terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Confiança em Eros e Psique

William Bouguereau L enlevement de Psyché

“Psique, que quer ver tudo e tudo saber sobre o seu amante, perderá tudo…É que o amor – Eros – tal como o pensamento Psique – não podem desabrochar senão no tempo e no espaço de confiança que se constroem entre duas pessoas que contam uma para outra.”
Nicole Jeamment O Ódio Necessário Editorial Estampa

Só numa relação de confiança (no amor, na maternidade, na amizade ou no ambiente profissional), se pode prosperar e criar algo novo.
Em vez de dizermos “Amo-te” deveríamos dizer ”Confio em ti”, o que nos obriga a confirmar se estamos a ser honestos connosco e com o outro.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Fez-se luz !

Autor: Aimishboy

“Durante uma noite inteira, tinha aspirado o cheiro íntimo de outra com que o cabelo do marido estava completamente impregnado!
Apetece-lhe, de repente, despedir aquele corpo como se despede uma criada. Apetece-lhe não ser para Tomas senão uma alma e expulsar aquele corpo para bem longe, para ele passar a comportar-se como os outros corpos femininos se comportam com os corpos masculinos! Já que o seu corpo não soube substituir todos os outros corpos para Tomas e perdeu a maior batalha da vida de Tereza, muito bem!, agora pode ir-se embora! “
Milan Kundera A Insustentável Leveza do Ser

Tereza bate com a porta. É um exemplo de momento lâmpada, de fazer-se luz no nosso espírito que estabelece o limite da nossa existência, do suportável. É a fronteira que cria a possibilidade de libertação, e em simultâneo, a possibilidade de alienação se nos deixarmos ficar, ou se mentirmos para nós próprias que a revelação não ocorreu. Tereza decidiu ir-se embora.
Seja qual for o desfecho, neste ou em outros contextos, os momento em que o nosso espírito se ilumina, são relevantes por permitirem atribuir, finalmente, um sentido ao que parecia inconciliável e disperso – o caráter do outro, o significado dos acontecimentos, as nossas necessidades.
Por vezes, os sinais sempre estiveram presentes mas não eram decifrados, porque excediam a nossa capacidade de emocionalmente os aceitarmos e porque precisamos de várias experiências para criarmos associações. É assim feita a nossa natureza. Por estas razões é inútil a autorrecriminação, o julgarmo-nos parvas (o que sugere a foto naif), por não termos reparado antes, dado importância aos sinais.
Despertar para um real onde se pode desvendar, agora, por antecipação, certos comportamentos do outro, concede o ressurgir da esperança e do cuidar de si.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Complexos de inferioridade

Diálogo do filme Os Marretas "Talvez não precises que o mundo todo te adore, sabes?"

A necessidade de provas constantes que o outro (mesmo com pouco significado para nós), nos aprove, ou a insatisfação com a pessoa que somos, faz com que a frase de Satre passe a ser “O inferno somos nós”:

"Certas pessoas, por exemplo, sentem-se facilmente desoladas devido à falta de apreço, demonstrada inclusive por indivíduos que pouco significam para elas; o motivo é que, em suas mentes inconscientes, sentem-se indignas de atenção de seus semelhantes, e uma reacção fria confirma sua suspeita a respeito dessa indignidade. Outras acham-se pouco satisfeitas consigo mesmas (não em termos objectivos) das mais variadas maneiras, por exemplo, no que concerne à sua aparência, ao seu trabalho, ou às suas habilidades em geral. Algumas dessas manifestações são bem comumente, reconhecidas e foram popularmente designadas de “complexos de inferioridade”.
   As descobertas psicanalíticas revelam que sentimentos dessa natureza acham-se mais profundamente enraizados do que se costuma supor e estão associados a um sentimento inconsciente de culpa. O motivo por que algumas pessoas experimentam necessidade tão intensa de elogio e aprovação públicos, reside na necessidade que sentem de provas de que são amáveis, dignas de amor. Tal sentimento provém do temor inconsciente de serem incapazes de amar outras pessoas de maneira suficiente ou verdadeira, e particularmente de não serem capazes de dominar impulsos agressivos para com outros: temem constituir um perigo para o ser amado. " Melaine Klein

Melaine Klein e Joan Riviere Amor, Ódio e Reparação Imago editora

O artigo de Amanda L. Chan “We feel hurt even when strangers ignore us”, refere estudo, aqui.





quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Coquetterrie


Jack Vettriano The Look of Love 2010

"O que é a coquetterrie? Pode talvez dizer-se que é um comportamento que deve sugerir que a aproximação sexual é possível, sem que essa eventualidade possa ser tida como certa. Ou, por outras palavras, a coquetterie é uma promessa de coito, mas uma promessa sem garantias."
Milan kundera A Insustentável Leveza do Ser D. Quixote

Como uma brisa fresca que quebra a banalidade dos encontros – a coquetterie.
A insinuação, ao propor castigo e perdão, torna-se num ápice, excitante.
Se não resvalar para uma investida à autoestima do outro, mantém esta ambiguidade benéfica que transforma em graça um extraordinário momento de humor, desejo e afinidade espiritual.
Saber brincar a este nível, deveria ser entendido como um bom prenúncio da capacidade de amar.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O ódio ao amor

Alen Jones Chair 1969

“O ódio existia já na fase de domínio, mas ele era contornado, mascarado pelo perverso, de modo a manter esta relação congelada. Tudo o que existia já de uma maneira subterrânea aparece doravante às claras. O domínio de demolição torna-se sistemático.
Não se trata aqui de amor que se transformou em ódio como há tendência para crer, mas de inveja que se transforma em ódio. Não é também aquela alternância amor-ódio a que Lacan chamava” hainamoration”, porquanto, por parte do perverso, não houve jamais amor no sentido real do termo. Podemos mesmo, seguindo Maurice Hurni e Giovanna sotll, falar de ódio ao amor para descrever a relação perversa.”
Marie – France Hirigoyen Assédio Coação e Violência no Quotidiano Pergaminho

Este texto é interessante para ilustrar aquelas relações de casal, que ainda juntos ou em fase de rutura, a intenção de frustrar o outro são agora evidentes, e feitas em permanência.
O nosso lado mais insensato poderá até julgar que este comportamento se deve ao amor que se transformou em ódio, devido à rejeição, ou ao desgaste do tempo. Mas não, se houve falta respeito pelo outro, o ódio nas suas diversas manifestações, sempre esteve presente. Transformou-se nesta fase, em inveja pelo que o outro "tem a mais e que o perverso quereria apropriar-se, depois é um ódio inconfessado, que tem a ver com a frustração de não poder obter (dele/a) tanto quanto desejaria.”
Desconhecem-se os limites e arrisca-se cada vez mais.
A vontade da vítima desejar e lutar por uma vida nova, ou seja, libertar-se do domínio, também contribui para intensificar os comportamentos de violência.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Paradoxo do Amor

João Dixo Tintas do Coração 2003
 
A simplicidade do amor
“É errado pensar que o amor vem do companheirismo de longo tempo ou do cortejo perseverante. O amor é filho da afinidade espiritual e a menos que esta afinidade seja criada em um instante, ela não será criada em anos, ou mesmo em gerações."
Khalil Gibran
E a sua complexidade
“O amor pode tornar-se então qualquer coisa de mais complexo e de mais generoso: complexo porque implica um reconhecimento de mais aspetos da personalidade, incluindo os que possam ser incómodos ou desagradáveis; generoso porque implica um reconhecimento de outra pessoa por direito próprio e uma preocupação a seu respeito.”
Nicola Abel-Hirsch Eros Almedina

A importância das ligações afetivas

























John Cacioppo neurocientista - Universidade de Chicago

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Cardos sobre a inocência

Gustavo Fernandes Cardos 2006

“Sentir e desfrutar da humilhação do outro é o excitante e resolutivo prazer da personalidade sádica, o seu orgasmo”
António Coimbra de Matos Relação de Qualidade: Penso em Ti Climepsi Editores

Seja o ataque direto ou subtil, revela o não assumir o seu próprio sofrimento como responsabilidade sua.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Dependentes do amor


Jean Arp Head and Shell

“De todos os tipos o mais importante representam-no os “love addicts”, “adictos do amor” – pessoas para as quais a afeição ou a confirmação que recebem dos objetos externos desempenha o mesmo papel que o alimento no caso dos adictos da comida. Não conseguem retribuir amor, mas têm necessidade absoluta de um objeto pelo qual se sintam amados, apenas, porém como instrumento com que obter gratificação oral condensada. Estes “adictos do amor” constituem percentagem elevada das pessoas “hipersexuais” que já descrevemos, candidatos frequentes a distúrbios maníacos – depressivos posteriores”.
Otto Fenichel Teoria Psicanalítica das Neuroses Ed. Atheneu

Otto Fenichel era psicanalista. Nasceu a 2 dezembro 1897, em Viena, e faleceu em 22 de janeiro de 1946, em Los Angeles

Paradoxo - Quem muito se protege, perde-se

Peter Blake, Illustrations to through the looking-glass

“Não pertencemos a nós próprias. Não somos pessoas, somos coisas. Ocupamos o primeiro lugar no seu amor-próprio, o ultimo na sua estima. “
Alexandre Dumas A Dama das Camélias

Instrumentalizados…pouco importa o que queremos ou o que sentimos. Utilizados em função das necessidades pessoais de quem assim procede. Manipulados, seduzidos ou explorados de um modo parasitário.
Se julgamos que se podem construir carreiras e vidas de êxito onde não há hesitações, só atropelos, para quem assim se constrói, na falta de sensibilidade empática, o outro é uma abstração, não encontrado em si mesmo.
Não se confia que é no interior das trocas emocionais que se pode inventar, descobrir-se e descobrir um outro, que mesmo nas suas imperfeições, tem qualidades que o podem enriquecer de um modo absolutamente original.
Este egocentrismo gera o vazio, fruto de todas as violências, a começar por ser destruidora de si próprio – quem muito se protege, perde-se.



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Como se eu fosse uma ideia !

Paolo Veronese, Unfaithfulness (detalhe)

“Como se fosse a ideia de algum homem! Como se eu existisse por um homem ter de mim uma ideia”. D.H. Lawrence , The Rainbow

Para quem conserva o direito de estar no coração do outro por aquilo que é, e rejeita ser tratada por aquilo que representa ou que ele imagina que se seja.
Para quem não se separa dos seus anseios e não se permite esconder de si própria.