An interactive audiovisual introduction to the mind
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domingo, 28 de maio de 2017
sábado, 17 de maio de 2014
Para uma ciência neuronal orientada psicanaliticamente
“Não é fácil lidar
cientificamente com sentimentos”
Sigmund Freud, O mal-estar na civilização
Para uma melhor compreensão da evolução da investigação da psiquiatria psicanalítica, o artigo de Eric R. Kandel, Um novo referencial intelectual para a
psiquiatria (aqui) - Suplemento da Revista Digital AdVerbum 3 (1) Jan a Jul
2008: pp. 86-106.
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
António Damásio - A diferença entre emoção e sentimento
António Damásio é neurocientista português. Trabalha nos EUA. É diretor do Departamento de Neurologia da Universidade de Iowa, com categoria de Van Allen Professor e catedrático, para além de lecionar como Adjunct Professor no Salk Institut, em La Jolla, na Califórnia.
ENTREVISTADOR:
O que é, em termos mais breves ou mais simples, para um publico leigo, essa diferença básica entre
emoção e sentimento? Emoção é uma coisa, uma reação mais rápida, mais instintiva…ou..o
que diferencia as duas (emoção e sentimento)?
António Damásio: Você vai à
minha conferência esta noite? A emoção é um programa de ações, portanto é uma
coisa que se desenvolve com ações sucessivas. É como que uma espécie de
concerto de ações. Não tem nada a ver com o que se passa na mente. É despoletada
pela mente, mas acontece com ações que acontecem dentro do corpo, nos músculos,
coração, pulmões, nas reações endócrinas, enquanto os sentimentos são por
definição a experiência mental que nós temos do que se passa no corpo. É o
mundo que se segue (à emoção). Mesmo que se dê muito rapidamente em matéria de segundos,
primeiro são ações e grande parte delas podem-se ver sem nenhum microscópio. Você
pode- me ver a estar a ter uma emoção, não vê tudo, mas vê uma parte. Pode ver o
que se passa na minha cara, a pele pode mudar, os movimentos que eu faço etc., enquanto
o sentimento você não pode ver.
O sentimento que eu tenho, você
não sabe se eu tenho ou não tenho. E se você tiver um sentimento de profunda
tristeza, mas se me quiser enganar, e quiser comportar-se como se estivesse
alegre, vai- me enganar o mesmo, porque eu não posso saber o que está dentro da
sua cabeça, posso adivinhar, mas é diferente. Isto é uma diferença fundamental.
É a diferença entre aquilo que é mental e aquilo que é comportamental. (Emoção)
é uma reação inata. O sistema de reações: inata que é desencadeado por um
determinado processo, geralmente um processo intelectual, uma coisa que se
percebe, se ouve, que se vê, etc e depois acontece dentro do corpo dessa forma
complexa. Essa é a grande diferença (entre emoção e sentimento). E como é
evidente, é mais fácil perceber o que se passa objetivamente do que perceber uma
coisa que se passa dentro da mente de outrem. Este é um aspeto de grande êxito para
a neurociência, mas que (ainda) está em curso. Se você me entrevistar daqui a
10 anos, ocorrerá incríveis desenvolvimentos, que vão acontecer. Uma outra coisa
muito importante que começou a acontecer, tem a ver com a tomada de decisões e
com o mundo da vida social, não da vida social no sentido barato do termo, mas
da vida social em termos da organização da sociedade. E uma coisa, por exemplo, se você ver (o meu livro) “O erro de Descartes", especialmente nas últimas
páginas, há uma série de passagens em que eu aponto para isso. Em que eu digo,
bem no fundo as coisas que estão a acontecer no hipotálamo e que estão a
acontecer no Tronco cerebral, que estão a acontecer no Córtex cerebral, tem muito
a ver com coisas que se passam no mundo social, como exemplo, a Declaração de Independência
dos Estados Unidos da América. Estava a fazer a ponte entre o que acontece no
cérebro e o que acontece na nossa vida em matéria de organização social. Porque, tal como hoje penso, e aparece também no meu ultimo livro “ E o cérebro criou o
homem” - nunca consigo lembrar-me do título, penso sempre no homem que criou o
cérebro -, aquilo que eu aponto, também aí (neste livro), é que, a nossa vida e
a nossa organização social, são um reflexo extraordinariamente importante da
nossa organização básica afetiva. A razão pela qual temos uma sociedade
organizada da forma que temos, aquilo que acontece em matéria da criação da
moralidade, justiça, economia, política, e mesmo termos mesmo das artes e
humanidades, tudo isso tem uma influência extraordinariamente grande na vida
dos afetos.
NOTA: O mesmo assunto em uma outra entrevista que António Damásio deu à Revista Veja:
http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/os-sentimentos-sao-fundamentais-para-a-sociedade-diz-antonio-damasio
NOTA: O mesmo assunto em uma outra entrevista que António Damásio deu à Revista Veja:
http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/os-sentimentos-sao-fundamentais-para-a-sociedade-diz-antonio-damasio
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Miguel Nicolelis - A tênue linha da individualidade
Para ler as legendas em inglês, é necessário, após o inicio do vídeo, ativá-las do lado direito.
Miguel Nicolelis, neurocientista brasileiro, explica a maleabilidade do self com base em experiências europeias. Em poucos minutos, trocando os sentidos e vendo o mundo por meio dos olhos de outra pessoa (câmera), o cérebro humano é capaz de reconhecer outro corpo como sendo "eu". Com isso, conclui: até nossa possessão mais íntima, nossa individualidade corporal, o sentido de existir, é dinâmico.
Conferencista do Fronteiras do Pensamento 2010 e 2011.
domingo, 24 de junho de 2012
Psicopatas
Dr Robert Hare e Dr Paul Babiak sobre Psicopatas
A frase de Anne Alvarez* sobre os psicopatas: "Nem devemos imaginar que ele está necessariamente se defendendo contra a dependência de nós ou recusando-se a ver nossa bondade. É possível que ele realmente nos veja como inúteis, porque ele tem um objeto interno inútil. Sua violência pode ter começado como uma defesa contra a dor, mas pode ter se transformado em um estilo de vida."
*Malignidade sem motivo: problemas na psicoterapia de pacientes psicopatas
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Lembrando de quando tudo aconteceu
Frida Kahlo Dona Rosita Morillo (detalhe)
Como percepcionamos o tempo? Porque em certos encontros o tempo desliza vivo e veloz, enquanto em outros, os momentos parecem-nos longos e penosos, travados pelo outro, à beira do nosso desejo?
António Damásio director do Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina da University of Iowa, assina um artigo publicado na revista Scientific American, nº 40, Brasil, com o título “Lembrando de quando tudo aconteceu”, cuja temática é a construção do tempo mental.
No artigo pode-se ler como definição de tempo mental: "...diz respeito à maneira como experimentamos a passagem do tempo e como organizamos nossa cronologia."
No artigo pode-se ler como definição de tempo mental: "...diz respeito à maneira como experimentamos a passagem do tempo e como organizamos nossa cronologia."
Várias estruturas cerebrais entre elas o hipocampo, o cérebro anterior basal e o lobo temporal, contribuem para a percepção do “tempo mental”, mas parece que este é “...determinado pela atenção que dispensamos aos eventos e às emoções que sentimos quando eles ocorrem”, desconhecendo-se por enquanto outros mecanismos que o influenciam.
Assim,” …a experiência de duração do tempo …se baseia em factores tão diversos quanto o conteúdo dos eventos que estejam percebidos, as reacções emocionais que esses eventos despertam, a maneira como as imagens são apresentadas a nós, assim como as inferências conscientes e inconscientes que as acompanham”.
É também curiosa outra explicação de António Damásio: “O conteúdo emocional do material pode também fazer com que o transcurso do tempo se desacelere. Quando estamos incomodados ou preocupados, frequentemente sentimos o tempo passar mais devagar, porque nos concentramos nas imagens negativas associadas à nossa ansiedade”.
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Simon Baron-Cohen
Simon Baron-Cohen é um dos grandes especialistas mundiais em autismo. É entrevistado por Joana Gorjão Henriques do Jornal Publico, cuja entrevista se encontra publicada na edição de ontem. É apresentado como tendo desenvolvido uma nova teoria da crueldade, com base na ideia chave que a falta de empatia está na base da mesma. Colocado deste modo o assunto, não se trata de uma ideia nova, mas estou certa que é um investigador de mérito.
Esta entrevista justifica reanimar o blogue, mesmo em período de férias.
Esta entrevista justifica reanimar o blogue, mesmo em período de férias.
Deixo-vos então, na íntegra, a entrevista com este investigador, com o título "Confrontar a vítima e matá-la implica desligar a empatia”:
O especialista em autismo Simon Baron-Cohen publicou em livro "uma nova teoria da crueldade". Defende que para ser cruel é preciso desligar os níveis de empatia. Uma conversa sobre a crueldade, o psicopata da Noruega, a anoroxia, os lucros e a testosterona. A empatia e a sua ausência explicam muitas coisas nas nossas vidas.
Há alguma situação em que falta de empatia é desejável?
O que distingue um psicopata de outra pessoa qualquer? A resposta está numa palavra: empatia. Ou, na ausência dela, no caso dos psicopatas. Estar no espectro zero negativo de uma banda de empatia que tem seis níveis, segundo Simon Baron-Cohen, significa incapacidade de ler as emoções dos outros e capacidade para ser cruel.
Baron-Cohen é um dos grandes especialistas mundiais em autismo e desenvolveu aquilo a que chama uma nova teoria da crueldade, exposta no livro publicado este ano, Zero Degrees of Empathy. Estar no espectro zero não significa necessariamente ser psicopata, explica, mas ser psicopata significa ter zero graus negativos de empatia.
O seu currículo impressiona. É professor de Developmental Psychopathology na Universidade de Cambridge e director do Autism Research Centre e da clínica CLASS (Cambridge Lifespan Asperger Syndrome Service) na mesma universidade. Escreveu vários livros, entre eles Mindblindness e The Essential Difference: Men, Women and the Extreme Male Brain, onde aborda a polémica questão de diferenças biológicas entre homens e mulheres.
Uma conversa de 30 minutos sobre o cérebro, o bem e o mal, e também, naturalmente, a tragédia da Noruega, em que um homem de 32 anos, Anders Breivik, matou 77 pessoas, 69 deles jovens e a sangue-frio: quem é um psicopata?
Diz no seu livro que a definição de mal já não serve e propõe que se substitua por "zero graus de empatia". Pegando no exemplo de Anders Breivik, em que parte da escala o colocaria e porquê?
Em relação a Anders Breivik acho que ainda não foi feito um diagnóstico completo da sua situação psiquiátrica: se mostra os traços de psicopata, distúrbios de personalidade anti-social ou outra doença psiquiátrica... O facto de ter sido capaz de cometer actos de crueldade, matando pessoas, significa que tinha baixo nível de empatia nesse momento.
Quando alguém magoa alguém, isso quer dizer que o nível de empatia dessa pessoa está abaixo da média - seja temporariamente durante o acto ou permanentemente.
Em termos de crueldade, matar com uma bomba é a mesma coisa que matar, uma a uma, 69 pessoas como ele fez? Qual é a diferença entre estes dois actos de crueldade na escala de empatia?
Não tenho a certeza que exista uma diferença. Podemos imaginar que quando se mata uma pessoa de cada vez envolva ainda menos empatia, porque se está a cometer um acto em relação a várias pessoas e por um período mais prolongado.
Mas a capacidade de fazer um dos dois actos é que os dois implicam baixa empatia. Se se põe uma bomba sabendo que se vai matar várias pessoas, a empatia por esse grupo de pessoas está abaixo da média.
Mas não ver as pessoas que se vai matar quando se põe uma bomba não é diferente de olhar as vítimas quando se está a matá-las?
Intuitivamente, concordo. Confrontar a vítima e matá-la implica desligar a empatia e ainda uma maior "redução" dela: pode-se ver os olhos, imaginar a pessoa. Tem-se muito mais informação, que é o que normalmente gera empatia. Mas não sei se temos algum meio científico para provar que uma forma de matar envolve mais ou menos empatia que outra.
No meu livro defendo que qualquer acto que implique matar pressupõe níveis de empatia abaixo da média. Seria bom se conseguíssemos cientificamente fazer a distinção entre estes dois actos, mas na prática não sei se será possível.
Descreve a empatia como algo que pode ligar-se e desligar-se - fazemos uma espécie de suspensão de empatia...
... a ideia de ligar e desligar significa que, para algumas pessoas, pode-se em determinado momento desligar e depois voltar a ligar. Mas para outras pessoas pode durar toda a vida - factores genéticos ou experiências fizeram com que a sua empatia nunca atingisse um nível alto. Neste caso não é desligar ou ligar, mas mais um processo ou desenvolvimento.
O que está exactamente ligado à empatia, apenas emoções?
Empatia não é apenas mais uma palavra para emoções. Porque podemos ter muitas emoções que não têm relação com empatia. Empatia é uma resposta emocional às emoções de outra pessoa. É uma emoção muito específica. Por exemplo, se receber um presente de anos óptimo pode sentir a emoção de felicidade ou de surpresa - e isso é apenas uma reacção emocional a uma situação. Empatia é muito mais específico: tem a ver com a experiência de uma emoção gerada pelo estado emocional de outra pessoa.
No momento em que se está a cometer um acto de crueldade, o que é que se passa exactamente no cérebro?
É bastante complexo: há pelo menos 10 regiões no cérebro que desempenham um papel na empatia. Estas regiões do cérebro estão todas ligadas e por isso falo de um circuito de empatia no cérebro. Cada região desempenha papéis diferentes. Algumas podem envolver uma resposta emocional a uma emoção de alguém, mas outras podem envolver inibição e a capacidade de ganhar perspectiva e pensar no futuro - portanto é bastante complexo. Quando falamos de empatia parece um único processo, mas tem muitas componentes.
No seu livro, dá o exemplo de Paul, um psicopata, e de como a sua ausência de remorso o deixou a si curioso. Não sentir remorso faz parte da personalidade do psicopata e está ligada a baixos níveis de empatia?
Parte do diagnóstico de um psicopata é a ausência de remorso: fazer algo que magoa a outra pessoa e não se preocupar com isso. E psicopatas têm resultados mais baixos nos testes de empatia. Quando se olha para o cérebro de um psicopata, ele mostra menos actividade em partes do circuito da empatia. Isso está ligado à função cerebral. Também se pode ver um desenvolvimento atípico em partes do cérebro em que a empatia está envolvida. Temos que ir do nível do comportamento, como observar ausência de remorso, ao nível do cérebro e tentar fazer inferências de um nível para o outro.
Não ter medo da punição é outra das características do psicopata, diz. Isso deve-se a uma sensação de poder ou os psicopatas têm uma relação diferente com o medo em geral?
É difícil distinguir os dois e generalizar. Mas há dados que nos indicam que alguns psicopatas têm falta de ansiedade em relação ao medo da punição. Alguns psicopatas não têm respeito pelas figuras de autoridade. Não sei se será um ou outro. As componentes específicas que levam a baixos níveis de empatia é algo complexo: o resultado é baixa empatia mas os caminhos que vão dar a esse ponto podem ser múltiplos.
E os sádicos, pessoas que têm prazer em magoar os outros, têm empatia?
De acordo com a definição de sádico, que magoa sabendo que causa dor, e o faz para seu próprio prazer, significa que não tem uma componente de empatia. Alguns dizem que os sádicos têm que ter empatia porque sabem que o outro está a sofrer. Para mim é mais ou menos como um psicopata, que muitas vezes sabe o que se está a passar com a vítima - isso é chamado componente cognitiva da empatia, e o que falta é a componente afectiva da empatia, que é o preocupar-se com o que o outro está a sentir.
Além do psicopata, o grau zero de empatia inclui outro tipo de pessoas, autistas e anorécticos. Quais são as diferenças?
No livro falo de zero positivo e zero negativo, que inclui distúrbios de personalidade - os psicopatas, narcisistas, borderline personality. São descritos como zero negativo: têm baixa empatia e podem magoar as outras pessoas. É negativo para os outros mas também para os próprios, porque frequentemente isso gera depressão.
Depois há os zero positivo, como os autistas, que, apesar de terem menos empatia do que a maioria, não têm intenção de magoar - não há provas de que os autistas magoem os outros mais do que a população em geral o faz. No caso do autista, traduz-se numa vontade de evitar outras pessoas e torna difícil ter relações. Chamo-lhe zero positivo porque, apesar de as pessoas com autismo terem dificuldade com empatia, muitas vezes processam informação de uma forma diferente: têm atenção extra aos detalhes e isso leva-os a sistematizar a um nível elevado - e sistematizar é ser capaz de entender sistemas, o que pode ser muito positivo para o próprio e para a sociedade. Pessoas com autismo tendem a ser muito boas a Matemática ou Música por causa dessa sua capacidade de sistematizar.
Quanto à anorexia, que discuto a propósito de outras doenças que possam estar ligadas a níveis baixos de empatia, tem sido olhada deste prisma porque as pessoas com anorexia só estão focadas no seu próprio peso e na sua forma e não estão a pensar no impacto do seu comportamento e do que comem.
Há alguma situação em que falta de empatia é desejável?
Pode ser uma vantagem. Alguém que está na direcção de uma empresa e tem que se focar nos lucros, se tiver demasiada empatia isso pode afectar as decisões. Para um negócio ser bem sucedido, às vezes é preciso despedir pessoas...Pode-se imaginar que há situações em que falta de empatia traz mais benefícios, especialmente situações em que está em causa lucro. Outras situações são aquelas em que temos que nos focar num objectivo.
Com zero graus negativos de empatia temos psicopatas - há um equivalente no outro extremo positivo?
Os cientistas sabem muito pouco sobre o outro lado da escala, têm estudado mais a falta de empatia, usando imagens do cérebro, olhando para a genética e para os factores ambientais. A resposta curta é que ainda não sabemos muito sobre o assunto, precisamos de mais pesquisa.
Diz que no caso dos distúrbios de personalidade anti-social há diferenças de género: como as explica?
Isso é verdade também para a empatia, onde as mulheres tendem a ter valores mais altos e desde a infância. A explicação é em termos de experiências sociais mas também biológicos. Estamos a olhar para a biologia, em particular a testosterona, porque os rapazes produzem-na mais. E conduzimos uma pesquisa em que se mostra uma relação entre a produção de testosterona e empatia - mas isso explica apenas parte da questão. As diferenças surgem de uma interacção entre biologia e cultura: no passado tínhamos tendência a ver as coisas preto ou branco, cultura ou biologia. Hoje aceita-se que o comportamento se explica por uma interacção entre os dois.
Sugere que aprender a empatia devia fazer parte dos currículos escolares. Como é que se ensina?
Muitas pessoas já o ensinam, embora não lhe chamem isso - ensinam a ter capacidades sociais, ou de cidadania, para garantir responsabilidade social. Os métodos usados são diferentes: às vezes são muito explícitos e ensinam a reconhecer expressões faciais, outros usam teatro... Há diferentes métodos que podem ser usados para ensinar ou estimular a empatia. Aprender a ouvir os pontos de vista dos outros, ter em conta as diferentes perspectivas é uma ferramenta muito importante de negociação e compromisso.
Ainda há alguma coisa particular nos psicopatas que o intrigue?
É importante conhecer os psicopatas, por serem um extremo e pelo que nos podem ensinar sobre nós. Uma das questões sobre os psicopatas é se existem componentes genéticas no seu comportamento e, se sim, se esses genes ligados a um comportamento extremo também existem no resto da população. Mas há muitas questões ainda por saber.
Sobre o mesmo autor, o vídeo e o artigo Do women have better empathy than men?
domingo, 24 de outubro de 2010
A base dos sentimentos
Entrevista de Ana Gerschenfeld a António Damásio, neurocientista, a propósito da sua mais recente obra "O Livro da Consciência"
Ana Gerschenfeld: Também inclui no seu modelo uma estrutura chamada ínsula. Ela também faz parte do córtex?
António Damásio: "...O tronco cerebral faz os seus primeiros mapas — que são muito simples —, transforma esses sinais e inicia o sentimento. Depois, envia todos esses sinais para a ínsula, onde os mapas são completados e onde existe a possibilidade de os relacionar com os objectos que inicialmente desencadearam o processo — e que podem ser visuais, auditivos, etc. Por exemplo, se você ouvir uma grande peça de Bach, desencadeia-se um processo auditivo. Esse processo auditivo vai provocar uma série de emoções e de sentimentos; as transformações ligadas às emoções e aos sentimentos vão aparecer mapeadas primeiro pelo tronco cerebral; depois, o tronco cerebral vai transferi-los para o córtex, onde se irão ligar ao iniciador de todo o processo, que foi a audição da peça musical do sr. Bach. Esta visão não exclui nenhum sistema, mas enriquece a maquinaria cerebral que fornece dados ao córtex."
Fonte : Jornal Publico, 18 de Out de 2010
domingo, 26 de setembro de 2010
O Livro da Consciência
A propósito do novo livro de António Damásio (neurologista) - O Livro da Consciência:
Entrevista de Ana Gerschenfeld do Jornal Público de 22/09/10: Mas então, como imagina o autor a mente de um cão "desde o interior"?
António Damásio: Como "um fluxo muito rico de imagens situadas no presente, com uma leve penumbra de passado e nem a mais mínima ideia de futuro". Mesmo assim, todos sabemos isso, uma mente capaz de amar, de sentir tristeza, medo ou ciúmes... mas não de reflectir sobre a sua condição, não de saber que sabe o que sente.
Os animais não são capazes de pensar no futuro, ao contrário do homem. Para o bem, pensar no futuro ajuda-nos a planear a vida e deste modo, a evitarmos dentro do possível acontecimentos negativos, e para o mal, quando o medo criado por esses pensamentos impedem-nos de viver o presente. Neste caso, está em jogo a ansiedade e a necessidade que temos em controlar os acontecimentos.
As palavras de António Damásio dão que pensar sobre o modo como tratamos os nossos animais, em particular os nossos cães.
domingo, 19 de setembro de 2010
Neurociências e Psicanálise
Pierre Magistretti professor de neurociências da Universidade de Lausanne e François Ansermet, psicanalista, apresentam as suas reflexões sobre a possibilidade de encontro entre as Neurociências e a Psicanálise (neste video).
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
O que li nas férias (1)
Proust Era Um Neurocientista de Jonah Lehrer
Edição/reimpressão: 2009
Editor: Lua de Papel
Colecção: Neurónios
Porque quadros de Cézane sem limites, ou linhas a separar umas coisas das outras, parece-nos bem? “Porque este é o princípio da visão, é aquilo que a realidade é, antes de ser resolvida pelo cérebro?”, escreve Jonah Lehrer. Por isto, Cézane foi revolucionário para a sua época.
Agora percebo porque a aguarela (só uma pinceladas) que desenhei do Porto Santo me agradou, ao ponto de a colocar neste blog. “Porque a visão não basta” diz Cézane “é precisa a reflexão”, acrescenta.
Também só agora, com a ajuda deste livro, confirmei que, quando escrevi numa mensagem aqui neste blogue, ”Na literatura está lá tudo”, não era um estrondoso disparate.
Na verdade, sempre me pareceu que, enquanto que nas ciências sociais e humanas, o estudo da condição humana é fragmentado, a literatura e as artes ajudam-nos a compreender as pessoas em interacção umas com as outras, e nos contextos, ampliando a nossa compreensão.
Este brilhante livro, descreve, a partir de oito autores (Cézane, Proust...), e com recurso às neurociências, que os artistas através da sua arte, podem revelar-nos os segredos da nossa mente muito antes da ciência ter meios para o fazer. Há muitas maneiras diferentes de escrever a realidade, defende Jonah Lehrer.
Mas Jonah Lehrer, não é um pós-modernista. Para ele todos os humanistas deveriam ler a Nature. É um adepto de uma nova quarta cultura, uma cultura que procura descobrir as relações entre as humanidades e as ciências.
Jonah Lehrer tem apenas 25 anos.
Saiba mais em: http://www.jonahlehrer.com/
É autor do blogue
sábado, 24 de julho de 2010
Controlar o Stress
Como controlar o stress e aliviar as nossas ansiedades?
O stress resulta de uma exigência do ambiente, mas está dependente, em muito, da nossa atitude perante essa exigência. Certamente não podemos alterar o acontecimento que nos provoca stress (o carro que se avariou, logo pela manhã…), mas alterar os nossos pensamentos e saber gerir as nossas emoções, numa situação stressante, é uma dimensão do stress que podemos controlar.
Com base nesta ideia, a revista “Le monde de l Intelligence” de Maio/Jun/Jul/2009, no artigo “Surmonter son stress?”, faz referência às investigações de Jacques Fradin, especialista em gestão do stress, médico, comportamentalista e cognitivista. Este investigador, que é também director do Instituto de Médicine Environnementale (IME), de Paris, recomenda que, para lidar com situações stressantes, devemos:
a) Desenvolver a curiosidade
b) Capacidade de aceitação
c) Relativizar
d) Racionalizar
Exercício: Conflito nas relações interpessoais (divórcio…)
Face a cada uma das suas situações geradoras de stress, tente situar-se numa escala de 1 - Muito stressado a 9 - Muito sereno, de acordo com o quadro:
Rotina/Curiosidade - Gosto pelo familiar (tendência a stressar) versus Gosto pela novidade (serenidade) - Se o nosso cérebro, em situação de stress, tem tendência para a rotina, é necessário fazer um esforço e produzir intencionalmente outros modos de ver e fazer as coisas.
Recusa/Aceitação - Perseveração apesar do fracasso (tendência a stressar) versus Capacidade de adaptação e flexibilidade (serenidade) - Refere-se à necessidade de não negar a realidade e de tentar várias maneiras de lidar com a situação.
Dicotomia/Nuance - Visão binária (tendência a stressar) versus Visão subtil (serenidade) - Trata -se de não retratar o outro sistematicamente com traços odiosos e de ser capaz de lhe reconhecer qualidades.
Certeza/Relatividade - Certeza absoluta (tendência a stressar) versus Tudo é relativo (serenidade) - Exige perder a mania que se tem sempre razão e levar em conta as opiniões do outro.
Empirismo/Reflexão lógica - Seguir impressões (tendência a stressar) versus Procura compreender (serenidade) - O raciocínio lógico torna-se importante para definir estratégias e objectivos, como seja recorrer a advogado ….
Imagem Social /Opinião Pessoal - Forte preocupação acerca do julgamento dos outros (tendência a stressar) versus Ter uma opinião pessoal apesar do olhar do outro (serenidade) - Evitar deixar-se influenciar e em preocupar-se com a opinião de familiares ou com a imagem social.
Se deu respostas superiores a 5, é capaz de lidar de um modo eficaz com a situação stressante. Abaixo de 5, a situação é inversa.
Phillippe Goldin, psicólogo do Departamento de Psicologia da Universidade de Stanford, publicou um estudo em 2008. Com recursos às modernas técnicas de ressonância magnética, foi possível detectar que, o cérebro (córtex pré-frontal) que lida com a curiosidade, aceitação, relatividade..., revelou menos actividade cerebral nos sujeitos que assim se comportavam, o que significa que estas técnicas de controlo de pensamento e das emoções, são mais eficazes para lidar com o stress porque criam bem - estar.
quarta-feira, 23 de junho de 2010
A Paixão
Razão da escolha da foto: tirei esta foto para ilustrar a paixão - pelo sentimento intenso, vivido a despropósito e mantido na linha de água.
“… o que caracteriza as grandes paixões: a intensidade da dificuldade em vencer e a sombria incerteza do acontecimento.”
Stendhall, O vermelho e o Negro, Clássica editora
A investigação da equipa de Helen Fisher, antropóloga, pretendeu saber o que dá origem ao amor romântico.
O amor romântico tem características comportamentais particulares: pensar obsessivamente no amado(a), considera-lo(a) único(a), especial, estar possuído(a) por uma energia intensa …enfim, emoções poderosas.
Nesta pesquisa, os cérebros dos indivíduos apaixonados foram examinados enquanto observavam uma foto da pessoa que amavam. O mesmo procedimento foi aplicado aos indivíduos que haviam sido rejeitados pela pessoa amada.
Os resultados da investigação apontam para a universalidade do amor (todos o podem sentir, independentemente da idade, orientação sexual, cultura, grupo étnico….), e para o facto de este ser produzido por substâncias químicas específicas e estruturas cerebrais. Também concluiram que, a paixão e razão estão intimamente ligadas no cérebro, tal como concluíu o neurocientista António Damásio.
“Cada um de nós tem uma personalidade única, formada pelas nossas experiências de infância e a nossa biologia pessoal. É esta estrutura psíquica, em grande parte inconsciente, faz com que nos apaixonemos por uma pessoa e não por outra” – Helen Fischer. E, pela natureza do acontecimento, tal como refere Stendhal.
Esta investigação, poderá ser consultada no livro:
Helen Fisher, Porque amamos – A Natureza e a Química do Amor Romântico, Relógio D”Água, 2008
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