sábado, 11 de janeiro de 2014

Provérbios populares tal como os sonhos




Pode-se comparar a estrutura dos provérbios populares à estrutura dos sonhos. Ambos têm um conteúdo manifesto e outro latente. Esta é o tema do artigo de Emílio Guerra Salgueiro publicado na Revista Portuguesa de Psicanalise, nº 3 *.
Nesta linha de pensamento, o autor defende que tanto os sonhos como os provérbios, contêm os processos de “condensação (cada palavra ou imagem expande-se numa série de outras); do deslocamento (as características de uma situação ou figura essencial, são passadas para outras, como uma finalidade de ocultação); da simbolização e da ausência de estruturação em termos claros de espaço e de tempo, isto é, que são verdades para qualquer tempo e qualquer espaço."
Há outra ligação que faz, que é a semelhança encontrada entre “o efeito produzido pelos bons provérbios e o produzido pelas boas interpretações no decurso de uma psicanálise.” E acrescenta: “penso que a boa interpretação não é explicativa, metonímica, mas sim siderativa metafórica”, que remata as associações do analisando e cria novas cadeias idealmente infindáveis.

Algumas das categorias apresentadas por Emílio Guerra Salgueiro: 

AMOR ADULTERO
  • Quem ama mulher casada a vida traz emprestada.
  • Mulher de cego, para quem se enfeita?
  • Quem em tudo sua mulher contenta, cornudo depressa se apresenta.

AMOR NARCÍSICO
  • Quem bem se não quer, a ninguém quer bem.

CASTRAÇÃO
  • Ainda que estejas de mal com a mulher, não é de bom conselho cortar o aparelho.
  • Aquilo que sabe bem, ou é pecado ou faz mal.
  • Tantas vezes vai o cão ao moinho, que alguma lá lhe fica o focinho.

CIÚME
  • O ciúme sentido, acorda o cão dormido.
  • Ciúmes mal fundados e mal pedidos, mais parecem buscados que temidos.

ÉDIPO/RIVALIDADE
  • Quem tem mulher formosa, castelo na fronteira e vinha no carreiro, nunca lhe falta canseira.
  • Bela mãe e bela filha, disputas na família.
  • Companhia de três é má rez.

 ÉDIPO VINGANÇA
  • A quem matares o pai não lhe cries o filho.
  • A quem mordeu a cobra guarde-se dela.

HOSTILIDADE
  • A quem vos fala por trás, o cú que lhe responda.
  • Quem tem cú tem medo. 
  • Mulher que sempre ri, homem que sempre chora e mancebo sempre cortez,, merda para os três.

MASCULINIDADE/FEMINILIDADE
  • Entre dez homens, nove são mulheres.
  • Homem com fala de mulher, nem o diabo o quer.
  • Quem não nasceu para galo, é capá-lo.
  • Ruim é o cavalo que quando passa por égua não relincha…

MULHER FONTE DE PERIGO/RAIZ DO PECADO
  • De burra que faz – im – e de mulher que sabe latim, livra-te tu e a mim.
  • Guarda-te do boi pela frente, do burro por detrás e da mulher por todos os lados.
  • A mulher e a loba no escolher.
  • A mula e a mulher com pau se quer.
  • Um homem de palha vale uma mulher de ouro.

PAIXÃO/ PERIGO
  • Perde-se o velho por não poder, e o novo por não saber.
  • Por fugir da sertã, caiu nas brasas.
  • Quem anda no mar, não faz do vento o que quer. 

  
*A relação amorosa vista através dos ditados populares. Estudo psicanalítico



terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Edgar Morin - A poesia da vida


Legendas em português, espanhol, francês e inglês - a ser ativadas no vídeo do lado direito, após o seu início.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O nível a que me encontro

Cesare Viazzi Mountain Spirit

“As pessoas da sua vida são um bom indicador do espaço onde está a operar a nível emocional. Os semelhantes atraem-se. À medida que vai mudando, dirige-se automaticamente e é automaticamente dirigido para um tipo de pessoa diferente.”
Susan Jeffers Apesar do Medo Sinais de fogo

Esta é a época em que inevitavelmente recebemos muitas mensagens cujo conteúdo é nos orientar para que vivamos melhor 2014. Até que ponto nos queremos libertar e até que ponto nos queremos proteger?
É tempo de novas decisões?
Fiquei a pensar que apesar de ouvirmos ou lermos conselhos inspiradores, pô-los em prática poderia depender de uma maior consciência acerca do que necessita ser mantido ou corrigido. Para chegarmos a esse conhecimento, as pessoas que escolhemos livremente para fazer parte da nossa vida, são um bom indicador da realidade que criamos para nós, daquilo que somos, pelo menos nesse momento. Será uma maneira de nos vermos, saindo de nós. São como um espelho.
O nosso narcisismo, a pretensão de julgarmos que o que pensamos sobre elas, pode não ter a ver connosco - não nos afeta - , poderá ser um entrave a esta análise. 
Este quadro de interpretação foi próprio da minha juventude quando, a propósito de companhias não aprovadas por meus pais, ouvia “Diz-me com quem andas e te direi quem és.” Reagia mal, porque na vontade de me fazer gente, jamais poderia tolerar que a pessoa que eu era, ou queria ser, fosse definida pelo tipo de amigos que tinha. A verdade é que ao estarmos juntos, os nossos desejos encontravam –se. De alguma forma eramos semelhantes. 
Também com as pessoas que ainda hoje passam e com as que ficam, com aquelas que, por julgar não ter tomado qualquer decisão, nada faço para estreitar os laços, não posso ignorar que preenchem necessidades que são minhas e me dizem quem eu sou,  ou se desejar, em que fase do meu progresso me encontro.

Ideias para viver melhor 2014:

sábado, 21 de dezembro de 2013

Susan Jeffers - Apesar do Medo


Um professor extraordinário que tive ajudou-me imensamente ao ensinar-me a frase “Pela primeira vez, devias ter vergonha. Segunda vez, eu devia ter vergonha. “ 
Aplicando a esta situação, se debater alguma coisa com pessoas insensíveis às suas necessidades, elas deviam ter vergonha. Se você continuar a permitir-se ser bombardeado pelas palavras delas, você devia ter vergonha. 

Não tem de continuar a manter conversas acerca da sua decisão com aqueles que o fazem sentir-se mal consigo mesmo. Deve sim falar com pessoas que o apoiam com afirmações “Acho ótimo estares a pensar em …” ou “Acho que te sairias muito bem a…” Já percebeu a ideia. Porquê colocar-se numa posição em que se sinta mal quando é tão fácil sentir-se ótimo?”

Susan Jeffers Apesar do medo Sinais de fogo

Um bom livro de auto-ajuda

O anúncio 'Real Beauty Sketches', criado por Hugo Veiga para a marca Dove, foi eleito o Melhor de 2013 pela prestigiada revista 'Adweek', especializada no meio publicitário. O filme idealizado pelo copywriter português foi também eleito o 'Melhor do Ano' pela revista 'Time'. 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

"...um certo gosto pelo esquecimento.”

Abraham Blemaert Apollo e Diana (detalhe)

“Nem nas formas mais graves de relação depressiva, não se assiste a esta clivagem completa. Em face da total qualidade do objeto, o individuo embora não observe a boa imagem, sabe e não esquece que ela existe; e por isso retoma a relação libidinal com ele, o que mais raramente, como vimos, acontece com o borderline – a tendência é para mudar de objeto.”
António Coimbra de Matos O desespero Climepsi

O texto é a explicação sobre o individuo deprimido, desvalorizado e desvalorizante, que em situações de desacordo, embora lhe pareça que o outro esteja a ter um comportamento indesejável, ainda conserva a capacidade de o aceitar, porque guardou dentro de si a sua memória e do quanto deu de bom à relação. 
Os indivíduos com perturbação borderline de personalidade, em situações semelhantes, ou pelo simples prazer de agredir, não possuem essa memória e reserva amorosa - a capacidade de evocar imagens positivas e reconfortantes dos outros diante de situações ansiogênas (Jordão A., Ramirez V., 2010) O que o outro diz consideram verdadeiro, ou seja, acreditam no que ouvem e como nada é simbolizado e relativizado em função de todo o conhecimento supostamente adquirido sobre ele, geram-se mal entendidos, desencontros, sendo porta aberta para a espiral de violência. Este tipo de relação interpessoal é ilustrado habitualmente pela imagem de ” andar sobre casca de ovos”, a inevitabilidade do atrito. É como se um traço que é humano – o outro em nós - pudesse ser apagado completamente. 
Não confundir com ingratidão.


* O título do post é retirado do diálogo do filme O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, no momento em que a empregada pergunta a Dr. Jekyll qual a sua doença, ele responde-lhe Uma fatura na alma que me deixou um certo gosto pelo esquecimento.”

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Saudade e Nostalgia

“Saudade não é o mesmo que nostalgia. Na nostalgia vivem-se emoções de perda, tristeza, falta de ânimo, depressão. Vive-se no passado ligado ao que “já era” e lamentando o “já foi” e não pode voltar. Mas também temos a saudade, considerada como aquilo que a nossa cultura nos indica e oferece para alquimizar a nostalgia e transformar o passado, e o que já vai em recordações vivas, com um potencial dinamizador e de alegria: a alegria de um passado bem vivido que nos acrescentou riqueza ao património da cultura  das nossas vivências pessoais (“esta já ninguém me tira” diz-se quando se acabou de viver algo bom).”

Isabel Abecassis Empis* Bem-aventurados os que ousam Oficina do livro 
* Psicanalista