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sexta-feira, 6 de maio de 2016

Freud: "Esforçamo-nos mais por evitar o sofrimento do que na busca do prazer"

Joaquín Sorolla y Bastida, The Bath, Jávea, 1905

Assinala-se hoje o 160º aniversário de Sigmund Freud.

Procurar na vida  "não estar mal" que é diferente do "querer estar bem":
"Privamo-nos para mantermos a nossa integridade, poupamos a nossa saúde, a nossa capacidade de gozar a vida, as nossas emoções, guardamo-nos para alguma coisa sem sequer sabermos o que essa coisa é. E este hábito de reprimirmos constantemente as nossas pulsões naturais é que faz de nós seres tão refinados. Porque é que não nos embriagamos? Porque a vergonha e os transtornos das dores de cabeça fazem nascer um desprazer mais importante que o prazer da embriaguez. Porque é que não nos apaixonamos todos os meses de novo? Porque, por altura de cada separação, uma parte dos nossos corações fica desfeita. Assim, esforçamo-nos mais por evitar o sofrimento do que na busca do prazer."
Sigmund Freud, in 'Correspondência (1883)


domingo, 29 de junho de 2014

Paradoxo da recuperação

Nigel Buchanan


“Recuperação não se refere a um produto final ou resultado. Isso não quer dizer que se está "Curado". De fato, a recuperação é marcada por uma aceitação cada vez mais profunda das nossas limitações.
Mas agora, ao invés de ser uma ocasião de desespero, descobrimos que nossas limitações pessoais são a terra da qual brotam as nossas próprias possibilidades únicas. Este é o paradoxo da recuperação, ou seja, que ao aceitar o que não podemos fazer ou ser, começamos a descobrir que o que puderemos ser e o que poderemos fazer. Assim, a recuperação é um processo. É um modo de vida. É uma atitude e uma forma de abordar os desafios do dia-a-dia. Não é um processo perfeitamente linear, como as marés, a recuperação tem suas estações, o seu tempo de crescimento, para baixo na escuridão, para garantir novas raízes e em seguida, os tempos de sair à luz do sol. Mas acima de tudo, recuperação é um processo lento, deliberado, que ocorre através de um pequeno grão de areia de cada vez.” 
Patricia E. Deegan, Ph.D.*
  
Pela autenticidade do testemunho, esforço-me por me lembrar de uma experiência vivida de sofrimento. Da recuperação. Do período de transição de uma situação que não volta, ou que percebemos, por fim, que deliberadamente teremos de abdicar. Centra-nos. Temos de ser nós, da pessoa contra si mesma.
Talvez possamos reconhecer os erros, sem culpas, mas não poderemos começar do princípio. Do princípio não. Para outro destino. 
Sem que seja um salto no vazio, é urgente acreditarmos, pacientemente, que vamos ficar bem passadas as provações e que as dificuldades serão temporárias.
Qualquer mudança deverá parecer-nos bem-vinda, e trocarmos pelo caminho, os máximos desejos, por pequenas vitórias alcançáveis. Serão pedacinhos de controlo. Esta parte de nós resiste, mantém-se saudável, o sofrimento não contaminou tudo, mas nunca se sabe quando se estará pronto, sabe-se que pela metamorfose, se sobreviveu. Contudo, sabemos que estamos no caminho da recuperação quando as crises são menos intensas e duradouras. 
O esperado, nas palavras de Coimbra de Matos, que possamos adquirir um modo de ser  "...mais resistente e sobremaneira mais eficiente de dar a volta por cima, construir uma outra e superior maleabilidade e endurance (tenacidade)".
Na transformação da dor, a ferida vira tatuagem, para no futuro, não nos esquecermos que fomos mais fortes do que aquilo que nos afetou e que devemos honrar a nossa evolução.


* Patricia E. Deegan PhD "Recovery, Rehabilitation and the Conspiracy of Hope" (está online: http://www.state.sc.us/dmh/recovery_rehab_conspiracy.htm)

domingo, 15 de junho de 2014

Da esperança


Cena da série: Era uma vez… Canal axn, Portugal


A Branca de Neve para Emma Swan:
" Acreditar mesmo na possibilidade de um final feliz é algo muito poderoso.”

António Coimbra de Matos:
“Acontece também que aceitamos melhor a realidade se podermos imaginar transformá-la e tivermos a esperança de que isso seja possível. “ Relação de Qualidade: penso em ti, Climepsi Editores.

Do tormento, restou a consciência de que nos assenta uma possível mudança. Não o sabemos claramente, mas chega-nos diferentes e criativas formas de sentir. Poderemos estar prontos para uma próxima etapa.
A esperança surge, por definirmos metas, sermos capazes de planear e concretizar os nossos propósitos- a saudável busca do controle.
Na ligação com o outro (ou com o sistema político), de este nos conseguir convencer por meio de genuínas expressões, que está comprometido connosco. Fomos ouvidos e os nossos esforços reconhecidos. Sossegam as nossas inquietações. Agora, mais facilmente confiamos nele e na sua capacidade de não se deixar dominar pelos interesses que o possam desviar deste compromisso.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Os que vivem a "vida plena"


Moreno Bondi Parole di Pietra (detalhe)

 “ (…) Parece-me que os pacientes que fizeram progressos significativos na terapia vivem de um modo mais íntimo com os seus sentimentos dolorosos, mas vivem também mais intensamente os seus sentimentos de felicidade; a cólera é mais claramente sentida, mas o amor também; o medo é uma experiencia feita mais profundamente, mas também a coragem. E a razão pela qual eles podem viver de uma maneira tão plena num campo tão vasto é que eles têm em si mesmos uma confiança subjacente de serem instrumentos dignos de confiança para enfrentar a vida.(…) Estou convencido de que este processo da “vida plena” não é um género de vida que convenha  aos que desanimam facilmente. Este processo implica a expansão e a maturação de todas as potencialidades de uma pessoa. Implica a coragem de ser.”

Carl Rogers Tornar-se pessoa Moraes Editores

Não tenho muita simpatia pela ideia que a pessoa que evolui ao mais alto nível espiritual, definida pela capacidade de consciência e de harmonia que desenvolve consigo e com os outros, deverá aspirar como que a um perpétuo estado Zen. Aconselha-se por ai: utilizar estes atributos  - não ouvir, não ver, não dizer -  na família, na sociedade e no trabalho. Distanciar-se dos estímulos negativos, pressuponho. Desenganem-se. 
Estou convencida que as pessoas que se tornam mais plenamente humanas, têm profundidade emocional, diferenciam mais facilmente o certo do errado e estão ancoradas aos seus sentimentos, o que muito conta para a união ardente com o outro, para a indignação e para a coragem se a situação o exigir. 

Um belo e profundamente sabedor texto, sobre este assunto, com o título The Moral Bucket List da autoria de David Brooks, em: 
http://www.nytimes.com/opinion/sunday/david-brooks-the-moral-bucket-list.html?_r=1

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Edgar Morin - A poesia da vida


Legendas em português, espanhol, francês e inglês - a ser ativadas no vídeo do lado direito, após o seu início.

sábado, 21 de dezembro de 2013


O anúncio 'Real Beauty Sketches', criado por Hugo Veiga para a marca Dove, foi eleito o Melhor de 2013 pela prestigiada revista 'Adweek', especializada no meio publicitário. O filme idealizado pelo copywriter português foi também eleito o 'Melhor do Ano' pela revista 'Time'. 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Saudade e Nostalgia

“Saudade não é o mesmo que nostalgia. Na nostalgia vivem-se emoções de perda, tristeza, falta de ânimo, depressão. Vive-se no passado ligado ao que “já era” e lamentando o “já foi” e não pode voltar. Mas também temos a saudade, considerada como aquilo que a nossa cultura nos indica e oferece para alquimizar a nostalgia e transformar o passado, e o que já vai em recordações vivas, com um potencial dinamizador e de alegria: a alegria de um passado bem vivido que nos acrescentou riqueza ao património da cultura  das nossas vivências pessoais (“esta já ninguém me tira” diz-se quando se acabou de viver algo bom).”

Isabel Abecassis Empis* Bem-aventurados os que ousam Oficina do livro 
* Psicanalista 

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Jean- Pierre Lebrun - A satisfação impossível


Jean- Pierre Lebrun -  Psiquiatra e Psicanalista

Para ler as legendas (também em Português), é necessário, após o inicio do vídeo, ativá-las do lado direito)

Jean-Pierre Lebrun, diretor da Associação Freudiana da Bélgica, explica que a insatisfação é básica na condição humana. O homem busca prazer no objeto e o objeto jamais oferece plena satisfação. A sociedade contemporânea funciona no mecanismo da promessa do objeto impossível - "siga buscando, pois, um dia, você encontrará o objeto satisfatório".

Lebrun alerta para as patologias aditivas, a dependência dos objetos impossíveis, geradas pelo mesmo mecanismo que motiva a sociedade do consumo.

Mais ainda, Lebrun questiona que liberdade é esta que a sociedade contemporânea tanto prega "ter", sendo uma liberdade que apenas consome ideais. Para Lebrun, nunca fomos tão dependentes, nunca estivemos tão distantes da autonomia - de aceitarmos os limites que o caminho de construção apresenta e que devem ser aprendidos enquanto parte do processo da construção da liberdade. Afinal, de acordo com o psicanalista, a verdadeira liberdade não é a do ser algo, mas a do poder tornar-se.

domingo, 17 de novembro de 2013

ENTREVISTA a Zachary Mainen




Entrevista de Nelson Marques a Zachary Mainen, com o título “As pessoas confundem recompensas com felicidade” publicada na Revista do semanário Expresso do passado dia 9 de nov, integrada numa sondagem sobre a felicidade que aquele semanário realizou, tendo concluído, que os portugueses  estão felizes e otimistas apesar da crise.
Zachary Mainen estudou Psicologia e Filosofia na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, mas acabou por se decidir pela neurociência. Em Portugal há 6 anos, o americano dirige o Programa de Neurociências da Fundação Champalimaud, em Lisboa.
A entrevista situa-se a partir da pag 19 do documento:

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Tem de ser amigo de si próprio

Jim Dine

“Tem de ser amigo de si próprio em primeiro lugar, porque isso é uma condição prévia para qualquer teoria materialista e hedonista do amor: não se zangar consigo próprio, não manter relações mortíferas com a sua própria intimidade, não deixar que no mais fundo de si próprio se desenvolvam as pulsões negativas do ódio ou do desprezo contra o próprio corpo, não permitir que a violência se volte contra si. Não lacerar ou desfigurar a alma, não ficar vencido pela martirização mórbida e pela aversão pelo seu ser, não deixar avançar a culpa, essa máquina de guerra judaico-cristã, a sensação de pecado, a força da culpabilidade, os espinhos da carne. Não há futuro para quem acredita que tem dentro de si um animal pecaminoso e para quem acalenta esse criminoso sem remissão, incapaz de estabelecer os contratos hedonistas de que fala Diógenes de Enande. Porque esse danado deixa sempre atrás de si os traços viscosos e resistentes da pulsão de morte, com os quais polui os que, por infelicidade, se aproximam dele.”
Michel Onfray* Teoria do corpo amoroso Temas e debates
* Filósofo
...e que é bom ter prazer...fazer o que se quer...quando se quer...e praticar o bem


sábado, 2 de novembro de 2013

Alice Herz Sommer



Com
Alice Herz Sommer - At age 108, Holocaust survivor
O textoThe Neuroscience of Why Gratitude Makes Us Healthier" de Ocean Robbins, em http://www.dailygood.org 




quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Autoestima é autodisciplina


Casa da Sorte, Rossio - Lisboa

Se nos sentimos válidos, sentimos que o nosso tempo é valioso, e se sentimos que o nosso tempo é valioso, queremos utilizá-lo bem.”
M.Scott PecK O caminho menos percorrido Sinais de fogo
Depois das férias, vem a pretensão de definir um propósito que possa ajudar a tirar o que não importa.
Como a gestão do tempo que dispomos é assunto central nas nossas vidas, os meus carrascos internos dizem-me que esta vontade talvez aconteça por estar stressada e sem disposição para estar com certa pessoa ou em tal situação.
Como se sabe se isto ocorre por stress, ou por outras razões ligadas ao processo de envelhecimento, como se nos estivéssemos a despedir da desalinhada avidez da juventude? Ou será uma manifestação de autoproteção, por me considerar com valor e por tal, evitar expor–me a determinados acontecimentos?
Dependerá da firmeza do que queremos ser. A sensação de segurança identitária ajuda a que nos disciplinemos ao ponto de tomarmos conta de nós, e que utilizemos melhor o nosso tempo e investimentos. Sobrará mais para o novo e para o bom, pelo que, progride a par da libertação psíquica.
É uma estrada longa. Tempo sobre tempo, é anúncio de amor-próprio que se encontra na maior utilidade que damos às nossas escolhas.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Esther Perel - O segredo do desejo...



O segredo do desejo num relacionamento a longo-prazo - inteligência erótica.
Esther Perel é sexóloga
Conferência traduzida em várias línguas (aqui)

sábado, 27 de julho de 2013

A ilusão e o real


Dali, Girl standing at the window 1925

“Uma margem de ilusão resta sempre para toda a vida em todos nós – e é o que nos permite o poder criativo e tempera os momentos de tristeza. Sem ela seríamos autómatos, robôs, máquinas pensantes, ficaríamos reduzidos a um pensamento operacional. Mas é igualmente necessário que o processo de desilusão nos conduza a uma razoável aceitação da realidade tal como ela é; de contrário, a frustração será sempre excessiva, traumática, patogénica – direi incontrolável e insuportável.
A aceitação da realidade é uma tarefa humana jamais acabada; mas que está na mira do comportamento lógico, adaptado, e do conhecimento científico."
António Coimbra de Matos O desespero Climepsi
Nostálgicos de um mundo sem tensões internas, sem conflitos com o outro, entregamo-nos à ilusão que a realidade, apesar de nos consumir, termina aqui, sem razão para a modificarmos.

Julgamos não saber como enfrentar o real, lidar com o incerto. Mas seria preciso nos entregarmos à desilusão, ao não distorcer os fatos, aceitando-os, e ajustando o conceito que temos de nós, a essa realidade, que a mesma se tornaria suportável, porque transformada para melhor.

Ligar os sonhos à realidade

retirado de: http://ccare.stanford.edu/ ( Center for Compassion and Altruism Research and Education)


domingo, 9 de junho de 2013

Tara Brach – Compaixão



 
"The warmth of compassion"




Tara Brach é psicoterapeuta, budista. Pratica e orienta grupos de meditação.  Aceder em  http://imcw.org/
Sobre  o seu mais recente livro True Refuse, a entrevista:
E o artigo no Washington Post,  aqui 


sábado, 27 de abril de 2013

Estar só e solidão


foto de Aimish boy
 
“Faço distinção entre estar só e solidão. A solidão é a indisponibilidade de pessoas com quem comunicar a qualquer nível. (…) Estar só, contudo, é a indisponibilidade de alguém com quem comunicar ao seu nível de consciência.”
M. Scott Peck O caminho menos percorrido Sinais de fogo
 
Depois deste e daquele outro dispensados, reparte-se com poucos, um certo nível de consciência do que se passa e a se ser compreendido. Suponho que acontece aos mais afortunados.
Outros há, que não parecem encontrar alguém com quem possam alcançar o fascínio pelo entendimento acerca da complexidade das coisas. Estão simplesmente sós, mas mantêm o diálogo com a realidade e são uma boa companhia de si próprios.
Revisitar as antigas e insatisfatórias relações, soaria a parar num tempo desconjuntado e teatral. Imediatamente afastados dessas memórias, somos mais nós. É o poder espiritual.