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domingo, 13 de agosto de 2017

O funcionamento limite

Roger Van Weyden

“ …(as pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline) são pessoas que são capazes de organizar os pensamentos, mas são incapazes de os articular entre si.” 
Carlos Amaral Dias

Talvez não seja do senso comum saber-se que há investigadores que consideram que o Transtorno de Personalidade Borderline não é uma estrutura (como a neurose ou a psicose….), mas sim um estado da estrutura, designemos por funcionamento limite, que poderemos encontrar em qualquer estrutura (de personalidade),  e manifestar-se num episódio em certas fases difíceis da vida em que as reservas se esgotam e o individuo descompensa.
Acho muito útil este conceito de funcionamento limite. No domínio cognitivo, o apontamento brilhante de Carlos Amaral Dias acerca do transtorno ou do modo de funcionar limite - a capacidade de criar pensamentos mas não os articular entre si. Para que tal fosse possível, seria preciso dialogar com os seus carrascos, pensar nos seus pensamentos, nas suas emoções, no acontecimento ausente, tolerar a frustração de uma mente povoada de dúvidas, incertezas e conseguir digerir a inveja. Confiar no outro e imaginar o seu mundo.  
As pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline (ou com o funcionamento limite propriamente dito), são conscientes das contradições que fazem parte da vida, a inteligência permite, mas evitam o conflito interior que elas geram. Ou seja, não sabem lidar com os conflitos que todos nós enfrentamos e com a complexidade das situações. Como resultado, podem deixar-se apoderar pela destrutividade.  
Esta unidade indivisível - não saber lidar com os conflitos e com a complexidade da vida -  leva a impasses existências, incapacidade de pensar, sensação de cabeça vazia, recusa de escolher, falsidade nas atitudes, ambivalência, rigidez afetiva e mental, ao agir (evacuar a frustração em vez de elaborá-la) para não deprimir e à deslocação para o social dos problemas pessoais que provocam conflitos interrelacionais.


segunda-feira, 27 de maio de 2013

Inveja-se a paz de espírito


Hermaphrodit, Museu do Louvre

“Melanie Klein assinalava que uma das qualidades que mais inveja suscita é a paz de espírito.”
Kate Barrow Inveja Almedina
A afronta que se possa ignorar a tristeza face a uma realidade que não se cumpre. Que se escape à angústia face ao perigo que tal perda traz.
E se possa permanecer inocente, viva e fecunda.
O caos seria universal.

sábado, 2 de março de 2013

O círculo vicioso da inveja

Carpeaux Ugolino e o seu filho

“ Essa necessidade de assegurar-se contra prejuízo ou perigo internos e externos induz certas pessoas a acumular e armazenar todas as coisas boas de que conseguem lançar mão, e isso bem pode conduzir novamente à inveja num círculo vicioso de desejo, frustração e ódio – a menos que possa elevar-se em espiral pela introdução de mais amor. Pois logo que a necessidade de muito se torna forte, é evidente que começaram a introduzir-se as comparações. ....…não pode haver  duvida  de que uma  acentuação do desejo de tomar para si, como defesa  contra a desintegração interna, constitui importante fator  onde se quer que se faça notar a voracidade. Em qualquer caso, é evidente a conexão de voracidade e cobiça com segurança.”
Volto ao tema da inveja. É uma mais tentativa para desvendar as razões que a sustentam.
As suas manifestações enclausuradas pela repetição em desvalorizar, desdenhar ou insultar (no caso da inveja maligna), parecem ao invejado, inconcebíveis e nocivas, pelo que o mais sensato será levar a vida para a frente e nem se preocupar mais com a situação.
Esta libertação da influência do invejoso, será melhor sucedida se identificarmos a fonte que alimenta a vontade voraz de tomar para si um bem - posses materiais, dons físicos ou mentais.
Para a pessoa que inveja, no fundo do seu ser, está a sensação que a posse representa a prova “… de que nós mesmos somos bons e cheios de bondade, e como tal, em troca, merecedores de amor, de respeito e de honra. Servem assim de testemunho e garantia contra o receio que experimentamos do vazio que existe em nós, ou dos impulsos perversos que nos fazem sentir maus e cheios de maldade para com nós mesmos e para com os outros. “
A apropriação salvaguarda assim, o invejoso, da sensação interna de desintegração e do receio da retaliação que as outras pessoas poderão cometer contra ele.
Esta devoção inesgotável à cobiça, é uma forma de ganhar segurança.  
* as citações são de: Melanie Klein e Joan Riviere Amor, ódio e reparação Editora Imago

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Lobo com pele de cordeiro # 2

George Lambert Portait of a Lady (detalhe) 1916

As estatísticas deste blog revelam um interesse em saber mais sobre as personagens conhecidas por “lobos com pele de cordeiro” – psicopatas passivos  (sem moral e sem sensibilidade) -, para com certeza as pessoas se precaverem, já que pelo recurso a este disfarce conseguem esconder (durante algum tempo), as suas verdadeiras intenções.
Aqui está um enxerto de um texto de um autor que muito admiro, e que acrescenta a um outro já colocado neste blog, duas características destas personagens: a (pseudo) submissão aos poderosos e a capacidade de adaptação (podemos imaginar os estragos que causam nas famílias e nas organizações):
“A diferenciação clínica, proposta por Henderson (Henderson, 1939; Henderson e Gillespie, 1969), entre psicopatas agressivos e passivos tem, a meu ver, um imenso valor clínico. O tipo passivo é muito menos perigoso, pelo que pode abrir uma alguma brecha para a intervenção psicoterapêutica, por mais que a sua eficácia seja questionada. (...) O psicopata passivo aprendeu a lidar com os poderosos através de uma pseudosubmissão, levando a melhor sobre eles, explorando-os de forma passiva-parasita, o que, apesar de tudo, demonstra a capacidade para controlar no imediato a raiva e a fúria e transformá-las numa agressão em câmara lenta, tal como a do “lobo em pele de cordeiro”. Estes doentes podem negar a sua agressividade, e a divisão do mundo em lobos e cordeiros é complementada pela função adaptativa que tem o lobo disfarçado de cordeiro.”
Otto Kernberg Agressividade Narcisismo e Auto-Destrutividade na Relação Psicoterapeutica Climepsi



sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Invejar a bondade

Parks Ingrid Bergman at Stromboli

“Talvez sejamos incapazes de tolerar o fato de não sermos os melhores. Por isso, embora a bondade seja alvo de um ataque, talvez este não decorra apenas de um brutal desejo de ferir, mas também de um outro motivo: destruir alguma coisa ou alguém cuja bondade experimentamos em termos que nos fazem sentir maus. A inveja comporta sempre uma comparação – invejamos aquilo que nos faz falta.”
Kate Barrows Inveja Almedina
A pessoa bondosa é um exemplo que é possível superar, com coragem, o combate diário que todos nós travamos contra o nosso lado mau, mas que nem sempre, ou nem todos nós, conseguimos.

A riqueza interna

Dali
“…a sensação de riqueza interna que tem origem na capacidade para sentir gratidão e apreciar os outros…”.
Otto Kernberg Agressividade Narcisismo e Auto- destrutividade na Relação Psicoterapêutica Climepsi
Algo de bom dentro de nós, que sentimos como vivo no interior do nosso espirito. É a sensação de riqueza interna. Procuramo-la na alegria das pequenas coisas simples que acreditamos que encerram a perfeição. Não se pode pedir mais.
Por sermos ainda capazes de nos surpreender, esperamos alcançar harmonia e paz. Dizem-nos que há ferramentas (palavra horrível quando os assuntos são humanos), que nos ajudarão a alcançar a dimensão espiritual, tais como a meditação e a oração, proporcionando um melhor relacionamento connosco e com os outros. Mas nesta viagem  que é a vida, não parece ser possível sentir riqueza interna sem a atitude de gratidão e de apreço pelas outras pessoas, das suas coisas boas, que valorizamos e que a partir desse momento guardamos dentro de nós, como nossas.
Somos inábeis a reconhecê-las perante o outro, muitas das vezes, e também poderemos não saber recebê -las. E quando isto nos acontece, é inevitável pensarmos que arriscamos a possibilidade de renascimento da saúde psíquica e espiritual.
A gratidão é a cura para o nosso narcisismo, e ajuda a superar sentimentos negativos, tais como a inveja (a maligna).

sábado, 16 de junho de 2012

Perversão e inveja

Diálogo do filme O Cisne Negro: "A única pessoa no teu caminho és tu própria"

Há autores que eu reconheço competência cujas declarações são para mim como uma obra de arte (científica) que se deve respeitar. A autora deste texto, sobre a inveja, é uma das que  admiro bastante:
"O motor do núcleo perverso é a inveja, o objetivo da apropriação. 
A inveja é um sentimento de cobiça, de irritação odienta à vista da felicidade, das vantagens de outrem. Trata-se de uma mentalidade agressiva que se baseia na perceção do que o outro possui e de que se é desprovido. Esta perceção é subjetiva, pode mesmo ser delirante. A inveja comporta dois pólos: egocentrismo por um lado e a malevolência, com vontade de prejudicar a pessoa invejada, por outro lado. Isso pressupõe um sentimento de inferioridade em relação e essa pessoa, que possui o que é cobiçado. O invejoso lamenta ver o outro possuir bens materiais ou morais, mas ele é mais desejoso de os destruir do que os adquirir. Se os tivesse, não saberia o que fazer com eles. Não dispõe de recursos para tanto. Para preencher a distância que separa o invejoso do objeto da sua cobiça, basta humilhar o outro, aviltá-lo. O outro assume assim os traços de um demónio ou de uma feiticeira.
O que os perversos invejam, antes de tudo, é a vida no outro. Eles invejam o sucesso dos outros, que os põe perante o seu próprio sentimento de fracasso, pois eles não estão mais contentes com os outros do que consigo mesmo;  nunca nada corre bem, tudo é complicado, tudo é uma provação. Eles impõem aos outros a sua visão pejorativa do mundo e a sua insatisfação crónica em relação à vida. Eles quebram todo o entusiasmo à sua volta, procuram antes de mais nada demonstrar que o mundo é mau, que os outros são maus, que o parceiro é mau. Pelo seu pessimismo, eles arrastam o outro para um registo depressivo para, em seguida, lho censurar. O desejo do outro, a sua vitalidade mostram-lhes as próprias carências.”
Marie-France Hirigoyen Assédio, Coação e Violência no Quotidiano Pergaminho

quinta-feira, 7 de junho de 2012

A última palavra dos Lusíadas

Dsconhecia até há bem pouco tempo que a última palavra dos Lusíadas é inveja.
Confesso que lembrei-me hoje, a propósito das críticas injustas e inoportunas, à nossa seleção de futebol:

“...
Da sorte que Alexandro em vós se veja
Sem à dita de Aquiles ter enveja.” (Canto X )
Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões

domingo, 25 de março de 2012

Saber qual o peso do ego

“Quando os políticos fazem apelos à coesão nacional não pensam nos fatores essenciais que reforçam ou dissolvem o ego no seu investimento na comunidade. Quer dizer que não pensam nas forças e energias que são bloqueadas pela imagem que cada um tem de si. Saber qual o peso do ego contribuiria para perceber os fatores que o enquistam e reforçam. Quando se fala de egoísmo, altruísmo, individualismo do que se está a falar é do ego.
O ego é uma força de bloqueio, mas nunca se pensa nele. É um fator que não se pode medir mas tem efeitos mensuráveis. Por exemplo, um dos efeitos é a inveja que pode bloquear um sistema de funcionamento na sociedade portuguesa. Todo o discurso em Portugal sobre competitividade, produtividade, empreendedorismo depende de forças vitais e de afetividades. Para que haja coesão, esforço coletivo é preciso que se dê a possibilidade ao ego de se dissolver com entusiasmo num investimento que o ultrapasse e dê força à comunidade.” José Gil, filósofo
Fonte: Jornal Publico 5.3.12

Esta reflexão enquadra-se no convite que o Publico fez ao filósofo José Gil, para que fosse diretor desta publicação no dia do aniversário deste jornal.
Neste âmbito, o filósofo criou uma sondagem que integrava questões que se distribuíam pelas áreas que selecionou: Educação, Saúde, Saúde Mental, Política, Justiça, Pobreza, Medo, Identidade e Ego. Não obedecendo a nenhum método sociológico ou psico-social, as referidas questões foram enviadas a ministérios, universidades e observatórios.
A pergunta Gosta mais de si quando admira ou quando inveja os outros? Chegou sem respostas.

O filósofo português José Gil foi considerado pela revista Le Nouvel Observateur um dos "25 grandes pensadores" do mundo.

sábado, 10 de março de 2012

Sua Majestade: A inveja


de Josef Fischnaller

“Nos casos de narcisismo destrutivo, o sujeito sente-se tão ameaçado pela existência no exterior de pessoas das quais depende, e sente tanta inveja delas, que, para manter a sua posição omnipotente de “senhor de tudo o que vê” , tem necessidade de levar a cabo uma eliminação imediata do objeto. Os aspetos patológicos do narcisismo – abordagem dos outros como meios em vista dos próprios fins, egocentrismo implacável, ausência de empatia – são todos eles, manifestações desta necessidade movida pela inveja de negar a importância do objeto”.
Jeremy Holmes Narcisismo Almedina

Este indomável mundo a preto e branco “ou eu ou o outro”, em que não se recebe de volta o que se dá, tem o seu profundo sentido nas personagens que não sendo capazes de admirar os outros e se esforçarem por se aperfeiçoar, desvalorizam, insultam ou desdenham, a coisa invejada ou o seu possuidor (narcisismo destrutivo).
Neste quadro, o papel principal deverá ser atribuído, não à falta de empatia ou ao egoísmo, mas à inveja maligna que as move. Sendo uma forma de ódio, acredita-se que se pode tomar como seu, algo que não é, visto pertencer a um outro. Inglória ação. Só lhes poderá pertencer se acarinharem nos seus mundos interiores, o bom que o outro tem para dar, o que a vida tem para dar, pela partilha e cooperação, a desfavor do modo de vida de “aguentar-se só”.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Ser independente ou diferente


Autor: Josef Fischnaller

“Em outras palavras, o facto puro e simples de a outra pessoa ser independente ou diferente é experimentado como ofensivo por aqueles que têm intensas necessidades narcísicas.”
Heinz Kohut Self e Narcisismo Zahar Editores

Uma das maiores fontes de prazer: ser independente, embora não signifique que se seja desligado e sem vínculos.
Também uma das maiores fontes de inveja para os indivíduos que têm uma imagem grandiosa de si próprios, não reconhecem os seus limites, tentam controlar o outro - que é independente ou diferente, confiante e com vitalidade que só a liberdade proporciona - que por isto mesmo, abalou a convicção daquele que se acha poderoso e especial.
A auto-estima destes indivíduos com intensas necessidades desta gratificação pode depender deste domínio, à custa de um direito de cada um de nós: sermos livres de escolhermos quem queremos ser.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Invejas partilhadas

"A inveja do homem pela mulher não é menos comum que a da mulher pelo homem, nem menos profunda. Mas ela é muito menos reconhecida e compreendida; e acredito que isso se deva não simplesmente ao preconceito masculino sobre esse delicado ponto, mas à natureza das coisas. No que concerne à inveja que o meninozinho sente pelos seios e pelo leite da sua mãe, ele mesmo é dotado de um órgão especial para enfrentá-los, o pénis. Ora suas irmãzinhas não possuem pénis ou seios, de forma que a sua satisfação e superioridade em possuir um pénis podem ser utilizadas para esconder e contrabalançar seu desejo de um corpo capaz de gerar e alimentar bebés. Durante toda a sua vida os homens continuam a utilizar-se dessa compensação contra a sua inveja das mulheres, e nessa compensação é encontrado um elemento de enorme significado psicológico do pénis. A principal razão porque a inveja dos homens em relação às mulheres permanece tão oculta é que ela diz respeito precisamente ao interior dos corpos femininos, às misteriosas funções e processos que se desenrolam, por assim dizer, magicamente, dentro das mulheres (suas mães), ao gerar bébés e produzir leite. É patente também que, da mesma forma que as mulheres invejam a iniciativa masculina, em contraposição os homens invejam a capacidade das mulheres em experiencias passivas, particularmente a capacidade de suportar e sofrer. O sofrimento atenua a culpa; em particular, a dor que traz a vida ao mundo é duplamente invejável, de maneira inconsciente, aos olhos dos homens." Joan Riviére

In Melaine Kleine e Joan Riviére Amor, Ódio e Reparação Imago Editora

Em texto foi publicado em 1937.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Maldades

Maldades são verdades que fazem mal, que nascem muitas vezes da inveja. Marie - France Hirigoyen

A perversidade está em desarmar a vítima - como denunciar uma verdade?





Zeng Fanzhi little boy 2006

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O oposto da inveja

Zeng Fanzhi Mammoth's Tusks 2010
A inveja é o oposto da gratidão (Mélanie Klein).
A inveja é o oposto da compaixão, empatia, ressonância emocional e resposta afetiva adequada e oportuna. (Coimbra de Matos)*

Na inveja maligna, o desejo de destruir a coisa invejada ou o outro, resulta da incapacidade de guardar dentro de si, como seu, o que o outro tem de bom e esforçar-se por ser melhor cada dia. 
Não aproveitam de maneira construtiva o que o outro diz ou faz, pelo que, não se consegue criar cumplicidade.
Este vazio, torna possível toda a destrutividade.

*Coimbra de Matos Relação de Qualidade: penso em ti Climepsi

sábado, 16 de julho de 2011

Admirar e elogiar

“A desvalorização dos outros e o esvaziamento das representações objectais do mundo interno são a causa principal da falta de uma auto-estima normal nos indivíduos narcísicos, para além de determinarem a sua notável incapacidade para empatizar com os outros."

Otto Kernberg Agressividade, Narcisismo e Auto-destrutividade na Relação Psicoterapêutica Climepsi Editores

Devo dizer que fiquei perplexa quando me deparei com este texto. Precisei de tempo para compreender melhor: a desvalorização dos outros é uma das causas principais da falta de uma auto-estima normal nos indivíduos narcísicos (até nos que exibem grandiosidade), mesmo sendo dependentes da admiração dos outros. O que chega a ser um paradoxo. 
Chegada aqui, ainda julguei que precisava de mais tempo para tecer algumas considerações sobre este assunto, já que confio na sua veracidade. Conclui, que o tempo todo do mundo poderia não ser suficiente para alcançar a compreensão plena da importância de reconhecer e elogiar o outro. Prossigo.
A desvalorização dos outros, assim como o desdém, são defesas contra a inveja inconsciente. Na sua origem, estão as experiências más ou pouco gratificantes que superaram as boas, vividas nas relações precoces. Consequentemente, por não se ter maturidade para lidar com essas emoções contraditórias de amor e ódio pelas pessoas de quem se dependeu, porque se foi troçado ou humilhado, ou não “levado a sério”, surge a culpa, também ela prematura. As pessoas próximas e as suas qualidades, e a admiração que se poderia ter por elas, não passaram a fazer parte do mundo interior dos indivíduos narcísicos, caracterizando a natureza das relações no presente. Se assim acontecesse teriam dado conforto e segurança. 
Admirar e elogiar (com verdade e de modo desinteressado), são seguramente fontes de auto-estima!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Inveja das mulheres

Francis Picabia Paroxysm of Pain 1915

“Os homens não tomam facilmente consciência daquilo que invejam, pelo facto de, na realidade não saberem exactamente o que é. A mulher foi sempre tida como um enigma pelo homem”.
Melanie Klein e Joan Riviere Amor, Ódio e Reparação Imago Editora

Uma realidade pouco falada: a inveja que alguns homens têm das mulheres. O contrário também é verdadeiro - “A inveja do homem pela mulher não é menos comum que a da mulher pelo homem, nem menos profunda”, acrescenta Joan Riviere. Contudo, pelas históricas conquistas femininas, alcançadas, e pelos diversos papeis que a mulher pode hoje desempenhar, parece-me que é mais comum na actualidade, os homens invejarem as mulheres do que o contrário. Mas é uma opinião pessoal.

Os homens que experimentam este sentimento, por não terem consciência daquilo que invejam, ainda pioram a situação. Ao não saberem de que se trata, não pensam no assunto, e não conseguem por isso corrigir os comportamentos.
São variadas as manifestações da inveja. Podem ir desde o não reconhecimento das qualidades da mulher, até às pequenas e grandes violências do quotidiano.
Todos estes comportamentos, que surgem sempre pela comparação que o homem faz de si próprio face à mulher, representam um círculo de desejo, frustração e ódio. Neste ultimo caso, quando a inveja se tornar incontrolável.
Desejo, por também possuírem coisas boas (capacidade de cuidar de filhos, de pais, de trabalho, de alegria...), e frustração por uma vida insatisfatória  que não os recompensa.
A inveja torna-se em ódio com a falta de esperança de se obter satisfação, e por não se encontrar outros substitutos na vida que dêem prazer. A este respeito, são ilustrativos aqueles comportamentos em que o homem impede que a mulher tenha autonomia para resolver certos assuntos, mas ele próprio também não é capaz de encontrar solução para eles. Ou então, ele deixa-a resolver muita coisa, mas não reconhece.

domingo, 17 de abril de 2011

Estratégias da inveja

J. Bret, Glaciar de Rosenlaui (detalhe)

A inveja – a avidez em possuir o que o outro tem de desejável - que é uma forma de ódio a essa pessoa, tem as suas estratégias em se fazer revelar. Mas sendo um sentimento não admitido, manifesta-se de um modo disfarçado.
As estratégias da inveja são:

- A idealização: não confundir com o reconhecimento das qualidades do outro ou da qualidade da sua obra, mas sim com a recusa em admitir o mau ou o “menos bom”. É a tendência a criar um mundo perfeito. A idealização pode ser uma defesa efectiva contra a inveja, pois coloca fora da esfera da competição para que a pessoa não precise invejar o outro ou os bens que ele possui.

- A desvalorização do outro: funciona também como um modo disfarçado de invejar – se o outro não vale nada eu não o posso invejar (mas invejo).

- A desvalorização de si mesmo: quem utiliza este mecanismo desvaloriza as suas próprias qualidades. A inveja experimentada relativamente àqueles que estão na sua origem, isto é os pais, é negada.

- A activação da inveja nos outros: invertendo a situação intolerável para si mesmo, isto é fazer-se invejar (por posses, status, poder….).

- A repressão dos sentimentos de amor e a intensificação do ódio. Se “não se pode ver alguém” pode-se, odiando esse alguém, ignorar a própria inveja.

- O estabelecimento de laços de cumplicidade: para se viver através do outro, numa confusão de quem é quem.

A inveja foi ultrapassada nas pessoas genuinamente generosas,  que reconhecem e deslumbram-se pelas qualidades e feitos dos outros. Um desafio para as personalidades narcísicas.

Elaborado com base em: Nicole Jeammet, O ódio necessário, Editorial Estampa.


sábado, 26 de março de 2011

Lobo com pele de cordeiro # 1

de David Parkins

Poderia recorrer à fábula “O lobo com pele de cordeiro” para ilustrar o comportamento das pessoas que usam um modo camuflado de violência. Mas no livro de fábulas de Fredo “A irmã e o irmão” parece-me mais próxima da nossa realidade:
“Um certo homem tinha uma filha muito feia e um filho admirável pelo belo rosto. Estes, brincando puerilmente viram por acaso um espelho. O rapaz gaba-se por ser formoso, a rapariga que não suporta os gracejos do irmão, corre para o pai, a se queixar do comportamento daquele. O pai, abraçando um e outro, e repartindo beijos por ambos com doce amor, disse: “Quero que vós useis do espelho todos os dias. Tu filho, para que não corrompas a beleza com vícios de maldade. Tu, filha, para que venças esta face feia com bons costumes.”

Como nos parece bem-intencionado este pai! Mas sobre esta capa, não deixa de humilhar os seus filhos, só que o faz com “uma forma erótica da hostilidade”(Robert Stoller). Fá-lo indirectamente – coloca entre a sua intenção de humilhar, os valores de humildade e correcção que qualquer pessoa aprovaria. É um perverso narcísico que utiliza a violência oculta, que não se vê à primeira vista, mas que lhe dá, aos seus olhos, a valorização de ser um bom educador que ama os seus filhos. Faz o mal fingindo fazer o bem.
A vítima só muito mais tarde se dá conta de um desassossego. De um estado de angústia inominável que aos poucos pode ser de tal modo lesiva que toma conta do pensamento, deixando-a invadida por emoções negativas. 
Nem sempre a violência é oculta, mas o propósito será sempre fazer valer as  necessidades pessoais de quem a pratica.
No ambiente familiar ou em outros contextos, aqui vos deixo os perfis destas personagens, por muitos considerados psicopatas passivos, gente mal-amada, que utiliza a sua agressividade de um modo parasita, ou pela sedução, ou pelo ataque directo ao amor-próprio do outro:

“Certas personalidades psicopáticas, de malignidade encoberta mas altamente patogénicas, procedem de modo atrás referido – mantêm em segredo a sua violência e deslealdade: vestem pele de cordeiro mas devoram como lobos. Entram neste grupo as personalidades passivo-agressivas, certos paranóicos com necessidade de controlo omnipotente do desejo e vontade do outro, uns tantos sádicos e exploradores, alguns perversos, as personalidades obsessivo-compulsivas (que controlam pela força) ou histéricas (que controlam pela sedução) regularmente compensadas, muitos doentes com perturbação narcísica que usam e abusam do ataque camuflado mas persistente ao narcisismo do outro e, por último, outras tantas pessoas repletas de inveja”.
António Coimbra de Matos, Violência inconsciente, Revista Portuguesa de Pedopsiquiatria, 1991, nº 2

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O prazer de invejar

Ken Kiff, Master of Saint Giles, 1994

Trata-se de um texto clássico de Joan Riviére sobre o ódio delirante, em particular sobre a inveja intensa, publicado numa edição com Melanie Klein, com o título  Amor, Ódio e Reparação. É uma obra datada de 1937. O texto que transcrevo, embora extenso, é de leitura fácil e sempre atual:

“Tendemos a considerar a inveja como sentimento natural ou inevitável; mas é fato comprovado que sentimentos intensos de inveja são característicos de certas pessoas e não de outras, quaisquer que sejam as circunstâncias.
Conhecemos todo o tipo realmente invejoso de indivíduo, que ostenta perpetuamente uma expressão de inquieto descontentamento e sofrimento, cujos olhos penetrantes dão a impressão de estar incessantemente registando comparações, e cuja preocupação exclusiva é aquilo que não conseguiu obter. E no entanto, na realidade, essas pessoas encontram-se amiúde, sob o ponto de vista material, em melhor situação do que a maioria de quantos lhes estão próximos.
Quando a inveja atinge a esse ponto, ocorre um desajustamento algo exagerado; pois em lugar de se revelarem capazes de obter e conquistar para si mesmas e gozar a satisfação e a segurança da boa sorte, a noção de perigo dessas pessoas (decorrente da sua própria voracidade) é tão pronunciada que as força a protestar e a declarar que nada possuem: isto é, que elas não foram culpadas de voracidade, de tomar à força e acumular para si mesmas e defraudar outras pessoas de coisas valiosas com o propósito de enriquecer. Exemplo comum desse tipo é o indivíduo que, embora sempre invejoso, nunca faz qualquer esforço para adquirir ou obter qualquer coisa, e nunca procura triunfar de nenhuma forma. Aqui é possível observar claramente que tanto a inveja como a falta de sucesso lhe servem de prova de que, na realidade, não está tomando nada dos outros. Embora essa atitude psicológica atenta suficientemente bem o propósito de infundir segurança e confiança renovada contra o medo, trata-se de uma evolução patológica que não faz delas pessoas agradáveis, inclusive para eles próprios. Quanto mais não seja pelo facto de despenderem tanto tempo e energia como fazem ao sentirem-se despojados e frustrados na vida, às pessoas invejosas pouco ou nenhum tempo resta para qualquer prazer imediato. A satisfação indirecta, elas a obtêm ao se sentirem despojadas e ofendidas por outros.
Existe um prazer sádico no acto de depreciar e desacreditar aqueles mais bem dotados, embora possa ser expresso apenas indirectamente; um tipo muito disfarçado e muito deformado de amor está também contido no acto de não tomarem nada de bom para si, contentando-se em desejar e invejar."

Melanie Klein e Joan Riviére Amor, Ódio e Reparação Imago Editora