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domingo, 22 de novembro de 2015

Narciso por Carlos Amaral Dias

“Retomaríamos aqui, ainda que de outra forma, o mito de Narciso. A tragédia que o mito de Narciso descreve não diz respeito apenas à incapacidade de amar, ou ao amor voltado para si mesmo e que exclui o outro, mas também nos remete para a impossibilidade de alguns sujeitos terem uma vida própria, na medida em submergem no desejo ou na dificuldade de quem cuidou deles nos momentos iniciais, É que a mãe de Narciso, por temer que a beleza dele pudesse ofender os deuses ignora e interdita nele o que ele tem de mais particular: a sua beleza. Narciso, por sua vez, submetendo-se ao temor materno, fica cego em relação à sua própria beleza, desconhecendo o que há de mais singular em si próprio”.

Carlos Amaral Dias O obscuro fio do desejo Fim de século

A mãe de Narciso ao não reconhecer e aceitar o que o seu filho tinha de particular - a sua beleza -, e por temor dessa diferença, interpela sobre o futuro, Tirésias, que simboliza a autoridade do perito, o especialista, o poder masculino.
É a metáfora da obsessão pela normalidade, de uma mãe frágil, insegura do seu papel, estendendo estas dificuldades ao filho, que se manifesta, por isso, incapaz de trilhar a sua identidade única e singular.

O meu tributo a Carlos Amaral Dias, com quem se aprende sempre, penetrante, o que só acontece com os grandes autores.

Pintura de Jorge Rodriguez Gerada


quinta-feira, 28 de maio de 2015

Alexandre Simões: O que é o Narcisismo?


O psicanalista Alexandre Simões contextualiza o que vem a ser o narcisismo, sob a perspectiva da Psicanálise. No que tange ao narcisismo, aborda as relações do sujeito com a imagem, a identificação e o investimento. Enfatiza, ainda, a interação entre fascínio e servidão para, daí, indicar que o processo analítico caminha na contramão dos excessos do narcisismo.

Aceder ao canal de Alexandre Simões psicanalista no youtube.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Paradoxo do autoconhecimento

Almada Negreiros Nu

Embora o sujeito narcísico pense apenas em si próprio, nunca poderá por ironia realmente conhecer-se, uma vez que não pode tomar uma posição exterior a si e ver-se como “realmente é”.
Jeremy Holmes Narcisismo Almedina
No mito de Narciso na versão de Ovídio, o próprio (Narciso) por ser extraordinariamente belo, causava nas vozes invejosas, a interrogação como um ser tão belo poderia continuar a viver. Tirésias que tinha sido ferido de cegueira por Juno, mas que o compensou com o dom da profecia, respondeu enigmaticamente: Narciso pode viver muito tempo, “a menos que aprenda a conhecer-se a si próprio.”
É este o paradoxo – centrar-se em  si próprio e negar a importância dos outros, não leva ao autoconhecimento, mas à alienação de quem somos. O conhecimento de si próprio, das nossas forças e fraquezas, e da beleza e finitude da vida, só são possíveis se “baixarmos a guarda” e dermos ao outro uma oportunidade. Porque é ele o real, que completa e confirma as nossas intenções, e no fundo, quem somos e até onde podemos ir.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Interioridade

Josef Fischnaller

“Confundimos demasiadas vezes narcisismo com solidão, mas o processo é na realidade inverso: Narciso está só porque está rodeado por espelhos que o impedem de ver aqueles que estão à sua volta; pelo contrário, o solitário apoia-se em si próprio. Aliás, Pascal dizia: O homem que gosta apenas de si mesmo odeia acima de tudo ficar sozinho consigo próprio.
Erroneamente, associamos a solidão ao egoísmo e ao egocentrismo, enquanto a vida sozinho e, em particular, o celibato, pode permitir uma abertura ao mundo que a vida em casal não permite, e a solidão desempenha muitas vezes um papel de propulsor para ir para outra coisa. A dificuldade em estabelecer relações sólidas num mundo incerto leva as pessoas a virar-se para outras aspirações. A carência, o fracasso, o sofrimento servem por vezes de impulso para progredir. Podemos encontrar aí a força para inventar outros laços.”
Marie- France Hirigoyen As Novas Solidões Na era da comunicação estamos mais sós Caleidoscópio

Narciso representado na imagem por uma personagem feminina exibe prazer em ser admirado à distância (não é por acaso que tem um revolver na mão), e não está disponível para relações de reciprocidade. Muito dependente do olhar do outro, tem também o desejo de tudo agarrar.
Outra coisa é estar atento a si próprio e ao que na verdade nos convém, de acordo com as nossas necessidades. Por vezes, esta (boa) solidão é escolhida. Começa por pequenas alterações nos hábitos quotidianos. Já não nos apetece ir ao encontro de…,fazer isto ou aquilo. Questionamo-nos repetidamente “Para quê?”. Dá medo. Não sabemos até onde nos levará. As pessoas avisam-nos que este aparente desligamento pode não ser saudável e que é preciso convivermos. Se não nos enchermos de amargura ou desprezo pelo mundo, um sadio silêncio cobre-nos, como se todas as coisas fossem depuradas, e só restasse o lugar que tem a ver com a nossa história pessoal e com todo o de melhor soubemos reconstruir de nós mesmos e do nosso passado. Não consideramos que nos perdemos na vida. Entendemo-la como um caminho que foi necessário. Os pequenos prazeres, mesmo solitários, são surpreendentes e servem para reafirmar o íntimo sentido de liberdade. Por nos amarmos, já não nos importarmos com o julgamento de quem não interessa. Tornamo-nos mais seletivos em relação aos outros.
Há quem diga que se pode pagar um preço, mas quem passa para a outra margem do sentido de viver, quem fez este crescimento espiritual, sabe que está mais rico por este trabalho ter sido feito dentro de si.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Não querendo turvar a sua imagem


Josef Fischnaller Venus

"A imagem no espelho parece mesmo mais importante do que a maneira como o individuo se considera. Narciso reconhece-se numa nascente de água pura, que foi procurar para acalmar a sua sede. Ora, o amor por si, que faz nascer esse instante de autocontemplação, condu-lo à inanição. Não querendo turvar a sua imagem, não consegue decidir-se a beber daquela água."
Albert Eiguer Pequeno Tratado das Perversões Morais Climepsi

Acho bem conseguida a metáfora: Narciso por não querer turvar a água - alterar a pureza da sua imagem - deixa-se morrer. O parecer é mais importante que o ser. Mas seria um outro e a vida, que o faria sentir a realidade, e a suas próprias possibilidades. 
Este isolamento progressivo, este evitar pôr-se à prova, seria uma defesa contra uma dor sem nome que não permite tomar consciência das suas forças e das suas insuficiências. E o assombro por tudo, e apesar de tudo.

sábado, 3 de março de 2012

A mãe de Narciso (2)


Théodore Géricault (1791 - 1824) Study for The Raft of Medusa (trabalho inacabado)

A presença do outro que não se deixa entrar e se remete para a margem, por se julgar deter a capacidade de dispensar quem vem por bem. Assim é Narciso.
Esta omnipotência é vista como autoproteção contra uma dependência vivida na infância, sentida como destruidora de si próprio:

"Uma vez que o filho era produto de uma violação, Liriope poderá ter vivido sentimentos difíceis em relação a Narciso desde o primeiro momento. Esse “espectro no quarto das crianças” significa que a raiva impotente dela contra o pai, pode ter levado a um padrão agressivo de dispensa de cuidados, por efeito do qual Narciso, em busca de uma outra forma de segurança, terá suprimido os seus sentimentos amorosos, tentando tornar-se autossuficiente. Poderá ter negado a realidade da sexualidade parental responsável pela sua existência e ver-se, na fantasia, como se se tivesse gerado a si próprio. A sua beleza garantia-lhe que a sua relação consigo nunca deixaria de o gratificar, mas a sua raiva suprimida relativa à rejeição pela mãe significava que não podia confiar em nenhum outro, assim estabelecendo uma base segura, e levou-o a preferir em vez disso utilizar as outras pessoas de uma maneira punitiva e coerciva. Na escola ou com os seus pares, Narciso teria sido um tirano, tornando os outros como Eco, suas vítimas e presas."
Jeremy Holmes Narcisismo Almedina

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Némesis por Daniel Sampaio


Alfred Rethel Némesis

"Némesis era uma deusa grega, filha de Zeus, que vivia no Olimpo e era responsável pela retribuição da justiça divina. Nasceu ao mesmo tempo que Témis, a personificação da Ética, enquanto Némesis tinha a missão de combater todo o excesso e de controlar o destino humano. Venerada em Rhamnonte, uma pequena cidade da Ática onde estava o seu templo, passou também a personificar a vingança. Foi assim que castigou o Rei Creso e consta ter punido Narciso: depois de ouvir as queixas das mulheres por este abandonadas, Némesis provocou uma onda de calor que secou a água onde Narciso se contemplava, levando ao seu enfraquecimento progressivo."
Némesis, Pública de 23/10/11
Daniel Sampaio é psiquiatra e terapeuta familiar

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Narciso por Marie–France Hirigoyen


Caravaggio, Narciso

Sobre a personagem de Narciso do Mito de Narciso muito se escreve, mas Marie – France Hirigoyen é uma referência para a compreensão do narcisismo e da perversão narcísica, no quotidiano.

Desta autora, deixo-vos um pequeno texto sobre Narciso:
“Um Narciso, no sentido de Narciso de Ovídio*, é alguém que crê encontrar-se ao mirar-se ao espelho. A sua vida consiste em buscar o seu reflexo no olhar dos outros. O outro não existe enquanto individuo mas enquanto espelho. Um Narciso é uma casca de ovo vazia que não tem existência própria; é um “pseudo”, que procura iludir para mascarar o seu vazio. O seu destino é uma tentativa para evitar a morte. É alguém que nunca foi reconhecido como ser humano e que foi obrigado a construir para si um jogo de espelhos para se dar a ilusão de existir. Como um caleidoscópio, por mais do que este jogo de espelhos se repita e se multiplique, este indivíduo contínua construído sobre o vazio”.
* Ovídio* Les Métamorphoses
Marie – France Hirigoyen Assédio, Coação e Violência no Quotidiano Pergaminho

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Eco e Narciso por Coimbra de Matos

 Caravaggio, Narciso

 "Descontraído e ledo, Narciso – um esbelto jovem – passeava na floresta. Eis senão quando, de entre os ramos, surge Eco, a formosa dama de honra da corte de Juno castigada por Zeus, em razão das suas inconfidências, com perda da fala espontânea; só podia reproduzir em eco o que lhe fosse dado ouvir.
   Narciso, fascinado pelos encantos de Eco, exclama:
   - Amo-te! Como és bela!...
E Eco limita-se a repetir as mesmas palavras em distorção ecóica da voz de Narciso.
   Decepcionado com o que interpreta como indiferença e rejeição, Narciso retira-se, magoado e deprimido.
   Recolhe-se à beira de um lago, carpindo a sua miséria – de amor não correspondido, de ser desdenhado.
   E assim se queda, horas a fio…dias sem conta. Foi-se a paixão da sua vida, a mulher dos seus sonhos. Fica-lhe a tristeza infinda, o desânimo total. Só lhe resta aguardar a morte, olhos pousados na superfície das águas – que espelha a sua imagem de desalento. Mas da qual entretanto se enamora, reza a lenda; perdido no desencanto da relação desejada mas não vivida – a relação depressígena, que ficou aquém do desejo e do fantasma; e o sequente refúgio narcíseo."
Coimbra de Matos no Prefácio de Teresa Flores, Narcisismo e Feminilidade, Climpsi Editores


O encontro é desejado mas não vivido, pela dificuldade em criar relações de intimidade, porque estas pressupõem igualdade, dependência e necessidade de ajuda.
É a desistência de relações de reciprocidade, resultante da decepção de não se ter sido amado, quando, na infância, se era absolutamente dependente e a necessitar de ajuda.

Coimbra de Matos é psiquiatra e psicanalista

sábado, 29 de maio de 2010

A Ninfa Eco


É costume nos concentrarmos em Narciso e na ânsia deste em se amar a si próprio, seguida da frustração por não o conseguir, e consequente, a morte, e negligenciarmos o papel da Ninfa Eco neste desenlace.
Mas este papel não é desprezível.
A submissão e dependência de Eco em relação a Narciso ao ponto de não ter opinião própria, corresponde à imagem de Narciso, porque Eco, na verdade, nunca existiu como pessoa real. 
Portanto, a Nifa Eco, apresenta-se como um duplo que permite a Narciso satisfazer a ilusão que é totalmente aceite e compreendido. E auto-suficiente.
Mas Eco, pelo facto de limitar-se a repetir o que ouve, “ fazer a vontade” acaba por ser uma desilusão para Narciso levando-o à morte por não lhe proporcionar o conhecimento de si mesmo – atingido na relação com outro - e, à experiência de ser amado apesar de ter, como todos nós, imperfeições. 
Faz lembrar aquelas relações sustentadas pelo domínio e submissão, em que os dois acabam infelizes.
Narciso criou Eco para não passar pelo risco de ter necessidade de alguém e de estabelecer um vínculo, única maneira possível que ele teria, e todos nós temos, de viver uma vida com sentido.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Eco e Narciso


Eco, a Ninfa dos bosques, um dia vê Narciso e apaixona-se instantaneamente por ele. Eco, como o seu nome indica, limitava-se a repetir as ultimas palavras que ouvia. Um dia, Narciso perde-se nos bosques e chama pelos seus amigos “Vinde a mim”. Eco, ao ouvi-lo repete ”A mim”. Narciso volta-se e foge Prefiro morrer a deixar que me tocasses”. Conta-se que Eco morreu lentamente, devido à humilhação.
Nesta ultima afirmação de Narciso, está uma defesa narcísica: o negativismo, pelo qual Narciso afirma que é ele quem manda, que é ele quem não se submete ao desejo do outro. Julgo possível também atribuir, esta atitude, ao sadismo, presente muitas vezes, nestas personagens – dão pouco para estimular a dependência. Contudo, Eco submete-se, enquanto Narciso rejeita-a. São os dois, personalidades narcísicas, embora à partida pareçam distintas.

Interesso-me por este tema do narcisismo. Costumo ler, um livro ou outro – tenho os meus favoritos - mas em Narcisismo de Jeremy Holmes, pela primeira vez, deparei com uma definição deste transtorno apresentado em dois modelos clássicos: negligentes e hipervigilantes, com base em Glenn Gabbardo. A compreensão destes dois modelos de indivíduos narcísicos, é importante para compreendermos a relação entre Narciso e Eco.
Os indivíduos narcísicos negligentes, são descritos como exibicionistas, que alimentam ideias de grandeza, de aparência agradável, representado no mito, por Narciso. Os hipervigilantes são tímidos, inibidos e centrados em si próprios, autodepreciativos, representados por Eco.

Na história deste amor (narcísico)*:

Narciso é intocável; Eco alimenta eternamente o desejo de estar nos seus braços.

Narciso só pensa em si próprio e é de um egoísmo implacável; Eco só pensa nele, e a sua auto-estima permanece frágil até à morte.

Narciso não se identifica com os outros, só se ouve a si; Eco não tem opinião própria.

Em suma, tanto Eco como Narciso escolheram uma pessoa incapaz de satisfazer um único desejo ou necessidade do outro - não conseguem dar nem receber amor - não são capazes de uma verdadeira troca emocional. Por estas razões, vivem um amor narcísico, porque nenhum dos dois é capaz de conhecer ou amar o outro.
Penso que Eco foi a ultima namorada de Narciso, visto este ter morrido nas águas do lago enquanto admirava a sua imagem. Caso contrário, teria partido em busca de outra Ninfa, mais perfeita, que confirmasse (espelhasse) o quanto ele tem valor (e o quanto ela não interessa – é simplesmente tolerada).

*Narsicismo de Jeremy Holmes, Almedina

domingo, 16 de maio de 2010

A mãe de Narciso (1)


Foi o sexólogo Havelock Ellis, quem no final do séc. 19, ligou o mito de Narciso a uma dificuldade psicológica, ao associar o prazer de Narciso pela sua imagem reflectida nas águas do lago, à homossexualidade – uma pessoa amar outra, do mesmo sexo. Desde 1990, a homossexualidade, tida até aqui como uma perversão sexual, deixou de ser considerada (pela OMS) uma peturbação mental.

Recorrendo ao mito de Narciso, tenta-se explicar desta dificuldade psicológica - narcisismo patológico - que em traços gerais é uma patologia do amor-próprio e se traduz na “recusa de ver o mundo a não ser do ponto de vista do próprio, com o potencial desprezo pelos sentimentos dos outros que isso acarreta”. *
Na origem desta disfunção da personalidade, está a negligência ou abusos parentais (que pode também incluir a sobreprotecção), ou seja, os mecanismos de  controlo omnipotente,  intrusão e manipulação.
Ora Narciso, nasceu da violação da sua mãe Liriope por Céfiso, deus fluvial, segundo a versão de Ovídio. Também nunca conheceu o pai. São dois acontecimentos determinantes para a problemática de Narciso.

Liriope, uma mãe em sofrimento, não esteve, possivelmente, disponível para o seu filho. A capacidade de amar, pode-se traduzir na capacidade de empatia – colocar-se no lugar do filho; espelhamento – a capacidade da mãe, por exemplo, ao tomar a criança nos braços, espelhar quem o bebé é, ou seja, uma pequena criatura, única e especial a precisar de protecção; receptividadeLiriope, como qualquer mãe, deveria ter sido acessível, reconhecer os gestos do seu bebé e ter dado uma resposta adequada, o que permite adquirir a convicção, que os nossos próprios esforços têm influência sobre os outros.
Ao sentir-se amado, Narciso poderia adquirir confiança no mundo e as bases do amor-próprio. Não sendo isto que aconteceu, na total dependência desta mãe, distinguir-se dela, opondo-se ao seu desejo, e adquirir autonomia, não foram tarefas bem sucedidas para Narciso. Assim, Liriope, ao não revelar sintonia com o filho, teve como consequências, em termos de desenvolvimento, Narciso rejeitar o outro, e o sentimento de bastar-se a si próprio, revelado na admiração pelo seu  reflexo nas águas. Paradoxalmente, o sujeito narcísico preso à sua imagem, a pensar apenas em si próprio, não tem acesso ao auto-conhecimento, que só se obtém na relação com o outro.

*Narcisismo, Jeremy Holmes, Editora Almedina





terça-feira, 27 de abril de 2010

O significado da história de Narciso

John William Waterhouse Echo and Narcissus (1903)

A história de Narciso que representa a metáfora do amor narcísico, encontra-se muito divulgada. Poderá consultá-la aqui
Contudo, a “moral da história”, ou o seu significado, nem tanto. Ao ler Jane G. Goldberg em “O lado Escuro do Amor”, compreendi melhor o tipo de amor que Narciso nutria por si mesmo, e a natureza das relações que os narcísicos estabelecem com as outras pessoas.
Esta autora, refere que, na história do mito, Narciso na verdade não está apaixonado pela sua imagem reflectida no lago. Ele está preso, porque não há movimento, de vida animal, ou da imagem nas águas. Está tudo parado. Isto significa que, Narciso ficou tão absorvido pela sua imagem - que habitualmente interpretamos, de amor por si próprio – que suprimiu a sua relação com os outros. Mas não fez, só isto. Narciso ao deixar-se morrer nesta situação, também não velou pelas suas próprias necessidades físicas.
Daí que Jane G. Goldberg, concluí: “ Para se importar tão pouco com as suas próprias necessidades a ponto de se matar, Narciso deveria ter uma grande reserva de auto-desprezo.”

É este o significado oculto da história de Narciso. No narcisismo existe raiva e ódio dirigidos contra o próprio, não sendo por isso correcto, dizer-se que os indivíduos competurbação narcísica amam-se a si próprios. Assim sendo, incorremos numa ilusão de óptica se interpretarmos o orgulho, a futilidade e a ambição características destas personagens, como amor-próprio. 
A origem do seu sofrimento, também não é reconhecida por Narciso, por várias razões, uma delas é a dificuldade em tomar consciência de si.

Em breve falaremos da mãe de Narciso - outra história pouco conhecida.