quarta-feira, 31 de julho de 2013


TV Glogo - Saia Justa - Narcisismo é fruto de uma autoestima baixa?
 
O filósofo Luiz Felipe Pondé, faz uma análise sobre o comportamento de uma pessoa narcisista e cita as diversas dificuldades encontradas ao se relacionar com uma. Também aborda o recurso às redes sociais.
ACEDER em: Luiz Felipe Pondé - Narcisismo

As suas palavras:

"O narcisista é voltado para si mesmo. Mas não porque ele se acha lindo, justamente porque ele se acha feio, demais. Ele é voltado para si mesmo, justamente porque ele não é minimamente autossuficiente. Ninguém é plenamente autossuficiente. Mas o narcísico não é, de forma nenhuma. Então, por isso ele é voltado para si mesmo no sentido que ele faz o mundo trabalhar para ele. Ele está o tempo inteiro querendo que o mundo o sustente, o ratifique. Diga que ele é o máximo. Diga que o que ele pensa é lindo. Que tudo vai dar certo o tempo todo.
Então, quando eu falo que a gente está vivendo numa época narcisista, é fácil ver, tudo o mundo se ofende se você discorda dele. Por exemplo, eu sou aceite se as pessoas falam coisas boas de mim. Qualquer crítica, qualquer distanciamento do que eu penso, eu considero uma ofensa.
As redes sociais, elas são uma ferramenta grande de narcisismo. A tendência é você ter uma sociedade onde as pessoas querem parecer jovens o tempo inteiro. Querem fingir que são jovens. Querem fingir que estão sempre alegres quando na realidade estão frustradas. Pesquisas sobre o uso de redes sociai, mostram que as pessoas acima de 30 anos, tendem a ter mais vida na rede social do que na vida real. Se você está com mais de 30, você sabe que não é tão bonito, tão inteligente. Já está começando a suspeitar que talvez não ganhe tanto dinheiro. A vida profissional já está mostrando os dentes. Quer dizer que então, as feridas narcísicas aparecem. O resultado é que você vai ficando cada vez mais dependente de uma vida virtual, irreal.
Para você se relacionar com o outro, você precisa ter substancia, precisa ter autoestima. Então, a relação com o outro para o narcísico, é um inferno. Porque o outro trás justamente aquela variável da contingência, que você não controla, e o narcísico se dá mal com a contingência. Pelo contrário, precisa de um mundo muito arrumadinho, pequenininho, contido. E, o narcísico não consegue lidar com os outros. A única forma (que consegue) para lidar com os outros, é uma forma na qual, o outro está aí para te servir."

 

sábado, 27 de julho de 2013

A ilusão e o real


Dali, Girl standing at the window 1925

“Uma margem de ilusão resta sempre para toda a vida em todos nós – e é o que nos permite o poder criativo e tempera os momentos de tristeza. Sem ela seríamos autómatos, robôs, máquinas pensantes, ficaríamos reduzidos a um pensamento operacional. Mas é igualmente necessário que o processo de desilusão nos conduza a uma razoável aceitação da realidade tal como ela é; de contrário, a frustração será sempre excessiva, traumática, patogénica – direi incontrolável e insuportável.
A aceitação da realidade é uma tarefa humana jamais acabada; mas que está na mira do comportamento lógico, adaptado, e do conhecimento científico."
António Coimbra de Matos O desespero Climepsi
Nostálgicos de um mundo sem tensões internas, sem conflitos com o outro, entregamo-nos à ilusão que a realidade, apesar de nos consumir, termina aqui, sem razão para a modificarmos.

Julgamos não saber como enfrentar o real, lidar com o incerto. Mas seria preciso nos entregarmos à desilusão, ao não distorcer os fatos, aceitando-os, e ajustando o conceito que temos de nós, a essa realidade, que a mesma se tornaria suportável, porque transformada para melhor.

Ligar os sonhos à realidade

retirado de: http://ccare.stanford.edu/ ( Center for Compassion and Altruism Research and Education)


sexta-feira, 19 de julho de 2013

A comunicação perversa



Embora sempre tenha estado na minha intenção abordar este tema, não o pretendia fazer para já, mas a manchete do Jornal de Notícias da passada 4ª feira, criou um bom pretexto para o compor.
A mensagem ofensiva, que faz referência à recém empossada ministra das finanças, Maria Luís Albuquerque, e à sua participou na 1ª reunião dos ministros das finanças da Zona Euro “Ministra foi mostrar o buraco”, justifica a criação do post e cumpre  com as condições da comunicação perversa.

A COMUNICAÇÃO PERVERSA

Recusa da comunicação direta
Havendo pouca comunicação verbal por parte do perverso, dizer o que realmente pretende dizer, não é sua qualidade; Nada é nomeado, tudo é subentendido, alimentando a confusão; A comunicação faz-se apenas por observações, comentários vagos, abstratos, trocadilhos ou pequenos toques (verbais), desestabilizadores;
Pode ofender o outro com base numa característica que lhe é própria e imutável: porque é mulher, porque é oriunda desta terra ou daquela, porque tem esta ou aquela profissão...
Quanto à recusa do diálogo, esta é uma maneira de dizer que o outro não interessa, até nem existe; Numa fase tardia da relação, na fase de destruição do outro, a comunicação pode ser direta e clara, mantendo-se sempre a intenção de o agredir e humilhar.

Deformar a linguagem
As palavras têm duplo sentido, oculto, e não têm para o perverso qualquer importância. Só a ofensa, interessa. 
Muitas das vezes, de início, utiliza a técnica da sedução, dá a entender à vítima que é compreendida, confortada, e mais tarde, em outra ocasião, desacredita-a e desqualifica-a, pretendendo que ela se responsabilize pela falha apontada pelo perverso.
É habitual as mensagens exprimirem-se com uma tonalidade fria, em contraste com a violência que está escondida.
Com esta manipulação verbal, pretende-se que a vítima não se aperceba do processo perverso em curso.

Mentir
O perverso pode ater-se a pormenores, fingindo não estar a entender o cerne da questão. A verdade ou mentira, pouco interessa para ele, o que importa, é defender a sua necessidade. Como se demonstra no seguinte exemplo:
“…”..à sua mulher que o censura por ter ido oito dias para o campo com uma rapariga, o marido responde: “Tu é que és mentirosa, por um lado não eram oito dias mas nove, e por outro, não se trata de uma rapariga, mas sim de uma mulher.”

Manejar o sarcasmo, o escárnio, o desprezo
“... este desprezo e esta zombaria, dirigem-se muito particularmente contra as mulheres. Nos casos dos perversos sexuais, há uma denegação do sexo da mulher. Os perversos narcísicos, esses negam a mulher toda enquanto individuo. Eles têm prazer em todas as pilhérias que põem a mulher a ridículo.
(…)
…para ter a cabeça fora de água , o perverso tem necessidade de afundar o outro. Para tanto, ele procede por pequenos toques desestabilizadores, de preferência em público, a partir de uma coisa anódina, por vezes íntima, descrita com exagero, tomando às vezes um aliado na assembleia.” Na presença da vítima quando esta está só com ele, o perverso pode ofendê-la através de uma mensagem clara, inequívoca, mais tarde, na presença de outras pessoas, diz algo que não é mais do que um modo diferente de dizer o mesmo, mas agora com um duplo sentido, o que permite enviar uma mensagem à vítima e outra às testemunhas, que a interpretam com diferentes significados. 

Usar o paradoxo
“O discurso paradoxal é composto de uma mensagem explícita e de um subentendido, cuja existência o agressor nega.”
“O paradoxo vem, a maior parte das vezes, da falta de correspondência entre as palavras que são ditas e o tom em que essas palavras são proferidas.“ Esta falta de correspondência gera diferentes interpretações por parte das testemunhas que assistiram à situação, o que deixa frequentemente a vítima sem suporte.
“Estas técnicas de destabilização, se elas podem ser utilizadas por toda a gente, são-no de maneira sistemática pelo perverso, sem qualquer compensação ou pretexto.”

Elaborado com base na minha experiência pessoal, claro, e em:
Marie – France Hirigoyen Assédio, Coação e Violência no Quotidiano Pergaminho

terça-feira, 9 de julho de 2013

Os dissociados







de David Parkins.com

Uma anedota contada por um dirigente dos Tories (partido conservador), é significativa. Fomos a um beberete em casa de amigos comuns. Ela (Margaret Thatcher) perguntou à anfitriã pela filha que ainda frequentava a escola, mas tinha arranjado um emprego sazonal para as férias de verão, na Marks & Spencer.
Margaret Thatcher: "Vê. E dizem que não há trabalho. É evidente que há."
Na realidade o presidente da Marks & Spencer, Marcus Sieff, era amigo dos anfitriões.
Arno Gruen Falsos Deuses

E, a Srª Thatcher, tinha conhecimento desse fato, que seguramente permitiu que a jovem conseguisse aquele emprego de férias.
Esta breve história serve para ilustrar a tendência que algumas pessoas têm em suprimir a realidade, e substitui-la por outra de acordo com os seus interesses e necessidades pessoais. Julgam que fazem dos outros parvos. Estão a usar uma técnica, como já expôs no post “A técnica da cisão ”, a que se pode recorrer uma vez por outra, contudo, poderá ser para algumas pessoas, um padrão instalado de funcionamento. São os dissociados, como o autor lhes chama, porque têm um Eu dividido. É exemplo, falarem em nome da moralidade, mas não a sentem, e até se comportam de modo contrário.
Esta falta de um sentido coeso de organização interna, faz com que desconheçam partes de si mesmos, e sobre as quais procuram também, não ter consciência da sua coexistência.
De modo a manter esta necessidade interior de cisão, manifestam dificuldades em integrar opiniões contrárias às suas, pelo que, investem na lei e na ordem de modo repressivo. "Assim, somos confrontados com uma realidade que corresponde ao interior dessas pessoas e não com os fatos” (Arno Gruen).
Um fator de risco para a saúde mental, deles próprios, e dos que estão à sua volta. 
Mesmo compreendendo a técnica, e a função que ela cumpre, até nos surpreendemos como recém chegados ao poder, a utilizam sem pudor e sem ética.