segunda-feira, 22 de maio de 2023

A Tempestade do Destino


A Tempestade do Destino

Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direcção. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de ti. Voltas a mudar de direcção, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encalço. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Porquê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade és tu. Algo que está dentro de ti. Por isso, só te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para não deixar entrar a areia e, passo a passo, atravessá-la de uma ponta a outra. Aqui não há lugar para o sol nem para a lua; a orientação e a noção de tempo são coisas que não fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direcção ao céu. É uma tempestade de areia assim que deves imaginar.
(...) E não há maneira de escapar à violência da tempestade, a essa tempestade metafísica, simbólica. Não te iludas: por mais metafísica e simbólica que seja, rasgar-te-á a carne como mil navalhas de barba. O sangue de muita gente correrá, e o teu juntamente com ele. Um sangue vermelho, quente. Ficarás com as mãos cheias de sangue, do teu sangue e do sangue dos outros.
E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido

Haruki Murakami, in 'Kafka à Beira-Mar'
Citador

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

"Não tenha medo da dor, tenha medo de não enfrentá-la, criticá-la, usá-la.”




 “Precisamos resolver nossos monstros secretos, nossas feridas clandestinas, nossa insanidade oculta. Não podemos nunca esquecer que os sonhos, a motivação, o desejo de ser livre nos ajudam a superar esses monstros, vencê-los e utilizálos como servos da nossa inteligência. Não tenha medo da dor, tenha medo de não enfrentá-la, criticá-la, usá-la.”
 Michel Foucault

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Herberto Helder


Musica de Rodrigo Leão / Gabriel Gomes Poema de Herberto Helder (dito pelo próprio)

quinta-feira, 23 de julho de 2020

O verão chegou !


Sommarlek


A todos aqueles que anseiam por silêncio em que nada falta, que estão onde deveriam estar, senhores do seu espaço e do seu tempo. A todos os cuidadores.

sábado, 23 de maio de 2020

A evolução do individuo só é possível por meio da resolução de conflitos sucessivos


Piero  Guccione Grande Praia

“A evolução do individuo só é possível por meio da resolução de conflitos sucessivos.” 
Luis Joyce - Moniz

Um olhar mais atento permite constatar que há um mundo de gente a quem é muito difícil lidar com os conflitos, tomar decisões, como se se recusassem a escolher. 
Criam e permanecem em impasses existenciais, não evoluem, mas podem disfarçar com o agir, com a correria atrás de objetos desejáveis, que é uma estratégia de evitamento dos conflitos.
Só decidimos bem quando aceitamos que a total satisfação é impossível, quando reconhecemos que o conflito entre o que se quer e o que se pode, vai acompanhar-nos pela vida. 
Decidir é aceitar a desilusão que se pode ter tudo, é separar-se, é abrir mão de sonhos que não se ligam à nossa história pessoal e às nossas condições. É a revelação da capacidade de suportar as frustrações dos ideais, de lidar com o incerto, com a realidade que está fora da nossa mente.

segunda-feira, 16 de março de 2020

A maioria de nós está submersa


 “A maioria de nós está submersa em um transe hipnótico que remonta aos primeiros anos. Permanecemos nesse estado até que de repente despertamos, e descobrimos que nunca vivemos ou que vivemos induzidos por outros que, por sua vez, foram induzidos por outros. A ideologia é subterrânea. Tudo é como um profundo mal-entendido. Se despertamos de repente, ficamos loucos. Se despertamos pouco a pouco, nos tornamos inevitavelmente revolucionários em algumas de suas múltiplas formas, e então tentamos modificar destinos. Se não despertamos nunca, somos gente normal e não prejudicamos ninguém”.*
Pavlovsky apud Fernàndez

“…Se não despertamos nunca, somos gente normal e não prejudicamos ninguém”. Receio que assim não seja. Talvez não prejudiquem ninguém, mas nós, os que achamos que gente que não desenvolve a consciência de si no mundo, que não se tornou o que é, também não tem a capacidade de perceber o outro e de sentir o que está a sentir.
Não são seres misteriosos, são personagens opacas. Nem entram pela loucura. São entidades gelatinosas onde parece não habitar o amor, nem o ódio.

* in Ana Paula Decnop de Almeida Quando o vínculo é doença: a influência da dinâmica familiar na modalidade de aprendizagem do sujeito  Rev. Psicopedagogia 2011; 28(86): 194-200


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

domingo, 26 de janeiro de 2020

Aprender a agir


Study of a Tree Johann Scheurer

Agir de modo a aumentar sempre o número de escolhas possíveis” 

Heinz Von Foerster 1975

O passo decisivo consiste em acreditar, com a profunda necessidade humana em se iludir, que qualquer coisa que ainda não se vê, inaugura um tempo novo.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

quarta-feira, 10 de julho de 2019







Darius Laurinavicius


Start - Cabo Girão Skywalk 0:30s - Vereda do Pico Ruivo (PR1) 1:58 - Vereda dos Balcões (PR11) 2:39 - Porto Moniz Natural Swimming Pools 2:58 - Levada das 25 Fontes (PR6) 3:13 - View point near Faial (32°47'31.57"N 16°51'18.14"W) Music: Antarctic breeze - prometheus



sexta-feira, 5 de julho de 2019

A mulher como objeto


imagens publicitárias


A mulher representada anula-se como pessoa e assume o papel do objeto observado, vendido, comprado e consumido. Quando as mulheres são objetificadas são também tratadas como corpos que existem para o uso e o prazer dos outros. O corpo é despojado de individualidade e personalidade. O primeiro passo em direção da objetivação sexual é o olhar objetificador. O conceito de objectification (sobre o qual já tinham falado Catharine MacKinnon e Andrea Dworkin) foi aprofundado pela filósofa Martha Nussbaum (1999). De acordo com a mesma, as dimensões da objetificação manifestam-se através de sete características:
  1. Instrumentalização: o objeto é um instrumento usado pelos outros;
  2. Negação da autonomia: o objeto é uma entidade sem autonomia e autodeterminação;
  3. Inércia: o objeto é uma entidade que não conhece a capacidade de agir e de ser ativo;
  4. Intercambiabilidade: o objeto é intercambiável com outros objetos da mesma categoria;
  5. Violabilidade: o objeto é uma entidade não íntegra, portanto, é possível reduzi-lo em pedaços;
  6. Propriedade: o objeto pertence a alguém e pode ser vendido ou emprestado;
  7. Negação da subjetividade: o objeto é uma entidade cujas experiências e cujos sentimentos são trascuráveis.

Se as mulheres são objetos sexuais, consequentemente podem ser tratadas como tais, portanto violadas, abusadas, maltratadas. O controlo sobre o corpo da mulher e sobre a sua reprodução social continua a constituir um importante ponto não resolvido na sociedade capitalista e androcêntrica, daí a sua objetificação.

In A imagem violenta gera violência: viagem através da representação destorcida do corpo feminino na publicidade italiana. Débora Ricci


Esta comunicação da investigadora Débora Ricci, que eu considero muito interessante,  integra o livro Estudos de género. Diversidade de olhares num mundo global, coordenado por Anália Torres, Dália Costa e Maria João Cunha. O livro tem origem num conjunto selecionado de comunicações apresentadas no I Congresso Internacional promovido pelo CIEG, Centro Interdisciplinar de Estudos de Género, do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP-ULisboa) - disponível em:http://cieg.iscsp.ulisboa.pt/

Nota: as imagens foram retiradas da mesma comunicação

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Steven Pinker - Ética, Valores e Política


Debate com Michael Sandel e Steven Pinker, moderado por Gonçalo S. Matias


Debate sobre Ética, Valores e Política com os reconhecidos filósofo Michael Sandel e psicólogo Steven Pinker, no Encontro da Fundação Francisco Manuel dos Santos de 1 de Junho de 2019.

Debate na íntegra, em: https://www.youtube.com/

domingo, 19 de maio de 2019

sábado, 6 de abril de 2019

Paradoxo “Estar em baixo para chegar mais alto”


Ball of Light, Denis Smith


Não é fácil digerir o impacto que pode ter em nós em termos de emoções negativas, constatarmos que em certas circunstâncias, determinadas pessoas com algum poder político, social…ou com pretensões a tal, fingem não nos reconhecer ou dar pela nossa humilde presença.
Por muita teoria sociológica a que possamos recorrer para explicar estes fenómenos, é possível simplificar: todas estas pessoas têm em comum, a preocupação pela sua imagem e a dependência da opinião dos outros. Também têm em comum, a necessidade de manter essa imagem positiva com base nos resultados (muitas vezes fantasiados) das suas atividades ou em aptidões. É também uma forma de se libertarem do medo do ridículo que as atormenta. 
No seu livro “A arte de não amargurar a vida – Pensar Bem para Viver Melhor” (um bom livro de auto-ajuda) o psicólogo Rafael Santandreu apresenta um paradoxo que seria a solução para estes comportamentos: “para chegar mais alto é preciso saber estar em baixo e sentir-se bem”. 
O caminho é ser capaz de imaginar que é possível ser-se “menos” (como não ser em algumas situações?), ter valor e sentir-se confortável com isso. 
Para esta filosofia libertadora, também ajuda concentrar-se no que é realmente importante: a capacidade de amar e fazer coisas úteis e positivas para si e para os outros (estar em "alto"), mesmo sendo pobre, feio, ou desajustado ou.....(estar em "baixo").
Quando nos cruzarmos com pessoas que só nos conhecem quando lhes convém, talvez seja melhor pensarmos que elas não sabem o segredo: que é possível não se precisar de ser “alto”, para se sentir poderoso, e ser essencial na vida de alguém, até num encontro breve com um desconhecido.


domingo, 17 de março de 2019

Coimbra de Matos: hoje aparecem-me muitos pacientes por perturbações no trabalho


(...)
“Com 89 anos, o psicanalista António Coimbra, detecta transformações claras nos desabafos de divã dos seus doentes: “Dantes procuravam-me por dificuldades nas relações amorosas e familiares, hoje aparecem-me muitos pacientes por perturbações no trabalho. As pessoas estão em burnout, em conflito com as empresas onde trabalham, a vida profissional tornou-se má”, conta, para acrescentar que, se antigamente o alvo dessa zanga era um patrão claramente identificado, “hoje as pessoas nem sabem quem é que as oprime, são sociedades anónimas. O inimigo é anónimo, está nas nuvens”. E isso, conclui, “não lhes permite exercer ou direccionar a agressividade”.
A montante, prescreve ainda, há tarefa preventiva fundamental: “É importante que as escolas comecem desde cedo a desenvolver o pensamento crítico: que haja menos aulas clássicas e mais tempo de diálogo; que ponham os alunos a investigar e a procurar os problemas. Se for uma aula de Botânica, levem-nos para o Parque de Monsanto”, desafia. O importante é que haja toque, “contacto directo com a realidade”, porque “é na relação com as coisas, as pessoas, o mundo, que as aprendizagens se fazem”.
(...)


Natália Faria, Jornal Publico, 5 de março de 2019,  #Hashtag Portugal: “Os nossos populistas são muito estúpidos” https://www.publico.pt/


Imagem ISPA