segunda-feira, 31 de outubro de 2011

À espera do que não existe


Lucian Freud Girl with a Kitten

Que força permite determinada mulher ou homem, suportar ser tratado como coisa, por um parceiro perverso narcísico?
Não se trata de uma relação sado-masoquista como por vezes se julga, ou de alguém que no lugar de vítima, provoca as agressões. Trata-se de “um casal conduzido por um perverso narcísico que constitui uma associação mortífera: a maledicência, os ataques subterrâneos são sistemáticos" (Hirigoyen). Esse processo só é possível pela exagerada tolerância da parceira (Hirigoyen), mas são as estratégias do perverso, que lhe provocam culpabilidade, medo e dúvidas.
O perverso narcísico não sabe ser de outro modo, enquanto a vítima tem possibilidade de escolher outro modo de vida.
É dessa tolerância que fala este texto de André Martins:

"O paradoxo é o de que a vítima se enreda e se torna vítima, justamente por julgar-se forte, ao menos no fundo; por julgar-se capaz de superar o sofrimento advindo da agressão injusta, e obter, ao final, a grande recompensa de sua capacidade de resiliência, persistência e habilidade sobre o outro: recompensa que é, precisamente, o amor do agressor que até então acena com este amor seduzindo- a, mas na prática a desprezando mais do que supostamente a ama. Ou ainda, a recompensa esperada pela vítima seria o reconhecimento, por parte do agressor, do amor que ele, na verdade e no fundo, sentiria pela vítima, mas não sabe, ou não consegue expressar, devido a suas dificuldades afetivas e relacionais. O jogo do agressor consiste, assim, em dar a entender que ama a vítima, mas em não declarar, não enunciar este amor, ou fazê-lo cada vez menos ao longo da relação, e sempre de maneira ambígua, ambivalente, fugidia. E em alternar entre seduzir a vítima, e, nos momentos de crise, agredi-la fortemente com palavras que tocam seus pontos fracos e a desestabilizam. As vítimas obedecem ao agressor “primeiro, para dar prazer a seu parceiro, [...] pois ele tem um ar infeliz.
Depois, [...] por medo” (HIRIGOYEN, 2002, p. 110). Nem que seja por medo de seu mau humor. “A submissão é aceita como necessidade de reconhecimento e parece preferível ao abandono” – reconhecimento que não virá nunca, ou se vier, virá sempre mitigado e parcial. “Como um perverso dá pouco e exige muito, uma chantagem implícita ou, pelo menos, uma dúvida torna-se possível: ‘Se eu me mostrar mais dócil, quem sabe ele poderá, enfim, me apreciar ou me amar.’ Busca sem fim, pois o outro não estará jamais satisfeito”. A vítima fica paralisada “pela recusa em ver que ela é rejeitada” ou para evitar o constrangimento e o desgaste de um conflito – pois sabe que qualquer contrariedade fará com que o agressor deflagre um conflito.
Assim, “o agressor mantém no outro uma tensão que equivale a um estado de estresse permanente”. Se isso fica explícito na relação de casal, algo análogo ocorre também em relações dentro de grupos sociais ou profissionais.
Enquanto que o ego do agressor se caracteriza por um narcisismo perverso, o ego da vítima é um ego paradoxalmente forte, não fraco, mas frágil e carente: não dependente da aprovação do outro, mas desejoso desta aprovação. É um ego desejoso de dar, de auxiliar, pois servir faz sentir-se dando ao outro aquilo que ele desejaria receber. Daí – de sua força, no sentido de resistência ao desamor – vem sua fragilidade que o faz colocar-se em relação com alguém que não lida bem com o receber, pois considera que a mãe, e portanto, o outro, o ambiente e o mundo, lhe deve algo, numa dívida sem fundo e sem fim. Um deseja dar amor ao ponto de buscar aquele que demasiadamente não o teve, enquanto que este cobra um amor que não existe, permanecendo insatisfeito.
Ao invés de reconhecer o amor do outro, sente necessidade em desmerecê-lo.
Quanto mais um se dedica ao outro, mais o outro despreza esta devoção. E trata de manter a relação manipulando-a através do assédio, aceito pelo outro na intenção de este findar, de superá-lo, de vencer as dificuldades da relação e se fazer amar."

André Martins, Uma violência silenciosa: considerações sobre a perversão narcísica Cadernos de Psicanálise, Rio de Janeiro, ano 31, nº22, 2009. Está online, aqui. ou aqui.





quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Happiness & its Causes


Maior fórum do mundo sobre a felicidade humana – Happiness & its Causes.
Vai decorrer de 1 – 2 de Março de 2012, Sydney Town Hall, Austrália.
Saber mais aqui.
Vale a pena ver os vídeos (em língua inglesa) das apresentações do evento anterior, aqui.


A Psicologia da Ciência


Uma nova disciplina emerge: A Psicologia da Ciência.
A par da história da ciência, da filosofia da ciência, ou da sociologia da ciência, esta nova área do conhecimento é apresentada pelo psicólogo Gregory J. Feist da San Jose State University, no Jornal da Association for Psychological Science.

A ciência é um acto cognitivo, ou seja, tem a ver com a personalidade, criatividade, processos de desenvolvimento, pelo que, a Psicologia da Ciência é o estudo científico do pensamento científico e do comportamento, como refere o autor, e não é só sobre como os cientistas produzem o conhecimento, mas como todos nós o fazemos.
Esta ciência poderá explicar, por exemplo, como as crianças criam teorias sobre a forma como o mundo funciona, tendo por isso implicações na educação.
As investigações têm descoberto dados interessantes., por exemplo, pessoas muito interessadas pela ciência têm mais consciência (traços como cautela e meticulosidade), enquanto a curiosidade científica está ligada a menos consciência e mais abertura de espírito.
O site da Association for Psychological Science, aqui.
Para saber mais, o artigo da  Sience Daily.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Esforços para enlouquecer o outro


O filme Gaslight - o marido (que intencionalmente colocou o seu relógio na bolsa da mulher) tenta numa 2ª fase levá-la a acreditar que está louca.

É um processo intencional, consciente e construído. 
Numa 1ª fase o agressor trata de fragilizar a vítima. Quando ela já está fragilizada, ela vira a fragilidade contra ela, com comentários do tipo: 
Você é tão sensível.
Você é tão emocional.
Você está na defensiva.
Você está exagerando.
Acalme-se e relaxe.
Você está louca!
Eu só estava brincando, você não tem sentido de humor?
Você é tão dramática. Supere isso, já!

São frases típicas do manipulador/agressor.

"O objeto enlouquecedor desfaz. …o principal atributo e correspondente ação do objeto enlouquecedor é o ataque ao  pensamento do sujeito, ao seu território mental – instalando nele o medo, a dúvida, a confusão. O fito é obter a incapacidade de pensar do sujeito; e , por fim , é o que acontece – o desmantelamento mental da vítima, seja, a anarquia psíquica." António Coimbra de Matos Relações de Qualidade Climepsi Editores.
Um artigo sobre esta temática (assédio moral, gaslighting  ...), da autoria de Yashar Ali, com o título Why Women Aren’t Crazy - Has gaslighting conditioned women into thinking they’re emotionally unstable?, aqui (The Good Men Project).

O fabuloso conto de Charlotte Perkins Gilman "O papel de parede amarelo"AQUI

Outro artigo sobre o mesmo assunto, em:
http://www.goodtherapy.org/blog/unreality-check-cognitive-dissonance-in-narcissistic-abuse-1007144
ou
http://www.goodtherapy.org/blog/gaslighting-a-slow-burning-emotional-abuse-tactic-0121154



sábado, 22 de outubro de 2011

Pequenas perceções

Photobucket
 Cinemagraphs Gifs de Jamie Beck

Consideremos um rosto e, nesse rosto, um sorriso. O sorriso pretende ser amigável, mas, apesar disso, apercebemo-nos de um não sei quê que nos revela exatamente ao contrário: esconde uma profunda antipatia, hostilidade até. Mas só um olhar atento capta este afastamento entre aquilo que o sorriso pretende exprimir e aquilo que realmente exprime. Este afastamento é apercebido graças às pequenas perceções: é um sorriso imperceptivalmente hipócrita. José. N. Gil, Les Enjeux du Sensible. Revista Chiméres, nº 39

Os nossos encontros são feitos destas pequenas perceções e das outras que nos fazem sentir verdadeiramente acompanhados.
São detalhes mínimos da comunicação que pertencem ao reino do indizível e do íntimo. Falar deles a alguém, é uma experiencia solitária.
Devíamos dar mais valor às pequenas perceções. Os nossos pensamentos sobre as pessoas nascem desta essência afetiva.




quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A técnica exibicionista



No filme de James L. Brooks , Melhor é impossível, Melvin Udall (Jack Nicholson), é um escritor com transtorno obsessivo compulsivo, arrogante e pouco sociável. Melvin tem este diálogo com uma secretária:

Ela: Você não tem ideia, do que a sua obra significa para mim. Como escreve mulheres tão reais?
Melvin: Eu penso num homem e tiro dele a razão e a responsabilidade.

O que pretendo ilustrar com este diálogo é a estratégia utilizada por Melvin, que corresponde a uma técnica de se revelar ao outro de um modo empático com a condição humana - pela escrita, no seu caso - desde que não envolva o contacto direto com as pessoas.
É um faz de conta, em que se exibe uma imagem de sociabilidade mas escondem-se dificuldades afetivas e  relacionais. 
Utilizada pelos indivíduos introvertidos, se esta explicação lhe faz sentido, pense nos múltiplos exemplos observados no meio social, profissional e virtual, em que estão presentes um sentimento (por vezes, secretamente escondido) de superioridade, um desinteresse pelo outro, a par de uma exclusiva preocupação por si próprio, e no entanto, exibem-se  manifestações com a intenção de fazer crer o oposto.

A  técnica exibicionista por Ronald Fairbairn:
… a atracão pelas atividades literárias ou artísticas em indivíduos com propensão esquizoide* deve-se em parte ao facto de que estas atividades fornecem um meio exibicionista de expressão, sem envolverem contacto social direto. O significado da exploração do exibicionismo como uma defesa reside no facto de que representa uma técnica para dar sem dar, por uma substituição de "mostrar" por "dar. in Estudos Psicanalíticos da Personalidade, biblioteca de psicanálise

* Esquizoide corresponde ao conceito de individuo introvertido para Carl Jung
Ronald Fairbairn (11 de agosto de 1889 - 31 de Dezembro de 1964) foi psiquiatra escocês e psicanalista.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Incesto soft

Nos tempos modernos, tropeçamos nesta perversão:

"...Recamier forjou um neologismo, o “Incestual” (incesto latente), que descreve o “ clima” particular de certas famílias, feita de uma atmosfera doentia, de proximidades ambíguas carregadas de olhares e de atitudes equívocas, de toques fortuitos, de alusões sexuais.
O incestual, ao contrario do incesto, não desemboca no ato sexual, mas mantém a confusão entre gerações e entre sexos, uma espécie de “incesto soft” (M-F Hirigoyen), testemunho da importância de uma área psíquica que Recamier chama “Antédipo” (que tem que ver ao mesmo tempo com ante = antes e com anti = contra).
Exemplos do “incestual”:
  • Uma mãe conta à filha de 12 anos as falhas sexuais do marido e compara os atributos deste com os dos seus amantes.
  • Um pai seduz as amigas da filha de 18 anos, faz-lhes festas na presença desta e leva-as à discoteca à noite.
  • Uma mãe viúva diz ao filho de 8 anos que agora ele é o homem da casa, e que até que atinja a maioridade se recusa a encontrar-se com outro homem. 
  • ...
Hoje em dia este clima “incestual” e de “sedução narcísica” para com as crianças e adolescentes encontra-se em todos os escalões de uma sociedade “adolescêntrica” que, particularmente na publicidade e nos media televisivos, utiliza o seu potencial físico de sedução, atrai-os, sedu-los, dá-lhes a palavra com a ilusão de que esta tem um valor maior do que a do adulto ou a da terceira - idade." 

Gérard Pirlot e Jean – Louis Pedinielli  As Perversões Sexuais e Narcísicas Climepsi Editores

Se a vítima rejeitar estes atos, é considerada fora de moda, ou quem sabe, tem algum problema - aqui reside uma característica da perversão.

Ilha da Madeira


Tenho andado à procura de vídeos da minha terra. Agrada-me este.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

És mais bonita quando...


Vídeo de uma campanha contra a violência doméstica.
Palavras de uma mulher vítima de violência doméstica: “…o pai dos meus filhos fazia: “Ninguém gosta de ti. És feia. És porca.” As mulheres pensam que não há outro ser que possa gostar delas. É como se não tivessem opção, como se estivessem condenadas àquilo.”
Fonte: Jornal Publico -  artigo sobre a violência doméstica da autoria de Ana Cristina Pereira, com o título "E eu não consigo... não consigo dormir ainda de luz apagada"(14.10.11)

Quando uma amizade termina


Com Therese J. Borchard. É autora do blogue Beyond Blue.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

As atitudes ficam com quem as pratica

Oratório Paula Rego

“Lá no fundo, a vontade de destruir, direcionada para os outros, não é mais que a vontade de nos destruirmos a nós mesmos.”
Valerio Albisetti Ser amigo ou ter amigo? E. Paulinas

Quem me ofereceu este livro surpreendeu-se que eu reconheça todo o sentido na frase “As atitudes ficam com quem as pratica”. Certamente as pessoas costumam associar a este pressuposto a ideia que somos os únicos responsáveis pelas nossas ações, e consequentemente, podemos ter de suportar as possíveis consequências. Se não as houver, estamos bem. Não estamos.
Este estado prende-se com a existência, em nós, da imagem que cada um tem de si e da imagem que tem do outro, o outro em nós. É o nosso património, causar-lhe dano, passa a ser a partir de agora, a vontade de nos destruirmos a nós mesmos, 
A inexistência desta continuidade – o eu, parte do outro dentro de nós - é o vazio,  fonte de todas as violências. É a ausência da ideia da própria bondade, e precisamos de nos considerarmos bons para viver.
Deveríamos ter medo de quem não tem nada a perder. Ou de quem não quer saber de si.


No Brasil, o escritor português Valter Hugo Mãe.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A função

Peter Blake, The Fine Art Bit, 1959 (detalhe)

“Em outras palavras todo o nosso interesse pelo mundo externo e pelas outras pessoas baseia-se essencialmente na necessidade que sentimos deles; e precisamos deles para duas finalidades. Uma delas é a finalidade óbvia de auferir satisfação tanto para as nossas necessidades de autoperservação como para as de prazer. A outra finalidade para a qual necessitamos, é para odiá-los, de forma a podermos expelir e descarregar a nossa própria maldade, com todos os seus perigos para fora de nós, e sobre eles.”
Melaine Klein e Joan Riviere Amor, Ódio e Reparação Imago Editora

Fica-se a pensar que a vida não é este preto no branco.  Por nosso orgulho pessoal consideramo-nos complexos, e somos, nas diversas formas como amamos e odiamos. 
Mas vendo bem, quando a vida é amável, não é próprio nos questionarmos sobre o papel que temos na vida de alguém. Não se ajusta. É escusado.
Embora com interrupções no fluir habitual dos dias, no fundo do coração há um sentido para continuar, que nos transcende, porque nos incita a dar o nosso melhor, ao outro, à família.
Pensamos no papel que temos na vida de alguém quando começamos a duvidar desse sentido e a suspeitar que não é partilhado. O que somos não é visto. O que o outro vê em nós, não pode ser aceite.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Não está lindo?




O resultado das obras de restauro e recuperação do Ateneu Comercial do Funchal. Foi inaugurado ontem pelo Presidente do Governo Regional - Drº Alberto João Jardim.
A escada em ferro por onde descíamos aquando da exposição da flor. Soturna e encoberta nesse tempo. 
Não está lindo?(não é uma pergunta).
A origem do bom gosto madeirense? O nosso convívio com os ingleses deve ter contribuído. É outra das minhas teorias.

domingo, 2 de outubro de 2011

Sê minha da forma que imagino


Paul Cezanne Retrato de Gustave Geffroy (detalhe)

Sigmund Freud em carta à sua noiva Martha Bernays: "Sê minha da forma que imagino.”

Ilse Grubrich-Simitis psicanalista e especialista em Freud, que é uma das três editoras que assina a introdução do 1º volume das 1500 cartas trocadas entre o casal durante o noivado secreto de quatro anos, e que estão agora a ser publicadas em língua alemã, acrescenta: "Ele compreendeu muito rapidamente quão importante ela era para a sua estabilidade, como ligação ao mundo real"; "Ele percebeu ao longo da troca epistolar que era impossível moldá-la, e que não seria bom."

A editora alemã S. Fischer Verlag está a publicar as cartas, na íntegra. O 1º volume tem o título Die Brautbriefe, Band1.