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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A função: as intenções que levam as pessoas a estarem juntas

Peter Blake, The Fine Art Bit, 1959 (detalhe)

“Em outras palavras todo o nosso interesse pelo mundo externo e pelas outras pessoas baseia-se essencialmente na necessidade que sentimos deles; e precisamos deles para duas finalidades. Uma delas é a finalidade óbvia de auferir satisfação tanto para as nossas necessidades de autoperservação como para as de prazer. A outra finalidade para a qual necessitamos, é para odiá-los, de forma a podermos expelir e descarregar a nossa própria maldade, com todos os seus perigos para fora de nós, e sobre eles.”
Melaine Klein e Joan Riviere Amor, Ódio e Reparação Imago Editora

Fica-se a pensar que a vida não é este preto no branco.  Por nosso orgulho pessoal consideramo-nos complexos, e somos, nas diversas formas como amamos e odiamos. 
Mas vendo bem, quando a vida é amável, não é próprio nos questionarmos sobre o papel que temos na vida de alguém. Não se ajusta. É escusado.
Embora com interrupções no fluir habitual dos dias, no fundo do coração há um sentido para continuar, que nos transcende, porque nos incita a dar o nosso melhor, ao outro, à família.
Pensamos no papel que temos na vida de alguém - as intenções que leva o outro a estar connosco (e vice-versa) - quando começamos a duvidar desse sentido e a suspeitar que não é partilhado. O que somos não é visto. O que o outro vê em nós, não pode ser aceite. Nestes casos, muitas das vezes, o outro só pretende de nós, que lhe prestemos um serviço

quarta-feira, 24 de maio de 2017

amor tóxico




Linda música na voz de Maria Bethânia. Ele pede por fim, desculpa. São manobras de apaziguamento (identificadas por Godenzi, 1999), que não envolvem qualquer transformação – tudo volta ao mesmo. Pretende -se aprovação, unicamente.
Como falar do mistério insondável do amor? Como reconhecer o que é amor, e o que é dependência…plano poupança reforma (palavras do psicólogo Eduardo Sá)?
O oposto do amor é o amor tóxico, aquele que nos retira a energia vital. Nem se deveria chamar amor, porque não reconhece a existência do outro como um ser diferente, com necessidades, direitos e interesses próprios.
O amor tóxico lança-nos para uma condição que nos oprime, mas que se vai mantendo num turbilhão de emoções que não reconhecemos nome, a não ser o desamparo.
Quem se deixa ficar nesta situação não o faz por ser uma pessoa doente. Perde-se aos poucos a auto-estima, a lucidez. Para quem se deixa anular, a relação é também alimentada por traços de personalidade, crenças irrealistas, estilos de vinculação de infância.
Aqui fica uma lista (com uma tradução muito livre), das características do amor vs amor tóxico da autoria de Sandra Brown, que detém um Mestrado em Aconselhamento, e foi fundadora e directora de um centro de saúde mental ligado ao tratamento de distúrbios de vitimização e trauma emocional.

Amor – o desenvolvimento de cada um é a prioridade.
Amor tóxico - obsessão com o relacionamento.

Amor - espaço para crescer, expandir e o desejo que os outros o façam.
Amor tóxico – são os sentimentos de insegurança, medo, solidão, e outros, que estabelecem o vínculo.

Amor - interesses distintos; outros amigos, manter outras relações significativas.
Amor tóxico - envolvimento total; vida social limitada.

Amor - incentivo que cada um se expanda; seguro no próprio valor do amor.
Amor tóxico - preocupação com o comportamento do outro, o medo da mudança no outro.

Amor - confiança (isto é, confia-se que o parceiro se comporte de acordo com a sua natureza fundamental).
Amor tóxico - ciúme; possessividade, medo da concorrência.

Amor - compromisso, negociação ou se revendo na liderança. Resolução de problemas em conjunto.
Amor tóxico - joga-se no controle; na culpa, na manipulação passiva ou agressiva.

Amor - estimula – se a individualidade do outro.
Amor tóxico – tenta-se mudar a imagem de outro, ao próprio.

Amor – lida-se com os vários aspectos (positivos e negativos) da vida.
Amor tóxico - o relacionamento é baseado em delírio e evitar o desagradável.

Amor – o cuidado é mútuo.
Amor tóxico - expectativa de que um parceiro irá corrigir e resgatar o outro.

Amor - saudável preocupação sobre o parceiro, quando este se afasta.
Amor tóxico - fusão (viver obcecado por problemas e sentimentos que envolvem o outro).

Amor - O sexo é de livre escolha crescendo para além do cuidar e da amizade.
Amor tóxico - A pressão em torno do sexo devido à insegurança, medo e necessidade de gratificação imediata.

Amor - capacidade de apreciar estar sozinho.
Amor tóxico - incapaz de suportar a separação.

Amor - ciclo de conforto e satisfação.
Amor tóxico - ciclo de dor e desespero.

Sinais de aviso e bandeiras vermelhas de abuso narcisista:






quarta-feira, 26 de abril de 2017

Escondê-lo como um tesouro

Henri Fantin-Latour, La Lecture, 1870 (Detalhe)

Aquelas que não dão sinais de amor devem estar a escondê-lo, mantê-lo reservado. Ao invés, aquelas que querem dar amor não podem valer nada – senão iriam certamente escondê-lo como um tesouro” 
 Arno Gruen, A Traição do Eu


Uma visão do mundo feminino típica de uma certa mentalidade masculina – o medo de ser enganado - e a divisão do mundo: "as santas como a minha mãe e as outras..." Acautela-te com as mulheres, deve ser o aviso. Se Arno Gruen está certo, é muito triste saber que os homens que assim pensam, descobrem tarde que estas mulheres, "as com ar de santas" podem não ter nada para dar.

Faz lembrar a fábula de Fredo “ A velha, a rapariga e o homem”, em que este era disputado pelas duas, que pretendiam parecer iguais a ele, na idade. Na sedução, acarinhavam-lhe os cabelos. O resultado repentino foi a calvície, porque a rapariga arrancou-lhe os cabelos brancos, e a velha, os pretos. Moral desta  história: o cuidado com as mulheres nunca é pouco.
É possível que exista uma versão feminina, do mesmo - cuidado com os homens!

Se pretende identificar o seu estilo de  interesse romântico, faça (teste)



domingo, 13 de novembro de 2016

Atração Fatal


René Magritte

Ou "O narcisista e os seus parceiros #2"
Vejo com surpresa o sucesso do post O narcisista e seus parceiros #1, pelo número de visualizações, embora possa admitir que não é por ser lido que é apreciado, adquire significado para quem o leu e ajude a ampliar a consciência.
Com a intenção de clarificar o mesmo tema, e porque hoje faz-me mais sentido considerar que nas relações dos narcísicos com os seus parceiros, as destrutivas, as que se prolongam no tempo “até que a morte nos separe”, a "vítima" idealiza o outro não tendo representação do seu mundo, vivendo sem perceção emocional do que está a acontecer e consequentemente, perdendo o poder de decisão.
Acredito que vários arranjos de ligações são possíveis, mas a fatalidade para os indivíduos que não imaginam o mundo dos outros, será se apaixonarem por um parceiro para quem não existam psicologicamente, que seja um abusador, que lhes provoque alterações importantes na personalidade, invada tudo e arruíne a vida - como aquelas pessoas têm uma frágil estrutura, tendem a se apaixonar por quem tem estruturas psicopáticas. 
Os sobreviventes de tipo de relações conseguiram travar a tempo este processo, e conservarar um abrigo emocional suficientemente saudável para transformar a sua história pessoal numa narrativa significativa. Sentem  que não se definem pela sua adversidade.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Ternura

Yves Pires

“Os que nunca ultrapassaram a fase captativa e egoísta do amor têm geralmente dificuldade em operar a conversão do desejo em ternura e amizade.”

Pierre Burney O amor

A ternura como expressão superior do amor e da sexualidade. O esvaziar-se no outro, generosa e livremente.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Falsos Deuses - cuidado com a nossa bondade


Peter Blake, from Illustrations to Through the Looking-Glass
and to show you I'm not proud, you may shake hands with me 1970

Não precisamos de falsas autoridades, pessoas ou ideologias que possam confirmar o nosso valor e que reduzam a nossa dignidade, sob uma imagem de respeito ou preocupação, mas que escondem a sua negatividade ou o seu ódio. O que não faz de nós poderosos. Faz de nós responsáveis pela nossa própria vida. Só precisamos do amor nas suas variadas formas. 

De um autor preferido, para reflectirmos que sentido faz atribuirmos poder a certas pessoas ou entidades:

“Nós que ainda estamos ancorados na compaixão temos de aprender a ser consequentes. Não no sentido de poderosos, mas no sentido de deixarmos de querer seja o que for daqueles que nada têm para dar. É a calamidade interior, a necessidade inadmitida de nos fazermos amar pelo inimigo, que impossibilita lidarmos de forma consequente com o Mal. Quando os adeptos deste reclamam a nossa comiseração, não temos de mostrar-lhes que os amamos. O que está por detrás de tal altitude é o desejo deles nos amarem, e esse torna-se a nossa desgraça por queremos algo deles. É este o ensinamento mais duro, porque sempre estamos dispostos a acreditar que toda a gente é capaz de sentir o amor.
Mas na realidade há gente que está separada de si a tal ponto que o nosso desejo de grandeza se nos torna fatal. Não lhes entregarmos o poder, privamo-los do amor por não o esperarmos deles, é o antídoto com que podemos vencê-los. Quando eles deixarem de poder jogar com as nossas expectativas, terão perdido o seu poder sobre nós e nós podemos dedicar-nos à construção do mundo, em vez de passarmos o tempo a consertar o rasto de destruição que eles vão deixando atrás de si.”
Arno Gruen Falsos Deuses Editora Paz

O psicanalista Arno Gruen nasceu em Berlin em 1923. Faleceu em Outubro de 2015. 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Isabel Leal: O lado negro das mães


Em entrevista de Isabel Stilwell, na Revista Máxima de 1.5.15. 
Isabel Leal é psicóloga e psicoterapeuta. É professora no ISPA
Aceder: http://www.ispa.pt/ ou aqui.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

As Cinquenta Sombras de Grey

Artigo do Jornal Publico de 12.8.2013:
"As Cinquenta Sombras de Grey perpetua violência contra mulheres
O romance As Cinquenta Sombras de Grey que, promovido como uma novela erótica, se tornou um best-seller mundial, perpetua o problema da violência contra as mulheres, indica um estudo publicado hoje na revista Journal of Women’s Health, (AQUI) e (AQUI)*
A professora Ana Bonomi, associada da Universidade estatal de Ohio, nos Estados Unidos, e as suas colaboradoras na investigação chegaram à conclusão de que o abuso emocional e sexual domina o romance, causando danos à principal personagem feminina, Anastasia.
“A violência por parte do parceiro afecta 25 por cento das mulheres com prejuízo para a sua saúde”, refere o estudo, que considera que “as condições sociais atuais – incluindo a normalização do abuso na cultura popular através de romances, filmes e canções – criam o contexto que sustenta tal violência”, segundo a agência noticiosa espanhola EFE.
A trilogia de E.L. James descreve como “romântica” e “erótica” a relação do multimilionário Christian Grey, de 28 anos, e da estudante universitária Anastasia Steele, de 22.
As investigadoras leram o romance e escreveram resumos dos capítulos para identificar os temas principais, tendo utilizado no estudo a definição de violência por parte do parceiro íntimo usada nos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos.
Esta definição inclui o abuso emocional através de intimidação e ameaças, o isolamento, a vigilância e a humilhação.
No romance, Anastasia tem as reacções comuns das mulheres maltratadas. Sente uma ameaça constante e uma perda de identidade, muda o seu comportamento para manter a paz na relação, adianta o estudo.

“Este livro perpetua normas de abuso perigoso e, no entanto, é apresentado como uma novela romântica e erótica para as mulheres”, disse Bonomi, defendendo que “o conteúdo erótico podia ter sido conseguido sem o tema do abuso”.
Lançado em 2011 (2012 em Portugal), o romance As Cinquenta Sombras de Grey já vendeu mais de 70 milhões de exemplares e está a ser transformado em filme."

*O estudo de Ana Bonomi e colaboradores está publicado com o título‘‘Double Crap!’’ Abuse and Harmed Identity in Fifty Shades of Grey"



domingo, 1 de fevereiro de 2015

Jetsunma Tenzin Palmo - A diferença entre amor e apego

[Ative a legenda no canto inferior direito do vídeo]

Entrevistamos a monja Jetsunma Tenzin Palmo sobre como o romantismo nos faz confundir amor genuíno com apego — e como isso causa sofrimento nas relações.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Deleuze: o charme das pessoas


O filósofo Deleuze (1925 – 1995) fala sobre o verdadeiro charme das pessoas: seus traços de loucura.


segunda-feira, 23 de junho de 2014

O amor que se vai | Flávio Gikovate



No mundo contemporâneo, os relacionamentos são menos definitivos e as separações ficaram tão cotidianas... Mas ainda sempre muito doloridas. Diante da perda de algo ou alguém importante, impossível não sentir que “meu mundo caiu”.
E já que estamos passando por uma epidemia de separações geradas pela crise mundial (perda de emprego, perda de bens, mudança de país, e separações amorosas propriamente ditas), talvez seja mesmo a hora de falarmos desse assunto indesejado.
Diante dos efeitos catastróficos de uma separação, é preciso ter também um lado prático. Se meu mundo caiu, como vou reconstruí-lo?
Palestra de Flávio Gikovate no programa Café Filosófico CPFL gravada no dia 30 de setembro de 2009, em São Paulo.
ACEDER aos 252 vídeos do Instituto CPFL, em

quarta-feira, 30 de abril de 2014

O Bem e o Mal

Jusepe de Ribera, Appollo e Marsia (detalhe)

O BEM
“O Bem. É aquilo que você traz no olhar, no abraço, no aperto de mão, no beijo na testa, no carinho nas costas. É aquilo que leva pra sempre tatuado na alma e faz questão de compartilhar, dar, retribuir com quem te faz bem e também com quem você, mesmo sem conhecer, quer o bem.”
Autor desconhecido

O MAL
“Segundo o teólogo Eugen Drewerman, o mal é todo o impulso destrutivo da comunidade, incluindo a tristeza, a angústia, o desespero. A existência do mal, é um confronto com o instinto de vida que está em nós, com o elo social, a capacidade de compreender o outro, de representar os seus estados mentais, de lhe testemunhar simpatia, amizade e porventura amor.”
Leon Grinberg Culpa e Depressão

quinta-feira, 6 de março de 2014

Luc Ferry - A sabedoria do amor


LUC FERRY: "Nós sabemos que somos seres limitados, sabemos que vamos morrer e que aqueles que amamos também podem morrer de uma hora para a outra. E surge a questão de saber que tipo de relação devemos ter com aqueles que amamos e que podem morrer de um dia para o outro."
Filósofo e ex-ministro da Educação da França, Luc Ferry defende que existem três maneiras de lidarmos com o fato de que aqueles que amamos podem morrer repentinamente: a "cristã" – vamos nos reencontrar após a morte, a "budista" – não devemos nos apegar, e o que Ferry denomina "a sabedoria do amor".
Um vídeo Fronteiras do Pensamento.

Conferência traduzida em algumas línguas.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Dia dos Namorados

Foto de  Ranak Martin

A capacidade de cativar. De se tornar desejável. A sorte se o outro repara:

“…uma competência de que todos precisamos: a capacidade de fazer com que outra pessoa se preocupe connosco.”
 Stephen Grosz A vida em exame Temas e debates

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Esther Perel - O segredo do desejo...



O segredo do desejo num relacionamento a longo-prazo - inteligência erótica.
Esther Perel é sexóloga
Conferência traduzida em várias línguas (aqui)

sábado, 14 de setembro de 2013

A ciência do amor - a biologia do amor


 
O artigo de Isabel Nery “A ciência do amor – A biologia do amor” que saiu na revista Visão nº1071 de 12 a 18 de setembro de 2013, aqui.
Poderá aceder também em: umonline.uminho.pt/

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Desinibição tóxica e desinibição benigna online


Michael Sowa

Parte inicial do artigo de João Pedro Pereira, com o título Na Internet, a conversa é outra, que saiu no Publico de 25.8.13:
"De ameaças de morte feitas por anónimos a deslizes de políticos habituados a comunicar em público: online, somos mais desinibidos e rudes.
Este mês, uma rapariga britânica de 15 anos suicidou-se, na sequência, segundo o pai, de mensagens publicadas na sua conta do site Ask.fm. A plataforma é usada sobretudo por adolescentes e permite fazer perguntas e deixar respostas anonimamente. Uma das mensagens dizia: "Morre, toda a gente ficará feliz."
No mês passado, uma feminista britânica foi alvo de repetidas ameaças de violação no Twitter, por vários utilizadores, muitos identificados com fotografias e nomes verosímeis. Numa mensagem particularmente brutal, um deles escreveu: "Se as tuas amigas sobreviveram a uma violação, é porque não foram bem violadas." As ameaças levaram à detenção, pelo menos, de um jovem de 21 anos.
Há muito que a gíria da Internet tem um termo para este tipo de insultos: trolling. Na mitologia escandinava, os trolls são seres sobrenaturais que vivem longe dos humanos. São anti-sociais e agressivos. Alguns têm uma aparência de monstros. Na linguagem moderna da Internet, os trolls são pessoas que, em fóruns, redes sociais e caixas de comentários, discutem sem argumentos racionais ou simplesmente insultam e ofendem os outros, embora não necessariamente com a violência dos exemplos acima. Os académicos têm outro nome para o fenómeno: desinibição tóxica.

"O efeito da desinibição online é uma força poderosa, mesmo quando estamos cientes do efeito que tem em nós. Muitas vezes, opera a um nível inconsciente", explica ao PÚBLICO o investigador americano John Suler, da Universidade de Rider, que em 2004 cunhou o conceito de "desinibição tóxica".

O fenómeno não diz respeito apenas a mensagens ofensivas: "Soltam-se a linguagem rude, as críticas duras, raiva, ódio, até ameaças. As pessoas exploram o submundo negro da Internet, os lugares de pornografia e violência, lugares que nunca visitariam no mundo real", escreveu no livro The Psychology of Cyberspace ("A Psicologia do Ciberespaço"), que está disponível online (do outro lado da desinibição tóxica, Suler coloca a desinibição benigna, que faz com que sejamos mais propensos a revelar emoções e desejos, ou a dar conselhos e ajudar os outros).

O caso da jovem que se suicidou pôs o Reino Unido a discutir o cyberbullying. Mas a desinibição não parece ser uma característica apenas dos mais novos. O psicólogo Américo Baptista, professor na Universidade Lusófona, afirma que "não são só os jovens" que têm este tipo de comportamento, embora seja de esperar que tenham "maior espontaneidade e menos filtro do que os adultos". No mundo offline, observa, "as interacções do nosso dia-a-dia caracterizam-se por termos um feed-back imediato. Na Internet, não há esse feedback, há uma maior sensação de liberdade". Mas ressalva que, apesar de um "maior descuido" no mundo online, "o que acontece na Internet é o que acaba por acontecer na vida real".
A mesma opinião tem o especialista em segurança onlineTito de Morais: "A intermediação da tecnologia muitas vezes leva as pessoas a dizer e a fazer aquilo que presencialmente não fariam. Não vemos as consequências dos actos em quem está do lado de lá. No caso particular dos jovens, se pegarmos na definição de desinibição - o desrespeito por convenções sociais, a impulsividade, a fraca avaliação do risco -, vemos que são características típicas da adolescência."

Internet menos anónima
John Suler aponta várias causas para a desinibição tóxica. Entre elas estão o anonimato, o facto de a comunicação ser assíncrona (alguém deixa um comentário que pode ser visto minutos, horas ou até dias depois), a concepção do mundo online como um mundo de fantasia, "separado das exigências e responsabilidades do mundo real", e ainda a ausência física do interlocutor.
(...).

Acrescento uma resposta que o Dr. Suler deu numa entrevista:” O ciberespaço é um espelho da sociedade. Embora existam algumas características únicas na vida on-line, a verdade é que o que está certo e errado na Internet é um reflexo das mesmas coisas que estão bem ou mal no mundo "real".


Aceder ao artigo "Trolls just want to have fun” (algo como “Os ‘trolls’ só se querem divertir”) é o título de um estudo — publicado em Fevereiro de 2014 por um grupo de investigadores canadianos da Universidade de Manitoba liderado por Erin Buc que se debruça sobre este tipo de comportamento.

Mais acertado o artigo Internet Trolls Are Narcissists, Psychopaths, and Sadists de by Jennifer Golbeck, Ph.D.em.
 http://www.psychologytoday.com/blog/your-online-secrets/201409/internet-trolls-are-narcissists-psychopaths-and-sadists

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A minha vida em um inferno

Margritte René Dangerous Liaisons 1926

“Ela transformou a minha vida em um inferno, mas eu me sinto arrasado sem ela. Ela sempre fazia alguma coisa excitante, até ultrajante. Às vezes desaparecia durante semanas seguidas nem mesmo explicava aonde tinha ido. Nós gastamos até ao último centavo de um monte de dinheiro, todas as minhas economias, a hipoteca da casa. Mas ela realmente me fazia sentir vivo. Minha mente ficava sempre confusa quando ela estava por perto. Eu não conseguia pensar claramente a respeito de mais nada, a não ser nela.” O casamento terminou de modo doloroso para ele quando a esposa foi morar com outro homem. “Ela não deixou nem um bilhete.”*
Robert D. Hare Sem consciência- o mundo perturbador dos psicopatas que vivem entre nós Armed
Como nos poderemos rever na frase “Minha mente ficava sempre confusa quando ela estava por perto. Eu não conseguia pensar claramente a respeito de mais nada, a não ser nela.”!
Se compreendemos tão bem o que isto é, certamente nos relembramos do quanto ensaiamos atitudes a tomar, mas na presença do amado, perde-se essa capacidade e não percecionamos mais nada, a não ser, nesse momento, ele, numa aceitação simples das desculpas.
Mas o que me interessa agora é perceber as razões que nos podem ligar a experiencias amorosas semelhantes ao testemunho apresentado, que são mais complexas e contraditórias que as habituais.
Se permitimos estes episódios na nossa vida, uma parte de nós gosta disto, ou precisa disto, delegando no outro, componentes nossas, desconhecidas, necessidades mais profundas reprimidas, que são vividas através do amado. 
Não sendo uma explicação suficiente, a literatura refere que a pessoa que embarca nestes jogos amorosos estaria habituada desde criança, a erotizar a submissão, a viver as primeiras ligações afetivas num sistema perverso de recompensas e punições, e, quando se perde o sentido de si mesmo, a alimentar mais tarde o núcleo masoquista que todos nós temos.
*Testemunho de um colega do Dr Robert Hare

domingo, 30 de junho de 2013

A intimidade


Rubens Portrait of wife, son and self (detalhe)

“ A intimidade impõe o abandono da couraça que protege o nosso núcleo mais intimo, sede do pudor e da vergonha: quanto mais partilhada mais o outro tem livre acesso às nossas coisas secretas. Mas só a tolerância e uma grande estima de nós próprios nos levam a viver este despirmo-nos como uma oportunidade e não como uma ameaça. Quem pensa que deve esconder as partes de si mesmo que mantém inconfessáveis, inevitavelmente vive a intimidade como um risco”
Willy Pasini Intimidade, O outro lado da afetividade Difusão Cultural
Na ordem do desejo que nos liberta das habituais fronteiras entre o corpo e o espirito. Entre nós e o outro. Partículas de energia, numa dança, ao ritmo de termos sido capazes de nos colocarmos na sua pele sem nos perdermos, e disponíveis para o deixar entrar, sem medo de sermos devorados por ele. Alheados da fórmula que permitiu que o milagre tivesse lugar, não nos contentamos com o conforto do inolvidável encontro. Surge a ideia insana que pode não se repetir, e a urgência de o reviver.
Ideia chave: são necessários dois processos psicológicos para que a intimidade seja possível – a identificação projetiva e introjetiva - empatia e ressonância afetiva.