sábado, 8 de fevereiro de 2014

Freud sobre o luto


Raffaello Monti

“Embora eu saiba que após tamanha perda o estado agudo de luto acabará por dissipar-se, também sei que permanecemos inconsoláveis e nunca encontraremos um substituto. Seja o que for que venha a preencher a lacuna, e ainda que a preenchesse completamente, continuaria sendo, não obstante, uma outra coisa. E, na realidade, é assim que deve ser. É a única maneira de perpetuar aquele amor a que não queremos renunciar."

In carta de Sigmund Freud a Binswanger


Interpreto como uma maneira de Freud dizer que é desejável que o luto seja ultrapassado,  não através da busca de um precipitado substituto, jamais encontrado, mas pela aceitação de uma outra coisa (pessoa…interesse…), que irá permitir perpetuar a ligação a esse primeiro amor e à vida.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O Efeito Lúcifer nas Praxes?


Conferência de Philip Zimbardo (psicólogo social): Como pessoas comuns se tornam monstros... ou heróis (On the psychology of evil) . Retirada de:

Transferindo para os últimos relatos de violência nas praxes académicas, relembra-se esta frase do autor proferida na conferência: “Se se dá poder às pessoas sem supervisão é receita para o abuso”. Nestas circunstâncias, a identidade dos elementos do grupo esbate-se, a capacidade de resistência e a vontade própria enfraquecem, a crueldade que existe em todos nós emerge, sem que seja motivada por perpetuações mentais. 

ENTREVISTA com Philip Zimbardo, em:
 http://www.americanscientist.org/bookshelf/pub/philip-zimbardo

O QUE FREUD DEIXOU ESCRITO:
"O indivíduo num grupo está sujeito, através da influência deste, ao que com frequência constitui uma profunda alteração na sua actividade mental. A sua submissão à emoção torna-se extraordinariamente intensificada, enquanto que a sua capacidade intelectual é acentuadamente reduzida, com ambos os processos evidentemente dirigindo-se para uma aproximação com os outros indivíduos do grupo; e esse resultado só pode ser alcançado pela remoção daquelas inibições aos instintos que são peculiares a cada indivíduo, e pela resignação deste àquelas expressões de inclinações que são especialmente suas. Aprendemos que essas consequências, amiúde importunas, são, até certo ponto pelo menos, evitadas por uma "organização" superior do grupo, mas isto não contradiz o fato fundamental da psicologia de grupo: as duas teses relativas à intensificação das emoções e à inibição do intelecto nos grupos primitivos."

Sigmund Freud, in 'Psicologia das Massas e a Análise do Eu

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O narcisismo “estúpido”



“Segundo kerneberg, o sujeito narcísico diz: Não preciso de ter medo de ser rejeitado por não encarar o ideal de mim próprio que seria o único a tornar possível que eu fosse amado pela pessoa ideal que imagino capaz de amar-me. Essa pessoa ideal e a minha imagem ideal dessa pessoa e o meu ser real são uma pessoa só e melhor que a pessoa ideal que eu queria que me amasse, por isso já não preciso de mais ninguém. Jeremy Holmes, Narcisismo Almedina

Uma vez na vida (tomara que fosse só uma vez), confrontamo-nos com personagens que se atribuem a si próprio um valor que não têm, julgam-se melhores e mais capazes do que na realidade são. E reiteradamente insistem em exibi-lo. Quem são estas personalidades? Que características possuem?

Trata-se do narcisismo “estúpido” como lhe chama Carlos Amaral Dias*: o individuo acredita (ou quer acreditar), que não há distância, pequena que seja, entre o que é como pessoa e aquilo que gostaria de ser. Julga-se magnifico, para além das suas possibilidades, embora apresente sentimentos dramáticos de nulidade quando o outro ou a realidade não o aprovam.
Esta fusão que resulta na crença de uma autossuficiência idealizada, coloca o sujeito, segundo este autor ,“perante uma impossibilidade e uma confusão entre o eu ideal e o ideal do eu”  e incapacita-o para as relações de intimidade – o outro nunca está à altura de participar no Olimpo onde o sujeito habita. 
Não se precisa de mais ninguém e nem de tratar bem os outros - é sempre um narcisismo destrutivo.

* Costurando as linhas da patologia borderland (os estados-limite) Climepsi

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

ENTREVISTA a Daniel Sampaio



Grande Entrevista RTPData de emissão: 22 de jan.2014
Com Daniel Sampaio - Professor universitário; psiquiatra e terapeuta familiar
Entrevistador: Vitor Gonçalves. 

Na 1ª parte da entrevista aborda-se a tragédia que vitimou  6 jovens no mar da praia de Meco.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Da indiferença

foto de Richard Huschman

“Queres que fique zangado contigo, porque se me zangar contigo, isso significa que eu acho que poderias ser diferente do que és. Se estiver zangado contigo, isso significa que poderemos arranjar aquilo que está estragado”

Stephen Grosz A vida em exame. Como nos perdemos e como nos encontramos. Temas e debates

Escolhi este pequeno texto porque me parece que ele contém uma explicação para certas pessoas preferirem, ou preferirem em determinados momentos de vida, ver o outro zangado do que indiferente. 
Parece que se infringe as leis da natureza, mas paradoxalmente a agressividade também serve para manter os vínculos. 
Questiono-me contudo, porque os gestos travados, o fio cortado pelo silêncio, nunca isento de hostilidade, pode ser tão intolerável. 
Tornar-se humilde, avançar ou não avançar, tornar-se desprezível, comportar-se de modo desajustado, pensar-se no que resta fazer, são tudo formas de provocar a zanga. Por aqui seria possível encontrar uma zona, o limite das águas que permitiria o sentimento iminente da redenção.