quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Auto-aceitação

Dali, Girl Standing at The Window 1925

Minha impressão é que fiz tudo o que me foi possível. Naturalmente poderia ter sido mais e melhor, mas não em função da minha capacidade.
Carl J. Jung, Memórias, Sonhos e Reflexões

A impressão de que não fomos suficientemente inteligentes, e não fizemos tudo o que nos foi possível, pode-nos provocar angustia. Mas, se em vez de nos culparmos por termos deixado passar oportunidades, poderíamos pensar que, por alguma razão não estávamos preparadas para elas. Porque o nosso desenvolvimento interior na altura não permitiu, não eram oportunidades e não seriam vividas com sucesso.



segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O infinito


Salvador Dali, Landscape with Butterflies


“Em nossas relações com os outros é também decisivo saber se o infinito de exprime ou não.”
Carl G. Jung, Memórias, Sonhos e Reflexões

É preciso que se diga com clareza: há relações que não valem a nossa atenção. Há pessoas que também não valem a pena, o que não quer dizer que não as respeitemos. Mas nós insistimos, às vezes para além do suportável.
Como podemos saber se esta pessoa ou situação, merece que atravessemos os nossos limites ou o inferno, se tiver de ser? Qual o critério? Jung (psicanalista) diz que deveria ser este: esta relação exprime o infinito, ou não? Isto é, crescemos ou não, na relação.
Se nos deparamos com alguma dificuldade em compreendermos o significado do infinito, talvez se torne compreensível se dissermos que a sua ausência, é o sentimento de que “sou apenas isto” ou, esta relação “é apenas isto”. Sabe a pouco.
Mas até este despertar, pouco queremos saber do sentido dos dias vividos um a um. Andamos. O horizonte está próximo e é um manto espesso. Mas em muitos de nós, vai crescendo de maneira inusitada um desassossego. Um desejo de seiva.

Surge então o primeiro momento em que acreditamos que é mais fácil separar as coisas que são fundamentais das futilidades que nos consomem, e das pessoas que não têm nada para nos dar. O ilimitado torna-se essencial. O que nos coloca  perto do mais íntimo de nós, e do mais natural em nós.




domingo, 21 de novembro de 2010

O convite



Lauren Bacall a Humphrey Bogart: Sabes assobiar, não sabes, Steve? Basta juntar os lábios. E... soprar.




sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A experiência da dor

Pesquisadores da Universidade de Harvard descobriram que, a “dor dói mais fundo” se consideramos que quem a causou, fê-lo intencionalmente.

A pesquisa publicada na edição da Psychological Science de 2008, foi liderada por Kurt Gray, um estudante de graduação em psicologia, juntamente com Daniel Wegner, professor de psicologia.
Segundo os autores do estudo, os resultados podem explicar, em parte, porque as pessoas em relacionamentos abusivos, por vezes, continuam a mantê-los. A explicação para estas situações, pode estar na tendência a justificar que o parceiro violento não tinha a intenção de lhes causar danos. Deste modo, algumas vítimas podem reduzir a sua experiência de dor, o que poderia torná-las menos propensas a deixar o relacionamento e escapar do abuso.
Também com preocupações de prevenção, os autores referem que, quando o dano é intencional, pode ser o primeiro de muitos, pelo que é necessário atenção e fazer alguma coisa para evitar que se repita.
Uma síntese desta pesquisa pode ser lida na edição da Sciencedaily


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Desamparo e do desprezo por si próprio

Edward Hopper

Anton Ckekov (escritor) percebeu que a hostilidade, a maldade e o sadismo provêm do desamparo e do desprezo por si próprio, porque todos estes fenómenos comportamentais resultam da adaptação a uma realidade hipercrítica.”
Arno Gruen, A Traição do Eu

Nos momentos de pausa, questionamo-nos (o que já é sinal de sanidade), sobre as pressões colocadas pelos diversos poderes que pretendem unicamente a nossa submissão e admiração.
Os que se adaptam ao ponto de ficarem separados dos seus sentimentos e da sua sensibilidade, são realmente os fracos, porque têm medo de sofrer, e não os fortes como nos querem fazer crer. Mas como seres fragmentados, estão cheios de ansiedade, que sendo intolerável, é projectada nos outros sob a forma de maldade, hostilidade e sadismo.


segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O amante




Sobre o amor:
"Por que razão durar é melhor que arder?" Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso

sábado, 13 de novembro de 2010

Pedir perdão

Rubens, Venus at a Mirror (detalhe)

O pedido de perdão de Dorian Gray do romance “O Retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde representa, para mim, a metáfora do medo em enfrentar o outro nas alturas em que deveríamos pedir perdão.
Após a cena em que Dorian Gray rejeita violentamente Sibyl na sequência da sua lastimável actuação teatral, já em sua casa, vacila entre o impulso em implorar-lhe o seu perdão ou o recurso a algum meio que “adormecesse a sua sensibilidade moral”. Resolve-se pelo pedido de perdão. Escreve-lhe uma carta.
Segundo o narrador “escreveu páginas e páginas de palavras desesperadas de mágoa”. Ao terminar, “Dorian Gray sentia-se perdoado”.
Entretanto, chega um amigo que se interessa em saber do seu estado, a que Dorian responde: “Sinto-me agora inteiramente feliz. Sei agora o que é a consciência. Não posso suportar a ideia de a minha alma ser hedionda”.

Para Dorian Gray, a principal personagem narcísica do romance, perdoar-se a si próprio por ter sido cruel com Sibyl, só porque lhe escreveu uma carta que não entregou, simboliza a recusa de relações de reciprocidade. É a negação da importância do outro. O seu mundo fica concentrado nele próprio, não necessitando do confronto para ser perdoado. O outro pouco interessa, como se se tomasse numa base segura de substituição. Assim, evita-se o confronto, porque este tornaria evidentes as limitações pessoais que a sua fantasia de superioridade, não permite. 

A ansiedade é suportada com recurso aos mecanismos: negação do quanto o está a perturbar a atitude que teve para com Sibyl e a consequente idealização das suas próprias qualidades morais.