Sou muito exigente a respeito de vídeos de localidades que guardo no coração. Considero-os sempre aquém da capacidade de retratar a minha memória, mas este vídeo de Kirill Keiezhmakov, sobre Lisboa e Sesimbra, consegue-o, e vai mais além, permite-me imaginar, pela técnica que utiliza, o bom que seria se ultrapassássemos as possibilidades humanas e pudéssemos voar e submergir.
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
A Falha
Café Filosófico: Aposta Na
Coragem – O filósofo Oswaldo Giacóia Jr
Algumas das suas palavras, ao minuto 25 e 32 segundos, acerca do que eu chamo A FALHA (fraqueza estrutural) nas palavras do filósofo:
“…Quanto mais forte você é, mais corajoso e generoso você
pode ser. A marca registada da fraqueza é justamente a impossibilidade de se
doar.
Toda a avidez compulsiva e auto concentrada é sintoma de uma fraqueza estrutural. Ou seja, você em última instância deseja obsessivamente tudo para si, porque você é muito fraco. Quem é forte, quem tem uma riqueza de sentimentos de poder, pode doar-se. Quem é fraco, não. Justamente por isso, é desse sentimento de poder que nasce uma atitude de despreendimento e não uma atitude de cristalização, condensação, fechamento na perspetiva do próprio umbigo. Portanto, nos seus pequenos medos.” Oswaldo Giacóia Jr
Toda a avidez compulsiva e auto concentrada é sintoma de uma fraqueza estrutural. Ou seja, você em última instância deseja obsessivamente tudo para si, porque você é muito fraco. Quem é forte, quem tem uma riqueza de sentimentos de poder, pode doar-se. Quem é fraco, não. Justamente por isso, é desse sentimento de poder que nasce uma atitude de despreendimento e não uma atitude de cristalização, condensação, fechamento na perspetiva do próprio umbigo. Portanto, nos seus pequenos medos.”
domingo, 3 de agosto de 2014
A capacidade de diferenciar as emoções
Gerard Von Opstal Bacchanal os statyes and Cupids Riksmunseum Amsterdam
“O que é uma relação de
amizade e uma relação amorosa? Há pessoas que têm dificuldade em distinguir
isto.” António Coimbra de Matos* (psicanalista)
Fala-se de se ser capaz, ou
não, em discriminar, entre a diversidade de emoções que envolvem uma relação
de amizade, das nuances próprias que envolvem uma relação amorosa.
A importância de se ser específico: naquela
relação sentimos raiva ou vergonha? Raiva, porque na realidade, sentimos culpa?
Para melhor compreendermos de que estamos a falar, há dias
perguntava a alguém “Estás triste?”, ao que ela me respondeu: “Não. Estou
desiludida comigo”, e acrescentou: “Porque sei que podia ter feito melhor.”
É
revolucionário o quanto esta capacidade em diferenciar as emoções e as
significações pessoais, poderá ajudar-nos a lidar com os
problemas e a melhorar a vida, ou seja, a planearmos e executarmos a ação de um modo mais eficaz.. É um tipo de inteligência emocional que se desenvolve desde o nascimento, de uma
sensibilidade grosseira, para a sensibilidade descriminada na vida adulta - processo de diferenciação emocional -, mas que nem todos lá chegam a este estado de exatidão na distinção das emoções.
Continuando, não deixei de
me surpreender com Coimbra de Matos, naquela conferência, com o exemplo
que escolheu para ilustrar as dificuldades no dito processo: um homem heterossexual que só mantinha relações de amizade e de
intimidade emocional, com homens, e com as mulheres, relações desprovidas de
convívio e intimidade, mas reservando para elas, a componente sexual, e a sua vontade não conseguida, de alterar esta condição. Podemos catalogá-lo
como um individuo cindido, fragmentado, ou à luz da diferenciação emocional, um
individuo que apresenta fixidez - sensibilidade grosseira - e que (ainda) não evoluiu para um estado homogéneo,
maturo, socialmente mais ajustado e desenvolvido cognitivamente e emocionalmente - sensibilidade discriminada.
A EVOLUÇÃO nas palavras de
Coimbra de Matos:
“Nos primeiros tempos de vida extra-uterina o
bebé vive um estado de indiferenciação anímica - uma sensibilidade geral de
tipo protopática (grosseira, difusa, sincrética, não discriminativa), desenvolvendo-se na sequência, e a pouco e pouco, para a sensibilidade diacrítica
(descriminada, ou seja, consciente das diferentes subtilezas das emoções e
sentimentos).”
*Psicanalista, na conferência “Promoção da
Saúde Mental na Criança”, organizada pela CPCJ, que decorreu no Funchal no
passado dia 27.6.2014
Palavras - chave:
Diferenciação e regulação emocional
A Roda das Emoções - Texas Association of School Psychologists
A Roda das Emoções - Texas Association of School Psychologists
sexta-feira, 25 de julho de 2014
As 10 estratégias para manipular as pessoas
Mural de Martin Ron
Enviaram-me este texto por email. Julgo que muitos
de nós já o conhecem. Mas aqui fica para memória futura.
Sempre atual, sempre verdadeiro. E não diz respeito só à nossa história coletiva, ao modo como o poder político se pode comportar para connosco, mas aplica-se também, a todas as situações de manipulação inscritas na nossa história pessoal.
Sempre atual, sempre verdadeiro. E não diz respeito só à nossa história coletiva, ao modo como o poder político se pode comportar para connosco, mas aplica-se também, a todas as situações de manipulação inscritas na nossa história pessoal.
O seu verdadeiro autor é Sylvain Timsit
1. A estratégia da Distração:
O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que
consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das
mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do
dilúvio, ou inundação de contínuas distrações e de informações insignificantes.
A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir o público de
interessar-se por conhecimentos essenciais, nas áreas da ciência, economia,
psicologia, neurobiologia e cibernética. “Manter a atenção do público,
distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem
importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado…, sem nenhum tempo
para pensar; de volta à granja como os outros animais”
2. Criar problemas e depois oferecer
soluções:
Este método também é chamado “problema-reação-solução”. Cria-se um problema,
uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este
seja o mandante das medidas que se deseja aceitar. Por exemplo: deixar que se
desenvolva ou que se intensifique a violência urbana, ou se organize atentados
sangrentos a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e
políticas desfavoráveis à liberdade. Ou também: criar uma crise económica para
fazer aceitar como um mal necessário, o retrocesso dos direitos sociais e o
desmantelamento dos serviços públicos.
3. A estratégia da gradualidade:
Para fazer que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradualmente,
a conta-gotas, por anos consecutivos. Foi dessa maneira que condições
socioeconómicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as
décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade,
flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos
decentes, tantas mudanças que teriam provocado uma revolução se tivessem sido
aplicadas de uma só vez.
4. A estratégia de diferir:
Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la
como “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma
aplicação futura. É mais difícil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício
imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregue imediatamente. Depois, porque o
público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “amanhã
tudo irá melhorar” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais
tempo ao público para se habituar à ideia da mudança e aceitá-la com resignação
quando chegar o momento.
5. Dirigir-se ao público como crianças:
A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso,
argumentos, personagens e entoação particularmente infantis, muitas vezes
próximos da debilidade, como se o espetador fosse uma criança de pouca idade ou
um deficiente mental. Quanto mais se tenta enganar o espetador, mais se tende a
adotar um tom infantilizante. Porquê? “Se alguém se dirige a uma pessoa como se
ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em função da
sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou
reação também desprovida de um sentido crítico como as de uma pessoa de 12 anos
ou menos ”
6. Utilizar o aspeto emocional muito
mais do que a reflexão:
Fazer uso do aspeto emocional é uma técnica clássica para causar um
curto-circuito na análise racional e, finalmente, no sentido crítico dos
indivíduos. Por outro lado, a utilização do registo emocional permite abrir a
porta de acesso ao inconsciente para implantar ou injetar ideias, desejos,
medos e temores, compulsões ou induzir comportamentos.
7. Manter o público na ignorância e na
mediocridade:
Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos
utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às
classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma
que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores e as classes
sociais superiores seja e permaneça impossível de ser revertida por estas
classes mais baixas.
8. Estimular o público a ser complacente
com a mediocridade:
Levar o público a crer que é moda o ato de ser estúpido, vulgar e inculto.
9. Reforçar a autoculpabilidade:
Fazer com que o indivíduo acredite que somente ele é culpado da sua própria
desgraça, por causa da insuficiência da sua inteligência, suas capacidades, ou
de seus esforços. Assim, em vez de se rebelar contra o sistema económico, o
indivíduo auto desvaloriza-se e culpa-se a si próprio, o que gera um estado
depressivo, sendo um dos efeitos a inibição da sua ação. E, sem ação, não há
revolução!
10. Conhecer aos indivíduos melhor do
que eles mesmos se conhecem:
No decurso dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado uma
crescente brecha entre os conhecimentos do público e aqueles possuídos e
utilizados pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à
psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do
ser humano, tanto na sua forma física como psicologicamente. O sistema tem
conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele se conhece a si mesmo.
Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e
um grande poder sobre os indivíduos, maior que o dos indivíduos sobre si
mesmos.
terça-feira, 15 de julho de 2014
Samuel Weber: A Europa e as suas pulsões destrutivas
Entrevista de António Guerreiro a Samuel Weber
com o título A Europa e as suas pulsões destrutivas, que saiu no Jornal
Publico de 13.07.14:
A noção freudiana de “período de latência” serve ao filósofo americano
Samuel Weber para analisar a história recente da Europa e o sentido das suas
instituições, em função de categorias psicanalíticas e teológicas.
Professor
de Literatura Comparada na Nortwestern University, Samuel Weber faz parte de
uma constelação americana da “Teoria” que atravessa vários campos
disciplinares, a filosofia, a psicanálise, a teoria literária, os estudos
culturais.
A ligação deste universitário americano à filosofia europeia,
continental, fá-lo olhar para a Europa com a distância analítica de um
não-europeu que conhece muito bem a “tarefa infinita” inerente à ideia
europeia, essa ideia que lhe foi destinada pela tradição filosófica, mas que
nunca impediu que este “continente espiritual” fosse o palco e o sujeito da
violência e da barbárie cíclicas.
Autor
de uma vasta obra, onde se destacam títulos como Mass
Mediauras: Form, Technics, Media (1996), Theatricality
as Medium (2004) e Targets
of Opportunity: On the Militarization of Thinking (2005), Samuel Weber esteve em Lisboa
para participar na Summer School of the Study of Culture, uma semana de
palestras e seminários organizado pelo Lisbon Consortium, o programa de
mestrados e doutoramentos em Estudos de Cultura da Faculdade de Ciências
Humanas da Universidade Católica. O título geral da Summer School deste ano foi
“Latências: Europa 1914 -2014”. A noção de latência tornou-se importante nos
estudos culturais, sobretudo por via de um outro americano, Hans Ulrich
Gumbrecht (Professor na Stanford University, e autor deAfter 1945. Latency as Origin of the
Present), que também proferiu uma palestra. Samuel Weber é um
estudioso de Walter Benjamin, traduziu Adorno para inglês e escreveu um livro
sobre Freud. A sua crítica social e política é fortemente marcada por estas
figuras de referência.
O que é um período de latência?
Fui buscar a noção a Freud, que diz, aliás, que não a pode definir de maneira
exacta, na medida em que é algo que se torna invisível. Na teoria freudiana, a
sexualidade infantil é muito activa até mais ou menos aos seis anos. Mas em
seguida, com o complexo de Édipo, a sexualidade da criança fica num estado de
impossibilidade e durante um longo período, até à adolescência, há um recuo da
sexualidade manifesta. A energia sexual não desaparece, mas é utilizada para
outros fins que parecem não sexuais, embora estejam ligados à sexualidade. E a
sexualidade, para Freud, é sempre conflitual. Não é simplesmente a questão do
desejo, mas o desejo que está em conflito com o mesmo e com o outro.
Mas como passa da dimensão da evolução do indivíduo para a periodização histórica?
Mas como passa da dimensão da evolução do indivíduo para a periodização histórica?
A análise de Freud incide nos indivíduos, mas creio que a estrutura que ele
analisa abre para os problemas colectivos, Por exemplo, o problema do complexo
de Édipo: a certa altura ele é bloqueado pelo desenvolvimento daquilo a que
Freud chama o super-ego. E o super-ego é uma instância intra-psíquica,
individual, mas que reflecte toda a história e todo o passado da pessoa. E
portanto é o momento em que os valores colectivos tradicionais entram no quadro
do desenvolvimento individual, em que os valores e as experiências colectivos
passam pelo super-ego, que tem um duplo sentido, em Freud: o sentido da
interdição moral, mas também o sentido da emulação (“é preciso ser assim”).
Essas interdições e esses desejos são canalisados por valores colectivos e
tradicionais, específicos de uma comunidade e cultura, neste caso da Europa.
Trata-se de certos valores europeus, dominados por uma longa tradição em que os
valores cristãos são muito importantes, mas também muito contestáveis.
O período de latência de que fala começa quando?
Começa depois da Segunda Guerra Mundial. Quis-se instaurar instituições
colectivas depois da Primeira Guerra, a Liga das Nações, mas não funcionou
porque os interesses nacionais eram muito fortes e porque impuseram à Alemanha
deveres insustentáveis. A Alemanha foi considerada como a única culpada da Primeira
Guerra, e havia obrigações económicas que tornavam a função das instituições
colectivas quase impossível. Depois, a Segunda Guerra provocou uma tal
devastação que quase atingiu a sobrevivência da Europa. Na Primeira Guerra
houve cerca de 17 milhões de mortos, mas na Segunda foram 60 milhões, mais o
dobro dos deslocados, e uma destruição generalizada. Depois da Segunda Guerra
não se podia continuar a Europa entregue a esses desejos auto-destrutivos e foi
imposto um período que podemos chamar de latência, por analogia com a situação
do indivíduo, segundo a teoria de Freud. Portanto, depois da Segunda Guerra
houve a ambição de criar instituições para inibir e controlar as pulsões
destrutivas, em relação às quais podemos estabelecer um paralelo com as pulsões
sexuais do indivíduo. A ideia de um período de latência, aplicada à Europa,
parece-me interessante, dadas as pulsões destrutivas dominantes. O perigo é que
com o colapso das instituições da União Europeia destinadas a transformar as
pulsões egoístas, narcisistas, individuais, em desejos colectivos, que podemos
identificar com a União Europeia, se dê o retorno de pulsões maioritariamente
destrutivas. É preciso ver de que modo o funcionamento das instituições
esconderam as pulsões essencialmente egoístas das nações. Freud é aqui muito
útil porque ele diz que a tendência civilizadora no período de latência não
está separada do sexual, é apenas um outro modo de os impulsos narcisistas se
dissimularem. Algo semelhante pode já estar a acontecer.
Um período de latência é equivalente a um período de transição?
Sim, mas a questão é: transição para o quê? O modelo freudiano é interessante
porque não tem uma lógica progressiva, teleológica, que implica um avanço
contínuo. A transição pode ser um retorno a algo muito destrutivo, ao qual está
subjacente o narcisismo. O narcisismo individual pode ser transposto para o
narcisismo dos Estados e para o narcisismo do sistema económico, que tem como
fim a maximização do lucro, isto é, da riqueza que pode ser apropriada em termos
privados. A apropriação privada da riqueza através do mercado pode ser vista
como a expressão económica do narcisismo. A ideia que eu defendo é a de que
este modelo narcisista está muito além da Europa, remonta à concepção bíblica
de um Deus singular e exclusivo que responde assim à pergunta de Moisés:
“Eu sou aquele que sou”. Esta ideia de um Eu que é singular e universal é, ao
mesmo tempo, o modelo do narcisismo.
Trata-se, assim, de trazer o teológico para o nosso mundo
secularizado e de fazer dele uma categoria interpretativa...
As categorias teológicas são muitas vezes negligenciadas. Habitualmente, quando
as pessoas falam de economia assumem que vivem num mundo secular e que o
capitalismo, por exemplo, nada tem a ver com a teologia. Tal ideia é desmentida
num famoso texto de Walter Benjamin, O Capitalismo como Religião,
no qual ele argumenta que o capitalismo é o sucessor da religião. A minha
questão é a de que ele é de facto o sucessor da religião, mas no sentido desta
continuidade narcisista em que um Deus se torna o indivíduo apropriador de
riqueza. E apesar da mecanização e automatização generalizadas, pelos
computadores e as tecnologias, o sistema ainda está muito ligado a esse
indivíduo apropriador “humano, demasiado humano”. Por isso é que a sociedade
precisa de imagens e rostos, seja de Bill Gates ou de Warren Buffett. Cada país
conhece o rosto e o nome do seu homem mais rico, isso é muito importante para o
sistema. O sistema, esse, é sem rosto, mas é importante que haja rostos, dos
apropriadores e dos inimigos, o imigrante, o terrorista, o fundamentalista
islâmico...
E assim vamos dar à célebre oposição de Carl Schmitt entre amigo
e inimigo.
Mas os media, sobretudo os media televisivos, são também muito
importantes, pois ajudam a dar um rosto ao sem rosto, e isso permite às pessoas
pensar que vivem num mundo em que podem identificar toda e qualquer coisa com
um rosto. Quando os americanos entraram em guerra contra Saddam Hussein, no
Iraque, difundiram um baralho de cartas, cada uma delas com um rosto do governo
de Saddam.
Voltando à questão inicial: a temporalização da história
acelerou-se de tal modo que podemos perguntar se não é hoje difícil haver tempo
para os períodos de latência.
A noção de aceleração e de velocidade podem estar ligadas a essa questão do
narcisismo. Porque se o narcisismo tem a sua raiz numa concepção de identidade
que pode remontar a um Deus criador monoteológico que se nomeia como “Eu sou
aquele sou”, então isso significa que tudo se reduz ao presente e que o espaço
e o tempo estão fundamentalmente subordinados ao tempo presente. A velocidade
é, assim, um modo de tentar dominar ou superar o tempo, no sentido de uma
auto-identidade, de um “Eu sou aquele que sou”. Os desportos profissionais são
hoje concebidos como mecanismos de auto-produção narcísica. É possível e
importante pensar um conceito não narcisista do Si [self]. Nietzshe talvez o tenha tentado no seu Zaratustra.
Na sua palestra, partiu de um texto importante livro de Derrida
sobre a Europa, L’Autre Cap, onde ele desenvolve de
maneira analítica o problema da identidade. Quanto a isso, a Europa é muito
narcisista...
Isso faz parte dos seus problemas, mas também tem elementos que são o contrário
disso. Penso que é muito importante ver os problemas europeus num contexto
alargado, para que possa ser possível dizer o que é específico deles. Toda esta
onda de privatizações não está só a atacar as estruturas do Estado mas também
as estruturas sociais. A ideia de serviços públicos que não estejam submetidos
ao motivo do lucro é cada vez mais rara. Hoje, a União Europeia quase obriga a
que haja em todos os domínios competição privada. Os antigos serviços sociais
estão, um a um, a ser privatizados. E, neste aspecto, é uma área muito
importante é a das telecomunicações. Uma das grandes diferenças entre os
Estados Unidos e a Europa é o facto de nos Estados Unidos osmedia, e pensemos no mais
importante, que é a televisão, não terem a mínima obrigação em relação à esfera
pública, pelo que todo o sistema político tem de funcionar através do mercado.
O que significa que não se pode existir politicamente sem ter milhões e milhões
de dólares para comprar tempo de antena. Na Europa, há ainda a ideia de que a
televisão e a rádio são de alguma maneira, e num determinado grau, mesmo que
reduzido, públicas. Dão tempo de antena aos candidatos. Nos Estados Unidos,
isso não acontece. E a primeira coisa que se pergunta a um candidato não é
sobre o seu programa político, mas quanto dinheiro é que vai conseguir
angariar. Ao mesmo tempo, é importante perceber que isto pode dar origem a
atitudes contrárias extremamente destrutivas. Já o fascismo era um ataque à
plutocracia. O nazismo, por exemplo, não foi apenas anti-semita, foi também
anti-plutocrata. E tentou estabelecer uma equivalência entre anti-semitismo e
anti-plutocracia. Um dos seus mais poderosos elementos constitutivos era contra
a regra do dinheiro. Mas isso está hoje completamente esquecido. Em vez disso,
a historiografia concentra-se apenas no anti-semitismo e elimina todos os elementos
anti-capitalistas do nazismo. O Partido Nazi foi conscientemente buscar
elementos à crítica socialista do capitalismo. Mas depois converteram-nos numa
política narcisista, em busca do rosto do inimigo: o judeu, o estrangeiro, etc.
O nazismo afastou-se então do modelo monoteísta do
capitalismo...
Sim. O modelo monoteísta é muito importante porque diz que a única coisa que
conta é a relação de si para consigo. E Deus é o exemplo disso. Um modelo
alternativo, incompatível com o modelo monoteísta, seria aquele em que o Eu
depende verdadeiramente da experiência com os outros, com o que vem de outro
lado e está relacionado com outra coisa diferente, com a heterogeneidade. É
isso, precisamente que encontramos em Derrida, em L’autre
cap, o que tem certamente a ver com as suas origens, com a sua
experiência de francês judeu que nasceu e viveu na Argélia.
Falou de algumas diferenças entre a Europa e a América. Continua
a ser pertinente insistir nessas diferenças?
A América, em certa medida, deriva da Europa, mas de uma parte específica da
Europa, aquela que lhe transmitiu o lado protestante, puritano. A essa parte
original veio juntar-se outra, que tema ver com a eliminação brutal das
culturas indígenas. Tudo na América foi centrado numa noção essencialmente protestante
de indivíduo. O indivíduo branco como imagem de Deus. Ainda hoje, Obama fala da
“excepção” americana. A América vê-se a si própria sob a forma de uma pureza
protestante, como a imagem individual e excepcional do divino. Na Europa, a
luta entre protestantes e católicos produziu uma diferente configuração da
relação do indivíduo com o social, o que faz com que a dimensão colectiva seja
muito mais importante. Na América, a única coisa que conta é o indivíduo e tudo
o que acontece é da responsabilidade dele. Se tem sucesso, o mérito é todo
dele, mas se não tem, se perde o emprego, por exemplo, o problema é dele.
quinta-feira, 10 de julho de 2014
Robert Sutton: Sobreviver nas empresas
“Antes de diagnosticar a si
mesmo com depressão ou baixa auto-estima, primeiro tenha a certeza de que não
está, de fato, cercado por idiotas” Freud
Não posso confirmar, para
já, se esta afirmação pertence a Freud, mas é um óptimo concelho, sobretudo
porque apela para a necessidade de interpretarmos os contextos da nossa vida e os papeis dos diferentes atores, antes de nos culpabilizarmos pelo mau ambiente (no trabalho...). Identifica também, o responsável por esse ambiente - o idiota - e o efeito que tem na nossa saúde mental.
Assim, idiota é todo aquele, que de um modo persistente, intencional ou não, retira a energia e a auto-estima das pessoas, seja em que contexto for (casa, trabalho, vida social…).
Assim, idiota é todo aquele, que de um modo persistente, intencional ou não, retira a energia e a auto-estima das pessoas, seja em que contexto for (casa, trabalho, vida social…).
Para se libertar dos efeitos
destas relações abusivas, deverá ter um plano, com base em alguns
princípios básicos (para simplificar):
- Ser capaz de identificar os idiotas – são detectados pelo ataque à auto-estima e à energia vital do outro.
- A culpa do comportamento do idiota, não é sua;
- Acreditar que ficará bem, passada a tormenta.
- Mude a forma como vê a situação: evite a auto recriminação e o modo como até aqui interpretava e justificava o seu comportamento e o do outro - analise o seu pensar.
- Desenvolva uma atitude de indiferença e desapego emocional (desligar emocional): significa auto preservar-se, que poderá passar por baixar as expectativas e a não se preocupar (tanto) com as coisas.
- Tente obter pequenas vitórias: escolher batalhas com possibilidade de alcançar sucesso.
- Limite a sua exposição: irá descobrir como fazer isto. Poderá passar por evitar opinar, participar em reuniões, encontros sociais…
- Construa bolsas de segurança, apoio e sanidade mental: está ligado ao item anterior, incluí o estabelecimento de novas relações sociais e/ou profissionais, alterações nos espaços de convívio e nas rotinas…
Robert Sutton* Sobreviver nas empresas - Aprenda a lidar com um mau ambiente de trabalho. Editora Actual
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