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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Os ecrãs impedem os jovens de desenvolver empatia. E as sociedades tornam-se "brutais"





Artigo do Jornal Publico da autoria de Alexandra Prado Coelho, publicado a 2 de Fevereiro de 2019, com o título Os ecrãs impedem os jovens de desenvolver empatia. E as sociedades tornam-se "brutais":

A resiliência constrói-se. Num ambiente de segurança, o cérebro de alguém que sofreu um trauma regenera-se “muito mais rapidamente do que imaginamos”. Mas, atenção, avisa o psiquiatra Boris Cyrulnik, uma criança que cresce a olhar para ecrãs não consegue desenvolver empatia.
A nossa capacidade de resistência à adversidade – a chamada resiliência – não está inscrita nos genes. Não nascemos com uma determinada predisposição, antes somos moldados pelo ambiente desde o útero materno e pela vida fora, e é isso que nos torna mais ou menos resilientes.
O defensor desta ideia, o neuropsiquiatra francês Boris Cyrulnik – que esteve em Portugal esta semana para fazer uma conferência na Noite das Ideias, iniciativa da Embaixada de França e do Instituto Francês, dia 31 de Janeiro, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa – sabe do que fala. Ele próprio é um exemplo de resiliência e tornou-a o tema principal das suas pesquisas e do seu trabalho de toda a vida.
Hoje com 81 anos, este sobrevivente do Holocausto tem trabalhado com pessoas, sobretudo crianças e jovens, que passaram por situações traumáticas. “A resiliência”, diz, “é uma construção constante, é um fenómeno de desenvolvimento e nós desenvolvemo-nos o tempo todo, a nível biológico, psicológico, afectivo, social.” E acrescenta, com um sorriso de garoto: “Só paramos de nos desenvolver aos 120 anos. Depois disso, é possível, mas é difícil.”
Muito do processo de regeneração de um cérebro que sofreu um trauma passa pela segurança mas também pela empatia com os outros. Ora, actualmente, com a presença constante da tecnologia nas nossas vidas, é precisamente a capacidade de criação de empatia que começa a estar em risco. E que consequências isso tem para uma sociedade?

"Uma pessoa nunca pode ser reduzida ao seu trauma"

Antes de entrarmos por aí, vamos começar por perceber o que pode afectar, positiva e negativamente, o nosso cérebro desde o início da vida. O poder dos genes, ou seja, o determinismo genético, tem o seu momento alto “no encontro do espermatozóide com o óvulo”, depois disso é o meio que começa a agir sobre o jovem feto. “Há meios que orientam [a criança] para a aquisição de factores de protecção e outros para a aquisição de factores de vulnerabilidade. Se a mãe está stressada, segrega substâncias que passam no líquido amniótico e o bebé adquire esses factores de vulnerabilidade. Se a mãe se sente segura e feliz, o bebé desenvolve-se bem e tem factores de protecção.”
A forma como, por exemplo, essas substâncias segregadas pela mãe alteram o cérebro do bebé pode ser observada em exames neurológicos. As crianças afectadas pelo stress materno “nascem com uma alteração dos dois lóbulos pré-frontais e do sistema límbico e a amígdala do cérebro reage muito fortemente”. Isto significa que “chegam ao mundo com uma alteração cognitiva pela situação de precariedade social da mãe”.
Um ambiente onde a criança se sinta protegida é, por isso, essencial. A boa notícia é que “o cérebro regenera muito rapidamente”. Mesmo um trauma profundo pode curar-se “muito mais facilmente do que imaginamos”. A consciência disso deve-se, em grande parte, ao trabalho que Cyrulnik desenvolveu. “Antes dizíamos sobre estas crianças, é genético, não vale a pena preocupar-nos com elas. E não nos ocupávamos. Hoje rodeamo-las de segurança e a resiliência regressa. Em 48 horas começam a segregar hormonas de crescimento e hormonas sexuais, sejam masculinas ou femininas. Mas se não os rodearmos de segurança passam a vida toda em sofrimento”
Boris Cyrulnik tinha sete anos quando perdeu os pais, levados pelos nazis para Auschwitz, onde morreram. Antes de ser detida, a mãe confiou o rapaz a uma família, que acabou por o entregar também aos alemães. Conseguiu escapar, escondendo-se numa sinagoga, da qual acabou por conseguir fugir, tendo trabalhado numa quinta para conseguir sobreviver até ao final da guerra. Só aos dez anos é que foi entregue a uma família que o criou.
Depois disso, as tentativas que fez para falar da sua situação depararam com um muro de indiferença. Os franceses não queriam ouvir, da boca de uma das vítimas, a história de como tinham abandonado e condenado à morte crianças judias. Num país também ele profundamente traumatizado, Boris Cyrulnik percebeu que não valia a pena insistir em contar a sua história. Mas foi também esta experiência que o fez perceber que queria ser psiquiatra.
A ideia de que uma criança, por maior que seja o trauma que sofreu, não pode ser ajudada a ultrapassá-lo é o que mais o indigna – e, trabalhando com órfãos na Roménia, vítimas de genocídio no Ruanda, ou crianças-soldado na Colômbia, foi reforçando essa convicção. “Uma pessoa nunca pode ser reduzida ao seu trauma”, costuma dizer.
Há, contudo, outros factores que devem ser tidos em conta – a diferença entre rapazes e raparigas, por exemplo, que se nota logo no desenvolvimento nos primeiros anos de vida. “As raparigas começam a falar cerca de cinco meses antes dos rapazes. Porquê, não sei. Mas é um factor de protecção, porque quando estão infelizes podem dizê-lo, podem pedir ajuda, enquanto os rapazes não sabem dizê-lo e passam à acção mais rapidamente.” Passagem à acção que vão manter como característica de comportamento ao longo da vida.
Quando chegam à adolescência, “as raparigas, que têm uma biologia mais estável, têm um avanço neuropsicológico de cerca de dois anos relativamente aos rapazes”. Não só falam melhor, como são “mais estáveis emocionalmente” e já terminaram a sua “fadiga de crescimento”.
Nas décadas seguintes, nota-se que as raparigas e as mulheres “aprendem os rituais de interacção melhor que os rapazes” e continuam a “dominar a palavra” – se isso ainda não parece ser evidente no espaço público, onde a visibilidade das mulheres continua a ser menor, Boris Cyrulnik acha que é apenas uma questão de tempo: “Há aí [nessa invisibilidade] um grande determinismo social. Mas penso que isso vai desaparecer em dez anos”.
O domínio masculino no espaço público está ligado à força física e à violência. “A violência foi um factor adaptativo em todas as culturas. Muitos sociólogos dizem que é pela violência que a sociedade se constitui. Se os homens não fossem violentos, a espécie humana teria desaparecido”.
Na sua infância e juventude, durante a II Guerra Mundial, “o trabalho era uma forma de violência, 15 horas por dia, seis dias por semana”. Recorda as vidas duríssimas dos mineiros em França ou dos operários dos estaleiros navais. “Era um trabalho de uma violência extrema, os operários tinham as costas feridas pelos pedaços de carvão que lhes caiam em cima, as mulheres tinham que os lavar para evitar as infecções e para que eles pudessem ir trabalhar no dia seguinte, senão, não haveria dinheiro nem comida.”
A força e a violência eram, portanto, essenciais e isso fazia com que os homens fossem “vistos como heróis”, sendo, por isso mesmo, “sacrificados na mina ou na guerra”. Esta violência adaptativa não faz sentido nas actuais sociedades ocidentais como a europeia, por exemplo, mas continua a fazer sentido em países em guerra. A diferença é clara: “A violência é destruição num contexto de paz mas é construção social num contexto de guerra”. Daí que no Médio Oriente “um rapaz que não é violento, é desprezado, pela mãe, a mulher, os outros rapazes”.
“No mundo actual [ocidental], o sector terciário desenvolveu-se, a escola também, as mulheres têm desempenhos iguais ou superiores aos homens e a violência já não tem valor de construção da sociedade, é apenas destruição”, explica. “Mas isso só acontece desde os anos 60 do século XX. Eu nasci em 1937, faço parte de uma geração na qual apenas 3% das crianças estudavam. Os outros iam trabalhar, com 12, 13 anos, os rapazes para a mina, as raparigas para casa, e a maternidade acontecia aos 16, 17 anos. Hoje isso é impensável.”
E, no entanto, mesmo que desadaptada ao contexto actual, a violência contínua de certa forma inscrita na nossa “memória transgeracional” – pronta a renascer assim que for necessária. “Acontece nas sociedades que se afundam, por exemplo, o Brasil, a Venezuela, que estavam numa curva ascendente e a violência era muito combatida, sobretudo pelas mulheres, porque se manifestava apenas na destruição do casal, da família, da sociedade.” Quando a crise económica faz afundar o país, “a violência reaparece e torna-se um valor adaptativo e nesse contexto um homem que não é violento é imediatamente eliminado”.
Ao longo da sua carreira, Cyrulnik viu muitas situações nas quais esses instrumentos de adaptação da espécie humana vinham ao de cima, tanto a violência como, por outro lado, a solidariedade. E percebeu que são valorizados de forma diferente conforme o contexto. No entanto, nota, a solidariedade que surge nessas circunstâncias é geralmente “de clã, de grupos com as mesmas crenças religiosas, a mesma cultura, a mesma cor de pele, o mesmo nível social”.
Quanto à violência, “nas guerras condecoramos os psicopatas quando matam um adversário, e em alturas de paz colocamo-los na prisão – eles são sempre psicopatas, é o meio que valoriza, ou não, a passagem ao acto”.
Esta presença da violência, que “atravessa todas as culturas”, ajuda a perceber também a vitimização da mulher. “Elas sofreram, foram massacradas, porque são menos dotadas para a violência”. Por outro lado, quando a situação piora e a violência se torna novamente adaptativa, “as mulheres valorizam os homens violentos e querem estabelecer laços com eles”. O que acontece hoje, em contextos de paz, é que “as mulheres, que foram de facto vítimas, e algumas ainda são, servem-se da noção de vítima para tomar o poder e legitimar a própria violência, que não é física, mas verbal”.

O bebé “precisa do cheiro” da mãe

Está também a surgir nas nossas sociedades outro fenómeno que preocupa o psicanalista: a dificuldade de desenvolver empatia, que afecta sobretudo os mais jovens. A empatia é algo que implica interacção humana, sublinha. E quando grande parte da relação com o mundo é feita não através de outros seres humanos mas sim de ecrãs de televisões, computadores ou telemóveis, é muito mais difícil aprender a empatia.
E, no entanto, esta é algo que um bebé recém-nascido adquire com uma surpreendente facilidade. “Os bebés compreendem imediatamente a menor variação da mímica facial da mãe, desde muito pequenos. Somos uns virtuosos, únicos entre as espécies vivas a lidar com a mímica facial.” Daí que seja difícil criar um robot que possa realmente substituir uma pessoa.
Mas, relativamente à tecnologia, Cyrunik não tem uma posição redutora. “Tinha um amigo com uma clínica de hemodiálise e duas ou três vezes por semana as pessoas dormiam na clínica e criavam laços com a máquina, queriam sempre a mesma porque já conhecia as reacções deles. Como na psicanálise, havia uma relação transferencial.”
Por outro lado, “quando as crianças são criadas com ecrãs, são privadas da interacção, das palavras, do piscar de olhos, dos sorrisos; com um ecrã não há rituais de interacção”. Isso faz com que “tenham um atraso no desenvolvimento da linguagem quase como uma criança autista, não sabem descodificar as interacções, se alguém lhes sorri não compreendem, não aprendem os pequenos gestos que nos permitem viver juntos, socializam mal, tornam-se impulsivos”. Um bebé, frisa Cyrulnik, “precisa do cheiro, do calor dos braços da mãe”.
Se um bebé “é isolado antes de adquirir a palavra, o que acontece até aos 21 meses, há uma atrofia dos lóbulos pré-frontais e dos anéis límbicos”. São crianças que crescem “com um cérebro moldado pelo fracasso social e cultural” e “não conseguem controlar as suas emoções”.
Por isso, a ligação que muitos jovens (e não só) estabelecem hoje com esses ecrãs omnipresentes preocupa-o. “Já há consequências. Os jovens que passam mais de três horas por dia em frente a ecrãs mexem-se menos, encontram-se menos com os outros, têm mais depressões e, sobretudo, param o desenvolvimento da empatia – a aptidão a descentrarem-se de si próprios para conseguir a representação do mundo mental dos outros”.
A ausência de empatia manifesta-se, diz Cyrulnik, na forma como muitas pessoas “não estão atentas aos outros”. “No metro de Paris, por exemplo, isso é flagrante. Estão no meio da porta e não se mexem quando os outros querem entrar ou sair. Estão centrados neles mesmos porque a escola centrou-os sobre eles mesmos, os ecrãs também e aprenderam mal os rituais de interacção”.
O exemplo do metro pode ser menor, mas Cyrulnik confirmou esta constatação noutras situações mais graves. Recorda um rapaz que, no hospital e quando uma pessoa da família acabara de morrer e os outros familiares choravam, ria a olhar para alguma coisa no telemóvel. Ou outro que assaltara uma senhora que caíra acabando por morrer em consequência de uma pancada na cabeça e que respondia apenas que “se ela tivesse largado a mala não teria morrido”.

"Sociedades brutais"

Uma sociedade com menores níveis de empatia é necessariamente mais perigosa, conclui. “Os psicopatas podem matar, roubar, violar, sem culpabilidade”. Por isso defende a necessidade de se desenvolver uma “pedagogia da empatia”, que deve começar nas escolas, para explicar que “não nos podemos permitir tudo”. Tal como é preciso perceber que “se um rapaz tem um desejo sexual não pode permitir-se tudo”, também uma rapariga que não esteja interessada nele “não pode permitir-se tudo, não pode humilhá-lo”.
Conseguirmos colocar-nos no lugar do outro – é isso a empatia e também, segundo Cyrulnik, a base da moralidade – ajuda a perceber que nem tudo é possível. “Temos, como sociedade, que ter uma maior consciência disso”. Em França, após a I Guerra Mundial havia um enorme número de órfãos e “praticamente todos conseguiram rapidamente uma família de acolhimento”. Hoje, nessa mesma França, em paz, “passam 16 meses entre o alerta de que uma criança está em risco e o momento em que vai encontrar uma família, e são 16 meses em que a criança é infeliz”. A ausência de empatia, avisa, “faz sociedades brutais”.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

ENTREVISTA a Boris Cyrulnik


Tema: Resiliência
Entrevista realizada por  Lic. Patricia Faur em 2014, Toulon, Francia, nas IV Jornadas de SAPINE.

Uma outra entrevista, em: http://www.sab.org.br/portal/

Dr Boris Cyrulnik é neurologista, psiquiatra e psicanalista. Foi um dos fundadores do Grupo de Etologia Humana, ensina Etologia e dirige um grupo de investigação na Faculdade de Medicina de Marselha. Publicou, Memória de Macaco e Palvras de Homem e Sob o Signo do Afeto; Os patinhos feios entre outras obras.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A distinção entre imigrante e refugiado vale em tempo de paz. Mas estamos em tempo de guerra


Entrevista da Ana Dias Cordeiro a Roberto Beneduce, que saíu no Jornal Publico,a 30.11.2015, com o título “A distinção entre imigrante e refugiado vale em tempo de paz. Mas estamos em tempo de guerra”

"Temos a nossa quota-parte de responsabilidade na crise que agora nos sufoca", diz Roberto Beneduce, fundador do Centro Franz Fanon, de apoio psicológico aos imigrantes e refugiados, em Itália.

O psiquiatra e antropólogo italiano Roberto Beneduce dirige em Turim o Centro Frantz Fanon, de apoio psicológico a imigrantes e refugiados, que fundou em 1996. Na semana passada, esteve em Lisboa a convite do Instituto de Ciências Sociais (ICS) para a apresentação da palestra Europa, refugiados e retóricas de crise no IV Fórum da Associação Portuguesa de Antropologia. Em entrevista ao PÚBLICO, o professor da Universidade de Turim e autor de variadíssimos estudos académicos diz que “a fragilidade dos imigrantes e refugiados é materialmente produzida” pelos sistemas europeus, e “não unicamente pelos [seus] passados traumáticos”.
Quando os refugiados chegam a um país de acolhimento do que precisam concretamente?

A primeira necessidade é a de ser protegido relativamente a um mundo que é entendido como um mundo que ameaça, que persegue. É preciso imaginar os cuidados como uma protecção. É a partir dessa relação de protecção que podemos considerar um trabalho terapêutico autêntico. Os imigrantes perderam a confiança no mundo. É preciso saber trabalhar com pessoas que se sentem vigiadas, ameaçadas.

Esse é um dos desafios para os países que acolhem?

A imigração obriga-nos a reflectir ao mesmo tempo sobre nós mesmos e sobre os outros, sobre as nossas sociedades, os nossos sistemas, a nossa formação do Estado, a nossa História. A mensagem que tento passar — e tentei passar na conferência de quinta-feira — é que temos de imaginar uma abordagem nova relativamente à questão da imigração. Não apenas de um ponto de vista administrativo e das leis, mas também de um ponto de vista do conhecimento daqueles que cuidam dos refugiados. A ideia é aceitar o desafio da incerteza. Eu trabalho desde o início dos anos 90, mas tenho de começar sempre, e de novo, a pensar os problemas. Não é uma questão de retórica.

Porque as circunstâncias das pessoas que chegam são sempre diferentes?

As suas circunstâncias são, em cada momento, diferentes. Mas ao mesmo tempo, ao longo dos anos, tudo muda: as leis europeias, o perfil dos refugiados, o contexto geopolítico. Durante a guerra na ex-Jugoslávia houve uma atitude positiva e agora há uma resistência.

As pessoas são menos tolerantes agora do que eram nos anos 90?

Não é apenas isso. O caso do Balcãs foi um caso em que fomos [os países europeus] de certa maneira responsáveis. Decidimos de certa maneira intervir. Os problemas eram muito próximos de nós e sentíamos uma necessidade moral, não só política, de intervir. Agora, é como uma coisa imprevista que quereríamos repelir e que continua a pôr em causa as escolhas políticas dos nossos governos. Nós somos co-produtores da imigração, não somos apenas países que acolhem. Somos co-responsáveis pelo que se passa. Devemos reconhecer de forma autocrítica a nossa responsabilidade passada e presente.

O desafio é inédito ou o maior que alguma vez existiu desde os anos 40?

O desafio é inédito, porque põe a nu os erros de uma política internacional que começam em 2001 com o ataque às torres gémeas [em Nova Iorque]. A partir de 2001, reproduzimos erros atrás de erros. E construímos um território de guerra do Iraque e Afeganistão até à Líbia. Temos por isso a nossa quota-parte de responsabilidade na crise que agora nos sufoca.

Quando diz nós, refere-se a quem? Aos governos europeus e também aos Estados Unidos?

Sim. É preciso reconhecer que há uma ignorância dos nossos ministros dos Negócios Estrangeiros que não são capazes de prever o que se passa. Somos, cada vez mais, confrontados com problemas que nos ultrapassam. E os nossos governos não são capazes de assumir a responsabilidade de uma ignorância que é trágica, com as consequências que daí resultam.

Atribui o mesmo tipo de responsabilidade à Europa e aos Estados Unidos?

Não posso generalizar a todos os países europeus. Cada país assume a sua própria política. Mas não podemos deixar de nos interrogar sobre o que, por exemplo, a França fez na Líbia ou no Mali, e a Inglaterra no Iraque. Não nos podemos limitar a reconhecer os erros quando há milhares de mortes entre civis. Vamos estar perante estes problemas por muito tempo. Muito trabalho será exigido. As dificuldades económicas que estão, há anos, na origem deste problema migratório não encontram respostas para já. As desigualdades estão a aumentar. E as desigualdades dos direitos são uma das razões fundamentais deste processo caótico de imigração.

O compromisso de recolocar 160 mil refugiados foi assumido no Conselho Europeu no final de Setembro. Dois meses depois, o processo continua muito atrasado. Qual a razão?

Não é difícil reconhecer a distância entre a dimensão do problema e a pequena medida da solução. O número de refugiados não pára de aumentar. Não podemos fazer uma divisão destas pessoas [por diferentes países] e pensar que, com isso, os problemas ficam resolvidos. É um esforço, um começo de resposta, mas verdadeiramente apenas o início. A lentidão da nossa resposta só aumenta o ressentimento dos imigrantes.

Esta demora cria um impacto psicológico nas pessoas?

Esta imprevisibilidade das leis, que não tem nada que ver com uma ideia de direito, de assistência, uma ideia de saúde ou de vulnerabilidade, cria o problema e produz sintomas. Estamos a criar um mal-estar, um sofrimento, uma sintomatologia, mas também uma agressividade. Amigos meus refugiados dizem-me que, se os governos continuarem a não dar respostas autênticas à situação dos refugiados, criarão problemas sociais ainda maiores. Não podemos pensar que as pessoas permaneçam anos a fio à espera nestes territórios, em campos, face a leis que mudam consoante o país, consoante o governo. Não há direitos humanos que sejam reconhecíveis, apesar da retórica utilizada.

Cada país de acolhimento devia ter centros de apoio psicológico aos refugiados, como aquele que dirige em Turim?

Absolutamente. É preciso imaginar estruturas com competências. Na Itália, os serviços públicos não têm necessariamente a competência para escutar este tipo de problemas, muito complexos e não apenas ligados à língua ou à cultura. É preciso desenvolver competências entre os profissionais da saúde e ter centros que possam ser considerados também como laboratórios onde outros conceitos comecem a ser postos em prática. Na Itália, na França, na Suíça e em Inglaterra, houve nos anos passados centros que deram um contributo para repensar os meios da cura e a eficácia da escuta. E agora existem outros centros. O nosso centro continua a ser uma referência.

Ao cruzar os conhecimentos da antropologia e a psiquiatria?

No nosso centro, os colegas questionaram-se sobre os limites do conhecimento e encontraram na antropologia um território necessário no trabalho com pessoas provenientes de um outro contexto geopolítico e cultura. Passaram a ter uma dupla competência: clínica, terapêutica, e ao mesmo tempo antropológica. Não podemos imaginar cuidar dos refugiados sem repensarmos os nossos instrumentos, as nossas categorias.

No centro, acolhem todos os migrantes: refugiados de guerra ou imigrantes económicos?

O apoio psicológico é dado a todos sem distinção, pessoas com ou sem estatuto de refugiado, em situação clandestina, pessoas cujos problemas psicológicos ou psicossociais precisam de ser tratados. O contexto de quem, há décadas, está confrontado com uma guerra de alta ou baixa intensidade provoca pobreza, incerteza e cria imigrantes económicos que vêm de contextos de guerras. E vice-versa: a pobreza alimenta conflitos e violências de todo o tipo.

Mas não é necessário distinguir entre refugiado e imigrante, quando são assumidos compromissos para o acolhimento?

É uma distinção que pode valer em tempo de paz. Mas estamos em tempo de guerra. A Líbia, o Mali, o Iraque, o Afeganistão são países cujas economias foram destruídas. Uma pessoa que não estava directamente exposta à violência, à tortura ou à guerra está, mesmo assim, exposta à pobreza, à incerteza, e tem o mesmo direito de escapar a tudo isso do que um sírio. Um escritor senegalês dizia que o jovem que emigra de um país procura fugir de um destino de mediocridade. Acho este diagnóstico sociológico muito eficaz. Se não há uma guerra, há um destino de mediocridade que ninguém pode tolerar, hoje.

A perda de confiança dos imigrantes não é apenas no seu país de origem?

Consideremos os países em guerra, onde o inimigo pode ser também o vizinho, ou pode estar na mesma rede familiar. Essa é a primeira ferida. A guerra e a violência fazem ruir a nossa classificação do mundo. O amigo e o inimigo deixam de ser reconhecíveis como antes. Mas, além disso, ao longo dessa viagem dramática para a Europa, os outros são, muitas vezes, uma ameaça, porque exploram o desejo da pessoa de chegar ao destino. Mesmo aquele que viaja connosco pode transformar-se numa pessoa que manipula o nosso projecto e que pode roubar o nosso dinheiro. A fuga dos países de origem é acompanhada de uma enorme crise moral.

Essa perda de confiança no mundo acentua-se à chegada ao destino?

Com toda a bagagem de sofrimento, quando chegam à Europa e são confrontados com leis, muitas vezes, inexplicáveis, ou com limites burocráticos que parecem ignorar completamente a tragédia pela qual passaram, continuam a questionar-se sobre o que fazer para serem reconhecidos como seres humanos, antes de serem reconhecidos como refugiados. A fragilidade é materialmente produzida e construída pelos nossos sistemas, e não unicamente pelos passados traumáticos destas pessoas. E se, durante muitos anos, uma pessoa não tem o direito de trabalhar, nem a possibilidade de ter residência, o mundo desaba todos os dias debaixo dos seus pés. É preciso dar uma protecção, no longo prazo, à fragilidade destas pessoas, que não podem ser de novo confrontadas com sistemas persecutórios e unicamente de controlo.
O traumatismo pode ser permanente?

Há traumatismos que deixam feridas profundas, mas essa profundidade pode ser um reflexo da falta de respostas e da sensibilidade nas sociedades de acolhimento. Por isso, digo que o traumatismo é, em muitos casos, terrível e que muitos deles têm um futuro que está comprometido. Muitas vezes, pessoas que conheceram tragédias deste tipo revelam-se incapazes de responder às expectativas dos outros. Manifestam frequentemente sintomas muito graves. Não podemos pensar que somos omnipotentes, que somos capazes de responder a todos os problemas. Mas à medida que aumentamos a nossa sensibilidade, os traumatismos muito graves podem recompor-se. Conheci muitas histórias em que houve uma melhoria na capacidade de restabelecer relações e de voltar a imaginar projectos. Na minha experiência clínica, vi muitas pessoas que tinham passado por dramas e que foram capazes de recomeçar a sua vida e de imaginar uma família. E também de se tornar um sujeito político, que pensa como resolver o problema dos outros.

domingo, 29 de novembro de 2015

É preciso dar sentido ao medo, torná-lo inteligível



A entrevista de Ana Gerschenfeld a Hélène Romano que saiu no Jornal Publico a 20.11.2015, com o título “É preciso dar sentido ao medo, torná-lo inteligível”:

“É difícil imaginar o medo que sentiram – e sentem – os parisienses no rescaldo dos atentados terroristas de há uma semana na sua cidade. A psicóloga francesa Hélène Romano dá-nos algumas chaves para o perceber.
Hélène Romano é especialista em psico-traumatismo e trabalhou durante mais dez anos na célula de urgência médico-psicológica do Val-de-Marne (arredores de Paris). Lida sobretudo com os problemas das crianças e das suas famílias na sequência de eventos traumáticos e, nos últimos dias, tem sido solicitada não só no terreno, mas também pelos media franceses para aconselhar os pais sobre como explicarem aos seus filhos os ataques terroristas de 13 Novembro. Em conversa telefónica com o PÚBLICO, falou-nos das especificidades desse medo – que de terror imediato pode transformar-se numa coisa tóxica, crónica, que invade e envenena a vida – e de possíveis maneiras de o controlar.
O principal objectivo do terrorismo é provocar o medo – o terror – nas populações. Quais são as manifestações específicas do medo na sequência de atentados como os do 13 de Novembro em Paris?
O medo evolui com o tempo: há o medo no próprio dia, no dia seguinte, há o medo das crianças, dos adultos. No momento do atentado, o que as pessoas sentem é mesmo terror, porque não percebem, há um sentimento de irrealidade, de pesadelo. É um medo a que não conseguimos dar um nome, que não conseguimos perceber. E nesse instante, pode haver reacções totalmente inadaptadas – por exemplo, as pessoas não procuram abrigo, estão em negação total, fogem, entram em pânico.

Passadas 48 horas, começa a haver informação, começa-se a perceber melhor. A grande maioria das pessoas costuma recuperar minimamente – e o terror transforma-se num medo mais “razoável”, por assim dizer, um medo que percebemos porque sabemos o que aconteceu, onde aconteceu e eventualmente por que aconteceu. É um terror mais elaborado e as nossas reacções tornam-se mais adaptadas.
É preciso dizer que o medo é uma reacção adaptativa, é um modo de defesa que inicialmente nos protege, que nos permite permanecer alerta – é algo de positivo. Mas pode tornar-se tóxico – e podemos dizer que, nas semanas a seguir, vemos por vezes o medo evoluir e transformar-se num transtorno. O medo adquire um carácter irrazoável, que se pode manifestar por perturbações como ansiedade, fobias, atitudes de evitamento, transtornos obsessivos-compulsivos e ainda outras patologias.
Portanto, o medo tem vários rostos ao longo do tempo. Passa-se frequentemente de um medo sem nome, que é o terror, a um medo que começa a ser decodificado – sabemos por que temos medo. E finalmente, em certos casos, mas não em todos, vemos um medo que se torna patológico, tóxico, e onde a pessoa fica novamente esmagada, sem capacidade para descrever o porquê e o como.
Qual é a proporção de pessoas que evoluem desta forma?
Os estudos de acompanhamento de pessoas que foram confrontadas com acontecimentos traumáticos mostram que cerca de 37% desenvolvem transtornos persistentes. Não é a maioria, mas é um número substancial. 

No primeiro mês, em termos psicopatológicos, não falamos em transtornos. Nesse período, as reacções de stress agudo são consideradas como adaptativas. O que não quer dizer que não façamos nada entretanto: começamos logo a reconfortar as pessoas, a acompanhá-las para que não fiquem sozinhas, para evitar precisamente que as coisas se tornem patológicas.
Só começamos a falar em transtornos patológicos preocupantes quando, volvido pelo menos um mês desde os acontecimentos traumáticos, os problemas subsistem pelo menos mais um mês. Ou seja, só consideraremos que os problemas de ansiedade de uma pessoa, decorrentes dos atentados do 13 de Novembro, se possam tornar patológicos a partir de 13 de Dezembro. É só falaremos mesmo em transtornos instalados, crónicos, a partir de 13 de Janeiro de 2016.
O que complica a situação é que, por vezes, os transtornos surgem muito rapidamente, mas noutros casos as pessoas não parecem perturbadas e só descompensam mais tarde.
Por exemplo, telefonou-me uma amiga que estava em Paris aquando da onda de atentados de 1995 [atribuídos ao Grupo Islâmico Armado, entre outros, na estação de metro Saint-Michel]. Tinha sido ligeiramente ferida, mas tinha ultrapassado bem a situação.
Ela vive hoje na região de Charente (Sudoeste da França), mas desde os atentados de 13 de Novembro que não consegue sair de casa, por causa dos pesadelos que tem tido, não sobre estes ataques recentes, mas sobre os atentados de 1995.
Desenvolveu agora comportamentos fóbicos, ritualizados, que antes não tinha. Mas os acontecimentos traumáticos que a assombram remontam a 20 anos!
A minha amiga está actualmente a viver uma situação insuportável, que invade a sua vida toda. Foi ver um médico, que lhe disse para ser razoável. Mas é precisamente isso que acontece com os transtornos pós-traumáticos: manifestam-se muito tempo depois.
Um outro exemplo diz respeito aos atentados de Janeiro [noCharlie Hebdo]: vemos pessoas que tinham recuperado bastante bem, mas que agora estão a desmoronar-se completamente, porque os ataques da semana passada reactivaram angústias de atentados, de insegurança, o sentimento de terem perdido o controlo da situação.
De facto, qualquer estalido pode reactivar o medo e suscitar reacções complicadas. E as sirenes de ambulância tornam-se assustadoras.
Este medo é diferente do medo provocado por outras vivências traumáticas, tais como acidentes de viação, a morte de pessoas chegadas, a violência e o abuso sexuais?
A especificidade deste medo é que é provocado por algo que não pode ser circunscrito, na medida é que um acontecimento destes pode surgir em qualquer altura.

Isso é gerador de uma grande insegurança psíquica. Por exemplo, em relação aos atentados nos aviões, as pessoas podem simplesmente deixar de viajar de avião; e para evitar os acidentes da estrada, basta deixar de andar de carro. Mas no caso de atentados como os de agora em Paris, a única solução é não sair à rua. E, a menos que se fique fechado dentro de casa, não há estratégia de evitamento possível, o que é obviamente complicado e difícil de suportar.
O medo das pessoas que foram fisicamente atingidas pelos ataques – os sobreviventes – é diferente do medo daquelas que viram os ataques na televisão?
É. As pessoas que estavam nos locais atacados viram imagens, cheiraram odores, ouviram ruídos. Isso é algo de altamente gerador de trauma. As pessoas que viram os ataques na televisão viram imagens, mas o impacto traumatogénico da experiência sensorial dos sobreviventes é certamente muito maior.

É possível lutar contra esse medo? Existem estratégias que permitem controlá-lo?
Há 15 anos que trabalho com vítimas de atentados enquanto especialista de psico-traumatismos, nomeadamente em meio hospitalar.

A primeira coisa a fazer é não ficar em negação. Mais vale reconhecer que temos medo e saber o que fazer com ele. Saber como esse medo se manifesta – e que varia de uma pessoa para outra. De facto, para controlar melhor o medo é preciso pôr nomes nas coisas. E no caso das crianças, por exemplo, tentar determinar quando é que o medo de cada uma é mais intenso, para poder pôr em prática, nessas alturas, estratégias de reconforto.
É preciso dar sentido ao medo, torná-lo inteligível – e é isso que tentamos fazer no nosso trabalho. E uma vez ultrapassado o estado de negação, quando as pessoas percebem que não devem ter medo do medo, têm de se perguntar o que é que mais as ajuda quando têm medo. Em termos pessoais, individuais, e também em termos colectivos.
É desta forma que conseguimos ajudar uma criança ou um adulto a recuperar a sua capacidade psíquica de resistir às situações complicadas. E é isso que fazemos. Não no próprio dia, claro, porque logo a seguir ao acontecimento é sobretudo preciso dar-lhes reconforto e permitir-lhes encontrar um ambiente onde se sintam seguros, mas mal começam a surgir transtornos irracionais.
Em relação às crianças, o que se deve fazer? É importante falar com elas? Nós próprios temos dificuldade em perceber o sentido dos atentados, o que dificulta ainda as explicações que podemos dar às crianças…
Pois. As crianças precisam sobretudo de saber que os seus pais estão lá, que não os vão deixar cair. O facto de os pais explicarem o que se passa pode ajudar uma criança de quatro, cinco anos, a perceber por que é que agora, em Paris, há na rua tantos militares por todo o lado. Porque é um facto que a vida dos parisienses mudou, pelo menos nalguns bairros. É preciso explicar que há maus muito, muito maus – pode mesmo falar-se em terroristas e dizer que não são uns maus quaisquer.

Mas se os pais acharem muito complicado explicar essas coisas aos filhos, então podem sempre admitir, tanto aos mais pequenos como aos mais velhos, que acham complicado e que não conseguem explicar, porque não percebem bem o que está a acontecer.
E, sempre, repetir que estão junto deles, que gostam muito deles e que nunca os irão abandonar. Abraçá-los e dar-lhes beijinhos para os reconfortar. Isso dá às crianças um sentimento de segurança, o que já por si é um passo enorme, enorme.
Mas os pais de crianças mais velhas têm de lhes dar os meios de se protegerem quando estão na rua.
Sim, e é por isso que, em relação às crianças já com três, quatro anos, que vão a escola e que vêem o que se passa na rua, convém clarificar as coisas e explicar que vivemos num contexto particular. Os pequenos sabem o que é a guerra através dos filmes. Não se trata de lhes dizer que o país inteiro está em guerra, porque a realidade também não é essa, mas que há actos de guerra, chamados actos terroristas, explicando-lhes que são pessoas más, más, más. E a partir dos cinco, seis anos, também é possível transmitir-lhes, embora elas possam não perceber logo, a ideia de que estes terroristas são “ideólogos” – que são pessoas que, quando os outros não pensam como elas, querem destruí-los. E que as vezes até estão dispostos a se destruírem a si próprios para destruir os outros.

Tudo isso permite dar sentido às coisas. É um pouco como quando um pai ou uma mãe tem um cancro. Como a palavra cancro mete medo a toda a gente porque é conotada com a morte, as crianças dizem que o pai ou a mãe “está doente”. Mas de cada vez que alguém estiver doente, a criança vai achar que é a mesma coisa. E nós vemos, nas crianças que acompanhamos, que é mais reconfortante e estruturante pôr as palavras certas nas coisas, e dizer que a mãe ou o pai tem uma doença muito, muito, muito grave – e eventualmente rara –, chamada cancro. É uma doença particular. O mesmo vale para as doenças psiquiátricas. “Não vamos falar em esquizofrenia”, ouvimos dizer, “é muito complicado!”. Mas em última análise, dizer a uma criança que alguém tem “um dói-dói na cabeça” não a faz sentir-se mais segura.  
Publicou um livro com o neuropsiquiatra francês Boris Cyrulnik, conhecido pelo seu trabalho sobre a noção de resiliência psicológica. O que é a resiliência?
A resiliência é a capacidade de se desligar de um impacto traumático. E o que sabemos através de estudos sobre a resiliência é que não estamos todos em pé de igualdade nesta matéria.

A resiliência depende dos recursos prévios, do contexto do trauma e dos recursos disponíveis a seguir. Os recursos prévios são a capacidade de se proteger. Uma criança que foi criada num clima de confiança em si e nos outros sabe que, quando acontece um drama, pode contar com os outros, que não está sozinha no mundo.
Depois há o contexto: durante os atentados, uma criança que estivesse sozinha, que não tivesse o pai ou a mãe para a reconfortar, enfrenta agora uma situação extremamente complicada. É o caso, por exemplo, de um menino que estou actualmente a acompanhar, que tem cinco anos e que perdeu o pai e a mãe nos ataques de 13 de Novembro.
Quanto aos recursos posteriores, sabemos que uma criança ou um adulto que consigam reencontrar um ambiente seguro, protector, os seus marcos de referência, que tenham pessoas que cuidam deles vão sair-se muito melhor do que alguém que fica sozinho. E mais ainda, quando está com pessoas que lhe dizem que afinal não está assim tão mal – nem sequer morreu. É por vezes difícil ser reconhecido como vítima, como ferido psíquico de um atentado.
Há personalidades mais resilientes do que outras face a ataques terroristas? Isso pode dar pistas sobre o que fazer para as pessoas se prepararem para acontecimentos futuros?
A resiliência de que fala Boris é a resiliência individual – e é certo que há pessoas mais resilientes do que outras. Mas há também um outro tipo de resiliência, que não é uma ideia nova – e que não faz de todo parte da cultura francesa. É a noção de resiliência colectiva, isto é, do grupo. A força da comunidade, da família, a valorização desses aspectos. A França é um país muito individualista.

Mas tem havido sinais, nos últimos dias, de uma certa resiliência colectiva por parte dos parisienses.
Sim, e o que esperamos é que a mobilização a que temos assistido nos últimos dias, com uma identificação mais forte das pessoas do que a seguir ao ataque ao Charlie Hebdo, permita que as pessoas reaprendam a cuidar de si e dos outros.

Em Janeiro, para além de a mobilização ter sido mais limitada (circunscrita a uma certa profissão e a questões religiosas), foi de curta duração, as pessoas esqueceram. O que esperamos é que agora ela dure mais do que uns dias.


quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Paradoxo da pérola


Paradoxo da pérola - o que não nos mata torna-nos mais fortes.
Ou a metáfora da pérola - para que possamos dar valor às nossas atitudes combativas perante as adversidades, mas também à suficiente resignação por aquilo que não é possível mudar:


“Cyrulnik (1999) propõe a metáfora da pérola para ilustrar o oxímoro (paradoxo) deste maravilhoso infortúnio do funcionamento da resiliência. Quer dizer, como a partir de uma ferida e de um sofrimento o sujeito pode construir uma experiencia potencialmente proveitosa para si. O resiliente elaboraria um oxímoro  cujo modelo seria o da pérola fabricada pela ostra como resposta a uma agressão. Assim o processo psíquico e comportamental do individuo resiliente perante uma situação traumatogénica seria comparável ao trabalho da ostra que, para se proteger do grão de areia que a fere, segregando nácar à volta do intruso, vai arredondar as asperezas do grão de areia e dar origem a uma joia preciosa. A resiliência seria forjada pelo individuo perante as agressões da vida e o sujeito resiliente conservaria assim este potencial que o iria ajudar a enfrentar a sua trajetória de vida em boas condições.
A metáfora da ostra perlífera ilustra bem como, por vezes, é a partir de uma experiencia de sofrimento que podemos revelar forças até aí mantidas latentes e desconhecidas. A resiliência surge assim como resultado de um processo paradoxal no qual o confronto com o traumatismo e a ferida gera criatividade. Todavia, a beleza da metáfora da ostra perlífera não faz esquecer a ferida original, e não quer dizer, portanto, que o sujeito resiliente evite o sofrimento perante o trauma e o stress.”
Marie Anaut A Resiliência - Ultrapassar os Traumatismos Climepsi

Contudo, refere Cyrulnik, apesar de oximoro descrever “o universo íntimo desses vencedores feridos - o triunfo de um ferido nunca desculpou o agressor”.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Esforços para enlouquecer o outro


O filme Gaslight - o marido (que intencionalmente colocou o seu relógio na bolsa da mulher) tenta numa 2ª fase levá-la a acreditar que está louca.

É um processo intencional, consciente e construído. 
Numa 1ª fase o agressor trata de fragilizar a vítima. Quando ela já está fragilizada, ela vira a fragilidade contra ela, com comentários do tipo: 
Você é tão sensível.
Você é tão emocional.
Você está na defensiva.
Você está exagerando.
Acalme-se e relaxe.
Você está louca!
Eu só estava brincando, você não tem sentido de humor?
Você é tão dramática. Supere isso, já!

São frases típicas do manipulador/agressor.

"O objeto enlouquecedor desfaz. …o principal atributo e correspondente ação do objeto enlouquecedor é o ataque ao  pensamento do sujeito, ao seu território mental – instalando nele o medo, a dúvida, a confusão. O fito é obter a incapacidade de pensar do sujeito; e , por fim , é o que acontece – o desmantelamento mental da vítima, seja, a anarquia psíquica." António Coimbra de Matos Relações de Qualidade Climepsi Editores.
Um artigo sobre esta temática (assédio moral, gaslighting  ...), da autoria de Yashar Ali, com o título Why Women Aren’t Crazy - Has gaslighting conditioned women into thinking they’re emotionally unstable?, aqui (The Good Men Project).

O fabuloso conto de Charlotte Perkins Gilman "O papel de parede amarelo", AQUI

Outro artigo sobre o mesmo assunto, em:
http://www.goodtherapy.org/blog/unreality-check-cognitive-dissonance-in-narcissistic-abuse-1007144
ou
http://www.goodtherapy.org/blog/gaslighting-a-slow-burning-emotional-abuse-tactic-0121154



segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O temporal


“Rutter demonstrou, que a pobreza é risco para tudo.” Daniel Sampaio, Pública de 21.2.2010

Na sequência do artigo do psiquiatra Daniel Sampaio, e pensando nas pessoas que foram atingidas pelo temporal na Madeira, no sábado, um apontamento sobre o conceito de resiliência.

Rutter (que aplicou o conceito de resiliência ao desenvolvimento), identificou seis factores de risco para a perturbação mental, um deles, é a pobreza.
Resiliência caracteriza-se pela capacidade do ser humano, responder de forma positiva, às exigências da vida quotidiana e às situações difíceis.
Essa capacidade pode ser melhorada, através de características pessoais, mas também, por condições do meio. Neste âmbito, estão por exemplo, os processos que reduzem o impacto do risco e a alteração na exposição ou no envolvimento com as situações de risco. Concretizando, tudo o que se fizer para melhorar a vida das pessoas, reforça essa capacidade.
Os mecanismos para lidar bem com as situações  - os prejuízos do temporal - são os que promovem o sucesso na realização de tarefas identificadas pelo indivíduo como centrais aos seus interesses, os processos que promovem a auto-estima e a auto-eficácia, assim como os processos que permitem novas oportunidades de crescimento pessoal.

Destes estudos, e de outros que se seguiram, podemos afirmar que os factores de risco, em caso do temporal, o luto, a perda de bens, o isolamento...não têm o mesmo impacto se actuarem isoladamente ou em conjunto. Em conjunto, o impacto negativo nas pessoas é redobrado.

Sites para intervenções em crises

http://www.nctsn.org/nccts/nav.do?pid=hom_main
http://www.cincinnatichildrens.org/
http://mentalhealth.samhsa.gov/
http://www.ptsd.va.gov/

Nos sites acima referidos, poderá aceder a guias de intervenção, tais como:

Psychological First Aid em ptsd.va.gov

http://www.ptsd.va.gov/professional/manuals/manual-pdf/pfa/PFA_2ndEditionwithappendices.pdf

http://66.104.246.25/ucla/PFA_Families_homelessness.pdf

http://www.ready.gov/kids/_downloads/PFA_Parents.pdf

http://www.listo.gov/ninos/_downloads/PFA_SchoolCrisis.pdf

http://www.disastermh.nebraska.edu/psychfirstaid.html

http://www.state.nj.us/humanservices/emergency/SAMHSA_PsychFirstAidForResponders.pdf

http://www.ahcancal.org/facility_operations/disaster_planning/Documents/PsychologicalFirstAid.pdf


http://cpmh.psikologi.ugm.ac.id/wp-content/uploads/Field-Operations-Guide.pdf


Entidades que tratam Pacientes com Transtorno de Stress Agudo e Transtorno de Stress Pós-traumático:
http://www.emdr.com/
http://www.emdriberoamerica.org/


Foto: cristina simões