terça-feira, 12 de setembro de 2017

TERRADOIS | Você tem medo de quê?


TERRADOIS é a nova série da TV Cultura que discute as principais questões da pós-modernidade. Neste SEGUNDO episódio, o tema é o medo que assola a sociedade pós-moderna

Você tem medo do quê? De engordar? Do câncer? De ser traído? De amar? De reportagens e entrevistas que desafiam sua forma de pensar? A lista é infinita. Segundo Jorge Forbes, de um vício, transformamos o medo em virtude. Psicanalista, doutor em Teoria Psicanalítica e em Ciências, é membro da Escola Brasileira de Psicanálise e Escola Europeia de Psicanálise. Exclusivo para a Fausto, o idealizador do programa TERRADOIS da TV Cultura, também vencedor de um Jabuti, é o segundo convidado da série Tempos Líquidos. Agora, e você? Acha que chegaremos longe tendo medo de tudo? Confira!
Entrevista em texto. Uma entrevista de Eliana Castro a Jorge Forbes::

domingo, 13 de agosto de 2017

O funcionamento limite

Roger Van Weyden

“ …(as pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline) são pessoas que são capazes de organizar os pensamentos, mas são incapazes de os articular entre si.” 
Carlos Amaral Dias

Talvez não seja do senso comum saber-se que há investigadores que consideram que o Transtorno de Personalidade Borderline não é uma estrutura (como a neurose ou a psicose….), mas sim um estado da estrutura, designemos por funcionamento limite, que poderemos encontrar em qualquer estrutura (de personalidade)  ou manifestar-se num episódio em certas fases difíceis da vida em que as reservas se esgotam e o individuo descompensa.
Acho muito útil este conceito de funcionamento limite. No domínio cognitivo, o apontamento brilhante de Carlos Amaral Dias acerca do transtorno ou do modo de funcionar limite - a capacidade de criar pensamentos mas não os articular entre si. 
Para que tal fosse possível, seria preciso dialogar com os seus carrascos, pensar nos seus pensamentos, nas suas emoções, no acontecimento ausente, tolerar a frustração de uma mente povoada de dúvidas, incertezas e incongruências, e conseguir digerir a inveja.  
As pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline ou com um funcionamento limite, são conscientes das contradições que fazem parte da vida, a inteligência permite, mas evitam o conflito interior que elas geram, podendo deixar-se apoderar pela destrutividade.
Esta unidade indivisível, leva a impasses existências, incapacidade de pensar, sensação de cabeça vazia, recusa de escolher, falsidade nas atitudes, ambivalência, rigidez afetiva e mental, ao agir (evacuar a frustração em vez de elaborá-la) para não deprimir e à deslocação para o social dos problemas pessoais que provocam conflitos interrelacionais.


quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A função

Peter Blake, The Fine Art Bit, 1959 (detalhe)

“Em outras palavras todo o nosso interesse pelo mundo externo e pelas outras pessoas baseia-se essencialmente na necessidade que sentimos deles; e precisamos deles para duas finalidades. Uma delas é a finalidade óbvia de auferir satisfação tanto para as nossas necessidades de autoperservação como para as de prazer. A outra finalidade para a qual necessitamos, é para odiá-los, de forma a podermos expelir e descarregar a nossa própria maldade, com todos os seus perigos para fora de nós, e sobre eles.”
Melaine Klein e Joan Riviere Amor, Ódio e Reparação Imago Editora

Fica-se a pensar que a vida não é este preto no branco.  Por nosso orgulho pessoal consideramo-nos complexos, e somos, nas diversas formas como amamos e odiamos. 
Mas vendo bem, quando a vida é amável, não é próprio nos questionarmos sobre o papel que temos na vida de alguém. Não se ajusta. É escusado.
Embora com interrupções no fluir habitual dos dias, no fundo do coração há um sentido para continuar, que nos transcende, porque nos incita a dar o nosso melhor, ao outro, à família.
Pensamos no papel que temos na vida de alguém quando começamos a duvidar desse sentido e a suspeitar que não é partilhado. O que somos não é visto. O que o outro vê em nós, não pode ser aceite.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

O mestre - escola

Todos nós conhecemos pessoas assim – pessoas que nos atacam com a sua superioridade, as suas proibições ou os seus decretos de mestre – escola. Arranjam maneira de nos fazer sentir pequenos, ou insignificantes ou estúpidos. Quando tropeçamos com um indivíduo assim, pode ser útil termos presente que o mais provável é que ele esteja afinal a tentar desembaraçar-se dos sentimentos que alimenta em relação a si próprio, transferindo-as sobre a nossa pessoa.”
Priscilla Roth Supereu Almedina

Poderá ser útil integrar esta perspectiva sobre os que não se aceitando como são, nem com o modo como lidaram com a vida, podem fazer qualquer coisa que alivie esse sentimento doloroso.
Neste exemplo, o mestre – escola ou aquele que se apresenta “mais papista que o papa”, desfazem-se da voz interior que os acusa de não corresponderem ao ideal que gostariam de ter alcançado (um severo sentimento de culpa), e ao fazerem o outro sentir-se pequeno, estúpido ou inferior, põem-se a salvo de críticas.
A vítima, se não estiver desperta para a estratégia, tende a evidenciar o sofrimento que o mestre – escola evita sentir.
É um sofrimento que deveria ser entendido como desnecessário.


quinta-feira, 20 de julho de 2017

Paradoxo da mudança

Wim Wenders, As Asas do desejo, 1987

“O paradoxo curioso é que quando eu me aceito como sou, então eu posso mudar.”
 Carl Rogers

Recomenda-se vivamente que se reconheça esta verdade profunda. Devemos dizê-la repetidamente para desembaraçarmo-nos de certezas  antigas. Desconfiamos que assim seja, queremos mudar, mas não queremos passar pelo desconforto da mudança. 
Gostamos de pensar que talvez possamos suspender quem realmente somos, por nos acharmos perdidos, de difícil entendimento ou por autoaversão, e que poderiam ficar guardadas para nós, ou esquecidas, as imperfeições que nos parecem inúteis e censuráveis. 
Supomos que o ponto de chegada seja tal como foi imaginado, ficarmos instruídos e educados, e chagados ao mundo dos homens, podermos então, abordar as coisas e as pessoas, e sermos aceites. Minha estratégia é um vício. 
Só mudamos quando nos predispomos a ser nós mesmos, sem máscaras, quando aceitamos a nossa realidade presente e passada, que não fomos suficientemente amados, apreciados ou compreendidos, quando aceitamos as nossas fraquezas e erros. A partir daqui, inicia-se o processo sobre o que fazer com essa realidade, e consequente, a procura da "boa forma para o nosso desejo de vida e de prazer" (R. Mendes Leal), que irá irradiar tudo.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

amor tóxico




Linda música na voz de Maria Bethânia. Ele pede por fim, desculpa. São manobras de apaziguamento (identificadas por Godenzi, 1999), que não envolvem qualquer transformação – tudo volta ao mesmo. Pretende -se aprovação, unicamente.
Como falar do mistério insondável do amor? Como reconhecer o que é amor, e o que é dependência…plano poupança reforma (palavras do psicólogo Eduardo Sá)?
O oposto do amor é o amor tóxico, aquele que nos retira a energia vital. Nem se deveria chamar amor, porque não reconhece a existência do outro como um ser diferente, com necessidades, direitos e interesses próprios.
O amor tóxico lança-nos para uma condição que nos oprime, mas que se vai mantendo num turbilhão de emoções que não reconhecemos nome, a não ser o desamparo.
Quem se deixa ficar nesta situação não o faz por ser uma pessoa doente. Perde-se aos poucos a auto-estima, a lucidez. Para quem se deixa anular, a relação é também alimentada por traços de personalidade, crenças irrealistas, estilos de vinculação de infância.
Aqui fica uma lista (com uma tradução muito livre), das características do amor vs amor tóxico da autoria de Sandra Brown, que detém um Mestrado em Aconselhamento, e foi fundadora e directora de um centro de saúde mental ligado ao tratamento de distúrbios de vitimização e trauma emocional.

Amor – o desenvolvimento de cada um é a prioridade.
Amor tóxico - obsessão com o relacionamento.

Amor - espaço para crescer, expandir e o desejo que os outros o façam.
Amor tóxico – são os sentimentos de insegurança, medo, solidão, e outros, que estabelecem o vínculo.

Amor - interesses distintos; outros amigos, manter outras relações significativas.
Amor tóxico - envolvimento total; vida social limitada.

Amor - incentivo que cada um se expanda; seguro no próprio valor do amor.
Amor tóxico - preocupação com o comportamento do outro, o medo da mudança no outro.

Amor - confiança (isto é, confia-se que o parceiro se comporte de acordo com a sua natureza fundamental).
Amor tóxico - ciúme; possessividade, medo da concorrência.

Amor - compromisso, negociação ou se revendo na liderança. Resolução de problemas em conjunto.
Amor tóxico - joga-se no controle; na culpa, na manipulação passiva ou agressiva.

Amor - estimula – se a individualidade do outro.
Amor tóxico – tenta-se mudar a imagem de outro, ao próprio.

Amor – lida-se com os vários aspectos (positivos e negativos) da vida.
Amor tóxico - o relacionamento é baseado em delírio e evitar o desagradável.

Amor – o cuidado é mútuo.
Amor tóxico - expectativa de que um parceiro irá corrigir e resgatar o outro.

Amor - saudável preocupação sobre o parceiro, quando este se afasta.
Amor tóxico - fusão (viver obcecado por problemas e sentimentos que envolvem o outro).

Amor - O sexo é de livre escolha crescendo para além do cuidar e da amizade.
Amor tóxico - A pressão em torno do sexo devido à insegurança, medo e necessidade de gratificação imediata.

Amor - capacidade de apreciar estar sozinho.
Amor tóxico - incapaz de suportar a separação.

Amor - ciclo de conforto e satisfação.
Amor tóxico - ciclo de dor e desespero.

Sinais de aviso e bandeiras vermelhas de abuso narcisista: