segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A fúria da Rainha Má



Cena da série "Era uma vez..." canal AXN Portugal, em que a  Rainha Má afirma: "Vou destruí-la, nem que seja a última coisa que eu faça."

"Por outro lado, aquele que sofreu uma ferida narcísica não consegue sossegar enquanto não tiver reduzido a pó um agressor vagamente percebido que se atreveu a contrariá-lo, a discordar dele ou a brilhar mais do que ele. “Mágico espelho meu, haverá no mundo alguém mais bonito do que eu?” pergunta o self grandioso-exibicionista. E quando se diz que há alguém mais bonito, ou mais forte, ou mais inteligente, então como a perversa madrasta da Branca de Neve, ele nunca mais terá sossego, pois nunca mais conseguirá apagar a evidência que desmentiu a convicção de ser singular e perfeito.
…
Ainda que sejam diferentes as suas manifestações, todos os casos de fúria narcísica têm alguns aspetos em comum porque todos surgem da matriz de uma visão do mundo narcísica ou pré-narcísica. O modo arcaico de vivenciar explica por que todos aqueles que estão possuídos de fúria narcísica mostram total falta de empatia para com aquele que os ofendeu. Isso explica o desejo intransigente de lavar a ofensa que foi cometida contra o self grandioso e a fúria implacável que surge quando se perde o controle sobre o selfobjecto especular ou quando o selfobjecto onipotente não está disponível. E o observador empático há de compreender a importância mais profunda do estimulo aparentemente insignificante que provocou o ataque de fúria e não vai surpreender-se pela gravidade aparentemente desproporcional da reação. "

Heinz Kohut Self e Narcisismo Zahar Editores.

Palavra- chave: Fúria narcísica


Freud, Sigmund 1937; Localização: Áustria, Viena, Grinzing

"Todo o mundo tende a reagir à psicanálise como a uma ferida narcísica porque ele desmente nossa convicção de que temos total controlo sobre nossa mente."
Freud 1917



sábado, 7 de janeiro de 2012

Ser independente ou diferente


Autor: Josef Fischnaller

“Em outras palavras, o facto puro e simples de a outra pessoa ser independente ou diferente é experimentado como ofensivo por aqueles que têm intensas necessidades narcísicas.”
Heinz Kohut Self e Narcisismo Zahar Editores

Uma das maiores fontes de prazer: ser independente, embora não signifique que se seja desligado e sem vínculos.
Também uma das maiores fontes de inveja para os indivíduos que têm uma imagem grandiosa de si próprios, não reconhecem os seus limites, tentam controlar o outro - que é independente ou diferente, confiante e com vitalidade que só a liberdade proporciona - que por isto mesmo, abalou a convicção daquele que se acha poderoso e especial.
A auto-estima destes indivíduos com intensas necessidades desta gratificação pode depender deste domínio, à custa de um direito de cada um de nós: sermos livres de escolhermos quem queremos ser.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

As diferenças entre zanga e ódio

Zeng Fanzhi This Land is so Rich in Beauty, 2010

“Também nos zangamos. Mas a zanga é para corrigir o objeto; entra ainda no círculo do amor (psicopatologicamente, faz parte do especto da neurose e da depressão).
Coisa diferente é o ódio, que visa destruir o outro e é atributo da porção psicótica e borderline do funcionamento mental”
António Coimbra de Matos Relação de Qualidade: penso em ti Climepsi

“Ama-me quando eu não merecer, porque é nesse momento que eu mais preciso”, diz um proverbio chinês.
Após uma zanga, surge o remorso pela nossa agressividade e a necessidade que o outro nos perdoe. Nos confirme que merecemos continuar a ser amadas, apesar de termos ferido, ou, apesar do que somos. Aceitarem-nos de volta faz-nos renascer – a nossa agressividade não o destruiu, nem destruiu a relação. Entristecemos enquanto isso não acontece, e por vezes desajeitadamente, solicitamos a reconciliação e acabamos por facilitá-la porque o outro, com todos os seus defeitos e qualidades que reconhecemos, é importante na nossa vida.
Outra coisa diferente é o ódio, e ele habita dentro de todos nós. Pertence à parte psicótica e borderline da nossa personalidade. Mas como diz o povo, todos temos demónios só que alguns de nós têm controlo sobre eles.
O que as vítimas de violência domestica, por exemplo, conhecem, é o ódio e não a zanga.
O ódio nas suas diversas e quotidianas manifestações (desvalorização, humilhação, desdém….), não tem em conta o que cada um dá de bom à relação, e o que quer que o outro faça para agradar não altera a sua natureza. O ódio é imutável, e orientado para atacar o amor-próprio do outro que não é reconhecido como pessoa total. Basta um gesto, uma palavra…que podem ser mais do que suficientes para despoletar uma ofensa pessoal sem sentido - não se trata do que a vítima disse ou fez - mas naquele momento  ligou-se a algo primitivo, inominável, pelo que, tende-se a perder a capacidade de refletir e ser empático para com a outra pessoa.
As tentativas de reconciliação são primárias e revelam dificuldade em se desenvencilhar dos conflitos. As palavras tornam-se dispensáveis, porque não vale a pena contrapor a sua própria opinião, visto “cada um fica na sua” e porque os pensamentos não são articulados entre si.
Ao romper a parte psicótica e borderline da personalidade, ficam frágeis a responsabilidade e culpabilidade pelo efeito do nosso comportamento no outro.