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sábado, 16 de maio de 2015

A origem da atração


Hendrik Goltzius Smell

"Como se escolhe e porquê...este e não o outro...Procuramos ainda ligações a laços mnésicos de determinadas sensações visuais, olfativas e táteis de prazer ligadas ao período pré-verbal da vida psíquica...para entender porquê se erotiza uma relação e não outra...Há uma opacidade que persiste
Teresa Ferreira Relação amorosa e gênese do desejo Revista Portuguesa de Psicanálise, Vol. 3

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Feitio ou defeito

Ricardo da Cruz Filipe A Onda 1983 CAM


(Importante saber distinguir) “…estado – sentimentos transitórios, pensamentos e ações, de traços – características douradoras da personalidade.”
Helena Marujo Educar para o otimismo

Poderá parecer ser um assunto muito técnico, só para especialistas, árido, mas encerra um conteúdo interessante.
Para se tornar mais manejável, comecemos por considerar que as pessoas psicologicamente saudáveis, podem manifestar uma vez por outra, em determinadas situações, atitudes que não lhes são habituais. Esses momentos, são estados que envolvem sentimentos transitórios, pensamentos e ações, e que podem até contribuir para que se apresentem aos olhos dos outros, surpreendentemente interessantes, despertar uma paixão, como se dessem corpo a desejos de viver que parecem acertados e de possibilidades ilimitadas.
Com o conhecimento do outro, poderá acontecer que vamo-nos apercebendo que estes estados não são um detalhe, vêm com um “pacote” - constituem padrões característicos de percepcionar o mundo, de estabelecer relações com as pessoas e situações. São traços de personalidade. 
Acabamos compreendendo também, que se ligam a outros traços (ex: a pessoa não é só vaidosa, é também autocentrada…),e que todos eles a definem. Constituem a sua personalidade que contribui para se tornar uma pessoa apetecível, ou não. 
Podemos também descobrir, que não se trata só de uma pessoa difícil, mas que possui um distúrbio de personalidade (“Os traços de personalidade existem num contínuo” John Oldham, sendo o distúrbio o ponto extremo do contínuo).
Este exercício é essencial - o conseguir identificar no outro, se a sua atitude é passageira (estado), ou uma característica douradora da sua personalidade (traço), e até que ponto afeta positivamente ou negativamente a vida e a relação com as outras pessoas. Como exemplo, nos casos de violência doméstica, poderá ajudar a clarificar a verdade da mensagem: “O agressor dá a entender que ter sido violento, não é problema dele (não é traço de personalidade), é porque bebe (estado transitório, fruto do momento, da situação ou...provocado pelo outro).”  
Citando, ainda John Oldham , a depressão (estado que acontece em um momento difícil da vida) pode não nos definir, mas a personalidade, define-nos. Ou seja, o estado depressivo, apesar de poder se arrastar por muito tempo, pode ser passageiro, mas traços de personalidade que tiram prazer com o sofrimento, ou que de certa forma,  alimentam a depressão,  ajudam a que esta se instale.

domingo, 2 de junho de 2013


Porto Moniz, Piscinas Naturais - foto tirada possivelmente nos anos 50

“O desejo de visitar lugares de infância responde à fantasia inconsciente de verificar que não houve alterações, e ao mesmo tempo que corresponde ao desejo de recuperar esse passado.”
León Grinberg Culpa e Depressão Climepsi

Não sei se será o desejo de recuperar o passado. É a necessidade legítima de estabilidade, na nossa identidade pessoal e na identidade dos lugares, em particular da terra que amamos.

sábado, 2 de março de 2013

O círculo vicioso da inveja

Carpeaux Ugolino e o seu filho

“ Essa necessidade de assegurar-se contra prejuízo ou perigo internos e externos induz certas pessoas a acumular e armazenar todas as coisas boas de que conseguem lançar mão, e isso bem pode conduzir novamente à inveja num círculo vicioso de desejo, frustração e ódio – a menos que possa elevar-se em espiral pela introdução de mais amor. Pois logo que a necessidade de muito se torna forte, é evidente que começaram a introduzir-se as comparações. ....…não pode haver  duvida  de que uma  acentuação do desejo de tomar para si, como defesa  contra a desintegração interna, constitui importante fator  onde se quer que se faça notar a voracidade. Em qualquer caso, é evidente a conexão de voracidade e cobiça com segurança.”
Volto ao tema da inveja. É uma mais tentativa para desvendar as razões que a sustentam.
As suas manifestações enclausuradas pela repetição em desvalorizar, desdenhar ou insultar (no caso da inveja maligna), parecem ao invejado, inconcebíveis e nocivas, pelo que o mais sensato será levar a vida para a frente e nem se preocupar mais com a situação.
Esta libertação da influência do invejoso, será melhor sucedida se identificarmos a fonte que alimenta a vontade voraz de tomar para si um bem - posses materiais, dons físicos ou mentais.
Para a pessoa que inveja, no fundo do seu ser, está a sensação que a posse representa a prova “… de que nós mesmos somos bons e cheios de bondade, e como tal, em troca, merecedores de amor, de respeito e de honra. Servem assim de testemunho e garantia contra o receio que experimentamos do vazio que existe em nós, ou dos impulsos perversos que nos fazem sentir maus e cheios de maldade para com nós mesmos e para com os outros. “
A apropriação salvaguarda assim, o invejoso, da sensação interna de desintegração e do receio da retaliação que as outras pessoas poderão cometer contra ele.
Esta devoção inesgotável à cobiça, é uma forma de ganhar segurança.  
* as citações são de: Melanie Klein e Joan Riviere Amor, ódio e reparação Editora Imago

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Em paz com nós mesmos



“Concluindo: um bom relacionamento para com nós mesmos é condição para demostrar amor, tolerância e bom senso para com os outros: esse bom relacionamento para com nós mesmos decorreu em parte, conforme me esforcei por provar, de uma atitude amigável, afetuosa e compreensiva para com outras pessoas, em particular aquelas que no passado significaram muito para nós, e para com quem nosso relacionamento tornou-se parte da nossa mente e personalidade. Se, no mais profundo dos nossos inconscientes nos houvermos tornado capazes de remover até de certo ponto os ressentimentos presentes em nossos sentimentos para com nossos pais, e os tivermos perdoado pelas frustrações que nos vimos obrigados a suportar, então haveremos de nos sentir em paz com nós mesmos e estaremos em condições de amar outras pessoas, no verdadeiro sentido da palavra.” Melanie Klein 
Melanie Klein e Joan Riviere Amor, Ódio e Reparação Editora Imago






sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Aprender a controlar os sentimentos negativos


Do pioneiro da Teoria do apego, pela sua clareza:
“Nada mais ajuda uma criança do que poder expressar francamente, de um modo direto e espontâneo, seus sentimentos de hostilidade e ciúme; e não existe, creio eu, tarefa parental mais válida do que ser capaz de aceitar com serenidade expressões de devoção filial tais como “Detesto você, mamãe”, ou “Papai, você é um bruto”. Ao tolerar tais explosões, mostramos aos nossos filhos que não tememos essas manifestações hostis e que confiamos em que podem ser controladas; além disso, proporcionamos à criança a atmosfera de tolerância e compreensão em que o autocontrole pode desenvolver-se.
Alguns pais acham difícil que tais métodos sejam eficazes ou sensatos, e pensam que se deveria inculcar nas crianças que o ódio e o ciúme não são apenas coisas ruins, mas potencialmente perigosas. Há dois métodos comuns para fazer isso. Um deles é a expressão veemente de reprovação por meio do castigo; o outro, mais sutil e explorando o sentimento infantil de culpa, consiste em incutir na criança a certeza de que está sendo ingrata, e indicar-lhe o sofrimento, físico e moral, que tal comportamento causa em seus dedicados pais. Embora ambos os métodos pretendam controlar as paixões malignas da criança, a experiencia clínica sugere que nem um nem outro é muito-bem sucedido na prática, e que ambos acarretam um pesado ônus de infelicidade. Os dois métodos tendem a fazer com que a criança receie seus sentimentos e se culpe por eles, levando a recalcá-los e, assim tornando-lhe mais (e não menos) difícil controlá-los. Ambos tendem a criar personalidades difíceis: o primeiro – gerando rebeldes e, se for muito severo, delinquentes; o segundo – a vergonha – neuróticos carregados de sentimentos de culpa e de ansiedade. Assim é na política, assim é com as crianças; a longo prazo, a tolerância da oposição paga belos dividendos.”
 John Bowlby Formação e rompimento os laços afectivos Martins Fontes
Depois do acesso da ira, a criança ser convidada a dar um beijinho ao adulto, custa tanto, porque é a submissão pela culpa.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

É um pequenino …adorável...

Bouguereau The joys of motherhood

“Diddle, diddle…dum…onde foi ele buscar estas pernas maravilhosas?”…Disse a mãe extasiada “…É um pequenino …adorável, é o que ele é; e tem as perninhas cor-de-rosa mais bonitas do mundo…” (H. Kohut).

Este brincar gostoso que é repetido vezes sem conta e que se torna aditivo - quanto mais se dá mais vontade há em dar. O gozo é mútuo. É o vaivém das boas interações humanas. Quem o provou, não consegue imaginar que tipo de pessoa se poderia ter tornado, caso não tivesse vivido a experiência primordial de ser aceite de um modo prazeroso e incondicional.  
Assim se aprende a amar e a gostar como um jogo afetuoso (D. Winnicott), no qual se experimenta a confiança no adulto que brinca com a criança. A amar aquilo que faz a gente sentir-se amado, e consequentemente, a desenvolver expetativas de que se merece sê-lo.
Se desvalorizamos a importância destes jogos amorosos, aqui fica a texto que se segue ao diálogo mãe – filho:
“As minhas próprias investigações indicam que com frequência este processo parece ter corrido mal na infância dos indivíduos destinados a sofrerem mais tarde perturbações da personalidade narcísicas e borderline. Os pacientes deste tipo pensam que não foram, atual ou retrospetivamente, desejados ou que foram adotados; que as suas mães experimentaram devido ao seu nascimento coisa “ terríveis” fazendo com que decidissem nunca mais ter outros filhos; que são responsáveis pela depressão pós-parto das mães ou pelo fato de o pai se ter ido embora. Tudo isto sugere um si-próprio narcísico precocemente frustrado."
Jeremy Holmes Narcisismo Almedina

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

As atitudes ficam com quem as pratica

Oratório Paula Rego

“Lá no fundo, a vontade de destruir, direcionada para os outros, não é mais que a vontade de nos destruirmos a nós mesmos.”
Valerio Albisetti Ser amigo ou ter amigo? E. Paulinas



Quem me ofereceu este livro surpreendeu-se que eu reconheça todo o sentido na frase “As atitudes ficam com quem as pratica”. Com base neste pressuposto, está a ideia de que somos os únicos responsáveis pelas nossas ações, e consequentemente, estamos dispostos a suportar as consequências, se as houver, apesar de não termos nenhum controle sobre elas. Se não houver consequências, ficamos bem. Não ficamos.
Este estado prende-se com a existência em nós, da imagem que cada um tem de si e da imagem que tem do outro, o outro presente em nós, do que ele representa. É o nosso património, causar-lhe dano, passa a ser a partir de agora, a vontade de nos destruirmos a nós mesmos. 
A inexistência desta continuidade – o eu, o outro em mim - é o vazio, fonte de todas as violências. É a ausência da ideia da própria bondade, e precisamos de nos considerarmos bons para viver - todas as pessoas que têm saúde mental se consideram decentes.
Deveríamos ter medo de quem não tem nada a perder. Ou de quem não quer saber de si.


quinta-feira, 30 de junho de 2011

O lado bom da culpa

"Todo aquele que experimenta sentimentos de culpa tenta livrar-se deles pela expiação, punição, remorso, pode tentar provar que não se justificam, ou pode realizar vários mecanismos de defesa”.
Otto Fenichel Teoria Psicanalítica das Neuroses Livraria Atheneu

Para sentirmos “a consciência pesada”, ou a ideia “Errei, fiz mal”, não é forçoso termos cometido um acto que reprovamos. Para Freud “ a pessoa sente-se culpada quando cometeu algo que considera mau ou quando reconhece em si, a própria intenção de o fazer”, (León Grinberg “Culpa e Depressão”).
Os sentimentos de culpa e os mecanismos para lidar com eles, têm-me interessado vivamente, porque manifestam-se dos modos mais estranhos e inesperados. Mas todas as suas manifestações representam maneiras de lidar com o sofrimento que acarretam, mesmo quando não se tem consciência do mesmo. Nestes casos, como adultos que somos, já ninguém nos precisa dizer que fizemos mal, o perigo vem de dentro de nós.
Esse perigo,  cujo conteúdo psicológico da culpa é "não sou bom, mereço castigo", provoca um“medo não só de que alguma coisa horrível aconteça dentro da personalidade mas também que haja perda de uns tantos sentimentos prazerosos: conforto, protecção, segurança…” (Otto Fenichel).
Esta perda que se teme, é uma perda da auto-estima. Por esta razão, tentamos nos livrar dos sentimentos de culpa, cuja maneira mais saudável é o arrependimento e a reparação pelo mal causado. Recupera-se deste modo, a auto-estima.

Como a verdadeira consciência de culpa, brota da capacidade empática, as personalidades narcísicas apesar de afectadas nesta capacidade, podem sentir culpa, estando contudo dependente da gravidade da patologia.

Leia aqui o artigo de Gretchen Rubin, sobre como o arrependimento nos poderá fazer felizes -  Can a negative emotion like regret actually make you happier

Imagem: escultura nos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Ter consideração

Alison Watt

"Ser verdadeiramente capaz de consideração significa que somos capazes de nos colocar no lugar de outras pessoas: identificarmo-nos com elas. Ora essa capacidade de identificação com outra pessoa é o elemento mais importante nos relacionamentos humanos em geral, e também condição para autênticos e fortes sentimentos de amor."
Melanie Klein, e Joan Riviere, Amor, Ódio e Reparação

Sermos capazes de nos colocarmos no lugar do outro é a capacidade que está na base de todas as nossas interacções sociais, e do amor e amizade, em particular. Permite quando necessário, colocarmos os interesses e necessidades dele, em primeiro lugar.
É essa capacidade que torna possível conter a nossa agressividade, o abuso do poder, ou até a escusada necessidade de afirmação pessoal.
Sem ela não há amor, nem amizade, nem o sentimento correcto e amável a que chamamos estima.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Qualidades das relações


Hotel Quinta do Jardim da Serra

“… um dos grandes sofrimentos das pessoas é a dificuldade de arranjar uma relação amorosa que seja boa e que dure.” João Seabra Diniz (psicanalista)

Há relações que são boas, duram e surpreendentemente envolvem pouco esforço. São o melhor dos nossos dias, das nossas vidas. Gostamos de gostar.
De que são feitas estes encontros que os diferenciam daqueles em que a tolerância escasseia? 
O que é uma relação e o que não merece esse nome? Qual é a fonte do entendimento entre as pessoas?

António Coimbra de Matos, psicanalista, deu uma Conferência sob o tema ”Disfunções relacionais”, no dia 25 de Abril de 2009, pelas 10h, na Sala do Senado da Universidade da Madeira.
Já no final da apresentação, Coimbra de Matos recorreu a uma abordagem surpreendentemente simples - como se anulasse toda a dúvida, toda a incerteza - sobre as qualidades que, estando presentes nas relações entre mãe/pai - filho ou entre as pessoas, torna possível “uma construção a dois”, quer no trabalho, na vida social ou amorosa, “tudo na vida humana”, como costuma dizer.

Aqui vos deixo os meus apontamentos dessa conferência:
Uma qualidade das relações, é que haja confiança. Que o outro seja previsível – “que se saiba, que se pode contar com ele”. Deu exemplos, na relação entre pais e filhos, que a criança sinta que os pais estão comprometidos com as suas necessidades (de estar presente quando é suposto; …).

Outra qualidade é a fiabilidade, por exemplo, ser capaz de cumprir com as promessas, entre outras atitudes semelhantes.

A Introjectibilidade é um conceito psicanalítico, que significa a capacidade de ser “gostável”. Isto é, para que, por exemplo, a criança faça uma ligação a uma pessoa, esta tem que permitir, e ser capaz de se identificar com ela, ou seja "colocar-se na sua pele". No fundo, conquistar e deixar-se cativar.

Uma boa relação, tem de ser também, recíproca para que haja trocas.
Para Coimbra de Matos há várias maneiras de reciprocidade, como sejam nas relações de amizade, em que há afinidades ou modos semelhantes de “sentir a vida”.
As relações de trabalho têm outro modo de reciprocidade, que se revela pela comunhão dos mesmos objectivos, nem que seja para “descobrir a pólvora”, como diz Coimbra de Matos, apesar de esta já estar descoberta.

Outro aspecto importante nas relações, é a “afinação afectiva”, importante para se tornarem profundas. Não deve ser entendida como estar sempre de acordo com o outro, mas ser capaz de, no desacordo (é importante ter ideias fracturantes, senão será a monotonia, diz Coimbra de Matos), realizar acertos.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A vergonha

Waldmuler, Fedinand Georg., Jovem camponesa com os três filhos na janela (detalhe)

Heinz Kohut* considera que a vergonha acontece desde cedo na infância, quando a nossa emoção repleta de exibicionismo (saudável) é mobilizada e ocorre na expectativa que o outro aprove e confirme esse nosso comportamento. Segundo aquele autor, é “a inesperada ausência de cooperação” do outro, que cria um desequilíbrio entre a nossa expectativa e a resposta, que sendo difícil de gerir, dá origem à vergonha.

Na criança, a necessidade desajeitada de criar uma brincadeira e a falta de empatia do adulto, é fonte de vergonha. A repetição destas experiências ao longo do desenvolvimento, em conjunto com as humilhações, pode dar origem à vergonha das personalidades narcísicas, que se traduz num medo (paralisante, por vezes) de cair no ridículo. 

* Heinz Kohut, Self e Narcisismo, Zahar Editores

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O ciúme

 Barbara Kruger, Untitled (We); 1985

Sobre a mulher de um paciente amigo:
“Às vezes, as mulheres que não amam verdadeiramente os maridos sentem ciúmes e destroem as amizades destes. Querem os maridos sem admitirem partilha, justamente porque não lhes pertencem. O núcleo de todo o ciúme é a falta de amor.”
Carl G. Jung, Memórias, Sonhos, Reflexões

Jung deveria estar muito zangado com a atitude da mulher do amigo, pensamos. A última parte da sentença, “porque não lhes pertencem” é aparentemente enigmática, pelo que merece que lhe prestemos atenção.
Talvez sugira que na base está o ciúme e a sua parente, a inveja.
A inveja pela vontade de se apoderar de uma amizade até ser capaz de a destruir, e o ciúme ligado ao desejo de ter o marido só para si, porque se receia perdê-lo. É o sentimento que não (nunca) se é suficientemente amada.
Dependente do grau (ciúme neurótico, ciúme patológico, ciúme delirante) pode ser uma luta desenfreada pelo impossível – a posse total e exclusiva do outro (Coimbra de Matos).
A relação com esse outro costuma ser ambivalente, ou seja, oscila entre o amor e o domínio, que é uma manifestação do ódio. Pelo que, "..não amam verdadeiramente os maridos" (Jung).

“ (o outro) não lhes pertence”, é a revelação que não confiamos que estamos no seu coração mesmo que recebamos um amor dedicado, porque lá atrás, na nossa infância, não nos ajudaram a aceitar um outro, para além da relação a dois.

Bruno Bettelheim em “Psicanálise dos contos de fadas”, sobre o ciúme que tem a sua origem na relação triangular, pai, mãe e filho:
“ Quando o cuidado terno e amoroso do pai do mesmo sexo não é bastante forte para formar laços positivos mais importantes com a criança edípica, naturalmente ciumenta, e com isso colocar o processo de identificação trabalhando contra esse ciúme, então esse domina a vida emocional da criança”.
Em suma, são venenos tóxicos,  a rivalidade e a competição com um filho.

sábado, 6 de novembro de 2010

Maldade

William Bouguereau, Dante et Virgile au Enfers


A maldade além de provocar dano no outro, é também um ataque à  imagem positiva que temos de construir de nós próprios. Pelo que, o acto maldoso é nocivo, tanto para a vítima como para o seu autor.
E, se os pais ou o meio em geral, pela frieza  ou violência, espelham a agressividade da criança, esta vive  na expectativa de que é má. Perde o suporte. A violência perpetua-se.
Só o perdão regenera e, no adulto, o não saber receber o perdão do outro, é um comportamento que desconhece os seus limites - o quanto o amor pode ser frágil. É neste caso, uma defesa contra a esperança.

Recursos úteis para lidar com os comportamentos das crianças, aqui .



sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Ataques de pânico

Waldmüller , Fedinand Georg, Jovem camponesa, com três filhos na janela (detalhe)

“Robert, um bebé de oito meses de idade, começou a chorar quando ouviu pela primeira vez a máquina de secar roupa a funcionar ruidosamente no máximo. A mãe começou por se sentir preocupada e ansiosa…..Mas depressa compreendeu o que se passava, pegou na criança e começou a andar de um lado para outro, fazendo-a compreender carinhosamente que tudo estava bem. Depois aproximou-se da máquina de secar, ligou-a e desligou-a várias vezes enquanto comentava o que então acontecia. As palavras eram inteligíveis para Robert, mas o seu sentido emocional era-lhe comunicado através do tom e do ritmo do discurso da mãe. Desse modo, ele recompôs-se rapidamente, e o objecto de terror transformou-se num objecto de interesse, num objecto que Robert em breve tentaria ligar e desligar pessoalmente.”
Graham Music, Afecto e Emoção, Almedina

O que Robert estava a sentir, era um ataque de pânico. O que a sua mãe fez, foi ler os sinais emitidos pelo seu filho, e ajuda-lo a tolerar a emoção.
Porém, Robert não foi só aliviado. As mães costumam traduzir por palavras e gestos o que os seus bebés estão a sentir (espelham), o que permite dar reconhecimento às suas emoções e à convicção que os seus sentimentos foram compreendidos. Consequentemente, o nível de ansiedade diminuiu.
Ao beneficiarem desta ajuda, as crianças têm mais possibilidade de se libertarem da ansiedade vivida no corpo, como revelam as suas preocupações pelas sensações fisiológicas, e de gerir a emoção.
É este escudo protector e regulador das emoções que as crianças necessitam, e que todos nós, também, mas só de vez em quando através dos amigos e amores.

Em suma, são ideias chave: as emoções são em primeiro lugar estados corporais, e a capacidade de interpretar a realidade e a capacidade de tolerar tensões são dois aspectos de uma mesma faculdade (Otto Fenichel)







quinta-feira, 29 de julho de 2010

O Prazer a dois

Bouguereau, El asalto

Porque é que umas pessoas sentem prazer na partilha, de emoções, de brincadeiras, do fazer de conta e outras nem tanto? Sentem até desconfiança e medo.

Qual a fonte?

Neste poema de Herberto Helder, a fonte é a mãe de acordo com a minha interpretação.

A Fonte
….
Eu amava-a dolorosamente e tranquilamente.
A lua formava-se
como uma ponta subtil de ferocidade
e a maçã tomava um princípio
de esplendor

Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento
perdeu-se e renasceu.
Hoje sei permanentemente que ela
é a fonte.

Herberto Helder

A Mãe é a fonte. A mãe, o pai ou qualquer pessoa que cuide da criança.
O prazer que a criança sente pela partilha, está na mãe tornar-se confiável e previsível, ou seja, que a criança saiba que pode contar com ela. Está no ser capaz de se colocar “na  pele da criança”, o que implica não ter deixado morrer dentro de si a infância que viveu, caso lhe tenham permitido viver a sua natureza.

"E que podemos nós contra o facto de termos tido uma mãe que era ela própria narcísica? Qualquer pedido de dependência a confrontava com aquilo que lhe era maximamente intolerável; ela não podia reagir a tal pedido senão através de um reforço do controlo de todo o espaço, não deixando então, entre nós e ela, qualquer campo aberto para a brincadeira, para o devaneio, as emoções partilhadas, no qual teria sido possível aprender o prazer da mutualidade".
Nicole Jeammet, O ódio necessário, Editorial Estampa

Como tão bem definiu Martha Nussbaum (Filósofa), a importância do jogo:
“Segundo o pediatra e psicanalista britânico Donald. W. Winnicott, o jogo desenrola-se na zona intermédia entre a pessoa e o exterior, aquilo a que se chama ”espaço potencial”. É aí que, primeiro as crianças e depois os adultos, experimentam a ideia da diversidade de uma maneira mais tranquila do que é frequentemente o encontro com o outro. No jogo, a presença do outro torna-se uma fonte de prazer e de curiosidade, e essa curiosidade contribui para o desenvolvimento de atitudes saudáveis em matéria de amizade, de amor…”

Martha Nussbaum (Filósofa)
Jornal The Times Literary Supplement, Londres