quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O divórcio em Branca de Neve

Sobre a simbologia dos anões, em Branca de Neve:
“De facto não são homens em qualquer sentido sexual – seu modo de vida e interesse em bens materiais com exclusão do amor…” .
Bruno Bettelheim em “A Psicanálise dos Contos de Fadas”

Para os que conhecem este conto infantil, Branca de Neve protegida e cuidada pelos anões, não tinha mais preocupações de sobrevivência ao longo da vida. A vida era  monótona. Desesperadamente confortável e chata, é certo. De tal modo que Branca de Neve debatia-se entre o compromisso, o esquecimento da sua individualidade, e a vontade de ser amada e de amar um outro que a fizesse vibrar. Tinha contudo medo de arriscar, pagar um preço, perder tudo, ficar sozinha e cair nas garras da bruxa má. De facto, a Rainha aproveitou-se do inconformismo de Branca de Neve, que se deixou seduzir com uma maçã envenenada. Mas, por último, é salva pelo príncipe. Valeu a pena ter arriscado!

Muitos homens e mulheres estão no lugar de Branca de Neve, seja no campo do amor, seja no campo profissional.
Não existindo circunstâncias de vida difíceis, ou mesmo na presença delas, o que permite passar para uma outra margem? Um menor medo do desamparo. Possivelmente também, o conservar a sensibilidade e a confiança pessoal que são capazes por si. E, no amor, novamente a confiança de merecer o amor de outro.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Já não te amo, mas...


“Fosse como fosse, ela já não me amava naquele momento: já não se preocupava com o efeito a produzir sobre mim”.
Marguerite Yourcenar, O Golpe de Misericórdia

Este amor que em Sofia perdeu a capacidade de renascer, já não integra o desejo.
Sofia não confessa, mas receia que outra ocupe aquele que foi o seu lugar, o que seria uma ferida no seu narcisismo.
Todos nós somos Sofia e costumamos confundir o interesse pelo outro, com o nosso amor-próprio ferido.


domingo, 24 de outubro de 2010

A base dos sentimentos

Entrevista de Ana Gerschenfeld  a António Damásio, neurocientista, a propósito da sua mais recente obra "O Livro da Consciência"

Ana Gerschenfeld: Também inclui no seu modelo uma estrutura chamada ínsula. Ela também faz parte do córtex?

António Damásio: "...O tronco cerebral faz os seus primeiros mapas — que são muito simples —, transforma esses sinais e inicia o sentimento. Depois, envia todos esses sinais para a ínsula, onde os mapas são completados e onde existe a possibilidade de os relacionar com os objectos que inicialmente desencadearam o processo — e que podem ser visuais, auditivos, etc. Por exemplo, se você ouvir uma grande peça de Bach, desencadeia-se um processo auditivo. Esse processo auditivo vai provocar uma série de emoções e de sentimentos; as transformações ligadas às emoções e aos sentimentos vão aparecer mapeadas primeiro pelo tronco cerebral; depois, o tronco cerebral vai transferi-los para o córtex, onde se irão ligar ao iniciador de todo o processo, que foi a audição da peça musical do sr. Bach. Esta visão não exclui nenhum sistema, mas enriquece a maquinaria cerebral que fornece dados ao córtex."
 Fonte : Jornal Publico, 18 de Out de 2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O medo do ridículo

Max Weber, Burlesque, 1909

É o medo do ridículo que me interessa, a que muitos de nós somos vulneráveis, ao ponto de este tipo particular de vergonha tornar-se opressivo, limitador da espontaneidade e, no limite, da tomada de decisões importantes na vida.
Consiste num medo de ser considerado aos olhos do outro, insignificante, ter pouco valor, provocar a troça e o riso, e que nos coloquemos à mercê do seu desprezo. Seria ficarmos completamente sozinhos, acreditamos.

Por este medo não se arriscam carreiras, amores, a criação de um estilo pessoal de ser, as mudanças de vida.
Na base deste medo costuma estar a nossa exagerada necessidade de controlo sobre o ambiente, ou seja, sobre os outros e o que poderão pensar de nós. Estão também as intensas pressões ou exigências que colocamos a nós próprios. Tão intensas, que somos capazes de nos culparmos por não vivermos de acordo com os ideais por nós estabelecidos. É a vergonha por si mesmo.
Mas o que sustenta a raiz deste medo, é sobretudo a vulnerabilidade da nossa auto-estima. Enquanto a nossa auto-estima depender que o outro aprove ou confirme quem somos e o que valemos, e não adquirirmos a confiança nas nossas capacidades, teremos dificuldades em tomar o rumo da nossa vida.




terça-feira, 19 de outubro de 2010

Aparências

Colecção Berardo

"É preciso imaginar Sísifo feliz", Albert Camus

Que bom seria levarmos menos a sério certas relações. Há quem leve. Quem pareça entregar-se à cadência dos dias sem se envolver na complexidade dos sentimentos e, desconfiamos, que por um sentido oculto do mundo, conquistam por isso a harmonia que desejamos. Podem estar aqui, acreditamos, as pessoas confiantes, e as simples de espírito, mas também as introvertidas, mas sobre estas os seus silêncios resultam num enigma.

As aparências iludem. Na nossa mente, baseamo-nos nos sinais do comportamento e juntamos  sentimentos. Mas podemos estar profundamente enganados a respeito de algumas pessoas, como prova esta experiência descrita por Graham Music em Afecto e emoção, Almedina editores.

Numa sala estava um grupo de crianças de 1 ano, cujas mães se ausentaram. A reacção de algumas crianças foi a aflição, enquanto outras pareciam não dar pela sua falta. No regresso das mães à sala, estas últimas crianças não evidenciaram entusiasmo, o mesmo não tendo acontecido com o primeiro grupo.
Contudo, na ausência das mães, o nível de adrenalina e cortisol que é prejudicial ao coração e está presente em situações de stress, nos dois grupos, é idêntico. O que se passou foi  que, as crianças que revelaram um comportamento indiferente, estão desligadas dos seus sentimentos. Tendo pela sua história passada desistido de se manifestarem,  têm probabilidade em se tornarem adultos que do ponto de vista afectivo, terão mais dificuldades de criar laços amorosos e serão menos capazes de falar de si próprios. Mas, podem sofrer os efeitos da ansiedade como todos nós ou até mais.



domingo, 17 de outubro de 2010

Os ciúmes em Branca de Neve

Paula Rego, A Madrasta

As histórias de princesas fizeram parte da minha infância, e  tinham de ser contadas repetidamente com os mesmos pormenores. Ainda me lembro das emoções que sentia. Mais tarde, percebi que a má, não é sempre má e o mesmo se passava com a boazinha.
Bruno Bettelheim em  A Psicanalise dos Contos de Fadas apresenta uma análise destas histórias infantis, mas é o conto da Branca de Neve e os Sete Anões que me interessa, por simbolizar o narcisismo patológico, isto é, o medo destrutivo da Rainha, que a Branca de Neve a supere. O seu narcisismo, está na necessidade de que o espelho confirme, que seja a mais bela de todas as mulheres. Até o dia, em que o espelho não confirma que seja mais bela que a sua enteada. Por não suportar a resposta, mesmo antes que a Branca de Neve exibisse os seus dotes (de beleza), a madrasta começa a se sentir ameaçada e ordena que Branca de Neve seja morta e que lhe tragam partes do seu corpo. É um ódio destrutivo, que persegue e mata. Mas também destrói quem o sente: a madrasta é obrigada a dançar para sempre com sapatos de ferro em brasa.
Branca de Neve foi salva, mas abandonada na floresta. Onde estava o seu pai, para a proteger? Um fraco!
Aquele autor, refere que os pais narcísicos não costumam sentir este ciúme enquanto o filho é criança, como se este ainda fosse uma parte deles próprios. Os problemas surgem quando o filho cresce e luta pela autonomia.

O modo saudável de gerir o ciúme por um filho ou filha que cresce, é ilustrado por Graham Music em Afecto e Emoção pela história de uma mãe, Sian, que numa festa sente-se desconfortável pelos elogios que a sua encantadora filha de 17 anos recebe das pessoas. O modo de reagir de Sian, foi esforçar-se por nessa noite ser mais amável para com a sua filha. Mais tarde, com a ajuda de amigas, percebeu os seus sentimentos. O quanto o seu ciúme foi normal, e o modo saudável que teve em se proteger e em proteger a filha.



Léo Ferré


Bela e triste, esta canção de Léo Ferré!
Com a passagem do tempo, será que tudo termina? Não existe consolação possível? A resposta pode estar, em vivermos até ao limite as nossas paixões.