segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O Eu e o Outro Eu


Texto sobre as duas dimensões da vida psíquica do homem: a busca do prazer  e a luta pela adaptação à realidade, embora esta dicotomia não faça sentido, porque os nossos impulsos, desejos íntimos, não devem ser reprimidos  ou sublimados com vista à integração e aceitação social. O desejável, será a sua coexistência harmoniosa em nós, e para o bem de todos. É exemplo modernamente citado, o executivo que dispõe de tempo para uma outra atividade bem distinta.
Para quem não se permite a coabitação dos diferentes territórios da personalidade, a vida pode ser bem infeliz, apesar de produtiva, como foi para Tolstoi: 

 " (…)  minha afirmação é simplesmente de que a presença de desarmonia e conflito entre os dois territórios da personalidade pode não sufocar a produtividade de um indivíduo dotado; que essa desarmonia talvez possa servir de estímulo para respostas criativas - ainda que a disputa entre os dois territórios permaneça sem solução por toda uma (infeliz) vida.

A vida de Tolstoi foi uma luta sem fim entre o Homem Culpado trabalhador que buscava o prazer e o Homem Trágico criativo que buscava a auto-expressão. Finalmente o Homem Tágico predominou durante períodos suficientemente longos para que ele criasse novelas que, como todas as grandes obras de literatura, revitalizam todos aqueles que se deixam atingir por elas. As profundas reverberações dos nossos selves nucleares, à medida que participamos da obra dos grandes romancistas ou dramaturgos, intensificam nossas reacções ao mundo e com isso fazem crescer a nossa autoconsciência. As obras dos grandes romancistas e dramaturgos conferem-nos a capacidade de experimentar mais plenamente nossa existência, de participar mais profundamente do ciclo eterno de vida e morte. Mas também havia outro Tolstoi que pode ser claramente percebido a partir dos dados biográficos e de alguns dos seus escritos (menores). Esse é não somente o Tolstoi jogador, bebedor e galanteador, mas também ao contrário, o homem Tolstoi cheio de aversão às mulheres, carregado de culpas, com a necessidade de expiar, de mortificar a carne. Quando predominava o Tolstoi criador, o imenso talento de escritor era aproveitado na tarefa de lançar um vasto projecto que havia sido elaborado pelo seu vulcânico self criativo. A maior parte do panorama não-moralista do mundo contido em Guerra e Paz é certamente a manifestação máxima do Tolstoi Trágico, profundamente sintonizado com o drama da existência humana, apesar do fato de mesmo essa obra-prima conter algumas passagem e alguns capítulos que são verdadeiros sermões – manifestação do Homem Culpado. “ 
Heinz Kohut  Self e narcisismo Zahar Editores

Imagem retirada da Wikipédia

sábado, 15 de novembro de 2014

Bertrand Russell - Mensagem para o futuro



Bertand Russel dá dois conselhos para as gerações futuras baseado no que aprendeu.

O primeiro conselho é sobre aceitar o que os fatos mostram.
O segundo conselho é sobre a importância do amor acima do ódio.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

"O Estrangeiro" de Albert Camus (3)


“A passagem para O Estrangeiro, de Camus, em que o protagonista encontra o cerne da identidade apenas em si próprio (split self), não reconhecendo qualquer sentido de obrigação seja a quem for, fora dele.”

Orlindo Gouveia Pereira* A história do sedutor errante Psicologia para todos Climepsi

*Professor Emérito, doutor em Psicologia

sábado, 1 de novembro de 2014

Quando as coisas são dolorosas...


Pietro Cipriani Vénus (detalhe)
“Quando as coisas são dolorosas, vemo-las no campo das emoções e não no campo da consciência." João Redondo, psiquiatra, Coordenador da Unidade de Violência Familiar do Serviço de Psiquiatria do CHUC, em conferência, Estreito de Câmara de Lobos, 2005.

O modo como o outro nos fez sentir, embate primeiro no campo das emoções. É o cordão que nos liga à evolução das espécies, ao crepúsculo que nos tornou humanos, à força que não nos liga à infância, à necessidade de nos fazermos amar.
A dor ou o conforto põe-nos a nu, e maturidade, diplomas ou capacidade intelectual, pouco servem perante as dolorosas sensações que chegam. Do profundo poder que escorre delas, será preciso contar com um longo trabalho do pensamento e da linguagem, da consciência, para as compreender, aceitar e as tornar suportáveis.  
Dão alento aos dias, as outras, as coisas calorosas que dispensam o raciocínio.

domingo, 28 de setembro de 2014

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Feitio ou defeito

Ricardo da Cruz Filipe A Onda 1983 CAM


(Importante saber distinguir) “…estado – sentimentos transitórios, pensamentos e ações, de traços – características douradoras da personalidade.”
Helena Marujo Educar para o otimismo

Poderá parecer ser um assunto muito técnico, só para especialistas, árido, mas encerra um conteúdo interessante.
Para se tornar mais manejável, comecemos por considerar que as pessoas psicologicamente saudáveis, podem manifestar uma vez por outra, em determinadas situações, atitudes que não lhes são habituais. Esses momentos, são estados que envolvem sentimentos transitórios, pensamentos e ações, e que podem até contribuir para que se apresentem aos olhos dos outros, surpreendentemente interessantes, despertar uma paixão, como se dessem corpo a desejos de viver que parecem acertados e de possibilidades ilimitadas.
Com o conhecimento do outro, poderá acontecer que vamo-nos apercebendo que estes estados não são um detalhe, vêm com um “pacote” - constituem padrões característicos de percepcionar o mundo, de estabelecer relações com as pessoas e situações. São traços de personalidade. 
Acabamos compreendendo também, que se ligam a outros traços (ex: a pessoa não é só vaidosa, é também autocentrada…),e que todos eles a definem. Constituem a sua personalidade que contribui para se tornar uma pessoa apetecível, ou não. 
Podemos também descobrir, que não se trata só de uma pessoa difícil, mas que possui um distúrbio de personalidade (“Os traços de personalidade existem num contínuo” John Oldham, sendo o distúrbio o ponto extremo do contínuo).
Este exercício é essencial - o conseguir identificar no outro, se a sua atitude é passageira (estado), ou uma característica douradora da sua personalidade (traço), e até que ponto afeta positivamente ou negativamente a vida e a relação com as outras pessoas. Como exemplo, nos casos de violência doméstica, poderá ajudar a clarificar a verdade da mensagem: “O agressor dá a entender que ter sido violento, não é problema dele (não é traço de personalidade), é porque bebe (estado transitório, fruto do momento, da situação ou...provocado pelo outro).”  
Citando, ainda John Oldham , a depressão (estado que acontece em um momento difícil da vida) pode não nos definir, mas a personalidade, define-nos. Ou seja, o estado depressivo, apesar de poder se arrastar por muito tempo, pode ser passageiro, mas traços de personalidade que tiram prazer com o sofrimento, ou que de certa forma,  alimentam a depressão,  ajudam a que esta se instale.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Os transtornos de personalidade - Flávio Gikovate


O que antes se chamava de personalidade psicopática, agora é chamado de distúrbio de personalidade do tipo antissocial - o "cluster B" de cor azul, na imagem abaixo colocada.

Canal de Flávio Gikovate no Youtube: https://www.youtube.com/


Em texto:

"Hoje vou falar sobre um tema um pouco mais complexo que são os distúrbios de personalidade. Estes distúrbios, segundo as classificações internacionais de doença – a nova tabela americana que se chama DSM5 que é a ultima classificação de diagnóstico de doenças dos Estados Unidos da América - , manteve o mesmo padrão: existem 3 grupos de grandes distúrbios de personalidade. 
Um grupo, que é basicamente o 1º,  são os distúrbios na linhagem paranoide, que são pessoas  com ideias de perseguição que sempre estão tendo ideias persecutórias em tudo, e são pessoas que não têm nenhuma outra falha a não ser essa, que é de codificar o mundo sempre de um jeito ameaçador, persecutório. São distúrbios que não vamos falar hoje. 
O 2º grupo, termina com anti-social - os psicopatas de antigamente. Este é que nós vamos tratar na nossa conversa de hoje. 
O 3º grupo envolve aqueles de ansiedade muito forte que têm condutas de evitação - evitar situações. O mais caraterístico deste (3º grupo) grupo, são os transtornos obsessivo-compulsivo, assunto também muito interessante e complexo mas que fica para uma outra vez, para falarmos sobre isso.  
Hoje eu queria era, então, tratar deste 2º grupo que são os antigos psicopatas. Este grupo corresponde a um conjunto de patologias,  não é uma só e não sei se a palavra certa é patologia, algum distúrbio de personalidade,  são na verdade alterações de personalidade e todas elas têm como característica principal (deste 2º grupo): alguma falha na reflexão moral, alguma falha na capacidade de se colocar no lugar das outras pessoas. Eles são uma sequencia gradual,  que vai desde o egoísmo que as pessoas socialmente consideram aceitável, a pessoas que se preocupam mais consigo, pouco empáticas em relação ao sofrimento dos outros, até ao mais grave modelo que seria o anti-social. 

Isto é um degradé (graduação) que vai tendo todos os matizes de agravamento. O "egoísta" pode ser "egoistinha"(egoísta pequeno), pode ser "egoísta médio", pode ser um "egoístão" (egoísta grande) que só cuida de si mesmo, não liga a mínima para ninguém e para nada. Não tem sentimento de culpa. Este grupo todo, não tem sentimento de culpa, mas às vezes reage dentro de certos limites, por medo, por medo de castigo e punições. São pouco empáticos. Não têm muita capacidade de  sentir compaixão, mas neste grupo inicial têm alguma empatia, mas isto vai tornando-se mais severo na distância deste ponto de equilíbrio, intermediário, quando se distanciam os personagens. Estes grupos (de pessoas) têm outras caraterísticas. Alguns têm de facto uma capacidade de falar bem de si mesmo, muito sociáveis, muito extrovertidos, bons no marketing pessoal. Têm uma fala e uma visão muito positiva de si mesmos, são os chamados histriónicos. Outro grupo (de pessoas) acha que são melhores do que os outros. Têm uma visão de si achando que são “bacana mesmo” (fantásticos). E, naturalmente, todos eles têm egoísmo,  são pouco empáticos e acreditam que são melhores que os outros, é o chamado de narcisismo patológico. É patológico porque na realidade quase todo o mundo, pode até falar bem de si etc, mas no fundo sabe que tem lá os seus complexos de inferioridade. Essas pessoas parecem que não têm complexos de inferioridade, o que é muito grave porque um pequeno complexo de inferioridade leva a gente  a ter um pouco de humildade, e a achar que a gente precisa progredir. E essas pessoas que se acham o máximo, não têm porque evoluir. Então, são pessoas muito mais difíceis de conviver, de mudar de opinião, de se preocupar com o direito dos outros e de se tratarem. A empatia vai sempre diminuindo, com cada vez menos capacidade de ser interessar pelos outros. 
Depois, existe um outro grupo (de pessoas, dentro deste 2º grupo), que se chama de borderline. É um grupo peculiar, em que algumas caraterísticas estão presentes. Uma delas é idealizar demais certas pessoas que se transformam em ídolos, para depois arranjar um jeito de desqualificar esses ídolos e derrubar eles, e achar que são horríveis, lamentáveis. Primeiro idealiza, depois derruba completamente essa pessoa. Primeiro "enche a bola" do interlocutor, que pode ser namorada, um patrão, um subalterno, “avacalha”(abusa, escarnece) com ele, derruba a auto-estima dele. São pessoas que têm oscilações do humor, não raramente são meio depressivas, têm tendência ao suicídio, tentativas de suicídio, mais do que efetivos suicídios, às vezes acabam morrendo, mas por engano, de chamar a atenção através do suicídio. São pessoas que têm uma agressividade, uma impulsividade muito grande. Parecem incapazes de serem contrariadas, aliás como toda a sequência dos egoístas, lidam mal  com o processo de contrariedade. Todos são meio estouvados (pensam pouco nas consequências e nas obrigações), mas estes aqui podem ser mais estouvados e têm essa caraterística  de "encher a bola dos outros" e depois derrubar a auto-estima deles. São pessoas que são...nesses momentos, bastante cruéis. Às vezes aparecem traços persecutórios ou de conspiração, achando que um grupo de gente está falando mal contra eles. Borderline é uma fronteira entre a neurose - um grupo de distúrbios em que o individuo está consciente da situação e um quadro psicótico em que o individuo não tem mais a noção exata do  que ele mesmo está fazendo. Esta confusão às vezes aparece neste grupo. A empatia por vezes é razoável, outras horas o individuo tem muito pouca capacidade  de sentir,  de se preocupar  com as outras pessoas, podendo ser muito cruel, especialmente quando acaba a idealização do outro. Finalmente, o mais radical deste grupo, em que a empatia vai decrescendo, é aquele grupo com empatia zero, que é aquele grupo dos anti-sociais. Pessoas que não têm nenhuma sensibilidade para com o outro, nenhuma culpa, e além de não terem nenhuma culpa com a dor do outro ou compaixão, também não têm medo.(...)

Tratar esta gente toda é muito difícil. Depende de muita sorte do ponto de vista do terapeuta, da empatia. Os anti-sociais são quase impossíveis de tratar. Esses são realmente os delinquentes. Os outros, dependem muito do tipo de empatia que se estabelece entre o paciente e  terapeuta, da paciência, da persistência. Muitas vezes é preciso tomar medicação, ou tranquilizantes, ou anti-psicóticos ou anti depressivos. É um manejo difícil de trabalhar. Demora anos, e existem alguns casos, que sim, há uma evolução favorável, melhoras. Mas são trabalhosos, sempre. Muitas vezes as pessoas perguntam por estes assuntos usando a palavra "psicopata". Psicopata é um termo genérico, que envolve um pouco de tudo isto que eu falei. São pessoas que, às vezes, pelo fato de serem muito simpáticos, são o parceiro sentimental de muita gente. E quando há este tipo de história, realmente não é raro os casamentos acabarem, se dissolverem, porque não é difícil a partir de certo momento, o parceiro perder a paciência e não conseguir mais tolerar certo tipo de arbitrariedades que essas pessoas, por força de uma empatia muito baixa ou mesmo inexistente, conseguem provocar nos seus interlocutores.
 Flávio Gikovate "os transtornos da personalidade."

As perturbações de personalidade no programa da RTP Play "Fora da Caixa", com a psicóloga Isabel Leal e o médico psiquiatra Vitor Amorim Rodrigues:
http://www.rtp.pt/play/p1727/e201315/fora-da-caixa

sexta-feira, 15 de agosto de 2014


Sou muito exigente a respeito de vídeos de localidades que guardo no coração. Considero-os sempre aquém da capacidade de retratar a minha memória, mas este vídeo de Kirill Keiezhmakov, sobre Lisboa e Sesimbra, consegue-o, e vai mais além, permite-me imaginar, pela técnica que utiliza, o bom que seria se ultrapassássemos as possibilidades humanas e pudéssemos voar e submergir.  

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A Falha


Café Filosófico: Aposta Na Coragem O filósofo  Oswaldo Giacóia Jr


Algumas das suas palavras, ao minuto 25 e 32 segundos, acerca do que eu chamo A FALHA (fraqueza estrutural)  nas palavras do filósofo: 


“…Quanto mais forte você é, mais corajoso e generoso você pode ser. A marca registada da fraqueza é justamente a impossibilidade de se doar.
Toda a avidez compulsiva e auto concentrada é sintoma de uma fraqueza estrutural. Ou seja, você em última instância deseja obsessivamente tudo para si, porque você é muito fraco. Quem é forte, quem tem uma riqueza de sentimentos de poder, pode doar-se. Quem é fraco, não. Justamente por isso, é desse sentimento de poder que nasce uma atitude de despreendimento e não uma atitude de cristalização, condensação, fechamento na perspetiva do próprio umbigo. Portanto, nos seus pequenos medos.”Oswaldo Giacóia Jr

domingo, 3 de agosto de 2014

A capacidade de diferenciar as emoções

Gerard Von Opstal Bacchanal os statyes and Cupids Riksmunseum Amsterdam

O que é uma relação de amizade e uma relação amorosa? Há pessoas que têm dificuldade em distinguir isto.” António Coimbra de Matos* (psicanalista)

Fala-se de se ser capaz, ou não, em discriminar, entre a diversidade de emoções que envolvem uma relação de amizade, das nuances próprias que envolvem uma relação amorosa.
A importância de se ser específico: naquela relação sentimos raiva ou vergonha? Raiva, porque na realidade, sentimos culpa? 
Para melhor compreendermos de que estamos a falar, há dias perguntava a alguém “Estás triste?”, ao que ela me respondeu: “Não. Estou desiludida comigo”, e acrescentou: “Porque sei que podia ter feito melhor.” 
É revolucionário o quanto esta capacidade em diferenciar as emoções e as significações pessoais, poderá ajudar-nos a lidar com os problemas e a melhorar a vida, ou seja, a planearmos e executarmos a ação de um modo mais eficaz.. É um tipo de inteligência emocional que se desenvolve desde o nascimento, de uma sensibilidade grosseira, para a sensibilidade descriminada na vida adulta - processo de diferenciação emocional -, mas que nem todos lá chegam a este estado de exatidão na distinção das emoções.
Continuando, não deixei de me surpreender com Coimbra de Matos,  naquela conferência, com o exemplo que escolheu para ilustrar as dificuldades no dito processo: um homem heterossexual que só mantinha relações de amizade e de intimidade emocional, com homens, e com as mulheres, relações desprovidas de convívio e intimidade, mas reservando para elas, a componente sexual, e a sua vontade não conseguida, de alterar esta condição. Podemos catalogá-lo como um individuo cindido, fragmentado, ou à luz da diferenciação emocional, um individuo que apresenta fixidez - sensibilidade grosseira - e que (ainda) não evoluiu para um estado homogéneo, maturo, socialmente mais ajustado e desenvolvido cognitivamente e emocionalmente - sensibilidade discriminada.   

A EVOLUÇÃO nas palavras de Coimbra de Matos:
 “Nos primeiros tempos de vida extra-uterina o bebé vive um estado de indiferenciação anímica - uma sensibilidade geral de tipo protopática (grosseira, difusa, sincrética, não discriminativa), desenvolvendo-se na sequência, e a pouco e pouco, para a sensibilidade diacrítica (descriminada, ou seja, consciente das diferentes subtilezas das emoções e sentimentos).”

*Psicanalista, na conferência “Promoção da Saúde Mental na Criança”, organizada pela CPCJ, que decorreu no Funchal no passado dia 27.6.2014

Palavras -  chave: Diferenciação e regulação emocional




A Roda das Emoções - Texas Association of School Psychologists



sexta-feira, 25 de julho de 2014

As 10 estratégias para manipular as pessoas

Mural de Martin Ron

Enviaram-me este texto por email. Julgo que muitos de nós já o conhecem. Mas aqui fica para memória futura. 
Sempre atual, sempre verdadeiro. E não diz respeito só à nossa história coletiva, ao modo como o poder político se pode comportar para connosco, mas aplica-se também, a todas as situações de manipulação inscritas na nossa história pessoal.
O seu verdadeiro autor é Sylvain Timsit

1. A estratégia da Distração:
O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio, ou inundação de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir o público de interessar-se por conhecimentos essenciais, nas áreas da ciência, economia, psicologia, neurobiologia e cibernética. “Manter a atenção do público, distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado…, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais”


2. Criar problemas e depois oferecer soluções:
Este método também é chamado “problema-reação-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou que se intensifique a violência urbana, ou se organize atentados sangrentos a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas desfavoráveis à liberdade. Ou também: criar uma crise económica para fazer aceitar como um mal necessário, o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.


3. A estratégia da gradualidade:
Para fazer que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, por anos consecutivos. Foi dessa maneira que condições socioeconómicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que teriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.


4. A estratégia de diferir:
Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais difícil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregue imediatamente. Depois, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “amanhã tudo irá melhorar” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para se habituar à ideia da mudança e aceitá-la com resignação quando chegar o momento.


5. Dirigir-se ao público como crianças:
A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entoação particularmente infantis, muitas vezes próximos da debilidade, como se o espetador fosse uma criança de pouca idade ou um deficiente mental. Quanto mais se tenta enganar o espetador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Porquê? “Se alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em função da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como as de uma pessoa de 12 anos ou menos ”


6. Utilizar o aspeto emocional muito mais do que a reflexão:
Fazer uso do aspeto emocional é uma técnica clássica para causar um curto-circuito na análise racional e, finalmente, no sentido crítico dos indivíduos. Por outro lado, a utilização do registo emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou injetar ideias, desejos, medos e temores, compulsões ou induzir comportamentos.


7. Manter o público na ignorância e na mediocridade:
Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores e as classes sociais superiores seja e permaneça impossível de ser revertida por estas classes mais baixas.


8. Estimular o público a ser complacente com a mediocridade:
Levar o público a crer que é moda o ato de ser estúpido, vulgar e inculto.


9. Reforçar a autoculpabilidade:
Fazer com que o indivíduo acredite que somente ele é culpado da sua própria desgraça, por causa da insuficiência da sua inteligência, suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, em vez de se rebelar contra o sistema económico, o indivíduo auto desvaloriza-se e culpa-se a si próprio, o que gera um estado depressivo, sendo um dos efeitos a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução!


10. Conhecer aos indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem:
No decurso dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado uma crescente brecha entre os conhecimentos do público e aqueles possuídos e utilizados pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto na sua forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele se conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior que o dos indivíduos sobre si mesmos.


http://img2.blogblog.com/img/icon18_edit_allbkg.gif
Ler também em: https://colectivolibertarioevora.wordpress.com

terça-feira, 15 de julho de 2014

Samuel Weber: A Europa e as suas pulsões destrutivas


Entrevista de António Guerreiro a Samuel Weber com o título A Europa e as suas pulsões destrutivas, que saiu no Jornal Publico de 13.07.14: 

A noção freudiana de “período de latência” serve ao filósofo americano Samuel Weber para analisar a história recente da Europa e o sentido das suas instituições, em função de categorias psicanalíticas e teológicas. 
Professor de Literatura Comparada na Nortwestern University, Samuel Weber faz parte de uma constelação americana da “Teoria” que atravessa vários campos disciplinares, a filosofia, a psicanálise, a teoria literária, os estudos culturais.
A ligação deste universitário americano à filosofia europeia, continental, fá-lo olhar para a Europa com a distância analítica de um não-europeu que conhece muito bem a “tarefa infinita” inerente à ideia europeia, essa ideia que lhe foi destinada pela tradição filosófica, mas que nunca impediu que este “continente espiritual” fosse o palco e o sujeito da violência e da barbárie cíclicas.
Autor de uma vasta obra, onde se destacam títulos como Mass Mediauras: Form, Technics, Media (1996), Theatricality as Medium (2004) e Targets of Opportunity: On the Militarization of Thinking (2005), Samuel Weber esteve em Lisboa para participar na Summer School of the Study of Culture, uma semana de palestras e seminários organizado pelo Lisbon Consortium, o programa de mestrados e doutoramentos em Estudos de Cultura da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica. O título geral da Summer School deste ano foi “Latências: Europa 1914 -2014”. A noção de latência tornou-se importante nos estudos culturais, sobretudo por via de um outro americano, Hans Ulrich Gumbrecht (Professor na Stanford University, e autor deAfter 1945. Latency as Origin of the Present), que também proferiu uma palestra. Samuel Weber é um estudioso de Walter Benjamin, traduziu Adorno para inglês e escreveu um livro sobre Freud. A sua crítica social e política é fortemente marcada por estas figuras de referência.
O que é um período de latência?
Fui buscar a noção a Freud, que diz, aliás, que não a pode definir de maneira exacta, na medida em que é algo que se torna invisível. Na teoria freudiana, a sexualidade infantil é muito activa até mais ou menos aos seis anos. Mas em seguida, com o complexo de Édipo, a sexualidade da criança fica num estado de impossibilidade e durante um longo período, até à adolescência, há um recuo da sexualidade manifesta. A energia sexual não desaparece, mas é utilizada para outros fins que parecem não sexuais, embora estejam ligados à sexualidade. E a sexualidade, para Freud, é sempre conflitual. Não é simplesmente a questão do desejo, mas o desejo que está em conflito com o mesmo e com o outro.

Mas como passa da dimensão da evolução do indivíduo para a periodização histórica?
A análise de Freud incide nos indivíduos, mas creio que a estrutura que ele analisa abre para os problemas colectivos, Por exemplo, o problema do complexo de Édipo: a certa altura ele é bloqueado pelo desenvolvimento daquilo a que Freud chama o super-ego. E o super-ego é uma instância intra-psíquica, individual, mas que reflecte toda a história e todo o passado da pessoa. E portanto é o momento em que os valores colectivos tradicionais entram no quadro do desenvolvimento individual, em que os valores e as experiências colectivos passam pelo super-ego, que tem um duplo sentido, em Freud: o sentido da interdição moral, mas também o sentido da emulação (“é preciso ser assim”). Essas interdições e esses desejos são canalisados por valores colectivos e tradicionais, específicos de uma comunidade e cultura, neste caso da Europa. Trata-se de certos valores europeus, dominados por uma longa tradição em que os valores cristãos são muito importantes, mas também muito contestáveis.
O período de latência de que fala começa quando?
Começa depois da Segunda Guerra Mundial. Quis-se instaurar instituições colectivas depois da Primeira Guerra, a Liga das Nações, mas não funcionou porque os interesses nacionais eram muito fortes e porque impuseram à Alemanha deveres insustentáveis. A Alemanha foi considerada como a única culpada da Primeira Guerra, e havia obrigações económicas que tornavam a função das instituições colectivas quase impossível. Depois, a Segunda Guerra provocou uma tal devastação que quase atingiu a sobrevivência da Europa. Na Primeira Guerra houve cerca de 17 milhões de mortos, mas na Segunda foram 60 milhões, mais o dobro dos deslocados, e uma destruição generalizada. Depois da Segunda Guerra não se podia continuar a Europa entregue a esses desejos auto-destrutivos e foi imposto um período que podemos chamar de latência, por analogia com a situação do indivíduo, segundo a teoria de Freud. Portanto, depois da Segunda Guerra houve a ambição de criar instituições para inibir e controlar as pulsões destrutivas, em relação às quais podemos estabelecer um paralelo com as pulsões sexuais do indivíduo. A ideia de um período de latência, aplicada à Europa, parece-me interessante, dadas as pulsões destrutivas dominantes. O perigo é que com o colapso das instituições da União Europeia destinadas a transformar as pulsões egoístas, narcisistas, individuais, em desejos colectivos, que podemos identificar com a União Europeia, se dê o retorno de pulsões maioritariamente destrutivas. É preciso ver de que modo o funcionamento das instituições esconderam as pulsões essencialmente egoístas das nações. Freud é aqui muito útil porque ele diz que a tendência civilizadora no período de latência não está separada do sexual, é apenas um outro modo de os impulsos narcisistas se dissimularem. Algo semelhante pode já estar a acontecer.
Um período de latência é equivalente a um período de transição?
Sim, mas a questão é: transição para o quê? O modelo freudiano é interessante porque não tem uma lógica progressiva, teleológica, que implica um avanço contínuo. A transição pode ser um retorno a algo muito destrutivo, ao qual está subjacente o narcisismo. O narcisismo individual pode ser transposto para o narcisismo dos Estados e para o narcisismo do sistema económico, que tem como fim a maximização do lucro, isto é, da riqueza que pode ser apropriada em termos privados. A apropriação privada da riqueza através do mercado pode ser vista como a expressão económica do narcisismo. A ideia que eu defendo é a de que este modelo narcisista está muito além da Europa, remonta à concepção bíblica de um Deus singular e exclusivo que responde assim à pergunta de Moisés: “Eu sou aquele que sou”. Esta ideia de um Eu que é singular e universal é, ao mesmo tempo, o modelo do narcisismo.
Trata-se, assim, de trazer o teológico para o nosso mundo secularizado e de fazer dele uma categoria interpretativa...
As categorias teológicas são muitas vezes negligenciadas. Habitualmente, quando as pessoas falam de economia assumem que vivem num mundo secular e que o capitalismo, por exemplo, nada tem a ver com a teologia. Tal ideia é desmentida num famoso texto de Walter Benjamin, O Capitalismo como Religião, no qual ele argumenta que o capitalismo é o sucessor da religião. A minha questão é a de que ele é de facto o sucessor da religião, mas no sentido desta continuidade narcisista em que um Deus se torna o indivíduo apropriador de riqueza. E apesar da mecanização e automatização generalizadas, pelos computadores e as tecnologias, o sistema ainda está muito ligado a esse indivíduo apropriador “humano, demasiado humano”. Por isso é que a sociedade precisa de imagens e rostos, seja de Bill Gates ou de Warren Buffett. Cada país conhece o rosto e o nome do seu homem mais rico, isso é muito importante para o sistema. O sistema, esse, é sem rosto, mas é importante que haja rostos, dos apropriadores e dos inimigos, o imigrante, o terrorista, o fundamentalista islâmico...
E assim vamos dar à célebre oposição de Carl Schmitt entre amigo e inimigo.
Mas os media, sobretudo os media televisivos, são também muito importantes, pois ajudam a dar um rosto ao sem rosto, e isso permite às pessoas pensar que vivem num mundo em que podem identificar toda e qualquer coisa com um rosto. Quando os americanos entraram em guerra contra Saddam Hussein, no Iraque, difundiram um baralho de cartas, cada uma delas com um rosto do governo de Saddam.
Voltando à questão inicial: a temporalização da história acelerou-se de tal modo que podemos perguntar se não é hoje difícil haver tempo para os períodos de latência.
A noção de aceleração e de velocidade podem estar ligadas a essa questão do narcisismo. Porque se o narcisismo tem a sua raiz numa concepção de identidade que pode remontar a um Deus criador monoteológico que se nomeia como “Eu sou aquele sou”, então isso significa que tudo se reduz ao presente e que o espaço e o tempo estão fundamentalmente subordinados ao tempo presente. A velocidade é, assim, um modo de tentar dominar ou superar o tempo, no sentido de uma auto-identidade, de um “Eu sou aquele que sou”. Os desportos profissionais são hoje concebidos como mecanismos de auto-produção narcísica. É possível e importante pensar um conceito não narcisista do Si [self]. Nietzshe talvez o tenha tentado no seu Zaratustra.
Na sua palestra, partiu de um texto importante livro de Derrida sobre a Europa, L’Autre Cap, onde ele desenvolve de maneira analítica o problema da identidade. Quanto a isso, a Europa é muito narcisista...
Isso faz parte dos seus problemas, mas também tem elementos que são o contrário disso. Penso que é muito importante ver os problemas europeus num contexto alargado, para que possa ser possível dizer o que é específico deles. Toda esta onda de privatizações não está só a atacar as estruturas do Estado mas também as estruturas sociais. A ideia de serviços públicos que não estejam submetidos ao motivo do lucro é cada vez mais rara. Hoje, a União Europeia quase obriga a que haja em todos os domínios competição privada. Os antigos serviços sociais estão, um a um, a ser privatizados. E, neste aspecto, é uma área muito importante é a das telecomunicações. Uma das grandes diferenças entre os Estados Unidos e a Europa é o facto de nos Estados Unidos osmedia, e pensemos no mais importante, que é a televisão, não terem a mínima obrigação em relação à esfera pública, pelo que todo o sistema político tem de funcionar através do mercado. O que significa que não se pode existir politicamente sem ter milhões e milhões de dólares para comprar tempo de antena. Na Europa, há ainda a ideia de que a televisão e a rádio são de alguma maneira, e num determinado grau, mesmo que reduzido, públicas. Dão tempo de antena aos candidatos. Nos Estados Unidos, isso não acontece. E a primeira coisa que se pergunta a um candidato não é sobre o seu programa político, mas quanto dinheiro é que vai conseguir angariar. Ao mesmo tempo, é importante perceber que isto pode dar origem a atitudes contrárias extremamente destrutivas. Já o fascismo era um ataque à plutocracia. O nazismo, por exemplo, não foi apenas anti-semita, foi também anti-plutocrata. E tentou estabelecer uma equivalência entre anti-semitismo e anti-plutocracia. Um dos seus mais poderosos elementos constitutivos era contra a regra do dinheiro. Mas isso está hoje completamente esquecido. Em vez disso, a historiografia concentra-se apenas no anti-semitismo e elimina todos os elementos anti-capitalistas do nazismo. O Partido Nazi foi conscientemente buscar elementos à crítica socialista do capitalismo. Mas depois converteram-nos numa política narcisista, em busca do rosto do inimigo: o judeu, o estrangeiro, etc.
O nazismo afastou-se então do modelo monoteísta do capitalismo...
Sim. O modelo monoteísta é muito importante porque diz que a única coisa que conta é a relação de si para consigo. E Deus é o exemplo disso. Um modelo alternativo, incompatível com o modelo monoteísta, seria aquele em que o Eu depende verdadeiramente da experiência com os outros, com o que vem de outro lado e está relacionado com outra coisa diferente, com a heterogeneidade. É isso, precisamente que encontramos em Derrida, em L’autre cap, o que tem certamente a ver com as suas origens, com a sua experiência de francês judeu que nasceu e viveu na Argélia.
Falou de algumas diferenças entre a Europa e a América. Continua a ser pertinente insistir nessas diferenças?
A América, em certa medida, deriva da Europa, mas de uma parte específica da Europa, aquela que lhe transmitiu o lado protestante, puritano. A essa parte original veio juntar-se outra, que tema ver com a eliminação brutal das culturas indígenas. Tudo na América foi centrado numa noção essencialmente protestante de indivíduo. O indivíduo branco como imagem de Deus. Ainda hoje, Obama fala da “excepção” americana. A América vê-se a si própria sob a forma de uma pureza protestante, como a imagem individual e excepcional do divino. Na Europa, a luta entre protestantes e católicos produziu uma diferente configuração da relação do indivíduo com o social, o que faz com que a dimensão colectiva seja muito mais importante. Na América, a única coisa que conta é o indivíduo e tudo o que acontece é da responsabilidade dele. Se tem sucesso, o mérito é todo dele, mas se não tem, se perde o emprego, por exemplo, o problema é dele.


quinta-feira, 10 de julho de 2014

Robert Sutton: Sobreviver nas empresas


“Antes de diagnosticar a si mesmo com depressão ou baixa auto-estima, primeiro tenha a certeza de que não está, de fato, cercado por idiotas” Freud

Não posso confirmar, para já, se esta afirmação pertence a Freud, mas é um óptimo concelho, sobretudo porque apela para a necessidade de interpretarmos os contextos da nossa vida e os papeis dos diferentes atores, antes de nos culpabilizarmos pelo mau ambiente (no trabalho...). Identifica também, o responsável por esse ambiente - o idiota - e o efeito que tem na nossa saúde mental.
Assim, idiota é todo aquele, que de um modo persistente, intencional ou não, retira a energia e a auto-estima das pessoas, seja em que contexto for (casa, trabalho, vida social…).

Para se libertar dos efeitos destas relações abusivas, deverá ter um plano, com base em alguns princípios básicos (para simplificar):
  • Ser capaz de identificar os idiotas – são detectados  pelo ataque à auto-estima e à energia vital do outro.
  • A culpa do comportamento do idiota, não é sua;
  • Acreditar que ficará bem, passada a tormenta.
A partir destas premissas, mais fácil é agora, elaborarmos o PLANO DE DESINTOXICAÇÃO:
  1. Mude a forma como vê a situação: evite a auto recriminação e o modo como até aqui interpretava e justificava o seu comportamento e o do outro - analise o seu pensar. 
  2. Desenvolva uma atitude de indiferença e desapego emocional (desligar emocional): significa auto preservar-se, que poderá passar por baixar as expectativas e a não se preocupar (tanto) com as coisas.
  3. Tente obter pequenas vitórias: escolher batalhas com possibilidade de alcançar sucesso.
  4. Limite a sua exposição: irá descobrir como fazer isto. Poderá passar por evitar opinar, participar em reuniões, encontros sociais…
  5. Construa bolsas de segurança, apoio e sanidade mental: está ligado ao item anterior, incluí o estabelecimento de novas relações sociais e/ou profissionais, alterações nos espaços de convívio e nas rotinas…
Encontra tudo isto e muito mais, neste guia de sobrevivência  do mundo do trabalho, através do  qual irá aprender a identificar  os idiotas certificados (nas palavras do autor) e como lidar com eles:


Robert Sutton* Sobreviver nas empresas - Aprenda a lidar com um mau ambiente de trabalho. Editora Actual

Professor na Universidade de Stanford

domingo, 29 de junho de 2014

Paradoxo da recuperação

Nigel Buchanan

Recuperação não se refere a um produto final ou resultado. Isso não quer dizer que se está "Curado". De fato, a recuperação é marcada por uma aceitação cada vez mais profunda das nossas limitações.
Mas agora, ao invés de ser uma ocasião de desespero, descobrimos que nossas limitações pessoais são a terra da qual brotam as nossas próprias possibilidades únicas. Este é o paradoxo da recuperação, ou seja, que ao aceitar o que não podemos fazer ou ser, começamos a descobrir que o que puderemos ser e o que poderemos fazer. Assim, a recuperação é um processo. É um modo de vida. É uma atitude e uma forma de abordar os desafios do dia-a-dia. Não é um processo perfeitamente linear, como as marés, a recuperação tem suas estações, o seu tempo de crescimento, para baixo na escuridão, para garantir novas raízes e em seguida, os tempos de sair à luz do sol. Mas acima de tudo, recuperação é um processo lento, deliberado, que ocorre através de um pequeno grão de areia de cada vez.” 
Patricia E. Deegan, Ph.D.*
  
Pela autenticidade do testemunho, esforço-me por me lembrar de uma experiência vivida de sofrimento. Da recuperação. Do período de transição de uma situação que não volta, ou que percebemos, por fim, que deliberadamente teremos de abdicar. Centra-nos. Temos de ser nós, da pessoa contra si mesma.
Talvez possamos reconhecer os erros, sem culpas, mas não poderemos começar do princípio. Do princípio não. Para outro destino. 
Sem que seja um salto no vazio, é urgente acreditarmos, pacientemente, que vamos ficar bem passadas as provações e que as dificuldades serão temporárias.
Qualquer mudança deverá parecer-nos bem-vinda, e trocarmos pelo caminho, os máximos desejos, por pequenas vitórias alcançáveis. Serão pedacinhos de controlo. Esta parte de nós resiste, mantém-se saudável, o sofrimento não contaminou tudo, mas nunca se sabe quando se estará pronto, sabe-se que pela metamorfose, se sobreviveu. 
O esperado, nas palavras de Coimbra de Matos, que possamos adquirir um modo de ser  "...mais resistente e sobremaneira mais eficiente de dar a volta por cima, construir uma outra e superior maleabilidade e endurance (tenacidade)".
Na transformação da dor, a ferida vira tatuagem, para no futuro, não nos esquecermos que fomos mais fortes do que aquilo que nos afetou e que devemos honrar a nossa evolução. 

* Patricia E. Deegan PhD "Recovery, Rehabilitation and the Conspiracy of Hope" (está online: http://www.state.sc.us/dmh/recovery_rehab_conspiracy.htm)

segunda-feira, 23 de junho de 2014

O amor que se vai | Flávio Gikovate



No mundo contemporâneo, os relacionamentos são menos definitivos e as separações ficaram tão cotidianas... Mas ainda sempre muito doloridas. Diante da perda de algo ou alguém importante, impossível não sentir que “meu mundo caiu”.
E já que estamos passando por uma epidemia de separações geradas pela crise mundial (perda de emprego, perda de bens, mudança de país, e separações amorosas propriamente ditas), talvez seja mesmo a hora de falarmos desse assunto indesejado.
Diante dos efeitos catastróficos de uma separação, é preciso ter também um lado prático. Se meu mundo caiu, como vou reconstruí-lo?
Palestra de Flávio Gikovate no programa Café Filosófico CPFL gravada no dia 30 de setembro de 2009, em São Paulo.
ACEDER aos 252 vídeos do Instituto CPFL, em

domingo, 15 de junho de 2014

Da esperança


Cena da série: Era uma vez… Canal axn, Portugal


A Branca de Neve para Emma Swan:
" Acreditar mesmo na possibilidade de um final feliz é algo muito poderoso.”

António Coimbra de Matos:
“Acontece também que aceitamos melhor a realidade se podermos imaginar transformá-la e tivermos a esperança de que isso seja possível. “ Relação de Qualidade: penso em ti, Climepsi Editores.

Do tormento, restou a consciência de que nos assenta uma possível mudança. Não o sabemos claramente, mas chega-nos diferentes e criativas formas de sentir. Poderemos estar prontos para uma próxima etapa.
A esperança surge, por definirmos metas, sermos capazes de planear e concretizar os nossos propósitos- a saudável busca do controle.
Na ligação com o outro (ou com o sistema político), de este nos conseguir convencer por meio de genuínas expressões, que está comprometido connosco. Fomos ouvidos e os nossos esforços reconhecidos. Sossegam as nossas inquietações. Agora, mais facilmente confiamos nele e na sua capacidade de não se deixar dominar pelos interesses que o possam desviar deste compromisso.

sábado, 14 de junho de 2014

Jorge Forbes

Entrevistas ao psicanalista Jorge Forbes

O PODER dos FRACOS

QUEM TEM SUCESSO É SOLITÁRIO




TRAIÇÃO

sábado, 7 de junho de 2014

sábado, 31 de maio de 2014

Os chatos

Winogrand foto

“Quando Graham se mostrava enfadonho era agressivo – tratava-se de uma forma de controlar, e de excluir, os outros: uma forma de ser visto, mas de não ver. Servia também, outro objetivo. Especialmente no contexto da sua psicanálise, protegia-o de ter de viver no presente, de ter de reconhecer o que estava a acontecer na sala.”
                                                              Stephen Grosz A vida em exame. Temas e debates
Transferindo para a vida real, motivações semelhantes podem justificar os comportamentos das pessoas a quem chamamos chatas. Mas devo acrescentar que, embora a atribuição desta característica possa ser subjetiva - cada um de nós lá sabe que tipo de pessoas costuma classificar na categoria -, é possível que as pessoas chatas ou enfadonhas apresentem como que uma fachada perante a qual, conscientemente ou não, escondem o que realmente sentem ou experimentam, naquele momento. Por este mecanismo, tornam-se opacas, pretendem dizer apenas aquilo que dizem, e não se importam de ser elas a falar sós ou que o outro fale só. Falta-lhes coragem para um verdadeiro encontro. Num próximo, voltam ao mesmo, num faz de conta a que chamam relação, o que muito aumenta a nossa prudência para com elas e o nosso enfado.
Miguel Esteves Cardoso escreveu na sua cronica de 10. Jan.14: “Hoje estou convencido que os chatos sabem que são chatos e que estão a chatear. E que têm prazer em chatear. É uma espécie de vingança ou de comédia. Para eles não são eles que chateiam: somos nós que pensamos que eles nos chateiam.”