quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Os sentimentos de Narciso

Dali, Metamorfose de Narciso (detalhe)

De que se fala quando se fala de narcisismo? As pessoas associam o narcisismo saudável, ao amor por si próprio, quanto baste. Contudo, quanto ao narcisismo que “ultrapassa as medidas”, o narcisismo patológico, facilmente o associamos àquelas personagens exuberantes, que exploram os outros para fins próprios (representado por Narciso), mas raramente, às pessoas tímidas, inibidas e também centradas em si próprias (representadas pela ninfa Eco). Mas os dois tipos correspondem a personagens narcísicas. Assim sendo, o que têm em comum? Dos seus comportamentos, podemos inferir sentimentos, os quais são:

“Uma negação exterior de dependência e um auto – admiração consequente (mesmo na ninfa Eco); por detrás desta ultima, uma raiva oral e uma inveja esmagadora; e por baixo dela, um anseio frustrado de atenção amorosa”.*

Um dado importante, é de que, estes sentimentos afloram de modo mais intenso, nas relações íntimas.
Quando compreendermos na prática, como estes sentimentos se poderão manifestar, julgo que já percebemos alguma coisa sobre o narcisismo patológico (o que procura destruir a auto-estima do outro). Esta compreensão, também é importante para a nossa protecção.
Com a intenção de ilustrar a negação exterior de dependência temos, por exemplo, aqueles comportamentos que abordam o outro com vista aos próprios fins, mas não revelam gratidão. 
Uma das suas dolorosas expressões, talvez seja após a entrega amorosa, a rejeição fria e brutal, que não há qualquer ligação ou compromisso. Este comportamento, revela a  recusa de trocas (emocionais…), e se o indivíduo narcísico dá, espera receber, a dobrar. Na base desta negação da importância do outro, está a inveja.

*Jeremy Holmes, Narcisismo, Almedina

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O amor de Dorian Gray


Dorian Gray é a (principal) personagem narcísica do romance de Óscar wilde.
Dorian Gray apaixonou-se repentinamente por uma jovem actriz de teatro, Sibyl, sem contudo manifestar interesse na sua pessoa real. Isso seria banal para ele. O seu sentimento por ela, povoado de abstracções, estava ao nível dele – “ela suplanta em divindade tudo o que existe”.

Este encantamento de Dorian deve-se, nas suas palavras, a Sibyl ter génio e inteligência, e em conceber nas suas representações teatrais, os sonhos dos grandes poetas, assim como, por dar corpo às ficções da arte. Isto é, apaixonou-se tal como Narciso, pelo que ele queria ser.
A quimera de Dorian Gray terminou, do mesmo modo súbito, quando Sibyl,  em uma noite de representação, e na presença de amigos dele, teve um  desempenho desastroso. No último acto, já a sala estava vazia. Mesmo apaixonada, os maravilhosos versos de Julieta (Romeu e Julieta), saíram-lhe pessimamente mal.  Sibyl era humana!

A reacção de Dorian Gray foi fria e brutal – “Mataste o meu amor”; “Sem a tua arte não és nada”; “Não posso tornar a ver-te”; “Foste para mim uma decepção”.

Sibyl suicidou-se!

Dorian Gray que a “amara por julgá-la grande”, quando soube, recompôs-se, respirou fundo, e pensou: se ela sofreu com a rejeição, ele também sofreu a assistir à sua horrenda representação teatral.
Encontrava-se agora no jardim. Os pássaros pareciam falar dela às flores.

Assim termina este amor narcísico. Sibyl não era vista como uma pessoa. Dorian pretendia-se reflectir nela, através do seu talento para a representação. Tal como Narciso no espelho das águas.

sábado, 6 de novembro de 2010

Maldade

William Bouguereau, Dante et Virgile au Enfers


A maldade além de provocar dano no outro, é também um ataque à  imagem positiva que temos de construir de nós próprios. Pelo que, o acto maldoso é nocivo, tanto para a vítima como para o seu autor.
E, se os pais ou o meio em geral, pela frieza  ou violência, espelham a agressividade da criança, esta vive  na expectativa de que é má. Perde o suporte. A violência perpetua-se.
Só o perdão regenera e, no adulto, o não saber receber o perdão do outro, é um comportamento que desconhece os seus limites - o quanto o amor pode ser frágil. É neste caso, uma defesa contra a esperança.

Recursos úteis para lidar com os comportamentos das crianças, aqui .



quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Comunicar


“Temos de fazer as pazes com o facto dessa diferença consistir sobretudo nas mulheres em geral, serem mais realistas, mais abertas à verdade e aos factos. São mais humanas no sentido de estarem menos afastadas dos seus sentimentos, menos inclinadas a lhes escaparem com recurso a abstracções”.
Arno Gruen, A Traição do Eu, Assírio e Alvin

Na comunicação entre as pessoas, o refúgio em ideias abstractas serve de facto para aqueles momentos em que não nos queremos comprometer com uma atitude, falta-nos coragem ou, pretendemos filtrar sentimentos, isto é, escondê-los.

Mas acho que as nossas energias e o nosso tempo, deveriam ser gastos em tentarmos dizer o que realmente pretendemos. E exigirmos o mesmo do outro. Irá contribuir para o nosso bem-estar.
O pior é se, de tanto usarmos as abstracções, já não sabemos ao certo quais são as nossas necessidades. Assim, de tanto nos protegermos, a vida escapa-nos.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Manobras (2)


Já alguém deu pelas suas ideias serem deturpadas pela boca de outra pessoa e, suspeitamos que intencionalmente?
Vivemos situações em que fomos elogiados de maneira tão generosa que até desconfiamos?
Já ficamos totalmente invisíveis para alguém, quando era suposto que fossemos vistos por ele e acolhidos na conversa?

Nicole Jeammet em “O Ódio Necessário”, citando Recamier, define estes comportamentos, como estratégias que pretendem agir sobre a mente do outro “sem passar por palavras ou intenções verbalizadas”, mesmo que possam ser inconscientes.

O seu autor não nega que esteja envolvido na situação, isto é, não nega que nos viu, por exemplo. Razão pela qual não se trata do mecanismo de defesa “negação”. É sim , uma “denegação”, porque o acontecimento é usado a seu jeito.
Deste modo, são as necessidades pessoais de quem faz uso destes mecanismos, que prevalecem com a intenção de valorização pessoal. Usadas em excesso, constituem modos perversos de relacionamento. Costumam ser um recurso habitual,  para quem pretende o êxito social e profissional.

Deixo-vos três tipos de "denegação":
Denegação da alteridade. Exemplo: Trata-se de dizer ao outro, como ele é maravilhoso, superiormente dotado, inigualável. Um amigo (sem nos conhecer)! Ao recorrer-se à sedução, pretende-se tirar disso proveito pessoal.

Denegação do sentido. Já não é a sedução que é utilizada, mas o ataque. Exemplo: As nossas palavras são subtilmente desqualificadas, como no caso de uma mãe que prepara o banho para a filha, mas como a água está muito quente, e perante as queixas da criança, a mãe desqualifica o lamento justo, com outro - tanto a filha como o pai não lhe dão o devido valor.

Denegação do significado ou de ligação: Exemplo: Para o outro, nós não temos qualquer interesse ou valor, ao ponto de sermos “invisíveis”.

São manifestações de ódio branco (violência oculta) e resultam da inveja e da frustração.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O corpo

Lucian Freud, Leigh and Nicola Bowery


“…dos lábios, o esmalte dos olhos, um determinado sinal, uma maneira ao estender os dedos a fumar; estava fascinado – não sendo o fascínio, em suma, senão a extremidade do desprendimento – por essa espécie de figura colorida, de faiança, vitrificada, onde podia ler, sem nada compreender, a causa do meu desejo”.
Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso



De início está o corpo. Ele encerra uma sabedoria que não alcançamos e que se mantém adormecida até que as emoções elementares o despertam - o êxtase de um encontro ou um amor que morre.
É um sentir visceral, ligado à nossa raiz animal. Antecede qualquer esforço de racionalização.
O corpo diz-nos também que o amor já morreu. Por breves instantes, é a incomodidade pela presença do corpo do outro. Debatemo-nos porque não queremos aceitar como certa a emoção que nos provoca um território que se tornou hostil. Mas o corpo impõe-se. Subjuga-nos. É a agonia que mantemos secreta até encontrarmos as palavras.





quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Manobras (1)



Na verdade, a literatura psicanalítica não se refere a “manobras”, mas a “compensações”, que são mecanismos (de defesa) que utilizamos quando o nosso amor-próprio é ferido, e que as personagens narcísicas utilizam em excesso.
Trata-se de atitudes agressivas. Estes comportamentos, pretendem restaurar o orgulho ferido, aliviar a tensão e recuperar o sentimento de controlo nos outros e sobre as coisas, visto que para o indivíduo é humilhante não ser como deveria ser, o que dá origem à ansiedade.

Seguindo o pensamento de Hugo Bleichemar em “O Narcisismo”, não existe agressividade sem uma ideia na base, mesmo que a pessoa não seja consciente da mesma. Essa ideia, que se procura comunicar ao outro, é habitualmente, “ Eu sou poderoso e não frágil”.
Neste contexto, um conceito importante sobre as personalidades narcísicas - repor o orgulho ferido é mais importante que a satisfação da troca com o outro. Além do mais, dependendo da vulnerabilidade sentida,  quase tudo pode ser entendido como um ataque à auto-estima.
Outra ideia que parece-me importante para compreendermos, por exemplo a megalomania, é que não há no humano, a possibilidade de se ter auto-estima a mais.

Aqui vos deixo, alguns exemplos de defesas perante a ansiedade narcísica:
Megalomania
Exibicionismo secundário (exemplo da verborreia em público)
Don- Juanismo
Raiva
Negativismo (usualmente as pessoas identificam como“estar sempre do contra”)
Cultivo do ressentimento
Abuso do poder
Sadismo (é uma variante do poder, que se traduz em ter prazer em fazer o outro sofrer)
Masoquismo
Desqualificação do outro.