Entrevista de Marta Vaz ao Psiquiatra José Luis
Pio Abreu, publicada a 13.10.13 no site Focus Social, com o título “Há uma
tendência para psiquiatrizar a sociedade. E isso é tremendo!"
“Diz que uma pessoa triste, não está obrigatoriamente deprimida
e que a birra de uma criança não tem de ser um comportamento desviante! E chama
à atenção para a tendência de psiquiatrizar a sociedade, rotulando e corrigindo
apressadamente qualquer desvio. Defende que dizer doenças comportamentais em
vez de doenças mentais ajudaria a compreendermos melhor o que são e explica
porquê. Valoriza a relação interpessoal, mais do que o sucesso profissional…que
é como quem diz, o amor é o mais importante. Afirma que as pessoas normais é
que são muito complicadas! E com isto arranca-nos logo um sorriso de
cumplicidade para a conversa. Mas diz mais. Diz que a desinstitucionalização de
doentes mentais e o encerramento dos hospitais psiquiátricos, em curso em
Portugal, seria maravilhoso se houvesse recursos para o fazer, até porque com o
encerramento destas unidades hospitalares, alguns doentes tornaram-se
sem-abrigo. Fala-nos de como “uma pessoa diagnosticada com doença mental perde
graus de liberdade”. Aponta “medicamentos órfãos”, que ninguém quer promover,
mas que são mais eficazes do que os mais caros. Aborda a solidão dos mais
velhos e as relações virtuais que proliferam pela internet. Diz que passamos a
vida a seduzir e a representar e que é muito difícil homens e mulheres
compreenderem-se, apesar de procurarem a sincronização. O seu próximo livro,
aprofundará este tema fascinante, esse “bailado que existe entre as pessoas” e
que pede acertos de muitos ritmos.
No decorrer da conversa nota-se-lhe uma atenção genuína pelo ser humano. E não
aquela atenção bem treinada de quem tem por profissão ouvir os outros, há mais
de 40 anos. É psiquiatra e professor, tem vários livros publicados, académicos
e outros mais destinados ao público em geral, como é o caso de “Como Tornar-se
Doente Mental”, manual que serviu de mote a esta entrevista. De resto,
preparem-se para muitos paradoxos e para a necessidade de os superar. E como
Pio de Abreu sugere, confiemos na inteligência humana para o fazer.
Esta
conversa é motivada pelo seu livro – Como Tornar-se Doente Mental – e pelo dia
Mundial da Saúde Mental, assinalado a semana passada. A saúde mental é um
bocado o parente pobre da medicina? Pobre e estranho?
Isso é verdade. Mas tem a ver com os conceitos e ideias que se tem. Não deixa
de ser um problema filosófico e ontológico. Quando tentamos perceber o que é a
mente, ninguém nos sabe dizer. A mente, a alma, o espírito, são conceitos muito
vagos, pois não estão definidos em termos filosóficos, nem ontológicos. Vivemos
no dualismo cartesiano e imaginamos a mente como uma coisa oposta ao corpo. Na
minha perspetiva não é assim, mas creio que tem a ver com a designação. Por
exemplo, se disséssemos doenças comportamentais, o conceito seria mais claro e
eramos capazes de entender melhor o que são doenças psiquiátricas. Eu prefiro a
designação de doença psiquiátrica, apesar de tudo.
Então defende que dizer doenças comportamentais, ajudaria o cidadão comum a
pereceber melhor o que é uma doença mental?
Sim, sim, no sentido de que o próprio pensamento é um comportamento. A
elaboração das crenças, das expectativas são comportamentos intencionais. Às
vezes sabemos o que queremos ou não, mas de qualquer modo tem a ver com o nosso
funcionamento ao longo do tempo. Não é propriamente algo como um tumor, uma
infecção ou outra coisa que se extraia com uma cirurgia. Não há nenhuma mal
formação que se extraia da mente. Se nós pensassemos em doenças comportamentais
penso que seriamos capazes de perceber melhor o que são as doenças mentais.
Essa invisibilidade de que sofre a doença mental contribui também para o
estigma?
Sim. Mas existem outras razões. Por exemplo, alguns crimes que são noticiados
pelos órgãos de comunicação social também contribuem para esse estigma social. Já
alguns doentes são pessoas dificeis. As primeiras pessoas a rejeitarem-nos não
são os psiquiatras, os psicólogos ou os psicoterapeutas (esses ajudam) mas,
pelo contrário, são as famílias. Muitas vezes são elas que não os querem por
perto e os colocam em situações difíceis. E claro, a sociedade em geral também
não lida muito bem com os doentes mentais.
No caso das
famílias, podem não saber lidar com o problema?
Sim. E não é fácil lidar com estes problemas, apesar de tudo.
Na minha perspetiva uma pessoa diagnosticada com doença mental perde graus de
liberdade. O seu comportamento fica prisioneiro da patologia que tem e de facto
não se adapta a várias condições, acabando por fazer sempre as mesmas coisas em
qualquer circunstância. E portanto a liberdade comportamental que tem,
reduz-se. Daí a dificuldade de adaptação à diversidade circunstancial. E isso é
o que nós, enquanto médicos, temos de tratar. Aumentar os graus de liberdade
dessa pessoa, permitindo-lhe uma maior adaptação, flexibilizando-lhe o comportamento
e fazendo com que se responsabilize pelas suas decisões. As pessoas devem
conhecer as normas para terem a liberdade de as cumprirem ou não ou de as
alterar. Se as recusarem, por exemplo, tem de assumir as consequências dessa
recusa. A saúde mental é isso, o conhecimento e a liberdade para tomar
decisões. Por isso, celebrar o Dia da Saúde Mental obriga-nos a pensar e a
refletir nos constrangimentos e nas dificuldades de superação. Ajuda-nos a
reflectir sobre os milhares de temas propostos que são extremamente complexos,
interferindo com inúmeras esferas do comportamento humano. É deste confronto de
ideias e de argumentação que depois se origina a ação. E isso faz-se cada vez
menos, porque as pessoas estão cada vez mais fechadas e paranoides pensando que
a sua ideia é que está certa e os outros estão todos errados. Essa confrontação
é o que nos faz escalar em termos de abertura, de realização pessoal, de
evolução da nossa inteligência.
Temos uma Proposta de Plano de Acção para
a Restruturação e Desenvolvimento dos Serviços de Saúde Mental (2007-2016).
Como vai a saúde mental em Portugal?
É muito complexo. Houve uma tendência muito boa que foi a
desinstitucionalização, acabar com os hospitais psiquiátricos. Alguns doentes
até viviam lá bem. Outros morreram e com o encerramento destas unidades
hospitalares, outros, tornaram-se sem-abrigo. Mas isto é já uma questão do foro
económico e social. Só que o problema está em que os doentes, como alguém
disse, saíram pela esquerda e entraram pela direita para os hospitais privados.
E a tendência é acabar com os hospitais públicos, são muito caros, geralmente
situados em zonas urbanísticas notáveis. Os doentes mentais são agora enviados
não se sabe para onde, para umas residências onde vivem umas vinte pessoas; às
vezes nem sequer médico tem. Isto para dizer que a desinstitucionalização era
uma coisa estupenda, maravilhosa, se houvesse recursos, humanos e económicos.
Enfim, são opções políticas muitas vezes travestidas de alguma humanização.
Como explica
o sucesso do seu livro, já 21º edição, em Portugal?
De algum modo é um livro que inclui o que se chama de terapia paradoxal, que
consiste em ajudar a pessoa a ter um sintoma, a ter consciência dele. Há
situações que não conseguimos resolver, que não conseguimos curar mas ao
ajudarmos a provocar esse sintoma, ajudamos a que a pessoa tenha consciência
dele. E se, depois, sabe como provocá-lo sabe como defender-se. Na altura em
que o livro saiu não foi fácil. Foi o quase transgredir das normas. Tive muitos
colegas que não gostaram. Desorganizou um bocado o mito do psiquiatra e também
a sobranceria dos psiquiatras, acho eu. Mas foi muito bem aceite pelo público.
Em Itália ganhou um prémio.
Como lhe
surgiu a ideia?
A primeira vez que tive a ideia de o escrever foi quando estava a tentar
ensinar um interno a pôr-se no lugar de um anóretico, para percebermos como
funcionam. E este livro incita-nos a colocarmo-nos no lugar do outro. As
pessoas, por exemplo, não compreendem como é que os anoréticos, os obssesivos
funcionam. As doenças mentais tem muito a ver com isto. São pessoas que a
determinada altura tem um comportamento, mas esse comportamento mais agrava o
comportamento patológico. As consequências de um comportamento vão-se
transformar em causas. Isso não está muito claro na literatura internacional da
psiquiatria mas eu estou absolutamente convencido de que é o que se passa. Este
enquadramento é o que caracteriza as doenças mentais, motivo pelo qual defendo
que se deviam chamar mais doenças comportamentais. Porque é um comportamento
repetido ao longo do tempo (e não outros) que faz com que a pessoa vá perdendo
a flexibilidade de ter outros comportamentos, incluindo simular outras doenças
mentais.
Simular?
Sim, porque se a pessoa simula uma doença mental com consciência essa pessoa
não é doente mental. Tem a liberdade para fazer aquilo que entender.
E isso não
assusta os psiquiatras, a simulação por parte da pessoa que se desloca à
consulta?
A mim não me perturba nada. Mas sim, retira um pouco o poder sacerdotal que os
psiquiatras pensavam ter. Temos de ser suficientemente humildes porque, nós
médicos, da medicina ocidental, que publicamos, assumimos as coisas e as
escrevemos, temos de ter a abertura para dizer como fazemos e espaço para
colocarmos as dúvidas que temos. Sobretudo numa época em que está tudo na
internet e as pessoas procuram saber tudo, mesmo o que não está correto.
As pessoas
procuram consultá-lo por causa do livro?
Sim. Algumas dizem-me que sim. Há muita gente que lê este livro, nomeadamente
pessoas ligadas à psicopatologia. A própria estrutura do livro foi muito
pensada e tem a ver com as noções da psiquiatria, por exemplo a classificação
espectral. Este é um tema que retomo numa publicação recente, de redação
académica, editada pela Gulbenkian, Elementos da Psicopatologia Explicativa,
que é uma explicação académica da estrutura de “Como tornar-se doente Mental”.
Lê-se: “Se
alguém lhe falar na respiração proteste e diga que essa teoria não é aceite
pela ciência psiquiátrica (de facto não é porque não vende comprimidos)”.
Sim, Portugal é um grande consumidor de medicamentos. O Estado desinvestiu da
formação dos médicos e da investigação. O Estado agora não investe, está tudo
privatizado. São os laboratórios que dominam a investigação, as revistas
especializadas norteiam as linhas de investigação e também a formação dos
médicos e isso acaba por se refletir nos grandes consensos mundiais. Qualquer
revista psiquiátrica ou médica está cheia de anuncios e por isso mesmo a
investigação médica está organizada à volta da tentativa de vender medicamentos
caros. É que os medicamentos que foram usados há muito tempo e que são bons e
extremamente eficazes, mas não dão lucro, foram abandonados, estão a
desaparecer do mercado.
Quer dar exemplos?
Acabou, agora, por desaparecer a amitriptilina e outro, um dos medicamentos
antidepressivos mais eficazes que é a clomipramina, esteve também para
desaparecer. E em Portugal teve de haver um laboratório que se formou só para
comercializar esse medicamento. São chamados os medicamentos orfãos, não têm
pai, ninguém que os promova. E ainda a clozapina, que foi um medicamento que eu
ensaiei aqui, em Portugal, há cerca de trinta anos. E foi extremamente difícil
entrar no mercado porque o laboratório que a lançou arrependeu-se e teve de o
retirar, estando muitíssimo condicionado. Neste momento é extremamente barato e
continua com grandes restrições. Só depois de 20 anos desse medicamento
aparecer é que a mesma linha de investigação foi seguida. E os medicamentos que
estão na sequência desse, chamados antipsicóticos atípicos, extremamente caros,
mas nenhum se equipara a esse, muito barato.
Então não é só uma questão de saber, ou não, respirar bem?
Não. Apesar de saber respirar ser muito importante. Vivemos numa sociedade que
visa o lucro, acima de tudo e ensinar a respirar não traz grande lucro. O modo
como se respira pode controlar muito o nosso corpo. Os bailarinos sabem disso,
os ginastas sabem disso, às vezes os médicos e os psiquiatras é que parecem não
saber. Mas isto da respiração não está devidamente desenvolvido, não é o
mainstream. Toda a gente sabe da importância de saber respirar,
menos a ciência médica oficial. Às vezes quando nos dizem respire fundo, só
estão a agravar o problema. Viu o último filme do Woddy Allen? Ela, a
personagem principal, diz que entrou em crise de pânico, mas depois quando
respira fundo para aliviar, fica ainda pior. Até os realizadores de cinema
sabem disto, mas os psiquiatras não!
“Nem sempre
a carreira de fóbico é completa...as doenças do foro psiquiátrico sempre lá
estão”. Temos, de alguma forma, em nós doenças psiquiátricas em potência?
De certa
forma sim! Somos todos diferentes uns dos outros, mas há aqui um aspeto
importante. Por exemplo, quando, no consultório, me aparece uma pessoa saudável
eu fico em pânico. Sabe porquê? Porque não lhe consigo fazer o diagnóstico.
Agora se ela começa a falar dos rituais, da purificação, dos pensamentos que
não lhe saem da cabeça eu faço logo o diagnóstico de obssessivo. Na vida, são
todos diferentes, mas na patologia são todos iguais uns aos outros. Então,
tendo o diagnóstico consigo prever o que a pessoa consegue fazer em
determinadas circunstâncias. Porque lá está, reduz os graus de liberdade. Mas
isso, actualmente, trata-se muito bem, com alguma eficácia.
Diz
frequentemente “os especialistas dizem”...é mais uma provocação, certo? É um
especialista, sabe cada vez mais sobre cada vez menos?
Sim, sim. Há muita gente que investiga a terceira pata da mosca, por exemplo.
Mas de facto eu tenho a sorte de ser um psiquiatra generalista. Sou um
especialista de tudo. Mas há uma tendência, nomeadamente na psiquiatria, para
as pessoas se especializarem em determinada matéria e depois perde-se
completamente a visão holística, global. É um mal porque acaba por se reflectir
nos consensos internacionais, nas linhas de orientação terapeutica. Mesmo
agora, na abordagem da DM 5. As pessoas não se entendem com tanta fragmentação.
Mesmo os livros de psiquiatria geral, cada capítulo, muitas vezes é escrito por
um especialista e, no fim, se formos ver a globalidade daquilo que sai é
extremamente contraditório. Um diz uma coisa, outro diz outra. Há especialidade
mas não há coerência. Nós não podemos saber tudo mas temos de entrar em
consonância com essa visão holística, até pela prescrição de medicamentos.
Por falar em medicamentos. A grande diferença entre um psiquiatra e um
psicólogo é que o primeiro medica e o segundo não?
Realmente o psicólogo tem a grande vantagem de não receitar medicamentos. Tem
de resolver as coisas de outro modo. Às vezes é mais difícil, leva mais tempo,
mas pode ser mais eficaz a longo prazo.
Porque é que a fobia social é uma nova coqueluche?
Agora é o borderline! Mas na altura em que o escrevi, sim, e ainda hoje se
verifica. A pessoa não pode ser tímida! Isso é mais ou menos comprometedor,
dependendo do que essa pessoa faz. Conto uma história passada nos Estados
Unidos, de alguém que estava com o subsídio de desemprego. E propuseram-lhe
vários empregos. Mas ele achava que só tinha jeito para ser locutor de rádio.
No entanto, havia um problema, era gago! Isto para lhe falar da capacidade de
superação. É importante que as pessoas se conheçam para saberem onde funcionam
melhor e onde não funcionam tão bem. Dantes as pessoas diziam que se era
tímido; agora diz-se que é fobia social. Dantes as pessoas diziam que estavam
frustradas, agora dizem que têm uma depressão.
Mas também
não pode ser tudo culpa dos nervos, pois não? Qualquer desvio ao comportamento
normal, é culpa dos nervos.
Pois não! E não é! Mas agora há uma tendência para psiquiatrizar a sociedade,
para psiquiatrizar todos os desvios. Tendência muito criticada na DSM-5,
classificação americana das doenças mentais, que fez uma revisão recente. Não
podemos deixar-nos levar pela tentação de corrigir e rotular apressadamente
qualquer desvio. Uma pessoa pode estar triste e não está obrigatoriamente com
uma depressão; uma criança faz uma birra e não temos de ver nisso um
comportamento desviante. Psiquiatrizar é uma forma de normalizar a sociedade. E
isso é tremendo! As pessoas são todas diferentes. Devemos ter sempre isto em
atenção e fazer diagnósticos muito cuidados.
“A relação
com os outros dá-nos os maiores prazeres e as maiores dores. Aí se joga o
domínio e a submissão. Será bom ou mau?”
Isso é um problema que tem muito a ver com os nossos instintos; instintos
diferentes, tratando-se de homens ou mulheres e da própria cultura. Há uma
coisa que temos sempre de equacionar, o Homem nasceu para viver com o Outro. A
nossa vantagem, na minha perspetiva é a nossa relação com a outra pessoa; a
capacidade de nos pormos no lugar do outro, de empatizarmos Isto é muito mais
importante do que qualquer outra coisa. De certo modo a evolução biológica
parou e a evolução cultural continua. Daí a importância de cooperar com as
outras pessoas. Se por um lado esta relação nos envolve e nos emociona, também
é uma relação onde se joga sempre o domínio e a submissão, nomeadamente na
relação amorosa. A paixão pode ser o maior prazer e a perda a maior dor.
Porque é que diz que a “a carreira de fobia social, variante personalidade
evitante, é especialmente destinada a mulheres”?
Agora está tudo a mudar! Mas, sim, uma boa parte das doenças psiquiátricas são
mais incidentes em mulheres. A personalidade evitante, por exemplo, está muito
associada ao sexo feminino. Até porque também joga muito com a capacidade de
comunicação. Enquanto os homens são mais diretos na sua capacidade de
comunicação, as mulheres são mais indiretas. Mas neste momento as mulheres
dominam a cultura e protagonizam mais, com grande prejuízo dos homens,
nomeadamente os mais tímidos. De qualquer modo, a personalidade evitante, que é
semelhante à fobia social, atinge os mais novos, geralmente a partir dos 14
anos e tem a ver com o se relacionar de forma indireta: através da arte,
através da culinária, das prendas que são de facto coisas de que as mulheres
gostam mais. Já a fobia social, não. É bastante frequente quer em homens, quer
em mulheres.
E o que é que está a mudar?
É algo que já está acontecendo desde os anos 60. As mulheres emanciparam-se com
o advento da pilula Hoje as mulheres são muito independentes. Têm mais estudos,
mais saúde e até podem ter filhos quase sozinhas, os homens não. Neste momento,
as mulheres entram mais para a universidade, são mais qualificadas leem mais e
ganham mais do que os homens. O que ainda se mantem é o futebol! Tenho aqui
muitos estudantes cuja fonte do amor próprio é o futebol.
Diz por diversas vezes, no livro, “antes só do que mal acompanhado”. E as
pessoas que não suportam a solidão e a evitam a qualquer custo?
É um problema. Mas atualmente, creio, a solidão é um fenómeno que atinge mais
os idosos. Vemos por aí muitos idosos absolutamente sozinhos e acredito que,
muitos, estão desconfortáveis com isso e sofrem. Por outro lado, há o fenómeno
da internet e isso, pelo menos, faz com que as pessoas não se sintam tão
sozinhas. As redes sociais, por exemplo, facilitam o contacto com familiares
que estão longe. Isto acarreta outro problema. A tendência a que depois as pessoas
só se relacionem via internet. Conversam, namoram, conhecem novas pessoas,
fazem tudo na internet, têm, inclusivamente, problemas de amor e ciúmes com
pessoas da internet, que nem sequer conhecem! Isto altera muito os
relacionamentos.
Os relacionamentos, à custa do virtual, também estão a mudar?
Sim, há pessoas que vivem enfiadas no mundo virtual. Há pessoas que tem
dificuldade na relação interpessoal, com pais, irmãos, namorados, pessoas que
não tem competências sociais, que não conseguem olhar nos olhos dos outros e
este fenómeno agrava ainda mais essa situação. Quanto mais se dedicam à
internet menos competências sociais adquirem; os outros, na sua realidade,
são-lhe cada vez mais estranhos.
Há, por exemplo, os chamados autistas de alto funcionamento. São pessoas com
síndrome de Asperger ou personalidade esquizóide que não tem empatia com os
outros, que não os reconhecem, pessoas para as quais tem de ser tudo muito
lógico e essas pessoas funcionam muito bem na internet. E até há empresas –
ainda há pouco tempo uma empresa alemã, colocou um anúncio para recrutamento de
pessoas autistas, com vista a trabalharem na área de informática. De qualquer
forma também é verdade que os autistas porque trabalham muito bem com a
racionalidade, são também as pessoas que nos dominam. E na internet
encontram-se muitas pessoas com comportamentos autistas. A este nível
constituem comunidades muito fortes.
Acredita
mesmo que “confiar nos outros é a coisa mais estúpida que existe”?
Naquilo que podemos saber, é realmente muito pouco lógico confiar nos outros.
As pessoas andam sempre na defesa, com receio de serem “roubadas”. Mas
atualmente, como sabemos, o roubo é generalizado (risos). É estranho as pessoas
confiarem nos outros! Mas há uma questão fulcral: não podemos viver sem
confiar! Sim, é um paradoxo. Mas temos muitos na nossa vida e a nossa
inteligência também advém de os saber vencer. De facto, em termos de conhecer
as pessoas, de confiarmos nelas, temos, cada um, a nossa sensibilidade a
orientarmo-nos. E acontece de sermos apunhalados, traídos, roubados. Mesmo nos
grandes amores, por exemplo. Mas não confiar é uma maneira de ficar sozinho. É
muito ilógico, mas temos de confiar.
Porque é que “a razão e a justiça são as grandes armas do paranoico”?
Porque o paranoico acha que tem sempre razão e que mais ninguém a tem. Está
sempre a construir cenários na sua cabeça em que só ele acredita, em que só ele
procura a justiça. Um paranoico normalmente acaba sempre por se desviar da
realidade. Geralmente há um elemento de perseguição e outro de grandiosidade.
Muitos, sentem-se perseguidos pela família, pelos vizinhos, pelo presidente da
câmara, às tantas, já o presidente dos Estados Unidos os perseguem! Então, essa
pessoa deve achar-se muito importante.
“Passar a vida nos hospitais (como médico ou paciente) é sempre uma
oportunidade estupenda de constatar a falta de justiça que pesa sobre a
humanidade”? Comente, por favor.
Digamos que os hospitais são o lugar de todas as fragilidades humanas. A doença
é extremamente injusta com as pessoas. Pessoas que de repente tem um cancro ou
algo realmente grave. A vida, muitas vezes, não é justa e nos hospitais dá-se
mais conta disso. Isso é uma lição que aprendemos. Em qualquer idade pode
acontecer-nos de irmos parar ao hospital com algo de maior ou menor gravidade e
acontece de ser ali que batemos de frente com a velhice. Às vezes a velhice
pode ser muito injusta.
“Parece que os ciúmes fazem parte dos sentimentos humanos”. Parece ou fazem
mesmo?
Os crimes passionais existem! No que reporta à violência doméstica é muito
acentuado. As pessoas matam por ciúme. As questões passionais dominam a nossa
vida. Dizem que o sucesso profissional é muito importante. Mas o importante é a
relação íntima que temos com as outras pessoas. A relação interpessoal.
Isso é uma forma mais elaborada de dizer que o amor é o mais importante?
Sim! De certo modo é isso. Mas o amor no sentido de domínio e submissão. E de
ciúmes também. É muito instintivo, tem a ver com a evolução da espécie e é
muito diferente entre homens e mulheres. O homem tem ciúmes…a mulher pode
apaixonar-se por quem quiser, mas ir para a cama com outro é que não! Eles
passam a vida a fazer isso! A mulher é exatamente ao contrário. Admite que o
homem possa cair na cama de outra, agora que ele se apaixone, é que não! Tem a
ver com a proteção dos genes. A mulher sabe sempre que o filho é dela. O homem
não. Daí o instinto para disseminar os seus genes por várias mulheres. O
comportamento instintivo não mudou, mas o cultural está a mudar completamente.
Os ciúmes para proteger os genes, já não fazem sentido. Hoje, através de um
teste, sabe-se quem é o pai.
“Mas se for homem, tenho um conselho a dar-lhe: comece a beber. Dizem que o
álcool aumenta o desejo e reduz a performance sexual”. Mais uma vez a ironia,
quando fala do comportamento paranoico. Mas o que lhe quero perguntar é se o
consumo de álcool continua a ser um problema sério?
Sim. O álcool é um grande problema em Portugal. Até porque somos um país com
forte tradição no consumo de álcool e, no caso das doenças psiquiátricas, o
consumo agrava-as. Na questão que menciona, verifica-se esse paradoxo. Se por
um lado o álcool aumenta o desejo sexual, por outro afeta o desempenho. E não
podemos esquecer que o álcool afeta, também, a personalidade. Um homem de
personalidade fraca, submissa ou que seja humilhado por toda a gente, bebe e
ganha outra força, vai tudo a eito. Ele sente-se um leão, mas as pessoas
desvalorizam-no, infantilizam-no. É muito interessante ver, por exemplo, como é
que uma criança representa, desenha um alcoólico. É sempre um homem pequenino.
“Porque cada um precisa do seu teatro para ser levado à certa. Mas atenção.
Cada pessoa aprecia um teatro diferente”. O que quer dizer com isto? Que
passamos a vida a seduzir ou a representar?
As duas coisas. Temos necessidade de seduzir e, também, de representarmos. Ao
longo da nossa vida representamos vários papéis. Somos pais, mães, em casa;
trabalhadores, no emprego; amigos, no contexto social. E isto não tem nada de
desonesto. Um estudante que está numa aula e lhe apeteça dançar, não deve
fazê-lo. Eu, se quero estudar, não vou para uma discoteca. Temos de nos adaptar
a cada papel que desempenhamos. A vida não era possível sem isso. Parsons
define bem o papel e o status. No sentido de que a sociedade é constituída por
um conjunto de papéis interrelacionados. Por exemplo, há uma vaga para um
médico e quem concorre a essa vaga tem de desempenhar o papel que lhe é
proposto, tem linhas comportamentais, tem ética, tem de responder às
expectativas que o doente tem em relação a ele. Daí essa representação em
função do público que temos e dessa necessidade de o fazermos.
Isso que diz faz lembrar a terapia pelo psicodrama, que o Professor defende ser
a terapia do futuro. Porquê?
Sim, é. Nós no psicodrama usamos uma técnica fundamental, a troca de papéis.
Usamos egos auxiliares para que as pessoas se coloquem no lugar do outro e
tentem compreende-lo. No caso de uma mãe e um filho, em conflito. Colocar o
filho no lugar da mãe, irá ajudar a compreender as atitudes que originaram o
conflito. Nós para avaliarmos a realidade temos de nos pôr no lugar dos outros.
Quando dizemos que uma coisa é objetiva, não é objetiva. É intersubjetiva. Por
exemplo, vejo aqui um estranho jarro de flores, a primeira questão que me
coloco é: será que as ouras pessoas também o veem? É que pode ser uma miragem…A
capacidade de termos uma visão objetiva das coisas tem a ver com a capacidade
de nos colocarmos no lugar dos outros. É fundamental para compreendermos. É uma
operação mental que devemos fazer todos os dias na tentativa de compreender
melhor o Outro e a própria realidade. No caso de um muçulmano, por exemplo, se
nos colocarmos no seu contexto cultural, compreendemo-lo melhor.
Isso parece-me pacífico. E até a questão do jarro de flores não estar lá, onde
o vemos. Mas no caso de uma mãe e de um filho em conflito, esse confronto, no
âmbito do psicodrama, está revestido de sentimentos. Há nesse caso sentimentos
e emoções que não estão nos outros exemplos que deu…
Muito bem. Existe a empatia intelectual e a empatia afetiva, a que nós chamamos
também compaixão. Que é o cuidado com o que o outro pode sentir ou não. O
tentar compreender o que moveu o outro em determinado sentido e o levou a agir
de determinado modo. Se eu tiver uma empatia intelectual forte e uma fraca
empatia afetiva, eu domino o outro como quero. Se eu tiver uma empatia apenas
afetiva, eu sou dominado pelo outro. Se eu tiver ambas as empatias, eu consigo
respeitar mais o outro. É mais equilibrado.
E uma coisa é o muçulmano que nem sequer conhecemos pessoalmente e que queremos
compreender melhor por curiosidade antropológica, por exemplo; outra coisa são
as pessoas dos nossos afetos…
Claro! Mas o princípio de querer compreender é o mesmo. Nós trazemos o Outro
dentro da nossa mente, a nossa mente representa o mundo e todas as outras
pessoas significativas. E pode ser até uma pessoa da internet, que nem
conhecemos e nos pode ter mudado a vida (para o bem ou para o mal) e que ganhou
significado por isso. E estamos sempre a pensar o que pensa o outro das nossas
ações. Nós fazemos sempre um espetáculo para a plateia que temos dentro da
nossa mente. E o que acontece no psicodrama é que pomos os personagens da nossa
mente no palco. É isso.
Diz que o grande problema do doente mental é fazer o mesmo em todas as
circunstâncias?
Exatamente! A nossa vida é feita de adaptação onde automaticamente
desempenhamos papéis. Por exemplo, uma juíza que é juíza e durante o dia, no
exercício das suas funções está a condenar pessoas e chega a casa e tem de ser
mãe, apoiar e ser tolerante com os filhos, aí, por exemplo, existe um conflito
de papéis. Claro que as pessoas o fazem, mas o papel a desempenhar é
completamente diferente. Imagine em casa a juíza, uma mãe que desculpa tudo e
depois, no tribunal fazia o mesmo! É essa alternância de papéis que distingue e
respeita os diferentes contextos da vida.
Ter um psiquiatra ou um psicoterapeuta ainda é um luxo. Não é uma consulta
acessível a qualquer carteira?
Não é um luxo! A cirurgia e a medicina sem psiquiatria, são veterinária. Os
médicos deviam saber mais de psiquiatria; a psiquiatria devia ter mais peso
curricular. Quanto às psicoterapias, estão agora a ser testadas no seu
custo/eficácia em alternativa aos medicamentos. Mas algumas psicoterapias têm
mais a ver com o desenvolvimento pessoal. Tornam as pessoas menos vulneráveis,
mas não curam doenças. Estas psicoterapias são equivalentes à – ou vão corrigir
e – educação. Mas hoje, as nossas crianças são educadas pela televisão
“Diga que
lhe passa pela ideia rebentar com tudo, fazer mal a si mesmo ou argumento
supremo, que se vai suicidar. Nenhum médico resistirá a fazer quanto estiver ao
seu alcance para o evitar”. Esta sua provocação introduz o suicídio. A ameaça de
o cometer e as recentes notícias de que os suicídios aumentaram…
É um assunto muito complexo e delicado. Temos de saber se a pessoa ameaça mesmo
com a intenção de o fazer ou não. Temos de ser capazes de perceber, por
exemplo, até que ponto pode ser uma ameaça velada ou não. E também há muitas
tentativas de suicídio que não correspondem a uma verdadeira intenção de
morrer. Só que um dia, tantas vezes o cântaro vai à fonte, que quebra.
Cada caso é um caso. Depende muito das pessoas, da vida de cada um, dos
antecedentes de suicídio na família, se os há ou não.
Saíram agora algumas notícias sobre aumento de suicídios em Portugal. Mas o
certo é que os números deixam a desejar. Então se o suicídio for cometido num
meio religioso, não é declarado como tal. Ainda é muito complicado declarar os
suicídios. E muitas vezes não há prova concreta de o ter sido. Havendo poucos
suicídios declarados, o conhecimento de mais meia dúzia deles pode corresponder
a uma percentagem de dois dígitos.
E outras vezes, ainda, não são suicídios no âmbito de doença psiquiátrica.
Perder o emprego, perder o estatuto podem levar ao suicido pelo desespero de
não ter o que dar de comer aos filhos. Mas é natural que as conjunturas de
crise deixem pessoas à beira do abismo. Falta-lhes dinheiro e isso não se trata
com a psiquiatria, trata-se com a possibilidade de terem um emprego, por
exemplo.
O Plano Nacional para a Prevenção do Suicídio aponta mais para a formação,
prevenção, para a necessidade de campanhas de sensibilização…
Pois! Não é um plano psiquiátrico, que aponte o tratamento das pessoas com
medicamentos. É um plano informativo, de serviço social, de formação, de
medidas autárquicas, sociais, políticas. Visa ajudar as pessoas, a por exemplo,
arranjarem um novo emprego. Ora isso é para compor o cenário. A atual política
cria desemprego e depois fazem estes documentos para lhes dar alguma
tranquilidade. Que os meus colegas colaborem com isso, é lá com eles. Tem lá os
seus lugares…Eu sou um psiquiatra independente.
Estudos apontam para que em 2030 a depressão seja a maior causa de incapacidade
no mundo. De todas as patologias que aborda no seu livro, a depressão é a que
tem um dia só para ela. Há o Dia Mundial da Depressão. É porque é a mais
grave?
Não. É porque é a mais frequente e a que rende mais. Para que os laboratórios
vendam mais antidepressivos. A depressão patológica, tem um enquadramento
sintomático e quando acontece tem mesmo de ser tratada. Uma coisa semelhante à
depressão, um modelo, se quisermos, é a perda. Quando perdemos alguém ficamos
tristes. Perdemos essa relação e, muitas vezes, perdemos a relação com as
outras pessoas. Refugiamo-nos, ficamos em casa, sozinhos, apáticos e a certa
altura perdemos a própria sincronização com o sol, dormimos de dia, estamos
acordados de noite, é a chamada alteração dos ritmos circadianos. E mesmo o
adormecer muito cedo e ter um acordar precoce, também são sintomas a ter em
conta. O mesmo acontece com a perda de estatuto, de referências, de emprego. A
vida é mudança e as pessoas não lidam bem com ela, apesar de todos sabermos que
é assim, que a vida muda. Não podemos esquecer que também é verdade que quem
perde alguém, quem fica dessincronizado com tudo também se pode voltar a
apaixonar, que é quando ganha alguma coisa ou faz por a ganhar.
Mas temos de ter cuidado neste diagnóstico, porque agora toda a gente diz que
está deprimida. E isso só favorece os laboratórios.
Pelo número
de medicamentos que os portugueses compraram diariamente, nos primeiros oito
meses deste ano, em média, mais de 75 mil embalagens de antidepressivos e
afins, podemos dizer que somos muito depressivos?
Por acaso
somos um bocado. Os brasileiros lidam melhor com as contrariedades da vida, por
exemplo. Acho que os brasileiros são um bocado mais maníacos e os portugueses
mais deprimidos. É aquela coisa do fado e do destino. Tem a ver com a nossa
história, a nossa cultura e até com a nossa emigração que foi em massa e,
agora, vai pelo mesmo caminho.
Escreveu:
“Mulheres e homens é como se fossem de espécies diferentes, desde a biologia
aos instintos. Mas é impossível não fazer por se compreender mutuamente.” Tem
uma receita simples?
Isto é
politicamente incorreto. Mas depois de todos estes anos a pensar no assunto e
depois de ter acreditado, um dia, que eramos todos iguais e, depois ainda, de
ter assistido à emancipação da mulher, nos anos 60, tenho, agora a plena noção
de que somos muito diferentes, cada vez se nota mais que somos completamente
diferentes. É muito difícil uma mulher compreender um homem e vice-versa. Nos
casais é terrível. Seduzem-se. As mulheres entre si compreendem-se muito bem;
ou homens também. Mas é preciso evitar a situação de que as mulheres acham que
compreendem tão bem os homens que, depois, os acham todos iguais. E o mesmo
raciocínio é válido para os homens. De modo que não há receitas simples. Não há
nada simples na vida humana. Mas se houvesse uma regra, seria a discriminação
positiva. Na maior parte das vezes, a favor dos homens, agora. Por exemplo, nos
empregos públicos. Existem muitas instituições e repartições públicas onde
existe uma desproporção enorme entre homens e mulheres. A preocupação com a
paridade entre homens e mulheres é fundamental. Ambos têm competências e
sensibilidades diferentes, que se equilibram e complementam muito bem. Isto para
dizer, de uma forma simples, que um homem não vê nada de jeito sem uma mulher e
uma mulher não vê nada de jeito sem um homem.
A família
está em crise? E agora?
Está em
crise porque, desde a emancipação das mulheres, houve uma mudança de regras
completa e vivemos um período muito difícil onde as pessoas não sabem o que
podem fazer. E o problema não é tanto a família, são os filhos. Numa família
monoparental, por exemplo. Um filho só com uma mãe, ou só com um pai…isso é uma
situação delicada, pelo menos no que respeita a problemas psicopatológicos que
possam aparecer. De resto nós estamos permanentemente em crise porque as coisas
vão mudando, a tecnologia vai mudando. Tudo muda. Só me admira é como é que a
crise não é maior. Nos anos 60, o advento da pílula, como já referi, foi muito
importante, permitiu libertar as mulheres. Eu sou de uma geração que viveu o
antes da pílula e o depois da pílula e a mudança é completa. Dantes o problema
era engravidar, agora…Há fatores, como este, que mudaram radicalmente a noção
de família. Até o próprio evoluir da tecnologia, criou uma nova tendência de a
família ser mais os grupos de amigos do que a família natural. Não sei para
onde iremos evoluir, mas o certo é que a tecnologia evolui muito mais rápido do
que a modernidade, do que as nossas regras. O que vale é que a vida é uma
experiência permanente. E nós vamos experimentando. Haja lucidez para
recusarmos o que não queremos, o que não nos faz falta. E é preciso coragem
para não aceitar as coisas absurdas.
Escreveu:
“Outro sinal dos novos tempo é ter-se dado uma maior importância aos
sentimentos do que ao raciocínio”.
Tudo isto
tem de ser equilibrado. O sentimento também tem a ver com uma coisa que nós não
conhecemos que é a moral biológica. Isto tem a ver com a reprodução, com a
sobrevivência da espécie, do individuo. A moral biológica tem a ver com os
sentimentos. Por exemplo, uma célula para viver, não vive sozinha, está no meio
de um tecido. Há uma espécie de compromisso com o corpo, para que ela se
mantenha ali. Se ela se reproduz sem restrições, origina um cancro. A sua
vontade até seria reproduzir-se, mas existem as constrições do corpo, que não
deixam. O prazer da célula era reproduzir-se. Para dizer que há aqui um jogo
entre o prazer e o dever. Nós, de certo modo, também funcionamos assim. Temos
de arranjar um equilíbrio permanente. Entre o dever e o que nos apetece fazer,
porque nós também não sobrevivemos fora da sociedade.
E a inteligência emocional? Que importância lhe dá?
O tema vendeu muitos livros e serviu também para vender testes; os testes
de personalidade são um negócio. Mas Daniel Goldman escreveu sobre isso.
Depois, escreveu outro livro sobre a inteligência interpessoal, para mim a mais
importante. É a grande questão. As nossas emoções derivam quase todas da
relação interpessoal.
Durante estes 13 anos deu conta se o seu livro tem alguma contraindicação?
Não é para ser lido por pessoas estúpidas. Eu confio, como se escreve no
livro, nos surpreendentes desígnios da inteligência humana. De resto, é um modo
de informar, embora paradoxalmente. É isso!
Este seu livro é uma desconstrução, uma inquietação, uma provocação. Enquanto
psiquiatra, qual é a sua grande inquietação, na atualidade?
Enquanto psiquiatra faço o que posso! Enquanto ser humano estou muito preocupado
com o domínio dos economistas neoliberais. E com o perdermos a identidade das
nações e das pessoas. Acho que a busca galopante do lucro vai acabar com o
próprio sistema financeiro. Mas antes de mim, já o Marx o achava.
Tem mais
projetos editoriais?
Sim. Estou a desenvolver algumas ideias. E uma delas tem a ver com o que já
disse. A relação, o bailado que existe entre as pessoas. Uma relação é uma
sincronização com a outra pessoa. Acordar ao mesmo tempo, dormir ao mesmo
tempo, chegar a casa ao mesmo tempo, fazer as refeições ao mesmo tempo. A mesa
é um aspeto importante. Os horários das refeições conjuntas. Mas ando à volta
disto. Das pessoas sincronizadas, inclusivamente, nos pensamentos, quase que
sincronizam ondas mentais. A dança entre um homem e uma mulher é um bom exemplo
da relação, da sincronização dos ritmos que nós temos, com os outros e até com
os astros. E acho, lá está, que a depressão é uma perda dessa sincronização.
Repare: nos mamíferos o mais importante é a sincronização com a família; os
peixes não precisam. É muito importante o sentimento de pertença; o amor, no
final das contas! Por isso é que quando as pessoas se apaixonam, voltam a
procurar a sincronização, voltam a sentir-se capazes de tudo e seduzem. Às
vezes acontecem coisas estranhíssimas de sincronização entre duas pessoas.
Coisas que ainda não estão completamente estudadas.
Quando pensa ter esse livro concluído?
Para o ano, talvez…
Qual é a sua memória mais antiga?
A minha memória mais antiga sou eu ao colo da minha avó, a olhar para um sótão
e a dizer papão. Aparentemente não sabia falar. Agora, não sei se isso existiu.
Provavelmente não terá existido. Não sei. A memória também passa muito pela sua
reconstrução através das nossas palavras e narrativas.
Há alguma pergunta à qual gostasse de responder, agora, e eu não lha tenha
feito?
(pausa)
Não me perguntou se sou feliz?
É um homem feliz?
Sim. A vida trouxe-me mais do que aquilo que eu esperava dela. Apesar de tudo…
FIM