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sexta-feira, 21 de julho de 2017

O mestre - escola

Todos nós conhecemos pessoas assim – pessoas que nos atacam com a sua superioridade, as suas proibições ou os seus decretos de mestre – escola. Arranjam maneira de nos fazer sentir pequenos, ou insignificantes ou estúpidos. Quando tropeçamos com um indivíduo assim, pode ser útil termos presente que o mais provável é que ele esteja afinal a tentar desembaraçar-se dos sentimentos que alimenta em relação a si próprio, transferindo-as sobre a nossa pessoa.”
Priscilla Roth Supereu Almedina

Poderá ser útil integrar esta perspectiva sobre os que não se aceitando como são, nem com o modo como lidaram com a vida, podem fazer qualquer coisa que alivie esse sentimento doloroso.
Neste exemplo, o mestre – escola ou aquele que se apresenta “mais papista que o papa” e sabe sempre o que o outro deveria fazer ou como deveria gerir a sua vida, desfazem-se da voz interior que os acusa de não corresponderem ao ideal que gostariam de ter alcançado (um severo sentimento de culpa), e ao fazerem o outro sentir-se pequeno, estúpido ou inferior, põem-se a salvo de críticas.
A vítima, se não estiver desperta para a estratégia, tende a evidenciar o sofrimento que o mestre – escola evita sentir.
É um sofrimento que deveria ser entendido como desnecessário.


sábado, 24 de setembro de 2016

O eu grandioso


Dancing Dwatf, Plolemaic Period

Um jornalista português referiu-se aos Jogos Paralímpicos como um espetáculo “grotesco” e “um número de circo”.
Sem pretender fazer pseudoanálises do autor de comentários tão infelizes e exibicionistas, supondo que a intenção é a desvalorização dos atletas paralímpicos como seres imperfeitos ou incompletos, aquelas afirmações podem ser contudo uteis, para ilustrar uma característica da organização narcisista omnipotente que “é contra a perceção da necessidade ou do sofrimento e reclama a eliminação dos fracos” a começar pelo próprio. (DeMasi citado por Cristina Fabião*)
A começar pelo próprio” significa que o eu grandioso é sobretudo intolerante às suas próprias emoções e fragilidades, considerando-as uma fraqueza, como se estas fossem por em causa a sua tentativa desesperada de ser perfeito. O que explica a incapacidade de compreender o valor e o sentido benéfico da pessoa  se superar e de alargar deste modo, o espaço das suas limitações.
É como se rejeitasse através do outro, a sua natural imperfeição humana e com ela a autoaceitação e o crescimento interior.

*Narciismo, defesas primitivas e separação


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

As Cinquenta Sombras de Grey

Artigo do Jornal Publico de 12.8.2013:
"As Cinquenta Sombras de Grey perpetua violência contra mulheres
O romance As Cinquenta Sombras de Grey que, promovido como uma novela erótica, se tornou um best-seller mundial, perpetua o problema da violência contra as mulheres, indica um estudo publicado hoje na revista Journal of Women’s Health, (AQUI) e (AQUI)*
A professora Ana Bonomi, associada da Universidade estatal de Ohio, nos Estados Unidos, e as suas colaboradoras na investigação chegaram à conclusão de que o abuso emocional e sexual domina o romance, causando danos à principal personagem feminina, Anastasia.
“A violência por parte do parceiro afecta 25 por cento das mulheres com prejuízo para a sua saúde”, refere o estudo, que considera que “as condições sociais atuais – incluindo a normalização do abuso na cultura popular através de romances, filmes e canções – criam o contexto que sustenta tal violência”, segundo a agência noticiosa espanhola EFE.
A trilogia de E.L. James descreve como “romântica” e “erótica” a relação do multimilionário Christian Grey, de 28 anos, e da estudante universitária Anastasia Steele, de 22.
As investigadoras leram o romance e escreveram resumos dos capítulos para identificar os temas principais, tendo utilizado no estudo a definição de violência por parte do parceiro íntimo usada nos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos.
Esta definição inclui o abuso emocional através de intimidação e ameaças, o isolamento, a vigilância e a humilhação.
No romance, Anastasia tem as reacções comuns das mulheres maltratadas. Sente uma ameaça constante e uma perda de identidade, muda o seu comportamento para manter a paz na relação, adianta o estudo.

“Este livro perpetua normas de abuso perigoso e, no entanto, é apresentado como uma novela romântica e erótica para as mulheres”, disse Bonomi, defendendo que “o conteúdo erótico podia ter sido conseguido sem o tema do abuso”.
Lançado em 2011 (2012 em Portugal), o romance As Cinquenta Sombras de Grey já vendeu mais de 70 milhões de exemplares e está a ser transformado em filme."

*O estudo de Ana Bonomi e colaboradores está publicado com o título‘‘Double Crap!’’ Abuse and Harmed Identity in Fifty Shades of Grey"



sábado, 1 de novembro de 2014

Quando as coisas são dolorosas...


Pietro Cipriani Vénus (detalhe)
“Quando as coisas são dolorosas, vemo-las no campo das emoções e não no campo da consciência." João Redondo, psiquiatra, Coordenador da Unidade de Violência Familiar do Serviço de Psiquiatria do CHUC, em conferência, Estreito de Câmara de Lobos, 2005.

O modo como o outro nos fez sentir, embate primeiro no campo das emoções. É o cordão que nos liga à evolução das espécies, ao crepúsculo que nos tornou humanos, à força que não nos liga à infância, à necessidade de nos fazermos amar.
A dor ou o conforto põe-nos a nu, e maturidade, diplomas ou capacidade intelectual, pouco servem perante as dolorosas sensações que chegam. Do profundo poder que escorre delas, será preciso contar com um longo trabalho do pensamento e da linguagem, da consciência, para as compreender, aceitar e as tornar suportáveis.  
Dão alento aos dias, as outras, as coisas calorosas que dispensam o raciocínio.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Robert Sutton: Sobreviver nas empresas


“Antes de diagnosticar a si mesmo com depressão ou baixa auto-estima, primeiro tenha a certeza de que não está, de fato, cercado por idiotas” Freud

Não posso confirmar, para já, se esta afirmação pertence a Freud, mas é um óptimo concelho, sobretudo porque apela para a necessidade de interpretarmos os contextos da nossa vida e os papeis dos diferentes atores, antes de nos culpabilizarmos pelo mau ambiente (no trabalho...). Identifica também, o responsável por esse ambiente - o idiota - e o efeito que tem na nossa saúde mental.
Assim, idiota é todo aquele, que de um modo persistente, intencional ou não, retira a energia e a auto-estima das pessoas, seja em que contexto for (casa, trabalho, vida social…).

Para se libertar dos efeitos destas relações abusivas, deverá ter um plano, com base em alguns princípios básicos (para simplificar):
  • Ser capaz de identificar os idiotas – são detectados  pelo ataque à auto-estima e à energia vital do outro.
  • A culpa do comportamento do idiota, não é sua;
  • Acreditar que ficará bem, passada a tormenta.
A partir destas premissas, mais fácil é agora, elaborarmos o PLANO DE DESINTOXICAÇÃO:
  1. Mude a forma como vê a situação: evite a auto recriminação e o modo como até aqui interpretava e justificava o seu comportamento e o do outro - analise o seu pensar. 
  2. Desenvolva uma atitude de indiferença e desapego emocional (desligar emocional): significa auto preservar-se, que poderá passar por baixar as expectativas e a não se preocupar (tanto) com as coisas.
  3. Tente obter pequenas vitórias: escolher batalhas com possibilidade de alcançar sucesso.
  4. Limite a sua exposição: irá descobrir como fazer isto. Poderá passar por evitar opinar, participar em reuniões, encontros sociais…
  5. Construa bolsas de segurança, apoio e sanidade mental: está ligado ao item anterior, incluí o estabelecimento de novas relações sociais e/ou profissionais, alterações nos espaços de convívio e nas rotinas…
Encontra tudo isto e muito mais, neste guia de sobrevivência  do mundo do trabalho, através do  qual irá aprender a identificar  os idiotas certificados (nas palavras do autor) e como lidar com eles:


Robert Sutton* Sobreviver nas empresas - Aprenda a lidar com um mau ambiente de trabalho. Editora Actual

Professor na Universidade de Stanford

sábado, 31 de maio de 2014

Os chatos

Winogrand foto

“Quando Graham se mostrava enfadonho era agressivo – tratava-se de uma forma de controlar, e de excluir, os outros: uma forma de ser visto, mas de não ver. Servia também, outro objetivo. Especialmente no contexto da sua psicanálise, protegia-o de ter de viver no presente, de ter de reconhecer o que estava a acontecer na sala.”
                                                              Stephen Grosz A vida em exame. Temas e debates
Transferindo para a vida real, motivações semelhantes podem justificar os comportamentos das pessoas a quem chamamos chatas. Mas devo acrescentar que, embora a atribuição desta característica possa ser subjetiva - cada um de nós lá sabe que tipo de pessoas costuma classificar na categoria -, é possível que as pessoas chatas ou enfadonhas apresentem como que uma fachada perante a qual, conscientemente ou não, escondem o que realmente sentem ou experimentam, naquele momento. Por este mecanismo, tornam-se opacas, pretendem dizer apenas aquilo que dizem, e não se importam de ser elas a falar sós ou que o outro fale só. Falta-lhes coragem para um verdadeiro encontro. Num próximo, voltam ao mesmo, num faz de conta a que chamam relação, o que muito aumenta a nossa prudência para com elas e o nosso enfado.
Miguel Esteves Cardoso escreveu na sua cronica de 10. Jan.14: “Hoje estou convencido que os chatos sabem que são chatos e que estão a chatear. E que têm prazer em chatear. É uma espécie de vingança ou de comédia. Para eles não são eles que chateiam: somos nós que pensamos que eles nos chateiam.”

sábado, 17 de maio de 2014

O lado negro da inteligência emocional

George la Tour A adivinha

“Neal Ascherson (1983) relata que Klaus Barbie, o chefe da Gestapo de Lyon que torturou Jean Moulin até à morte, disse, uma vez, numa entrevista: Quando interroguei o Jean Moulin, senti que ele era eu próprio.

Arno Gruen A Traição do eu

O relato é usado pelo autor, para comprovar como é possível possuir a capacidade de reconhecer a humanidade do outro e mesmo assim ser cruel até o matar.
Se nos confunde, o certo é que  o chefe da Gestapo evidenciava uma componente da inteligência emocional – identificou emoções em si e em Jean Moulin. Não sabemos se poderia ser considerado emocionalmente inteligente, pela posse de um conjunto de outras capacidades, tais como: compreender as causas das emoções e as suas consequências para o pensamento e comportamento; rotular emoções com vocabulário sofisticado; expressar emoções de forma socialmente apropriada; e regular as emoções de forma eficaz.
Podemos sintetizar que a inteligência emocional dá-nos competências sócio emocionais de que tanto se fala na modernidade, só que as mesmas podem ser utilizadas para o mal - o lado negro da inteligência emocional-, para a manipulação do outro. Esta é uma ideia que tendemos a rejeitar, por estarmos submersos pela valorização daquelas capacidades adaptativas que sustentam variadíssimos projetos sociais e educacionais. 
Se julgamos que não podem coabitar na mesma pessoa as qualidades citadas ao serviço do mal, pensemos nos líderes carismáticos e nos seus desgovernos, ou nos grandes burlões que iludem magistralmente as pessoas. O que lhes falta, de fato, não é a inteligência emocional, é esta ser entroncada com a moral, com os valores positivos, apoiados na capacidade de doer no próprio, quando inflige sofrimento a outro. A inteligência emocional não é mais importante que a moral.
Ao simplificar, bastaria a educação moral e o auto-conhecimento, em nós, para deixarmos o mundo melhor.

Aos os interessados no tema, vale a pena investigar se tudo depende de se considerar a inteligência emocional como dimensão interpessoal ou como traço de caráter.


Ler: "Emotional intelligence is important, but the unbridled enthusiasm has obscured a dark side." de Adam Grant, aqui.


Vale também a pena ler "Does IQ Beat EQ? Wrong question" de Jushua Freedmanaqui.

Analisando a importância da empatia sob outra perspetiva, no site  Fronteiras do Pensamento leia o artigo Colocar-se no lugar de bilhões de estranhos? O problema da empatia como solução para a humanidade”, do qual transcrevo: 

"Ainda, Bloom ( o psicólogo canadense Paul Bloom) argumenta ser impossível desenvolver empatia por sete bilhões de estranhos no planeta, refutando a ideia de que precisamos ver a humanidade como uma família. Para ele, o que devemos fazer é ensinar o valor universal da vida, seguindo a linha de Steven Pinker, que defende que faculdades mentais mais complexas - como razão e justiça - são mais eficazes como um guia para o futuro. (…) Onde a empatia realmente importa é nos nossos relacionamentos pessoais.(...) Empatia apenas nos trai quando a levamos como um guia moral."



sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O Efeito Lúcifer nas Praxes?


Conferência de Philip Zimbardo (psicólogo social): Como pessoas comuns se tornam monstros... ou heróis (On the psychology of evil) . Retirada de:

Transferindo para os últimos relatos de violência nas praxes académicas, relembra-se esta frase do autor proferida na conferência: “Se se dá poder às pessoas sem supervisão é receita para o abuso”. Nestas circunstâncias, a identidade dos elementos do grupo esbate-se, a capacidade de resistência e a vontade própria enfraquecem, a crueldade que existe em todos nós emerge, sem que seja motivada por perpetuações mentais. 

ENTREVISTA com Philip Zimbardo, em:
 http://www.americanscientist.org/bookshelf/pub/philip-zimbardo

O QUE FREUD DEIXOU ESCRITO:
"O indivíduo num grupo está sujeito, através da influência deste, ao que com frequência constitui uma profunda alteração na sua actividade mental. A sua submissão à emoção torna-se extraordinariamente intensificada, enquanto que a sua capacidade intelectual é acentuadamente reduzida, com ambos os processos evidentemente dirigindo-se para uma aproximação com os outros indivíduos do grupo; e esse resultado só pode ser alcançado pela remoção daquelas inibições aos instintos que são peculiares a cada indivíduo, e pela resignação deste àquelas expressões de inclinações que são especialmente suas. Aprendemos que essas consequências, amiúde importunas, são, até certo ponto pelo menos, evitadas por uma "organização" superior do grupo, mas isto não contradiz o fato fundamental da psicologia de grupo: as duas teses relativas à intensificação das emoções e à inibição do intelecto nos grupos primitivos."

Sigmund Freud, in 'Psicologia das Massas e a Análise do Eu

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O narcisismo “estúpido”



“Segundo kerneberg, o sujeito narcísico diz: Não preciso de ter medo de ser rejeitado por não encarar o ideal de mim próprio que seria o único a tornar possível que eu fosse amado pela pessoa ideal que imagino capaz de amar-me. Essa pessoa ideal e a minha imagem ideal dessa pessoa e o meu ser real são uma pessoa só e melhor que a pessoa ideal que eu queria que me amasse, por isso já não preciso de mais ninguém. Jeremy Holmes, Narcisismo Almedina

Uma vez na vida (tomara que fosse só uma vez), confrontamo-nos com personagens que se atribuem a si próprio um valor que não têm, julgam-se melhores e mais capazes do que na realidade são. E reiteradamente insistem em exibi-lo. Quem são estas personalidades? Que características possuem?

Trata-se do narcisismo “estúpido” como lhe chama Carlos Amaral Dias*: o individuo acredita (ou quer acreditar), que não há distância, pequena que seja, entre o que é como pessoa e aquilo que gostaria de ser. Julga-se magnifico, para além das suas possibilidades, embora apresente sentimentos dramáticos de nulidade quando o outro ou a realidade não o aprovam.
Esta fusão que resulta na crença de uma autossuficiência idealizada, coloca o sujeito, segundo este autor ,“perante uma impossibilidade e uma confusão entre o eu ideal e o ideal do eu”  e incapacita-o para as relações de intimidade – o outro nunca está à altura de participar no Olimpo onde o sujeito habita. 
Não se precisa de mais ninguém e nem de tratar bem os outros - é sempre um narcisismo destrutivo.

* Costurando as linhas da patologia borderland (os estados-limite) Climepsi

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Da indiferença

foto de Richard Huschman

“Queres que fique zangado contigo, porque se me zangar contigo, isso significa que eu acho que poderias ser diferente do que és. Se estiver zangado contigo, isso significa que poderemos arranjar aquilo que está estragado”

Stephen Grosz A vida em exame. Como nos perdemos e como nos encontramos. Temas e debates

Escolhi este pequeno texto porque me parece que ele contém uma explicação para certas pessoas preferirem, ou preferirem em determinados momentos de vida, ver o outro zangado do que indiferente. 
Parece que se infringe as leis da natureza, mas paradoxalmente a agressividade também serve para manter os vínculos. 
Questiono-me contudo, porque os gestos travados, o fio cortado pelo silêncio, nunca isento de hostilidade, pode ser tão intolerável. 
Tornar-se humilde, avançar ou não avançar, tornar-se desprezível, comportar-se de modo desajustado, pensar-se no que resta fazer, são tudo formas de provocar a zanga. Por aqui seria possível encontrar uma zona, o limite das águas que permitiria o sentimento iminente da redenção.


sábado, 19 de outubro de 2013

A parte psicótica da personalidade em todos nós


de Erik Johansson

“Nos legados de Bion, um ponto muito importante é o que ele denomina como parte psicótica e não psicótica da personalidade. Essa parte psicótica não equivale a um diagnóstico psiquiátrico, mas sim a um modo de funcionamento mental, coexistente a outros tantos. A PPP (parte psicótica da personalidade) designa comportamentos mais regressivos, com núcleos primitivos enquistados na personalidade de qualquer indivíduo.” 

Trabalho sobre o seminário de Bion. Coordenador Dr José Luiz Petrucci. Candidata Rosa Beatriz Santoro Squeff, Agosto 2006 (disponível online, aqui )

Revolucionária esta ideia que Bion nos deixou, que tanto os indivíduos psicóticos (com estrutura psicótica: esquizofrénicos…), como os neuróticos, assim como as pessoas psicologicamente saudáveis, têm partes psicóticas na personalidade. E todos têm também, partes saudáveis (não psicóticas), o que significa que a neurose, a psicose e a normalidade não são entidades clínicas puras, mas coexistem em qualquer pessoa.
Se isto vos parece uma teoria como tantas outras, devo dizer-vos que para mim é absolutamente genial, útil para a vida, já que a parte psicótica da personalidade identificada por Bion, e existente em todos nós, manifesta-se através de comportamentos de recusa da verdade, com preferência pelo mundo das ilusões, de enorme oposição à mudança e rejeição da realidade tal como ela é. Ou seja, manifesta-se na nossa vida quotidiana quando evidenciamos intolerância à frustração, medo de procurar e descobrir coisas, discursos destrutivos e relações afetivas envoltas em ambivalência - que são as características próprias dos psicóticos.
Nas pessoas chamadas pela linguagem popular, “bem resolvidas”, estes comportamentos existem ou poderão ser desencadeados em situações de crise psicossocial, mas habitualmente são tornados conscientes, integrados na personalidade e transformados com vista ao crescimento como pessoa e à qualidade das relações interpessoais. 
Em outros indivíduos, a parte psicótica mantém-se separada do resto da personalidade, como um quisto, com dificuldade em ser transformada em saúde mental, que irrompe nos comportamentos intempestivos, inesperados, a despropósito e frequentemente ofensivos - a arrogância (identificada por Bion como característica da parte psicótica da personalidade). É fonte de agressividade.
A "quantidade" da parte psicótica na personalidade da pessoa, determina o grau de sanidade da mesma.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Desinibição tóxica e desinibição benigna online


Michael Sowa

Parte inicial do artigo de João Pedro Pereira, com o título Na Internet, a conversa é outra, que saiu no Publico de 25.8.13:
"De ameaças de morte feitas por anónimos a deslizes de políticos habituados a comunicar em público: online, somos mais desinibidos e rudes.
Este mês, uma rapariga britânica de 15 anos suicidou-se, na sequência, segundo o pai, de mensagens publicadas na sua conta do site Ask.fm. A plataforma é usada sobretudo por adolescentes e permite fazer perguntas e deixar respostas anonimamente. Uma das mensagens dizia: "Morre, toda a gente ficará feliz."
No mês passado, uma feminista britânica foi alvo de repetidas ameaças de violação no Twitter, por vários utilizadores, muitos identificados com fotografias e nomes verosímeis. Numa mensagem particularmente brutal, um deles escreveu: "Se as tuas amigas sobreviveram a uma violação, é porque não foram bem violadas." As ameaças levaram à detenção, pelo menos, de um jovem de 21 anos.
Há muito que a gíria da Internet tem um termo para este tipo de insultos: trolling. Na mitologia escandinava, os trolls são seres sobrenaturais que vivem longe dos humanos. São anti-sociais e agressivos. Alguns têm uma aparência de monstros. Na linguagem moderna da Internet, os trolls são pessoas que, em fóruns, redes sociais e caixas de comentários, discutem sem argumentos racionais ou simplesmente insultam e ofendem os outros, embora não necessariamente com a violência dos exemplos acima. Os académicos têm outro nome para o fenómeno: desinibição tóxica.

"O efeito da desinibição online é uma força poderosa, mesmo quando estamos cientes do efeito que tem em nós. Muitas vezes, opera a um nível inconsciente", explica ao PÚBLICO o investigador americano John Suler, da Universidade de Rider, que em 2004 cunhou o conceito de "desinibição tóxica".

O fenómeno não diz respeito apenas a mensagens ofensivas: "Soltam-se a linguagem rude, as críticas duras, raiva, ódio, até ameaças. As pessoas exploram o submundo negro da Internet, os lugares de pornografia e violência, lugares que nunca visitariam no mundo real", escreveu no livro The Psychology of Cyberspace ("A Psicologia do Ciberespaço"), que está disponível online (do outro lado da desinibição tóxica, Suler coloca a desinibição benigna, que faz com que sejamos mais propensos a revelar emoções e desejos, ou a dar conselhos e ajudar os outros).

O caso da jovem que se suicidou pôs o Reino Unido a discutir o cyberbullying. Mas a desinibição não parece ser uma característica apenas dos mais novos. O psicólogo Américo Baptista, professor na Universidade Lusófona, afirma que "não são só os jovens" que têm este tipo de comportamento, embora seja de esperar que tenham "maior espontaneidade e menos filtro do que os adultos". No mundo offline, observa, "as interacções do nosso dia-a-dia caracterizam-se por termos um feed-back imediato. Na Internet, não há esse feedback, há uma maior sensação de liberdade". Mas ressalva que, apesar de um "maior descuido" no mundo online, "o que acontece na Internet é o que acaba por acontecer na vida real".
A mesma opinião tem o especialista em segurança onlineTito de Morais: "A intermediação da tecnologia muitas vezes leva as pessoas a dizer e a fazer aquilo que presencialmente não fariam. Não vemos as consequências dos actos em quem está do lado de lá. No caso particular dos jovens, se pegarmos na definição de desinibição - o desrespeito por convenções sociais, a impulsividade, a fraca avaliação do risco -, vemos que são características típicas da adolescência."

Internet menos anónima
John Suler aponta várias causas para a desinibição tóxica. Entre elas estão o anonimato, o facto de a comunicação ser assíncrona (alguém deixa um comentário que pode ser visto minutos, horas ou até dias depois), a concepção do mundo online como um mundo de fantasia, "separado das exigências e responsabilidades do mundo real", e ainda a ausência física do interlocutor.
(...).

Acrescento uma resposta que o Dr. Suler deu numa entrevista:” O ciberespaço é um espelho da sociedade. Embora existam algumas características únicas na vida on-line, a verdade é que o que está certo e errado na Internet é um reflexo das mesmas coisas que estão bem ou mal no mundo "real".


Aceder ao artigo "Trolls just want to have fun” (algo como “Os ‘trolls’ só se querem divertir”) é o título de um estudo — publicado em Fevereiro de 2014 por um grupo de investigadores canadianos da Universidade de Manitoba liderado por Erin Buc que se debruça sobre este tipo de comportamento.

Mais acertado o artigo Internet Trolls Are Narcissists, Psychopaths, and Sadists de by Jennifer Golbeck, Ph.D.em.
 http://www.psychologytoday.com/blog/your-online-secrets/201409/internet-trolls-are-narcissists-psychopaths-and-sadists

sexta-feira, 19 de julho de 2013

A comunicação perversa



Embora sempre tenha estado na minha intenção abordar este tema, não o pretendia fazer para já, mas a manchete do Jornal de Notícias da passada 4ª feira, criou um bom pretexto para o compor.
A mensagem ofensiva, que faz referência à recém empossada ministra das finanças, Maria Luís Albuquerque, e à sua participou na 1ª reunião dos ministros das finanças da Zona Euro “Ministra foi mostrar o buraco”, justifica a criação do post e cumpre  com as condições da comunicação perversa.

A COMUNICAÇÃO PERVERSA

Recusa da comunicação direta
Havendo pouca comunicação verbal por parte do perverso, dizer o que realmente pretende dizer, não é sua qualidade; Nada é nomeado, tudo é subentendido, alimentando a confusão; A comunicação faz-se apenas por observações, comentários vagos, abstratos, trocadilhos ou pequenos toques (verbais), desestabilizadores;
Pode ofender o outro com base numa característica que lhe é própria e imutável: porque é mulher, porque é oriunda desta terra ou daquela, porque tem esta ou aquela profissão...
Quanto à recusa do diálogo, esta é uma maneira de dizer que o outro não interessa, até nem existe; Numa fase tardia da relação, na fase de destruição do outro, a comunicação pode ser direta e clara, mantendo-se sempre a intenção de o agredir e humilhar.

Deformar a linguagem
As palavras têm duplo sentido, oculto, e não têm para o perverso qualquer importância. Só a ofensa, interessa. 
Muitas das vezes, de início, utiliza a técnica da sedução, dá a entender à vítima que é compreendida, confortada, e mais tarde, em outra ocasião, desacredita-a e desqualifica-a, pretendendo que ela se responsabilize pela falha apontada pelo perverso.
É habitual as mensagens exprimirem-se com uma tonalidade fria, em contraste com a violência que está escondida.
Com esta manipulação verbal, pretende-se que a vítima não se aperceba do processo perverso em curso.

Mentir
O perverso pode ater-se a pormenores, fingindo não estar a entender o cerne da questão. A verdade ou mentira, pouco interessa para ele, o que importa é defender a sua necessidade. Como se demonstra no seguinte exemplo:
“…”..à sua mulher que o censura por ter ido oito dias para o campo com uma rapariga, o marido responde: “Tu é que és mentirosa, por um lado não eram oito dias mas nove, e por outro, não se trata de uma rapariga, mas sim de uma mulher.”

Manejar o sarcasmo, o escárnio, o desprezo
“... este desprezo e esta zombaria, dirigem-se muito particularmente contra as mulheres. Nos casos dos perversos sexuais, há uma denegação do sexo da mulher. Os perversos narcísicos, esses negam a mulher toda enquanto individuo. Eles têm prazer em todas as pilhérias que põem a mulher a ridículo.
(…)
…para ter a cabeça fora de água , o perverso tem necessidade de afundar o outro. Para tanto, ele procede por pequenos toques desestabilizadores, de preferência em público, a partir de uma coisa anódina, por vezes íntima, descrita com exagero, tomando às vezes um aliado na assembleia.” Na presença da vítima quando esta está só com ele, o perverso pode ofendê-la através de uma mensagem clara, inequívoca, mais tarde, na presença de outras pessoas, diz algo que não é mais do que um modo diferente de dizer o mesmo, mas agora com um duplo sentido, o que permite enviar uma mensagem à vítima e outra às testemunhas, que a interpretam com diferentes significados. 

Usar o paradoxo
“O discurso paradoxal é composto de uma mensagem explícita e de um subentendido, cuja existência o agressor nega.”
“O paradoxo vem, a maior parte das vezes, da falta de correspondência entre as palavras que são ditas e o tom em que essas palavras são proferidas.“ Esta falta de correspondência gera diferentes interpretações por parte das testemunhas que assistiram à situação, o que deixa frequentemente a vítima sem suporte. Consequentemente, se ela desabafa sobre o sucedido é habitualmente não compreendida ou desacreditada. 
“Estas técnicas de destabilização, se elas podem ser utilizadas por toda a gente, são-no de maneira sistemática pelo perverso, sem qualquer compensação ou pretexto.”

Elaborado com base na minha experiência pessoal, claro, e em:
Marie – France Hirigoyen Assédio, Coação e Violência no Quotidiano Pergaminho

domingo, 9 de junho de 2013

O diabo, possessões demoníacas e exorcismos


 
Artigo de Anselmo Borges* ao Diário de Notícias de 8.6.13, com o título O diabo, possessões demoníacas e exorcismos:
 
"O Papa Francisco terá alegadamente realizado um exorcismo num mexicano. O porta-voz do Vaticano apressou-se a desmentir. Mas o célebre exorcista Gabriele Amorth, a caminho dos 90 anos e que diz já ter feito mais de 70 mil exorcismos, não duvida de que "o Papa fez mesmo um exorcismo". Por mim, confesso que estou plenamente convencido de que Francisco não o fez: apenas tentou ajudar aquela pessoa doente, impondo-lhe as mãos e rezando.
Diabo é, etimologicamente, o contrário de símbolo: enquanto diabállo, em grego, significa desunir, enganar, symboléo quer dizer encontrar-se com, reunir. O simbólico une; o diabólico desune.
O diabo é uma figura com muitos nomes, embora o seu sentido não seja exactamente idêntico: satã, demónio, satanás, belzebu, lúcifer, mafarrico, maligno... Aqui, serão usados indistintamente.
Seja como for, o decisivo é que o diabo aparece no contexto do sofrimento, da maldade, enfim, do mal. Como se explica tanto mal e sofrimento no mundo? Uma vez que Deus não pode ser a causa do mal, pois é infinitamente bom, supõe-se que o diabo poderia ser uma boa explicação. Ele tentou e tenta o ser humano, que cai na tentação e provoca o mal. Mas já o filósofo Kant colocou na boca de um catequizando iroquês esta pergunta: Por que é que Deus não acabou com o diabo? E sobretudo: quem é que tentou os anjos, para que, de bons, se transformassem em anjos caídos e maus, demónios?
Para explicar o mal, contrapor o diabo a Deus, como se fosse uma espécie de anti-Deus, no quadro de um dualismo maniqueu, não passa de uma explicação aparente e, sobretudo, é uma contradição.
Se é certo que Jesus, nos Evangelhos, aparece expulsando demónios, isso deve ser compreendido no contexto das crenças da altura. Hoje, sabemos que se tratava de doenças do foro psiquiátrico ou de pessoas com ataques epilépticos ou sofrendo de histeria. De qualquer forma, Jesus anunciou Deus e não satanás, e, felizmente, o diabo não faz parte do Credo cristão. O núcleo da mensagem de Jesus foi o Reino de Deus, e o Reino de Deus consiste na salvação total e plena do ser humano. Neste contexto, o diabo pode aparecer apenas como um símbolo personificado de todo o mal que ainda aflige o homem, mas a que Deus há-de pôr termo, segundo a promessa de Jesus. O diabo é a expressão personificada do que não é o Reino de Deus. Precisamente para realçar mais e melhor o que constitui o centro da mensagem de Jesus enquanto notícia boa e felicitante: o futuro do Reino de Deus.
O diabo não pode, pois, ser apresentado como uma espécie de concorrente de Deus. E não tem sentido continuar a pensar e a pregar que ele se mete nas pessoas, para tomar conta delas através das possessões diabólicas. Não há possessos demoníacos. Apenas há doenças e doentes de muitas espécies e com múltiplas origens e com imenso sofrimento, a que é preciso pôr fim, na medida do possível e, pelo menos, aliviar. Os rituais de exorcismos não têm justificação.
Se Jesus não pregou satanás, mas Deus, então a fé do cristão dirige-se a Deus e não ao diabo, o que inclui na prática a urgência de expulsar da vida pessoal e pública tudo o que é demoníaco e diabólico.
Já em 1969, Herbert Haag, um dos maiores exegetas do século XX, que conheci bem, se despedia da crença na existência pessoal do diabo, na obra Abschied vom Teufel (Adeus ao diabo). H. Bietenhard também escreveu: "A pregação cristã não deve especular sobre a origem e a essência ou o ser de Satanás - a Bíblia também não o faz: as pregações sobre o diabo e sobre o inferno, quando não fomentam a necessidade de emoções de pessoas pseudopiedosas e a excitação dos seus nervos, só servem para difundir a insegurança, a angústia e o medo. Essas pregações, em vez de libertar, colocam fardos aos ombros das pessoas."
Como diz o teólogo José M. Castillo, a Igreja, em vez da preocupação com o número de exorcistas para os demónios inexistentes, deve preocupar-se com os outros demónios, os que na realidade existem, que andam por aí à solta e são responsáveis por imensos sofrimentos de milhões de pessoas."
*Currículo de Anselmo Borges
Padre da Sociedade Missionária Portuguesa. Estudou Teologia (Universidade Gregoriana, Roma), Ciências Sociais (École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris) e Filosofia (Universidade de Coimbra). Lecionou Filosofia e Teologia na Universidade Católica Portuguesa e no Seminário Maior de Maputo, Moçambique. É docente de Filosofia (Antropologia Filosófica, Filosofia da Religião, Ética, Mulheres e Religiões) na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Algumas das suas publicações: Marx ou Cristo?; Janela do (In)visível; Religião: Opressão ou Libertação?; Morte e Esperança; Corpo e Transcendência; Deus no século XXI e o futuro do cristianismo (coord.); Janela do (In)finito; Deus e o sentido da existência; Religião e Diálogo Inter-Religioso (esta última editada em 2010 pela Imprensa da Universidade de Coimbra). É colunista do “Diário de Notícias” sobre temas de religião.
 
 
 

terça-feira, 4 de junho de 2013

Sem consciência - AS MÁSCARAS


Remedios Varos

" A parte oculta deste iceberg pode ser encontrada praticamente em qualquer parte, no trabalho, em casa, nas diversas profissões, no exército, nas artes, na indústria do entretenimento, nos meios de comunicação, na academia e no mundo do colarinho branco. Diariamente, milhões de homens, mulheres e crianças passam por momentos de terror, ansiedade, dor e humilhação nas mãos dos psicopatas existentes em suas vidas.
É trágico como essas vítimas, com frequência, não conseguem fazer os outros entenderem o que elas estão passando. Os psicopatas são especialistas na arte de provocar uma boa impressão de acordo com a sua conveniência e costumam pintar as vítimas como verdadeiros vilões. Uma mulher, terceira esposa de um professor de 40 anos de idade, disse-me recentemente: “Durante cinco anos, ele me traiu, me apavorou, falsificou cheques da minha conta bancária. Mas todo o mundo, inclusive meu médico, meu advogado e meus amigos, colocavam a culpa em mim. Ele conseguiu convencer a todos de que era um homem bom e honesto e de que eu estava ficando louca. Fez isso tão bem que eu mesma cheguei a acreditar. Mesmo depois que ele limpou a minha conta no banco e fugiu com uma aluna de 17 anos de idade, muita gente não conseguia acreditar; alguns queriam saber o que eu tinha feito para que ele agisse de modo tão estranho.
Robert D. Hare Sem consciência. O mundo perturbador dos psicopatas que vivem entre nós Artmed

Um traço do psicopata: para umas pessoas "é uma coisa uns e outra para outros ", ou seja, representam personagens conforme lhes convém. E quando essas pessoas falam acerca desse individuo (psicopata), não parece que estão a falar da mesma pessoa. Em consequencia, se eventualmente se queixam dele, são facilmente desaxreditadas.
Embora pareça que não há escapatória possível a estas experiências indiscritíveis e humilhantes, sendo verdade que algumas estão para além do controle das vítimas, o psicólogo Robert D. Hare, deixa no seu livro, alguns conselhos apresentados aqui de modo muito sucinto: Procurar aconselhamento profissional; Não se culpar, nem pelas suas atitudes nem pelas atitudes do outro, que impôs as regras; Não se sentir sozinha, se tiver coragem de indagar, descobrirá um ninho de ratos nas palavras do psicólogo, ou seja, outras vítimas do mesmo individuo, que passaram ou passam por situações semelhantes, de abuso emocional, despojadas de seus bens, e da estima por elas próprias que é a maior riqueza que podem ter.

E por último, a melhor defesa:

"Conheça-se a si próprio. Os psicopatas são hábeis em detetar e em explorar cruelmente os pontos fracos da outra pessoa; conseguem descobrir os botões que devem apertar. A melhor defesa é entender os pontos fracos e ser extremamente cauteloso com qualquer um que concentre a atenção em si próprio. Julgue essas pessoas de um modo mais crítico do que você faria com outras menos interessadas em suas vulnerabilidades ou menos atentas a elas."

E não esquecer que os move, o desprezo e a dissimulação (ocultadas pela sedução...)
As palavras do Dr Robert Hare: http://www.youtube.com/watch?v=t4d4euAOq7s.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Para os intimidados e belos



O poeta Shane Koyczan, em " Até hoje" ...para os intimidados e belos.
Conferência em 11 línguas
Retirado de  ted.com

sábado, 2 de março de 2013

O círculo vicioso da inveja

Carpeaux Ugolino e o seu filho

“ Essa necessidade de assegurar-se contra prejuízo ou perigo internos e externos induz certas pessoas a acumular e armazenar todas as coisas boas de que conseguem lançar mão, e isso bem pode conduzir novamente à inveja num círculo vicioso de desejo, frustração e ódio – a menos que possa elevar-se em espiral pela introdução de mais amor. Pois logo que a necessidade de muito se torna forte, é evidente que começaram a introduzir-se as comparações. ....…não pode haver  duvida  de que uma  acentuação do desejo de tomar para si, como defesa  contra a desintegração interna, constitui importante fator  onde se quer que se faça notar a voracidade. Em qualquer caso, é evidente a conexão de voracidade e cobiça com segurança.”
Volto ao tema da inveja. É uma mais tentativa para desvendar as razões que a sustentam.
As suas manifestações enclausuradas pela repetição em desvalorizar, desdenhar ou insultar (no caso da inveja maligna), parecem ao invejado, inconcebíveis e nocivas, pelo que o mais sensato será levar a vida para a frente e nem se preocupar mais com a situação.
Esta libertação da influência do invejoso, será melhor sucedida se identificarmos a fonte que alimenta a vontade voraz de tomar para si um bem - posses materiais, dons físicos ou mentais.
Para a pessoa que inveja, no fundo do seu ser, está a sensação que a posse representa a prova “… de que nós mesmos somos bons e cheios de bondade, e como tal, em troca, merecedores de amor, de respeito e de honra. Servem assim de testemunho e garantia contra o receio que experimentamos do vazio que existe em nós, ou dos impulsos perversos que nos fazem sentir maus e cheios de maldade para com nós mesmos e para com os outros. “
A apropriação salvaguarda assim, o invejoso, da sensação interna de desintegração e do receio da retaliação que as outras pessoas poderão cometer contra ele.
Esta devoção inesgotável à cobiça, é uma forma de ganhar segurança.  
* as citações são de: Melanie Klein e Joan Riviere Amor, ódio e reparação Editora Imago

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Transgressões familiares

Morimura Yasumasa Mother (Judith II)
 
 
  
“À partida, a criança só pode reconhecer aquilo que a sua própria mãe reconhece e investe: por exemplo, uma mãe que não faz referência ao seu marido como portador de uma lei, impede o seu filho de fazer esse reconhecimento. E, também aí, não será uma referência manifesta no discurso o que vai contar, mas antes uma referência interiorizada no vivido (a nível afetivo), na qual certas mães desqualificarão totalmente a palavra paterna, transformando-se em cúmplices mudas perante as transgressões desta (organizando, por exemplo, a pretexto de uma excessiva severidade do pai, as “desobediências” do filho). Podemos então imaginar como, a partir de fundamentos de tal modo inconsistentes, será precária a construção do Édipo.
J. Chasseguet – Simirgel, nos trabalhos sobre a perversão, põe em evidência a ideia de que esta é favorecida pelo engano que é mantido pela mãe: o seu filho poderá satisfazê-la e não tem nada a invejar ao seu pai; ele é um objeto erótico adequado, numa cumplicidade contra o pai, cumplicidade essa que os reúne. Iludindo assim a diferença de gerações, essa mãe impede a projeção no futuro de um desejo, por parte do filho, de vir a ser como o pai, dado que já acumula – daí a idealização de pregenitalidade, que, de imediato traz, tanto prazer.
Contudo, não existe somente a posição materna; há também a maneira como o pai, na realidade, se vai situar perante o filho; “
Nicole Jeammet O Ódio Necessário Editorial Estampa

Uma mãe, no caso evocado, por comportamentos manifestos ou encobertos, manipula um filho ao ponto de o tornar seu cúmplice, a fim de desqualificar o pai deste, no seu papel e direitos.
Talvez nem sempre situemos a narrativa num quadro das perversões, mas é disso que se trata, por representar o controlo da criança e a sua alienação, ao pretender fazê-la acreditar num amor que não lhe pertence, que deveria ser o amor ou a estima da mãe pelo pai e vice-versa.
Com o propósito de criar e manter este contrato entre mãe e filho, o jogo de sedução /ameaça não permite reconhecer os interesses e angustias dolorosamente sentidos pela criança.