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domingo, 2 de setembro de 2018

A encenação

Jack Vettriano

Preedy, um inglês em férias, faz a sua primeira entrada em cena na praia do seu hotel estival em Espanha:

"(…) Dir-se-ia que a praia estava deserta. Quando por acaso aparecia uma bola lançada na sua direção, ele parecia surpreendido; deixaria depois um sorriso divertido iluminar-lhe o rosto (Preedy Simpático), olharia à volta, espantado por haver pessoas na praia, devolveria a bola com um sorriso para si próprio para ninguém, e depois retomaria a sua inspeção despreocupada e tranquila do espaço em redor.
Mas eram horas de proceder a uma pequena exibição, a exibição de Preedy Ideal. Com gestos subtis deixou à vista de quem quisesse olhar o título do livro que trazia – uma tradução espanhola de Homero, um clássico portanto, mas nada de audacioso nem cosmopolita – e a seguir fez cuidadosamente com o seu roupão de praia e com o seu saco, um único volume, protegendo-se da areia (Preedy Organizado e Atilado), ergueu-se lentamente para distender à vontade o corpo enorme (Preedy Grande Felino), e deixou cair para o lado as sandálias (Preedy Afinal- Despreocupado).
(…)
William Sansom, A Contesto of Ladies

Uma pequena parte, deliciosa, de um episódio romanesco da obra de William Sansom, utilizado por Erving Gofffman* para ilustrar a comunicação. 
Na situação, as intenções (inconscientes ou não), de impressionar as outras pessoas que se encontram na praia, podem ser correta ou incorretamente compreendidas, resultado que escapa ao controle de Preedy, podendo ficar a um passo de tornar-se ridículo.  

*Erving Goffman "A representação do eu na vida de todos os dias” – uma obra essencial que eu conservo religiosamente e recorro sempre que necessito compreender melhor o comportamento humano em sociedade.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

O estilo relacional e de comunicação dos obsessivos

Vincenzo Vela

“Como se sabe, a neurose obsessiva, com seus escrúpulos e obsessões de cunho cerimonial, não tem só a aparência de um problema moral; interiormente é cheia de desumanidade, criminalidade e maldade implacável, contra cuja integração a personalidade resiste desesperadamente; de resto esta ultima pode ser bem suave e organizada. O motivo pelo qual tantos atos devem ser realizados de um modo cerimonial e “correto” é a suposição que representam o contrapeso diante do mal que ameaça por dentro. “

Jung Estudos sobre a psicologia analítica

A parcimónia e todas as atitudes cerimoniosas da neurose obsessiva não são só manifestações de hipermoralidade, são também um trabalho defensivo (formação reativa), a fim de transformar no seu contrário, comportamentos e sentimentos sádicos e cruéis, dirigidos a si próprio, ao ambiente e ao outro.
Contudo, a consciência da realidade mantêm-se, a par de um eu dividido com uma outra parcela relacional e lógica (bem suave e organizada), o que acarreta sofrimento e culpabilidade para o próprio, por terem noção do quanto o seu comportamento é inadequado e não conseguirem controlá-lo.
Mas, o que me interessa aqui é apresentar um breve apontamento sobre o estilo de comunicação dos obsessivos - o estilo relacional é de cariz sadomasoquista, ambivalente. 
De acordo com Boris Cyrulnik, em O nascimento do sentido, falam com abundância (hiperinvestimento do pensamento em detrimento do agir), e ao ouvi-los, vamo-nos apercebendo que fazem rodeios e não conseguem dizer o que está em causa. Mantêm um olhar fixo em nós, sem manifestação das pequenas expressões que nos fazem confiar que nos levam em conta. Se param para respirar, e aproveitamos para os levar a se focarem no cerne da questão e no nosso ponto de vista, sobem o tom de voz para o impedir - controlo tirânico e ditatorial, rígido e inflexível, que pode levar à agressividade verbal.
Se temos dificuldade em identificar as características fundamentais da estrutura, pensemos nas atitudes de preocupação excessiva pela organização, perfeccionismo e controle interpessoal, inúteis, que bem dificultam não só a nossa vida privada, mas também, por exemplo, nos balcões de atendimento ao público, nas situações em que as razões apresentadas não são nem auscultadas nem atendidas.

sábado, 17 de outubro de 2015

Sentido e significado

Daniel Blaufuks

O jovem de hoje, quando pergunta se você “está ligado?”, não está sendo tonto e nem superficial, como podem pensar os seus pais. Não se trata no “tá ligado?” de uma banal linguagem fática, de testagem do canal comunicativo. O que ele pergunta é se o que faz sentido para ele, de uma forma única, faz sentido para você. Sentido e não significado. Algo que toca um, também toca o outro, mas de maneira diferente. E essa diferença é sustentável. As pessoas não precisam compartir o mesmo significado para estarem juntas. “
Jorge Forbes Girassois clinicando as psicoses.


Cada um de nós ao longo da vida experienciou situações diferentes, com pessoas distintas, e em contextos emocionais irrepetíveis. Dessas vivências, em particular na família, vingaram significados pessoais sobre as coisas – a posse do outro sinónimo de “amor”; mais tarde, numa relação, achar que não é amado quando o outro se distancia….
O princípio de ficar próximo é compreendermos que,  com este património pessoal de significados, ouvir o outro é mudarmos a nossa percepção, desbravar memórias até ao osso, por vezes chegadas de tão longe, de maneira a nos aproximarmo-nos do seu real pensar e sentir, e encontrarmos, não necessariamente o mesmo significado – que milagre seria -, mas sentidos partilhados.
Não perceber o que toca ao outro, a persistir, é a expressão da não ligação, sem violência, sem crueldade, mas desoladora. Não há vida em conjunto para viver


sábado, 31 de maio de 2014

Os chatos

Winogrand foto

“Quando Graham se mostrava enfadonho era agressivo – tratava-se de uma forma de controlar, e de excluir, os outros: uma forma de ser visto, mas de não ver. Servia também, outro objetivo. Especialmente no contexto da sua psicanálise, protegia-o de ter de viver no presente, de ter de reconhecer o que estava a acontecer na sala.”
                                                              Stephen Grosz A vida em exame. Temas e debates
Transferindo para a vida real, motivações semelhantes podem justificar os comportamentos das pessoas a quem chamamos chatas. Mas devo acrescentar que, embora a atribuição desta característica possa ser subjetiva - cada um de nós lá sabe que tipo de pessoas costuma classificar na categoria -, é possível que as pessoas chatas ou enfadonhas apresentem como que uma fachada perante a qual, conscientemente ou não, escondem o que realmente sentem ou experimentam, naquele momento. Por este mecanismo, tornam-se opacas, pretendem dizer apenas aquilo que dizem, e não se importam de ser elas a falar sós ou que o outro fale só. Falta-lhes coragem para um verdadeiro encontro. Num próximo, voltam ao mesmo, num faz de conta a que chamam relação, o que muito aumenta a nossa prudência para com elas e o nosso enfado.
Miguel Esteves Cardoso escreveu na sua cronica de 10. Jan.14: “Hoje estou convencido que os chatos sabem que são chatos e que estão a chatear. E que têm prazer em chatear. É uma espécie de vingança ou de comédia. Para eles não são eles que chateiam: somos nós que pensamos que eles nos chateiam.”

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Marguerite Duras sobre Lacan

A escritora Marguerite Duras sobre o psicanalista Lacan:

“Eu estava deslumbrada por ele. E aquela frase dele: Ela não deve saber que escreve porque escreve. Porque se perderia. E seria uma catástrofe. Essa frase tornou-se para mim, como uma espécie de identidade de princípio, de direito a dizer totalmente ignorado pelas mulheres."

In Escrever Editora Difel

sexta-feira, 4 de abril de 2014

O caráter inquietante do silêncio

Edward Hopper Room in New York 1932

O equilíbrio e bom funcionamento mental tal como as várias perturbações psíquicas da criança e do adulto dependem muito da forma como se aprendeu a falar e a calar. Da forma como se aprendeu a funcionar mentalmente.
O silêncio aparente das palavras pode ser rompido pelos sintomas, mas os próprios sintomas podem silenciar-se pela repressão medicamentosa ou educativa, ou pelas angústias que persistem ou se acentuam. Neste caso a própria inteligência poderá ser bloqueada no seu desenvolvimento. A representação dos sintomas e a repressão das fantasias podem matar a inteligência. A criança pode calar-se definitivamente ou aprender a falar como os papagaios amestrados – sem pensar próprios.
O silêncio pode ser vida.
O silêncio pode ser morte."
 João dos Santos O falar das letras 1983 

O título "O caráter inquietante do silêncio" é de uma afirmação de Freud

sábado, 21 de dezembro de 2013

Susan Jeffers - Apesar do Medo


Um professor extraordinário que tive ajudou-me imensamente ao ensinar-me a frase “Pela primeira vez, devias ter vergonha. Segunda vez, eu devia ter vergonha. “ 
Aplicando a esta situação, se debater alguma coisa com pessoas insensíveis às suas necessidades, elas deviam ter vergonha. Se você continuar a permitir-se ser bombardeado pelas palavras delas, você devia ter vergonha. 

Não tem de continuar a manter conversas acerca da sua decisão com aqueles que o fazem sentir-se mal consigo mesmo. Deve sim falar com pessoas que o apoiam com afirmações “Acho ótimo estares a pensar em …” ou “Acho que te sairias muito bem a…” Já percebeu a ideia. Porquê colocar-se numa posição em que se sinta mal quando é tão fácil sentir-se ótimo?”

Susan Jeffers Apesar do medo Sinais de fogo

Um bom livro de auto-ajuda

sexta-feira, 19 de julho de 2013

A comunicação perversa



Embora sempre tenha estado na minha intenção abordar este tema, não o pretendia fazer para já, mas a manchete do Jornal de Notícias da passada 4ª feira, criou um bom pretexto para o compor.
A mensagem ofensiva, que faz referência à recém empossada ministra das finanças, Maria Luís Albuquerque, e à sua participou na 1ª reunião dos ministros das finanças da Zona Euro “Ministra foi mostrar o buraco”, justifica a criação do post e cumpre  com as condições da comunicação perversa.

A COMUNICAÇÃO PERVERSA

Recusa da comunicação direta
Havendo pouca comunicação verbal por parte do perverso, dizer o que realmente pretende dizer, não é sua qualidade; Nada é nomeado, tudo é subentendido, alimentando a confusão; A comunicação faz-se apenas por observações, comentários vagos, abstratos, trocadilhos ou pequenos toques (verbais), desestabilizadores;
Pode ofender o outro com base numa característica que lhe é própria e imutável: porque é mulher, porque é oriunda desta terra ou daquela, porque tem esta ou aquela profissão...
Quanto à recusa do diálogo, esta é uma maneira de dizer que o outro não interessa, até nem existe; Numa fase tardia da relação, na fase de destruição do outro, a comunicação pode ser direta e clara, mantendo-se sempre a intenção de o agredir e humilhar.

Deformar a linguagem
As palavras têm duplo sentido, oculto, e não têm para o perverso qualquer importância. Só a ofensa, interessa. 
Muitas das vezes, de início, utiliza a técnica da sedução, dá a entender à vítima que é compreendida, confortada, e mais tarde, em outra ocasião, desacredita-a e desqualifica-a, pretendendo que ela se responsabilize pela falha apontada pelo perverso.
É habitual as mensagens exprimirem-se com uma tonalidade fria, em contraste com a violência que está escondida.
Com esta manipulação verbal, pretende-se que a vítima não se aperceba do processo perverso em curso.

Mentir
O perverso pode ater-se a pormenores, fingindo não estar a entender o cerne da questão. A verdade ou mentira, pouco interessa para ele, o que importa é defender a sua necessidade. Como se demonstra no seguinte exemplo:
“…”..à sua mulher que o censura por ter ido oito dias para o campo com uma rapariga, o marido responde: “Tu é que és mentirosa, por um lado não eram oito dias mas nove, e por outro, não se trata de uma rapariga, mas sim de uma mulher.”

Manejar o sarcasmo, o escárnio, o desprezo
“... este desprezo e esta zombaria, dirigem-se muito particularmente contra as mulheres. Nos casos dos perversos sexuais, há uma denegação do sexo da mulher. Os perversos narcísicos, esses negam a mulher toda enquanto individuo. Eles têm prazer em todas as pilhérias que põem a mulher a ridículo.
(…)
…para ter a cabeça fora de água , o perverso tem necessidade de afundar o outro. Para tanto, ele procede por pequenos toques desestabilizadores, de preferência em público, a partir de uma coisa anódina, por vezes íntima, descrita com exagero, tomando às vezes um aliado na assembleia.” Na presença da vítima quando esta está só com ele, o perverso pode ofendê-la através de uma mensagem clara, inequívoca, mais tarde, na presença de outras pessoas, diz algo que não é mais do que um modo diferente de dizer o mesmo, mas agora com um duplo sentido, o que permite enviar uma mensagem à vítima e outra às testemunhas, que a interpretam com diferentes significados. 

Usar o paradoxo
“O discurso paradoxal é composto de uma mensagem explícita e de um subentendido, cuja existência o agressor nega.”
“O paradoxo vem, a maior parte das vezes, da falta de correspondência entre as palavras que são ditas e o tom em que essas palavras são proferidas.“ Esta falta de correspondência gera diferentes interpretações por parte das testemunhas que assistiram à situação, o que deixa frequentemente a vítima sem suporte. Consequentemente, se ela desabafa sobre o sucedido é habitualmente não compreendida ou desacreditada. 
“Estas técnicas de destabilização, se elas podem ser utilizadas por toda a gente, são-no de maneira sistemática pelo perverso, sem qualquer compensação ou pretexto.”

Elaborado com base na minha experiência pessoal, claro, e em:
Marie – France Hirigoyen Assédio, Coação e Violência no Quotidiano Pergaminho

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Show time


Eugenio de Blaas

“A sociedade baseia-se na confiança e nós costumamos prestar mais atenção ao que os outros dizem do que o seu comportamento não verbal – gestos das mãos, movimentos faciais, sorrisos, contato pelo olhar. Porém, quando o falante é atraente e tem um desempenho não verbal realmente impressionante, o efeito pode ser o contrário, assistimos ao espetáculo e damos pouca atenção ao que é dito”
Robert D. Hare Sem consciência O mundo perturbador dos psicopatas que vivem entre nós Artmed
Interessante e perturbador.
Deveríamos dar atenção ao que o outro diz, mas sobretudo ao modo como encadeia as palavras e as associações que faz, e não tanto aos gestos, entoações  e  demais manifestações não-verbais. É exemplo de associação desconexa, na sua manifestação extrema: “O mais insuportável é saber que matei a pessoa que mais amava — a pessoa que mais amo.” (comentário  real de um caso de violência contra a namorada).
Para o bem e para o mal, esta competência é antinatural, ou seja, sermos críticos com a pessoa por quem estamos interessados. 
O que acontece é não detetarmos de imediato, com rigor, a natureza das mensagens, que nos pudesse ajudar a alumiar um pouco mais de perto, no outro, a verdade do sentimento humano.
Recentemente prestei mais atenção a este aspeto da comunicação, ao ouvir uma adolescente falar dos dois rapazes com quem estava a sair.
Sobre um dos rapazes, que só enfado lhe causava, era extramente crítica acerca do que ele dizia, cruel até. De nada valia mostrar interesse pelas coisas da vida dela – como vai a escola? Eram exatamente os assuntos terrenos que ela queria esquecer.
O outro rapaz levava-a para a leveza das nuvens onde se deu por perdida. Nem passados três dias, o tempo que durou o namoro, o efeito hipnótico passou, e o parelho mental mostrou-se eficiente para analisar este tipo de discurso que teve com ele:
Ela: “Gostas de mim?”
Ele: “Estás triste? Eu deveria morrer só por te pôr triste”
Hábil. O quanto uma abstração pode ser útil para pular fora!

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O negativismo

Geraldine Javier Storm Chasing Dog Chasing Girl Chasing Storm 1970

"Quando a raiva narcisista não se pode manifestar abertamente, aparece, às vezes, sob uma forma particular de reafirmação do sujeito, o negativismo. Já em outro lugar, havíamos colocado que o sujeito podia chegar a opor-se a seu próprio desejo para que não satisfizesse o do outro.
….
Podemos agora completar aquela descrição, assinalando que quando se deseja que o desejo do outro não se satisfaça é porque se entrou numa luta narcisista sobre quem é o dono do desejo, o sujeito ou o outro. Mediante o negativismo, adquire-se o sentimento de ser quem manda, quem não se submete ao domínio do outro.
No negativismo, é necessário procurar sempre a ferida narcisista, o vivido como ofensa que se quer estancar através daquela conduta. Por isso, é particularmente frequente e intenso na adolescência, na qual o sujeito sente-se tão inseguro, podendo cumprir, quando não é excessiva, uma função estabilizadora do equilíbrio narcisista e, portanto, constituir uma fonte de crescimento. A partir dessa perspetiva, o negativismo será tanto mais forte quanto mais a autoestima esteja questionada, seja a partir do exterior – por falta de figuras significativas -, seja a partir do próprio sujeito.”
Hugo Bleichmar O Narcisismo Artes Médicas
O negativismo sendo uma defesa perante a ansiedade, pode ser identificado pela atitude que na linguagem popular se traduz por “estar sempre do contra”, que de acordo com o tipo de pessoa, mais sofisticada ou menos sofisticada, se expressa por diversas formas. Mas todas elas significam a dificuldade em segurar o que se sente de bom (Rita Mendes Leal), e que vem do outro. É o contrário do impulso de vida, por atacar o laço que podia unir as pessoas, mas que se pode manter por conceder um sentimento de poder.


segunda-feira, 14 de maio de 2012

Percebi que é inútil falar


Nathan Spotts

“Percebi que é inútil falar aos outros sobre coisas que não sabem.”
C. G. Jung Memórias Sonhos e Reflexões Editora Nova Fronteira

Não é por sermos ingénuos que pretendemos convencer o outro de uma ideia que para nós é de relevante significado, mas que para ele, não o tem. No nosso íntimo julgamos que não se trata de uma opinião pessoal. Acreditamos que ela transporta não só o sentido das coisas do mundo, como nos define. Mas o alheamento do outro não consente este ver o mundo de dentro para fora. Por isso insistimos.
Com o tempo, percebemos que mesmo com todas as razões, não merece a pena falar de coisas para as quais os outros ainda não tiveram uma experiencia que os ajudasse a compreender.
Pode ser desconcertante fazer um esforço para retirar o que não é partilhado e consagrar-se ao essencial, mas é bom que seja feito, para bem de todos.

sábado, 22 de outubro de 2011

Pequenas perceções

Photobucket
 Cinemagraphs Gifs de Jamie Beck

Consideremos um rosto e, nesse rosto, um sorriso. O sorriso pretende ser amigável, mas, apesar disso, apercebemo-nos de um não sei quê que nos revela exatamente ao contrário: esconde uma profunda antipatia, hostilidade até. Mas só um olhar atento capta este afastamento entre aquilo que o sorriso pretende exprimir e aquilo que realmente exprime. Este afastamento é apercebido graças às pequenas perceções: é um sorriso imperceptivalmente hipócrita. José. N. Gil, Les Enjeux du Sensible. Revista Chiméres, nº 39

Os nossos encontros são feitos destas pequenas perceções e das outras que nos fazem sentir verdadeiramente acompanhados.
São detalhes mínimos da comunicação que pertencem ao reino do indizível e do íntimo. Falar deles a alguém, é uma experiencia solitária.
Devíamos dar mais valor às pequenas perceções. Os nossos pensamentos sobre as pessoas nascem desta essência afetiva.




quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Falar para /Falar com

Hopper, E. Sunlight in Cafeteria, 1958


“Tudo o que me está a descrever, eu acho que é fantástico, a forma como conseguiu encontrar um outro dentro de si, que o protege das experiências mais angustiantes que você próprio descreve, como se você encontrasse dentro de si um outro que pode dar nome a todas estas experiências e o protege de todas estas experiencias angustiantes que você está a descrever. Mas há algo que ainda não encontrou, que é o lugar em que você fala com o outro”
Carlos Amaral Dias Costurando as Linhas da Psicopatologia Borderland (estados – limite) Climepsi

Falar consigo próprio, num discurso interior, é o assunto deste pequeno texto, mas, a distinção entre falar para o outro e falar com o outro, é importante que seja feita e que tenhamos consciência dela. Pode ser a diferença entre o monólogo - que é um estado de solidão – e a troca emocional genuína.
Situamo-nos em cada um destes estados ou nos seus pontos intermédios, conforme as nossas capacidades de comunicação, a estranheza ou o sentimento de familiaridade, e a vontade ou não, de nos darmos.
Estados de solidão imposta podem relegar-nos para espaços inabitados em que se estabelecem longas conversas connosco, de modo a darmos sentido ao que se viveu. Acalmamo-nos.
Em outras vivências, impomos a nós próprios estas condições. Estamos convictos que pensamos muito. Não pensamos assim tanto, nesses labirintos há espaços escuros que não conseguimos iluminar.
"Gostava que me ajudasses a perceber isto" - esperamos que o outro possa atribuir significados sobre o que não foi possível pensar. Ele diz-nos que afinal a nossa mente não é estranha ou bizarra, e que há o semelhante a nós.


sábado, 16 de julho de 2011

Admirar e elogiar

“A desvalorização dos outros e o esvaziamento das representações objectais do mundo interno são a causa principal da falta de uma auto-estima normal nos indivíduos narcísicos, para além de determinarem a sua notável incapacidade para empatizar com os outros."

Otto Kernberg Agressividade, Narcisismo e Auto-destrutividade na Relação Psicoterapêutica Climepsi Editores

Devo dizer que fiquei perplexa quando me deparei com este texto. Precisei de tempo para compreender melhor: a desvalorização dos outros é uma das causas principais da falta de uma auto-estima normal nos indivíduos narcísicos (até nos que exibem grandiosidade), mesmo sendo dependentes da admiração dos outros. O que chega a ser um paradoxo. 
Chegada aqui, ainda julguei que precisava de mais tempo para tecer algumas considerações sobre este assunto, já que confio na sua veracidade. Conclui, que o tempo todo do mundo poderia não ser suficiente para alcançar a compreensão plena da importância de reconhecer e elogiar o outro. Prossigo.
A desvalorização dos outros, assim como o desdém, são defesas contra a inveja inconsciente. Na sua origem, estão as experiências más ou pouco gratificantes que superaram as boas, vividas nas relações precoces. Consequentemente, por não se ter maturidade para lidar com essas emoções contraditórias de amor e ódio pelas pessoas de quem se dependeu, porque se foi troçado ou humilhado, ou não “levado a sério”, surge a culpa, também ela prematura. As pessoas próximas e as suas qualidades, e a admiração que se poderia ter por elas, não passaram a fazer parte do mundo interior dos indivíduos narcísicos, caracterizando a natureza das relações no presente. Se assim acontecesse teriam dado conforto e segurança. 
Admirar e elogiar (com verdade e de modo desinteressado), são seguramente fontes de auto-estima!

sábado, 18 de junho de 2011

O milagre ou o enigma

Peter Blake The toy shop 1962

”… não é o ambiente objectivo que influencia as pessoas, mas suas construções do mundo. Você tem de tentar “entrar dentro da cabeça das pessoas” e ver o mundo do jeito que elas vêm. Tem que olhar para os tipos de narrativas e histórias de pessoas dizem a si mesmas e os motivos que as levam a fazer o que estão fazendo. O que pode levar as pessoas em dificuldades às vezes em suas vidas pessoais, ou a criar mais problemas sociais, é que essas histórias vão mal. As pessoas acabam com narrativas que são disfuncionais, de alguma forma.”
Timothy D. Wilson, psicólogo social

O milagre da comunicação: tentar realmente escutar a experiencia que o outro nos relata, mas sobretudo apreender o significado que a mesma teve para ele, e demonstrar essa compreensão. Leva-nos mais longe, à sensação que a nossa experiência tem sentido porque há alguém que pensa e sente como nós.
Esta intenção só pode ser recíproca: querer ser reconhecido, deveria envolver o esforço por dizer o que realmente se pretende, em vez de ocultar essa mensagem ou falsificá-la. Seria tornar a comunicação um enigma. Uma tragédia vivida a dois, para quem quer ser compreendido mas não se quer dar a conhecer, e para um outro que não encontra outra razão para ficar.
E outra tragédia: o diálogo da alma consigo mesma (Paul Ricoeur) num discurso interior infeliz.

sábado, 30 de abril de 2011

Não é só o Dexter que pode ter um código!



“Assim, por exemplo, um pai que na chegada do filho do colégio e ao ver as qualificações do filho repara e põe ênfase nas poucas matérias em que aquele não alcançou o grau máximo, está transmitindo ao filho uma regra segundo a qual a observação concentra-se no que falta para alcançar a perfeição. Mais ainda, se sua atitude é a frustração aberta ou encoberta, com rejeição do filho, brinda-o como código para uma futura identificação que, se não é o máximo, então não vale nada.”
Hugo Bleichemar O Narcisismo Artes Médicas

É por demais conhecido, através das terapias cognitivas, que os nossos pensamentos determinam a relação que temos connosco e com a realidade. Mas nunca é demais estarmos alerta para esses esquemas mentais que nos podem criar infelicidade.
Como no exemplo acima, o modo como o pai aborda as qualificações escolares, pode ser interiorizado pela criança como uma regra para a vida: não valer nada se não for o máximo, caso contrário, arrisca-se a perder o amor do outro, ou perder algo essencial. O que começou por um comentário do pai, pode-se converter numa característica de identidade: "eu tenho de ser o máximo, senão não valo nada".

Cada um de nós, vai assim adquirindo, através das nossas experiencias pessoais,  um número finito (não infinito) de regras. Por exemplo, há famílias em que se toma por referencia o mérito ou os defeitos dos outros, e os comentários que se fazem encaixam nestes códigos. Mas não são só pensamentos ou frases. E, é esta a verdadeira questão, regem a nossa identidade - enunciação identificatória - que está presente na relação do indivíduo consigo próprio e com os outros.
O exemplo seguinte, pode ser ilustrativo. Uma pessoa diz para outra: “Por que não me compras-te o livro que te pedi”. Esta pergunta, encaixa numa regra que o individuo possui: “ Tu  és mau, ou irresponsável, ou injusto”, que é uma característica de personalidade que  interiorizou.
A pergunta poderá assim, ser sentida como um ataque pessoal e suscitar uma reacção desproporcionada. Para quem usa este código, o diálogo que começou com um livro, termina num discurso sobre se sentir incapaz como pessoa. Para chegar aqui, este indivíduo ao ouvir a pergunta, situa a mensagem no campo do amor-próprio, desqualifica-se, e a partir de um dado (esqueceu a compra do livro), atribui uma identidade: sou mau, irresponsável ou injusto. Ou quem sabe, poderá até pensar: qualquer coisa que faço mostra a minha incapacidade.
Não é só o Dexter que pode ter um código (fatal)!

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Estilos de comunicação


Nos diálogos que temos no dia-a-dia, a conversa pode evoluir para um registo tal, que parece que  entramos em outra dimensão. Desde situações de sintonia com o outro em que nos sentimos aceites e compreendidos e a conversa flui, até aquelas em que o discurso sai do esperado e nem sabemos o que comentar, se tivessemos oportunidade para isso, o que nem sempre nos dão. Algumas vezes saímos magoados e atacados.
O refúgio num determinado tipo de discurso desadequado à situação, é sinónimo que a pessoa defende-se de algo. E defende-se de uma certa maneira, consoante a sua personalidade, interesses e necessidades.
Para ilustrar os tipos de comunicação verbal de David Liberman (1983), recorri ao romance de Óscar Wilde “O Retrato de Dorian Gray”.

Dorian Gray a principal personagem narcísica do romance, no mesmo dia que teve conhecimento do suicídio da sua “amada” Sibyl, certamente provocado pela sua crueldade, foi nessa noite à ópera. Questionado pelo seu amigo Basil Hallward sobre esta acção, temos este diálogo (abreviado) entre os dois:

Basil Hallward: Foi à ópera, enquanto Sibyl Vane jazia morta em algum sórdido casebre?
Dorian Gray: Cale-se, Basil. Não quero ouvir isso. O que está feito está feito. O passado é passado.
Basil Hallward: Chama a ontem o passado?
Dorian Gray: Que importa o lapso de tempo na realidade decorrido? Só as pessoas banais é que necessitam de anos para se libertarem duma emoção. Um homem que é senhor de si pode pôr termo a uma mágoa com a mesma facilidade com que inventa um prazer. Eu não quero estar à mercê das minhas emoções. Quero utilizá-las para as gozar, para as dominar.

Estas ultimas declarações (delirantes) de Dorian Gray pareceram-me o apocalipse da omnipotência – até não se acha semelhante ao comum dos mortais. Podemos através delas identificar a total falta de empatia e compaixão por Sibyl, os mecanismos para se defender das emoções, a falta de um real sentimento por ela. Interpretar o comportamento Dorian Gray com recurso a estas dimensões, se a minha competência estivesse à altura, poderia ser muito útil. Mas insuficiente.

Ao recorrermos a David Liberman (1983), e aos seus seis tipos de comunicação verbal característicos de doentes com diferentes tipos de patologia de carácter, melhor compreendemos o discurso de Dorian Gray e ele próprio.
 A vontade de Dorian, talvez fosse por fim de imediato à conversa do amigo. Mas para controlar estes impulsos, recorre a um estilo épico de comunicação, que é um estilo cognitivo defensivo encontrado nas personalidades psicopáticas. O recurso a este estilo, protege também Dorian de reflectir sobre o seu comportamento.
No estilo épico de comunicação o indivíduo domina bem a semântica e a sintaxe, mas quanto à pragmática, destorce os factos com o objectivo de manipular (as emoções e o pensamento de Basil), e exercer o poder sobre o outro. De resto, a técnica mais utilizada é o controlo omnipotente para dobrar a vontade do outro.  

Um conselho pessoal: na conversação, não reproduza o mesmo estilo de discurso (defensivo) do seu interlocutor. Não é produtivo.

A vossa análise pode não ser concordante. Aqui ficam os seis estilos e as patologias que lhes são inerentes:
Estilo narrativo – patologia obsessivo-compulsiva
Estilo dramático – histérica
Estilo épico - anti-social; psicopatia
Estilo lírico  -  depressivo-masochista
Estilo dramático que cria suspense – fóbicos
Estilo inquisitivo que não cria suspense – nos doentes que projectam as suas próprias curiosidades paranóides nos outros.

E sobre os 15 estilos de pensamentos deformados:




sábado, 13 de novembro de 2010

Pedir perdão

Rubens, Venus at a Mirror (detalhe)

O pedido de perdão de Dorian Gray do romance “O Retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde representa, para mim, a metáfora do medo em enfrentar o outro nas alturas em que deveríamos pedir perdão.
Após a cena em que Dorian Gray rejeita violentamente Sibyl na sequência da sua lastimável actuação teatral, já em sua casa, vacila entre o impulso em implorar-lhe o seu perdão ou o recurso a algum meio que “adormecesse a sua sensibilidade moral”. Resolve-se pelo pedido de perdão. Escreve-lhe uma carta.
Segundo o narrador “escreveu páginas e páginas de palavras desesperadas de mágoa”. Ao terminar, “Dorian Gray sentia-se perdoado”.
Entretanto, chega um amigo que se interessa em saber do seu estado, a que Dorian responde: “Sinto-me agora inteiramente feliz. Sei agora o que é a consciência. Não posso suportar a ideia de a minha alma ser hedionda”.

Para Dorian Gray, a principal personagem narcísica do romance, perdoar-se a si próprio por ter sido cruel com Sibyl, só porque lhe escreveu uma carta que não entregou, simboliza a recusa de relações de reciprocidade. É a negação da importância do outro. O seu mundo fica concentrado nele próprio, não necessitando do confronto para ser perdoado. O outro pouco interessa, como se se tomasse numa base segura de substituição. Assim, evita-se o confronto, porque este tornaria evidentes as limitações pessoais que a sua fantasia de superioridade, não permite. 

A ansiedade é suportada com recurso aos mecanismos: negação do quanto o está a perturbar a atitude que teve para com Sibyl e a consequente idealização das suas próprias qualidades morais.


sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A verdade

O psicanalista Zimerman, escreveu: A verdade sem amor é crueldade e o amor sem verdade é paixão.
Vocabulário Contemporâneo de Psicanálise

Mas hoje não me apetece pensar na paixão. A primeira afirmação parece-me bem mais interessante. Remete-nos para aquelas situações em que ouvimos uma verdade, mas de mansinho sentimos uma profunda dor, vergonha e raiva contra nós mesmas por não a aceitarmos, com naturalidade. Essa verdade deixa-nos desamparadas e desarmadas. Se desenvolvemos estas emoções, é porque fomos sujeitas à violência oculta. E, a razão porque não a aceitamos, é porque a atitude de quem a proferiu não nos teve em conta. Não nos reconheceu.

A verdade só é verdade, sem crueldade, se a conseguirmos entender e suportar, ao ponto de criarmos novas ideias e comportamentos. Esta sim, é uma verdade que cura e nos dá liberdade para evoluirmos.