segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Paradoxo da educação

Sala de aulas de uma universidade na Idade Média

“O ensino promove, isso sim, a diferença entre as pessoas, pelo que será possível dizer que quanto mais uma pessoa conseguir aprender com os outros mais deles será diferente.”

Miguel Ricou A ética e deontologia no exercício da psicologia Ordem dos Psicólogos




Tenho um absoluto fascínio pelos paradoxos, jogos de palavras e outros truques engenhosos da linguagem que trazem novos sentidos às ideias antigas. Este é exemplo disso - "quanto mais uma pessoa conseguir aprender com os outros mais deles será diferente.” 


Simplificando, diz-se: o ensino (formal e não formal) gera (ou deveria gerar), seres com pensamento próprio, diferenciados.
Mas, o que me parece relevante, é o pedaço de texto ”… quanto mais uma pessoa conseguir aprender com os outros…”, porque se trata de aprender com, sendo esta uma das funções da escola, aprende-se no contexto de uma relação, com o estranho, o que naturalmente envolve vontade, a necessidade em confiar, sentir-se seguro em cometer erros, continuar a ser aceite e incentivado a ir em frente.
À medida que vai progredindo na aprendizagem, o individuo autonomiza-se como ser de cultura, comprometido a implementar a pessoa que deveria ser, por ter tirado partido da relação com o outro e do seu saber.
Há muita gente por aí que tem a ilusão que  aprender com é dispensável, como se não compreendessem a importância desse laço social. Parece que acreditam que o conhecimento parte deles,  interessam-se só por parcelas, não adquirem um quadro de entendimento nem se questionam se estão no caminho certo, desvalorizando deste modo, o papel do outro e do saber acumulado pela humanidade.
Relevante, relevante, é também a disposição da sala de aulas na Idade Média, tão semelhante aos atuais espaços de aprendizagem. 


segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O Eu e o Outro Eu


Texto sobre as duas dimensões da vida psíquica do homem: a busca do prazer  e a luta pela adaptação à realidade, embora esta dicotomia não faça sentido, porque os nossos impulsos, desejos íntimos, não devem ser reprimidos  ou sublimados com vista à integração e aceitação social. O desejável, será a sua coexistência harmoniosa em nós, e para o bem de todos. É exemplo modernamente citado, o executivo que dispõe de tempo para uma outra atividade bem distinta.
Para quem não se permite a coabitação dos diferentes territórios da personalidade, a vida pode ser bem infeliz, apesar de produtiva, como foi para Tolstoi: 

 " (…)  minha afirmação é simplesmente de que a presença de desarmonia e conflito entre os dois territórios da personalidade pode não sufocar a produtividade de um indivíduo dotado; que essa desarmonia talvez possa servir de estímulo para respostas criativas - ainda que a disputa entre os dois territórios permaneça sem solução por toda uma (infeliz) vida.

A vida de Tolstoi foi uma luta sem fim entre o Homem Culpado trabalhador que buscava o prazer e o Homem Trágico criativo que buscava a auto-expressão. Finalmente o Homem Tágico predominou durante períodos suficientemente longos para que ele criasse novelas que, como todas as grandes obras de literatura, revitalizam todos aqueles que se deixam atingir por elas. As profundas reverberações dos nossos selves nucleares, à medida que participamos da obra dos grandes romancistas ou dramaturgos, intensificam nossas reacções ao mundo e com isso fazem crescer a nossa autoconsciência. As obras dos grandes romancistas e dramaturgos conferem-nos a capacidade de experimentar mais plenamente nossa existência, de participar mais profundamente do ciclo eterno de vida e morte. Mas também havia outro Tolstoi que pode ser claramente percebido a partir dos dados biográficos e de alguns dos seus escritos (menores). Esse é não somente o Tolstoi jogador, bebedor e galanteador, mas também ao contrário, o homem Tolstoi cheio de aversão às mulheres, carregado de culpas, com a necessidade de expiar, de mortificar a carne. Quando predominava o Tolstoi criador, o imenso talento de escritor era aproveitado na tarefa de lançar um vasto projecto que havia sido elaborado pelo seu vulcânico self criativo. A maior parte do panorama não-moralista do mundo contido em Guerra e Paz é certamente a manifestação máxima do Tolstoi Trágico, profundamente sintonizado com o drama da existência humana, apesar do fato de mesmo essa obra-prima conter algumas passagem e alguns capítulos que são verdadeiros sermões – manifestação do Homem Culpado. “ 
Heinz Kohut  Self e narcisismo Zahar Editores

Imagem retirada da Wikipédia

sábado, 15 de novembro de 2014

Bertrand Russell - Mensagem para o futuro



Bertand Russel dá dois conselhos para as gerações futuras baseado no que aprendeu.

O primeiro conselho é sobre aceitar o que os fatos mostram.
O segundo conselho é sobre a importância do amor acima do ódio.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

"O Estrangeiro" de Albert Camus (3)


“A passagem para O Estrangeiro, de Camus, em que o protagonista encontra o cerne da identidade apenas em si próprio (split self), não reconhecendo qualquer sentido de obrigação seja a quem for, fora dele.”

Orlindo Gouveia Pereira* A história do sedutor errante Psicologia para todos Climepsi

*Professor Emérito, doutor em Psicologia

sábado, 1 de novembro de 2014

Quando as coisas são dolorosas...


Pietro Cipriani Vénus (detalhe)
“Quando as coisas são dolorosas, vemo-las no campo das emoções e não no campo da consciência." João Redondo, psiquiatra, Coordenador da Unidade de Violência Familiar do Serviço de Psiquiatria do CHUC, em conferência, Estreito de Câmara de Lobos, 2005.

O modo como o outro nos fez sentir, embate primeiro no campo das emoções. É o cordão que nos liga à evolução das espécies, ao crepúsculo que nos tornou humanos, à força que não nos liga à infância, à necessidade de nos fazermos amar.
A dor ou o conforto põe-nos a nu, e maturidade, diplomas ou capacidade intelectual, pouco servem perante as dolorosas sensações que chegam. Do profundo poder que escorre delas, será preciso contar com um longo trabalho do pensamento e da linguagem, da consciência, para as compreender, aceitar e as tornar suportáveis.  
Dão alento aos dias, as outras, as coisas calorosas que dispensam o raciocínio.