sábado, 6 de abril de 2019

Paradoxo “Estar em baixo para chegar mais alto”


Ball of Light, Denis Smith


Não é fácil digerir o impacto que pode ter em nós em termos de emoções negativas, constatarmos que em certas circunstâncias, determinadas pessoas com algum poder político, social…ou com pretensões a tal, fingem não nos reconhecer ou dar pela nossa humilde presença.
Por muita teoria sociológica a que possamos recorrer para explicar estes fenómenos, é possível simplificar: todas estas pessoas têm em comum, a preocupação pela sua imagem e a dependência da opinião dos outros. Também têm em comum, a necessidade de manter essa imagem positiva com base nos resultados (muitas vezes fantasiados) das suas atividades ou em aptidões. É também uma forma de se libertarem do medo do ridículo que as atormenta. 
No seu livro “A arte de não amargurar a vida – Pensar Bem para Viver Melhor” (um bom livro de auto-ajuda) o psicólogo Rafael Santandreu apresenta um paradoxo que seria a solução para estes comportamentos: “para chegar mais alto é preciso saber estar em baixo e sentir-se bem”. 
O caminho é ser capaz de imaginar que é possível ser-se “menos” (como não ser em algumas situações?), ter valor e sentir-se confortável com isso. 
Para esta filosofia libertadora, também ajuda concentrar-se no que é realmente importante: a capacidade de amar e fazer coisas úteis e positivas para si e para os outros (estar em "alto"), mesmo sendo pobre, feio, ou desajustado ou.....(estar em "baixo").
Quando nos cruzarmos com pessoas que só nos conhecem quando lhes convém, talvez seja melhor pensarmos que elas não sabem o segredo: que é possível não se precisar de ser “alto”, para se sentir poderoso, e ser essencial na vida de alguém, até num encontro breve com um desconhecido.


domingo, 17 de março de 2019

Coimbra de Matos: hoje aparecem-me muitos pacientes por perturbações no trabalho


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“Com 89 anos, o psicanalista António Coimbra, detecta transformações claras nos desabafos de divã dos seus doentes: “Dantes procuravam-me por dificuldades nas relações amorosas e familiares, hoje aparecem-me muitos pacientes por perturbações no trabalho. As pessoas estão em burnout, em conflito com as empresas onde trabalham, a vida profissional tornou-se má”, conta, para acrescentar que, se antigamente o alvo dessa zanga era um patrão claramente identificado, “hoje as pessoas nem sabem quem é que as oprime, são sociedades anónimas. O inimigo é anónimo, está nas nuvens”. E isso, conclui, “não lhes permite exercer ou direccionar a agressividade”.
A montante, prescreve ainda, há tarefa preventiva fundamental: “É importante que as escolas comecem desde cedo a desenvolver o pensamento crítico: que haja menos aulas clássicas e mais tempo de diálogo; que ponham os alunos a investigar e a procurar os problemas. Se for uma aula de Botânica, levem-nos para o Parque de Monsanto”, desafia. O importante é que haja toque, “contacto directo com a realidade”, porque “é na relação com as coisas, as pessoas, o mundo, que as aprendizagens se fazem”.
(...)


Natália Faria, Jornal Publico, 5 de março de 2019,  #Hashtag Portugal: “Os nossos populistas são muito estúpidos” https://www.publico.pt/


Imagem ISPA

terça-feira, 12 de março de 2019

Drauzio Varella: "O único lugar onde as mulheres têm liberdade sexual é na cadeia”




Artigo de Margarida David Cardoso que saíu no Jornal Público a 11 de março de 2019 com o título Drauzio Varella: "O único lugar onde as mulheres têm liberdade sexual é na cadeia”

“O oncologista brasileiro veio a Lisboa falar da sua experiência de voluntariado em duas penitenciárias do estado de São Paulo. Na feminina, vê os instintos de sobrevivência de mulheres subverterem as hierarquias, o abandono por parte das famílias e uma clara desatenção com a saúde mental.
Quando Drauzio Varella entrou na Penitenciária Feminina da Capital, no estado brasileiro de São Paulo, há 13 anos, teve que esquecer quase tudo o que aprendera em 17 numa prisão masculina. Viu, em profundo contraste com o que se passa com os homens que conheceu em reclusão, o abandono das mulheres por parte das suas famílias, a violência do afastamento dos filhos, a subversão das hierarquias. E uma liberdade sexual que para o médico era completamente nova. “Estou absolutamente convencido de que o único lugar onde as mulheres têm liberdade sexual é na cadeia. Não tem outro lugar assim.”

O oncologista e imunologista, escritor e comunicador de ciência, “talvez o médico mais conhecido da América Latina”, como o apresentou o neuropediatra Nuno Lobo Antunes, esteve na sexta-feira no Seminário de Perturbações do Desenvolvimento no Feminino, em Lisboa, organizado pelo PIN – Progresso Infantil.

Falou das experiências na prisão feminina onde dá consultas, voluntárias, uma vez por semana, desde 2006, e sobre as quais escreveu o livro Prisioneiras (2017, Companhia das Letras), que encerra a sua trilogia sobre prisões, depois de Estação Carandiru (1999) e Carcereiros (2012).
Ao todo, a Penitenciária Feminina da Capital tem 2200 reclusas. “Não tendo o homem que toda a vida a oprimiu e lhe impôs regras, na cadeia a mulher pode ter um comportamento sexual completamente livre. Pode ter relação com homem, com mulher, cortar o cabelo, fazer o que ela bem entender. Ninguém critica”, afirma, em conversa com o PÚBLICO.

A porta para a discriminação e violência de género está fechada, acredita, uma vez que a maioria tem comportamentos homossexuais. São independentes da orientação sexual que algumas mulheres assumiam antes do cárcere. “A homossexualidade é muito mais abrangente, também mais subtil do que nas prisões masculinas.” E o que é para si “mais interessante é que as relações são consensuais”. Não há relação violenta, nem abuso, nem crítica


“Sem amarras machistas, vê-se a mais profunda e complexa expressão da sexualidade feminina.” Diferentes identidades e expressões de género encontram um espaço de respeito. Dinâmicas que Varella demorou a compreender. E, embora desconhecendo a origem, percebeu que a população prisional sentira necessidade de lhes dar nome: “sapatão”, apesar depreciativo em contexto de rua, é “usado com o maior respeito” na prisão, para quem assume uma expressão de género masculina, conta. A maioria identifica-se como homens trans. “São cerca de 10 a 15% da população presa. Têm o cabelo bem curtinho, com as riscas que jogador de futebol brasileiro faz, com um jeito de andar tipicamente masculino, usam um top bem apertado para esconder os seios e não se depilam.” Depois há as entendidas, as mulheres homossexuais de expressão de género feminina. As “'activas’ estabelecem as regras na relação de poder, as ‘passivas’ têm o papel complementar e as ‘relativas’ têm namorada na cadeia e recebem visitas íntimas de um companheiro homem”.
Não é a prisão que cria estas dinâmicas. “A cadeia mobiliza o repertório pessoal. Essas coisas fazem parte da sexualidade feminina”, observa. “Sou formado há cinquenta anos. Vivi rodeado de mulheres. A irmã mais velha foi uma espécie de mãe, tenho duas filhas, uma enteada, quatro netas, e toda a vida acompanhei mulheres com cancro de mama. Na cadeia entendi que eu conhecia nem 10% da variabilidade que a sexualidade feminina pode ter.”“O amor do homem acaba na porta da cadeia”
  
No primeiro dia, deu com uma diferença clara entre a cadeia masculina e a feminina. Conheceu a reclusa que liderava o pavilhão e lhe falou da exaustão que sentia por não conseguir apartar tantos desentendimentos. “Numa cadeia de homens jamais aconteceria. 

Os homens são muito ciosos da hierarquia. As mulheres, por uma necessidade de sobrevivência que vem da infância, estão acostumadas a subvertê-la.”

É a sua experiência anterior no Carandiru que lhe permite ter termo de comparação. Entrou em 1989 para estudar a prevalência e os primeiros casos de VIH na população reclusa e só saiu com o encerramento do presídio em 2002. A oficialmente designada Casa de Detenção de São Paulo, chegou a ser a maior penitenciária da América Latina, cicatrizada pelo massacre de 111 reclusos em 1992 após intervenção da Polícia Militar, na sequência de um motim. Em reacção, nasceu a rede de crime organizado do PCC - Primeiro Comando da Capital, que controla os presídios de São Paulo. O médico habituara-se a uma obediência cega ao seu sistema de leis paralelo ao direito civil, que ninguém escreveu mas todos respeitam. O líder aparece na galeria e a briga termina. Não há zonas cinzentas entre o certo e o errado. Os crimes são julgados, os mais graves punidos com a pena de morte. Só punição severa, argumenta Varella, frena instintos violentos, contém a barbárie no país que tem a terceira maior população encarcerada do mundo e um problema de sobrelotação crónico. Não há argumento para desafiar a ordem interna.
Entre as mulheres, instintos de aversão à submissão dão às relações hierárquicas uma complexidade incomparável. A emoção vale tanto como a razão.

Abandono e transtornos psiquiátricos
O contacto com reclusos, ao longo de 30 anos, colocou Drauzio Varella a olhar para a inevitabilidade de alguns percursos de vida. Especialmente entre as mulheres negras, da periferia, presas por tráfico de droga. “São as mulheres que sofrem a maior violência da sociedade. Ainda meninas têm que se virar sozinhas do jeito que der. Têm o primeiro filho aos 14 anos, deixam de estudar, aos 19 já vem o terceiro. Como as tias, as mães, vão criar os filhos sozinhas. Na periferia não há homem nas casas. O que faz uma mulher destas? Como sustenta os filhos? É lógico que vendendo droga. É o mais fácil, está ali perto de casa. Claro que depois há um dinheiro e quer comprar um sapato melhor, umas calças de marca, como todos nós.”
Esse papel nuclear na família desfaz-se quando a mulher é presa. As diferenças nas relações familiares em comparação com os homens foram as mais traumáticas que o médico encontrou. Viu mulheres formarem impressionantes filas à porta da prisão masculina nos domingos de visita. Algumas a armar pequenas barradas e chegar de véspera para passarem mais tempo com filhos, netos, namorados, maridos. “Conheci homens que estiveram uma vida presos - 30 anos é a pena máxima - e todos os domingos receberam visitas. Já a mulher que cumpre pena, é abandonada. Ninguém vai ver. O amor do homem acaba na porta da cadeia.” Das 2200 mulheres da Penitenciária Feminina da Capital, menos de 800 são visitadas. Cerca de 80 recebem visitas íntimas.
Varella conta no livro a história de uma mãe que viajava várias horas para ver o filho numa cadeia no interior do Estado e não apanhava o metro para visitar filha encarcerada na prisão central de São Paulo. “A sociedade é capaz de encarar com alguma complacência a prisão de um parente homem, mas a da mulher envergonha a família inteira”, escreveu.
Deixar os filhos é, também por isso, um martírio para muitas mães. Temem que as crianças sofram às mãos de familiares, que encarreirem o mesmo caminho do crime. “O homem quando está preso sabe que tem uma mulher cuidando dos filhos. A mulher acha que ninguém vai cuidar dos filhos como ela seria capaz.” Quando nascem na prisão ou antes da condenação, os bebés ficam com elas até por volta dos seis meses - tempo mínimo por lei, que tem sido aplicado como máximo. “Muitas mães chegam à consulta e pedem hormona para parar de lactar, porque é um sofrimento muito violento.”

Esta fonte de ansiedade e tristeza é muitas vezes o gatilho que dispara um transtorno psiquiátrico, como a depressão, ou os ataques de pânico. Ambos são mais frequentes entre as mulheres presas mas “não lhes é dada atenção nenhuma”, diz Drauzio Varella.“De vez em quando uma menina se suicida na cadeira, a população se mexe mas esquece rapidamente. Provavelmente existem ali pessoas com perturbações do desenvolvimento [como as patologias do espectro do autismo] muito graves que passam despercebidos na massa carcerária, porque o atendimento médico é muito precário.” A prisão da Capital tem um psiquiatra para 2200 mulheres. Os cuidados médicos circunscrevem-se, em geral, aos ferimentos e patologias visíveis, imediatas e essencialmente físicas. “Os médicos não gostam de trabalhar em cadeia. No Carandiru, nos dias em que eu ia, os colegas faltavam.”

Imagem: https://telepadi.folha.uol.com.br


sábado, 2 de março de 2019

TSF: programa Duplo Sentido




"O homem que explode de raiva" é um caso clínico fictício. Foi criado pelos autores para o programa Duplo Sentido, baseado na literatura científica e académica. Qualquer semelhança com a realidade é uma coincidência.
Duplo Sentido, é um programa de Mésicles Hélin e Vítor Cotovio, com a participação de Nuno Domingues, Rita Costa e Guilhermina Sousa. A sonoplastia é de Miguel Silva.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Os ecrãs impedem os jovens de desenvolver empatia. E as sociedades tornam-se "brutais"





Artigo do Jornal Publico da autoria de Alexandra Prado Coelho, publicado a 2 de Fevereiro de 2019, com o título Os ecrãs impedem os jovens de desenvolver empatia. E as sociedades tornam-se "brutais":

A resiliência constrói-se. Num ambiente de segurança, o cérebro de alguém que sofreu um trauma regenera-se “muito mais rapidamente do que imaginamos”. Mas, atenção, avisa o psiquiatra Boris Cyrulnik, uma criança que cresce a olhar para ecrãs não consegue desenvolver empatia.
A nossa capacidade de resistência à adversidade – a chamada resiliência – não está inscrita nos genes. Não nascemos com uma determinada predisposição, antes somos moldados pelo ambiente desde o útero materno e pela vida fora, e é isso que nos torna mais ou menos resilientes.
O defensor desta ideia, o neuropsiquiatra francês Boris Cyrulnik – que esteve em Portugal esta semana para fazer uma conferência na Noite das Ideias, iniciativa da Embaixada de França e do Instituto Francês, dia 31 de Janeiro, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa – sabe do que fala. Ele próprio é um exemplo de resiliência e tornou-a o tema principal das suas pesquisas e do seu trabalho de toda a vida.
Hoje com 81 anos, este sobrevivente do Holocausto tem trabalhado com pessoas, sobretudo crianças e jovens, que passaram por situações traumáticas. “A resiliência”, diz, “é uma construção constante, é um fenómeno de desenvolvimento e nós desenvolvemo-nos o tempo todo, a nível biológico, psicológico, afectivo, social.” E acrescenta, com um sorriso de garoto: “Só paramos de nos desenvolver aos 120 anos. Depois disso, é possível, mas é difícil.”
Muito do processo de regeneração de um cérebro que sofreu um trauma passa pela segurança mas também pela empatia com os outros. Ora, actualmente, com a presença constante da tecnologia nas nossas vidas, é precisamente a capacidade de criação de empatia que começa a estar em risco. E que consequências isso tem para uma sociedade?

"Uma pessoa nunca pode ser reduzida ao seu trauma"

Antes de entrarmos por aí, vamos começar por perceber o que pode afectar, positiva e negativamente, o nosso cérebro desde o início da vida. O poder dos genes, ou seja, o determinismo genético, tem o seu momento alto “no encontro do espermatozóide com o óvulo”, depois disso é o meio que começa a agir sobre o jovem feto. “Há meios que orientam [a criança] para a aquisição de factores de protecção e outros para a aquisição de factores de vulnerabilidade. Se a mãe está stressada, segrega substâncias que passam no líquido amniótico e o bebé adquire esses factores de vulnerabilidade. Se a mãe se sente segura e feliz, o bebé desenvolve-se bem e tem factores de protecção.”
A forma como, por exemplo, essas substâncias segregadas pela mãe alteram o cérebro do bebé pode ser observada em exames neurológicos. As crianças afectadas pelo stress materno “nascem com uma alteração dos dois lóbulos pré-frontais e do sistema límbico e a amígdala do cérebro reage muito fortemente”. Isto significa que “chegam ao mundo com uma alteração cognitiva pela situação de precariedade social da mãe”.
Um ambiente onde a criança se sinta protegida é, por isso, essencial. A boa notícia é que “o cérebro regenera muito rapidamente”. Mesmo um trauma profundo pode curar-se “muito mais facilmente do que imaginamos”. A consciência disso deve-se, em grande parte, ao trabalho que Cyrulnik desenvolveu. “Antes dizíamos sobre estas crianças, é genético, não vale a pena preocupar-nos com elas. E não nos ocupávamos. Hoje rodeamo-las de segurança e a resiliência regressa. Em 48 horas começam a segregar hormonas de crescimento e hormonas sexuais, sejam masculinas ou femininas. Mas se não os rodearmos de segurança passam a vida toda em sofrimento”
Boris Cyrulnik tinha sete anos quando perdeu os pais, levados pelos nazis para Auschwitz, onde morreram. Antes de ser detida, a mãe confiou o rapaz a uma família, que acabou por o entregar também aos alemães. Conseguiu escapar, escondendo-se numa sinagoga, da qual acabou por conseguir fugir, tendo trabalhado numa quinta para conseguir sobreviver até ao final da guerra. Só aos dez anos é que foi entregue a uma família que o criou.
Depois disso, as tentativas que fez para falar da sua situação depararam com um muro de indiferença. Os franceses não queriam ouvir, da boca de uma das vítimas, a história de como tinham abandonado e condenado à morte crianças judias. Num país também ele profundamente traumatizado, Boris Cyrulnik percebeu que não valia a pena insistir em contar a sua história. Mas foi também esta experiência que o fez perceber que queria ser psiquiatra.
A ideia de que uma criança, por maior que seja o trauma que sofreu, não pode ser ajudada a ultrapassá-lo é o que mais o indigna – e, trabalhando com órfãos na Roménia, vítimas de genocídio no Ruanda, ou crianças-soldado na Colômbia, foi reforçando essa convicção. “Uma pessoa nunca pode ser reduzida ao seu trauma”, costuma dizer.
Há, contudo, outros factores que devem ser tidos em conta – a diferença entre rapazes e raparigas, por exemplo, que se nota logo no desenvolvimento nos primeiros anos de vida. “As raparigas começam a falar cerca de cinco meses antes dos rapazes. Porquê, não sei. Mas é um factor de protecção, porque quando estão infelizes podem dizê-lo, podem pedir ajuda, enquanto os rapazes não sabem dizê-lo e passam à acção mais rapidamente.” Passagem à acção que vão manter como característica de comportamento ao longo da vida.
Quando chegam à adolescência, “as raparigas, que têm uma biologia mais estável, têm um avanço neuropsicológico de cerca de dois anos relativamente aos rapazes”. Não só falam melhor, como são “mais estáveis emocionalmente” e já terminaram a sua “fadiga de crescimento”.
Nas décadas seguintes, nota-se que as raparigas e as mulheres “aprendem os rituais de interacção melhor que os rapazes” e continuam a “dominar a palavra” – se isso ainda não parece ser evidente no espaço público, onde a visibilidade das mulheres continua a ser menor, Boris Cyrulnik acha que é apenas uma questão de tempo: “Há aí [nessa invisibilidade] um grande determinismo social. Mas penso que isso vai desaparecer em dez anos”.
O domínio masculino no espaço público está ligado à força física e à violência. “A violência foi um factor adaptativo em todas as culturas. Muitos sociólogos dizem que é pela violência que a sociedade se constitui. Se os homens não fossem violentos, a espécie humana teria desaparecido”.
Na sua infância e juventude, durante a II Guerra Mundial, “o trabalho era uma forma de violência, 15 horas por dia, seis dias por semana”. Recorda as vidas duríssimas dos mineiros em França ou dos operários dos estaleiros navais. “Era um trabalho de uma violência extrema, os operários tinham as costas feridas pelos pedaços de carvão que lhes caiam em cima, as mulheres tinham que os lavar para evitar as infecções e para que eles pudessem ir trabalhar no dia seguinte, senão, não haveria dinheiro nem comida.”
A força e a violência eram, portanto, essenciais e isso fazia com que os homens fossem “vistos como heróis”, sendo, por isso mesmo, “sacrificados na mina ou na guerra”. Esta violência adaptativa não faz sentido nas actuais sociedades ocidentais como a europeia, por exemplo, mas continua a fazer sentido em países em guerra. A diferença é clara: “A violência é destruição num contexto de paz mas é construção social num contexto de guerra”. Daí que no Médio Oriente “um rapaz que não é violento, é desprezado, pela mãe, a mulher, os outros rapazes”.
“No mundo actual [ocidental], o sector terciário desenvolveu-se, a escola também, as mulheres têm desempenhos iguais ou superiores aos homens e a violência já não tem valor de construção da sociedade, é apenas destruição”, explica. “Mas isso só acontece desde os anos 60 do século XX. Eu nasci em 1937, faço parte de uma geração na qual apenas 3% das crianças estudavam. Os outros iam trabalhar, com 12, 13 anos, os rapazes para a mina, as raparigas para casa, e a maternidade acontecia aos 16, 17 anos. Hoje isso é impensável.”
E, no entanto, mesmo que desadaptada ao contexto actual, a violência contínua de certa forma inscrita na nossa “memória transgeracional” – pronta a renascer assim que for necessária. “Acontece nas sociedades que se afundam, por exemplo, o Brasil, a Venezuela, que estavam numa curva ascendente e a violência era muito combatida, sobretudo pelas mulheres, porque se manifestava apenas na destruição do casal, da família, da sociedade.” Quando a crise económica faz afundar o país, “a violência reaparece e torna-se um valor adaptativo e nesse contexto um homem que não é violento é imediatamente eliminado”.
Ao longo da sua carreira, Cyrulnik viu muitas situações nas quais esses instrumentos de adaptação da espécie humana vinham ao de cima, tanto a violência como, por outro lado, a solidariedade. E percebeu que são valorizados de forma diferente conforme o contexto. No entanto, nota, a solidariedade que surge nessas circunstâncias é geralmente “de clã, de grupos com as mesmas crenças religiosas, a mesma cultura, a mesma cor de pele, o mesmo nível social”.
Quanto à violência, “nas guerras condecoramos os psicopatas quando matam um adversário, e em alturas de paz colocamo-los na prisão – eles são sempre psicopatas, é o meio que valoriza, ou não, a passagem ao acto”.
Esta presença da violência, que “atravessa todas as culturas”, ajuda a perceber também a vitimização da mulher. “Elas sofreram, foram massacradas, porque são menos dotadas para a violência”. Por outro lado, quando a situação piora e a violência se torna novamente adaptativa, “as mulheres valorizam os homens violentos e querem estabelecer laços com eles”. O que acontece hoje, em contextos de paz, é que “as mulheres, que foram de facto vítimas, e algumas ainda são, servem-se da noção de vítima para tomar o poder e legitimar a própria violência, que não é física, mas verbal”.

O bebé “precisa do cheiro” da mãe

Está também a surgir nas nossas sociedades outro fenómeno que preocupa o psicanalista: a dificuldade de desenvolver empatia, que afecta sobretudo os mais jovens. A empatia é algo que implica interacção humana, sublinha. E quando grande parte da relação com o mundo é feita não através de outros seres humanos mas sim de ecrãs de televisões, computadores ou telemóveis, é muito mais difícil aprender a empatia.
E, no entanto, esta é algo que um bebé recém-nascido adquire com uma surpreendente facilidade. “Os bebés compreendem imediatamente a menor variação da mímica facial da mãe, desde muito pequenos. Somos uns virtuosos, únicos entre as espécies vivas a lidar com a mímica facial.” Daí que seja difícil criar um robot que possa realmente substituir uma pessoa.
Mas, relativamente à tecnologia, Cyrunik não tem uma posição redutora. “Tinha um amigo com uma clínica de hemodiálise e duas ou três vezes por semana as pessoas dormiam na clínica e criavam laços com a máquina, queriam sempre a mesma porque já conhecia as reacções deles. Como na psicanálise, havia uma relação transferencial.”
Por outro lado, “quando as crianças são criadas com ecrãs, são privadas da interacção, das palavras, do piscar de olhos, dos sorrisos; com um ecrã não há rituais de interacção”. Isso faz com que “tenham um atraso no desenvolvimento da linguagem quase como uma criança autista, não sabem descodificar as interacções, se alguém lhes sorri não compreendem, não aprendem os pequenos gestos que nos permitem viver juntos, socializam mal, tornam-se impulsivos”. Um bebé, frisa Cyrulnik, “precisa do cheiro, do calor dos braços da mãe”.
Se um bebé “é isolado antes de adquirir a palavra, o que acontece até aos 21 meses, há uma atrofia dos lóbulos pré-frontais e dos anéis límbicos”. São crianças que crescem “com um cérebro moldado pelo fracasso social e cultural” e “não conseguem controlar as suas emoções”.
Por isso, a ligação que muitos jovens (e não só) estabelecem hoje com esses ecrãs omnipresentes preocupa-o. “Já há consequências. Os jovens que passam mais de três horas por dia em frente a ecrãs mexem-se menos, encontram-se menos com os outros, têm mais depressões e, sobretudo, param o desenvolvimento da empatia – a aptidão a descentrarem-se de si próprios para conseguir a representação do mundo mental dos outros”.
A ausência de empatia manifesta-se, diz Cyrulnik, na forma como muitas pessoas “não estão atentas aos outros”. “No metro de Paris, por exemplo, isso é flagrante. Estão no meio da porta e não se mexem quando os outros querem entrar ou sair. Estão centrados neles mesmos porque a escola centrou-os sobre eles mesmos, os ecrãs também e aprenderam mal os rituais de interacção”.
O exemplo do metro pode ser menor, mas Cyrulnik confirmou esta constatação noutras situações mais graves. Recorda um rapaz que, no hospital e quando uma pessoa da família acabara de morrer e os outros familiares choravam, ria a olhar para alguma coisa no telemóvel. Ou outro que assaltara uma senhora que caíra acabando por morrer em consequência de uma pancada na cabeça e que respondia apenas que “se ela tivesse largado a mala não teria morrido”.

"Sociedades brutais"

Uma sociedade com menores níveis de empatia é necessariamente mais perigosa, conclui. “Os psicopatas podem matar, roubar, violar, sem culpabilidade”. Por isso defende a necessidade de se desenvolver uma “pedagogia da empatia”, que deve começar nas escolas, para explicar que “não nos podemos permitir tudo”. Tal como é preciso perceber que “se um rapaz tem um desejo sexual não pode permitir-se tudo”, também uma rapariga que não esteja interessada nele “não pode permitir-se tudo, não pode humilhá-lo”.
Conseguirmos colocar-nos no lugar do outro – é isso a empatia e também, segundo Cyrulnik, a base da moralidade – ajuda a perceber que nem tudo é possível. “Temos, como sociedade, que ter uma maior consciência disso”. Em França, após a I Guerra Mundial havia um enorme número de órfãos e “praticamente todos conseguiram rapidamente uma família de acolhimento”. Hoje, nessa mesma França, em paz, “passam 16 meses entre o alerta de que uma criança está em risco e o momento em que vai encontrar uma família, e são 16 meses em que a criança é infeliz”. A ausência de empatia, avisa, “faz sociedades brutais”.

domingo, 20 de janeiro de 2019

O que é crescer



Antonio Canova, Hercules and Lica


“Crescer é tolerar” 
Eduardo Sá, em conferência no Funchal

Costuma-se dizer que o crescimento traz mais paciência. Mas tenho pensado ultimamente sobre o que é deveras crescer quando surpreendentemente nos começa a faltar, como nunca dantes, paciência para muita coisa.
A saturação não se sente quando chega. Brota de um modo rápido e intuitivo, é intempestiva mas nem sempre indisciplinada, porque consegue-se conviver, tolerar, esses incidentes, se tiver de ser, sem poluirmos o espaço público com os nossos produtos mentais.
Crescer não está associado a perdas de entusiasmo, da curiosidade, da abertura ao novo. Pelo contrário, descobre-se que estamos dotados de uma rara sensibilidade. Triunfam agora as emoções porque não são exageradas.
A falta de paciência deve-se à exigência de resumir a vida ao essencial, dando mais valor à existência como um todo.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Desejar viver

Gaspar David Friedrich, The stages of life


“Desejar viver só é possível quando temos fé nas pessoas. No seu amor e na função redentora que possam ter dentro de nós.” 
Eduardo Sá, Chega-te a mim e deixa-te estar