com ela insolências e ternuras alternadas, todas visando um mesmo objectivo, que era o de fazê-la amar e sofrer mais, e a vaidade comprometeu-me para com ela como teria feito o desejo. Mais tarde quando ela contou para mim, suprimi as palavras meigas”
Marguerite Yourcenar, O Golpe de Misericórdia

O contexto em que Eric se exprime, não é de uma discussão. Eric manifesta ambivalência como traço de carácter, porque nele coexistem o amor e ódio, ou seja, um impulso para destruir e um impulso para conservar, Sofia. Ou melhor dizendo, um conflito entre o amor e a agressão.
Mas esse ódio, embora não pareça, é muitas das vezes oculto. Expressa-se por mil gestos que desqualificam e culpabilizam Sofia, deixando-a angustiada e desorientada. Ele às vezes, até parece que se interessa, pensa. Mas, Sofia está apaixonada, e possivelmente pelo seu estado, tem algumas dificuldades em compreender Eric. Nos seus pensamentos o que parece verdade, também parece ser o seu contrário.
Mais tarde, quando Sofia se torna importante para ele, Eric deixa-se de ternuras, isola o afecto - não consegue amar quem deseja e desejar quem ama. O mesmo fazem os homens que são ternos com prostitutas ou até com pessoas que desprezam, e não o são com as suas mulheres.

Continua…

quarta-feira, 30 de junho de 2010

As fases do amor e do ódio



A nossa capacidade de amar necessita ser desenvolvida, e tal como o amor, o ódio faz parte da nossa condição humana. Um, não existe sem o outro. Aliás, amar só é possível se conseguirmos vencer o ódio, as decepções, e tudo o que é em regra nocivo para o próprio e para as relações humanas.
Com respeito ao ódio, cujas manifestações vão desde a simples irritação até às explosões de fúria, não é a sua existência que significa problema na relação, mas o modo como lidamos com os sentimentos que o acompanham.
De maneira a diminuir a intensidade desses sentimentos, que podem ser destrutivos, impõe-se a tomada de consciência da sua origem e a capacidade de os verbalizar.
É uma caminhada que se faz ao longo da vida, mas conta muito, ter tido pais que nos permitiram reconhecer e sentir os nossos desejos destrutivos, e tiveram “um jeitinho especial” de nos ajudar a não os pôr em prática. Sem este amor, e em infâncias de privações, humilhações, castigos…só se produz ódio.

Pensemos num bebé, nas suas necessidades e na sua situação de total dependência. As etapas do ódio e do amor, de um modo esquemático, são:
Otto Kernberg * refere duas funções para a raiva, na infância: 1ª função, eliminar a irritação. A 2º função da raiva é eliminar um obstáculo ou uma barreira que separa o bebé da sua fonte de gratificação.

- Num patamar superior de desenvolvimento psicológico, o desejo não é fazer sofrer quem frustra, mas dominá-lo e controlá-lo. Junta-se nesta fase, o desejo de vingança, próprio do ódio. Surge o sadismo – o prazer em fazer sofrer. A inveja e o ódio estão ligados. O amor e ódio, também - as gratificações e frustrações surgem da mesma fonte.
- Num patamar mais acima, a nível do desenvolvimento saudável, começa-se a tomar consciência do nosso ódio e a tolerar os sentimentos de culpa.
- Num patamar superior, é possível a sublimação do ódio, pela coragem, pelo julgamento autónomo, pela integridade moral até pelo auto-sacrificio.

*Otto Kernberg, Agressividade, Narcisismo e Auto-destrutividade na Relação Psicoterapêutica, Climpsi Editores