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domingo, 14 de maio de 2017

Compreender não é sentir


René Margritte A Arte da Conversação, 1950

Muito se fala e muito se escreve acerca da empatia, e eu própria me questiono porque também o faço, aqui e agora.
Talvez o faça porque a empatia esteja na base do laço social, da compreensão e compaixão pelo semelhante, que a cultivar, nos enche de esperança de um futuro melhor. Mas talvez o faça, também, por razões egoístas, para evitar cair no erro de julgar que se a minha emoção faz impressão no outro, e se gera a partir daí um contágio emocional, a denominada simpatia, eu fui compreendia, e ele sente o mesmo que eu sinto, como se tivesse vivido ou estivesse a viver a minha situação. Sente empatia por mim. Puro engano.
Em suma, posso iludir-me se julgar que emocionar-se com o meu relato, coloca-o a habitar o meu mundo emocional, ou seja, “É como eu”.
A empatia de acordo com Boris Cyrulnik em, ”Do sexto sentido”, é então uma construção em duas etapas “compreendo o que você sente”, mas que ainda pode dar azo a não tomar o meu lugar, serve de base para uma emoção profunda, a um sentimento “compreendo o que você compreende”, que permite ver o mundo com os meus olhos, o que implica ter sentido essas experiências emocionais no passado, e ficar comigo, por que a empatia também se faz se se ousar deixar correr a alegria da comunhão.
Podemos então admitir que, é a linha da empatia na qual todos nós nos situamos, compreender o outro, que não é uma tarefa fácil, mas possível para os psicopatas, até à emoção profunda, o sentimento, que não está ao alcance destes, porque não tiveram a vivência emocional. 

sábado, 11 de abril de 2015

Augusta Gaspar: “Crescer com Empatia”


TVL -  “Nós E A Escola” com o tema: “Crescer com Empatia” tendo como convidada a Dra. Augusta Gaspar, http://tvl.pt/

Dr Augusta Gaspar  - Tenho um interesse global pelas abordagens evolutiva, ontogenética e comparativa do comportamento. Nesse sentido, tenho estudado o comportamento facial de crianças humanas e de grandes símios (chimpanzés, bonobos e gorilas) acumulando repertórios que me permitem numa abordagem comparativa reflectir sobre a evolução da expressão emocional e sobre componentes ambientais que afectam o comportamento expressivo.
Tenho estudado outros aspectos do comportamento social e a empatia, também nesta perspectiva.  Os meus projectos mais recentes focam o desenvolvimento de reações emocionais, empatia, vinculação e percepção das emoções.



sábado, 17 de maio de 2014

O lado negro da inteligência emocional

George la Tour A adivinha

“Neal Ascherson (1983) relata que Klaus Barbie, o chefe da Gestapo de Lyon que torturou Jean Moulin até à morte, disse, uma vez, numa entrevista: Quando interroguei o Jean Moulin, senti que ele era eu próprio.”

Arno Gruen A Traição do eu

O relato é usado pelo autor, para comprovar como é possível possuir a capacidade de reconhecer a humanidade do outro e mesmo assim ser cruel até o matar.
Se nos confunde, o certo é que  o chefe da Gestapo evidenciava uma componente da inteligência emocional – identificou emoções em si e em Jean Moulin. Não sabemos se poderia ser considerado emocionalmente inteligente, pela posse de um conjunto de outras capacidades, tais como: compreender as causas das emoções e as suas consequências para o pensamento e comportamento; rotular emoções com vocabulário sofisticado; expressar emoções de forma socialmente apropriada; e regular as emoções de forma eficaz.
Podemos sintetizar que a inteligência emocional dá-nos competências sócio emocionais de que tanto se fala na modernidade, só que as mesmas podem ser utilizadas para o mal - o lado negro da inteligência emocional-, para a manipulação do outro. Esta é uma ideia que tendemos a rejeitar, por estarmos submersos pela valorização daquelas capacidades adaptativas que sustentam variadíssimos projetos sociais e educacionais. 
Se julgamos que não podem coabitar na mesma pessoa as qualidades citadas ao serviço do mal, pensemos nos líderes carismáticos e nos seus desgovernos, ou nos grandes burlões que iludem magistralmente as pessoas. O que lhes falta, de fato, não é a inteligência emocional, é esta ser entroncada com a moral, com os valores positivos, apoiados na capacidade de doer no próprio, quando inflige sofrimento a outro. A inteligência emocional não é mais importante que a moral.
Ao simplificar, bastaria a educação moral e o auto-conhecimento, em nós, para deixarmos o mundo melhor.

Aos os interessados no tema, vale a pena investigar se tudo depende de se considerar a inteligência emocional como dimensão interpessoal ou como traço de caráter.


Ler: "Emotional intelligence is important, but the unbridled enthusiasm has obscured a dark side." de Adam Grant, aqui.


Vale também a pena ler "Does IQ Beat EQ? Wrong question" de Jushua Freedman, aqui.

Analisando a importância da empatia sob outra perspetiva, no site  Fronteiras do Pensamento leia o artigo “Colocar-se no lugar de bilhões de estranhos? O problema da empatia como solução para a humanidade”, do qual transcrevo: 

"Ainda, Bloom ( o psicólogo canadense Paul Bloom) argumenta ser impossível desenvolver empatia por sete bilhões de estranhos no planeta, refutando a ideia de que precisamos ver a humanidade como uma família. Para ele, o que devemos fazer é ensinar o valor universal da vida, seguindo a linha de Steven Pinker, que defende que faculdades mentais mais complexas - como razão e justiça - são mais eficazes como um guia para o futuro. (…) Onde a empatia realmente importa é nos nossos relacionamentos pessoais.(...) Empatia apenas nos trai quando a levamos como um guia moral."



segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A linha da empatia


Erik Johansson Common Sense Crossing

“Uma analogia simples pode ajudar. O psicopata é como uma pessoa que não enxerga cores, que vê o mundo em sombras cinzentas, mas que aprendeu como deve agir no mundo colorido. Ele aprende que o sinal de trânsito que indica parar fica na parte de cima do aparelho. Quando uma pessoa que não enxerga cores diz que parou no sinal vermelho, na verdade ela queria dizer que parou no sinal de cima. Tem dificuldade em distinguir a cor das coisas, mas pode aprender modos de compensar esse problema e, em alguns casos, às vezes nem amigos próximos sabem da existência da deficiência. Assim como as pessoas que não enxergam as cores, o psicopata não tem um elemento importante da experiencia; nesse caso o aspeto emocional, mas consegue aprender as palavras que os outros usam, e, assim é capaz de descrever ou de imitar experiencias que na verdade não consegue entender. Como coloca Cleckley: Ele pode aprender as palavras comuns…(e) também aprende a reproduzir de modo apropriado os gestos, as expressões faciais e os movimentos do sentimento…mas não experimenta o sentimento real.”.
Robert D. Hare Sem consciência O Mundo perturbador dos psicopatas que vivem entre nós Artmed
A analogia apresentada também pode ser útil para traçar a linha da empatia.
De um lado estarão os psicopatas e as personalidades psicopáticas que olham para os outros, e em maior ou menor grau, não conseguem encontrar dentro de si uma parcela que os faça sentir semelhantes. Não têm, por isso, como saber que algo é um sentimento profundo, e reconhecê-lo. E não têm como saber que não compreendem, mas podem disfarçar essa incapacidade com recurso, por exemplo, à sedução ou à simpatia, para ocultar a falta de empatia. 
Do outro lado da escala, estarão todos aqueles, que nas palavras clássicas de Carl Rogers, são capazes de ouvir o que o outro tem a dizer, capazes de compreender como uma coisa lhe surge a ele, capazes de ver o que isso significa para ele, capazes de sentir a sua reação emotiva perante tal coisa.
É o traço contínuo do desenvolvimento moral e afetivo, ao longo do qual todos nos situamos, e que ingenuamente, ou por abundância do coração, não damos conta que nas nossas interações podemos ou não estar a partilhar a mesma língua.
Até perdemos a inocência. Daí para a frente, abre-se um novo mundo, que surpreendentemente nos pode facilitar a comunicação.