segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Desejar viver

Gaspar David Friedrich, The stages of life


“Desejar viver só é possível quando temos fé nas pessoas. No seu amor e na função redentora que possam ter dentro de nós.” 
Eduardo Sá, Chega-te a mim e deixa-te estar



sábado, 15 de dezembro de 2018

As estruturas arcaicas


Autumn Rhythm (Number 30), 1950 by Jackson Pollock

"O grande desafio atual: lidar com fobias, pânico, transtorno bipolar, borderline, os chamados estados narcísicos. Todas estas patologias têm em comum o fato de serem estruturas arcaicas (criadas no inicio da vida, antes da linguagem e do amadurecimento da psique) ou seja: se instalaram antes do mecanismo da repressão. Na neurose, a repressão já está instalada, existe conflitos psíquicos e nessa etapa, é possível simbolizar o sofrimento. No caso do pânico, por exemplo, não existe esse conflito. Imagine o medo entrando na mente. Sem a parede de censura para barrá-lo ele a invade. E, como na estrutura arcaica não há possibilidade de simbolização, o que costuma ocorrer são dores e outras manifestações corporais" 

Plínio Montagna (psicanalista) em entrevista na Folha de S. Paulo"



Quando se apresenta fraca a capacidade de elevar o nível da abstração, o imaginário espalha dentro de nós a dor, e é dominado pela negatividade.


sábado, 8 de dezembro de 2018

As linhas da vida


Vincenzo Agnetti, Libro dimenticato a memoria (Book Forgotten by Heart), 1969, Archivio Vincenzo 

"As linhas da vida só são claras à superficie" Bertaux 1997

Que partes inteiras da existência ocultamos perante o outro? 

sábado, 1 de dezembro de 2018

O livre arbítrio



Eugéne Delacroix Young Orphan Girl in the Cemetery 1824

“ Porquê o teu furor, porquê o teu desespero? Dependeria de ti orientares-te para o melhor, para ganhares.” (Genesis 4, 10)

Somos completamente livres de fazermos o bem ou o mal


Tim Burton Big Eyes 2014

A violência silênciosa da perversão narcísica

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

O MENTAL – Festival da Saúde Mental




Tem como propósito combater o tabu e o estigma que envolve a saúde mental, trazendo-a à discussão popular através do cinema, das artes e da informação.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Aqueles que exigem muito dos outros


“Aqueles que exigem muito dos outros, na realidade, raramente dão muito aos outros.”

 Melanie Klein, Joan Riviere  Amor, Ódio e Reparação

domingo, 2 de setembro de 2018

A encenação

Jack Vettriano

Preedy, um inglês em férias, faz a sua primeira entrada em cena na praia do seu hotel estival em Espanha:

"(…) Dir-se-ia que a praia estava deserta. Quando por acaso aparecia uma bola lançada na sua direção, ele parecia surpreendido; deixaria depois um sorriso divertido iluminar-lhe o rosto (Preedy Simpático), olharia à volta, espantado por haver pessoas na praia, devolveria a bola com um sorriso para si próprio para ninguém, e depois retomaria a sua inspeção despreocupada e tranquila do espaço em redor.
Mas eram horas de proceder a uma pequena exibição, a exibição de Preedy Ideal. Com gestos subtis deixou à vista de quem quisesse olhar o título do livro que trazia – uma tradução espanhola de Homero, um clássico portanto, mas nada de audacioso nem cosmopolita – e a seguir fez cuidadosamente com o seu roupão de praia e com o seu saco, um único volume, protegendo-se da areia (Preedy Organizado e Atilado), ergueu-se lentamente para distender à vontade o corpo enorme (Preedy Grande Felino), e deixou cair para o lado as sandálias (Preedy Afinal- Despreocupado).
(…)
William Sansom, A Contesto of Ladies

Uma pequena parte, deliciosa, de um episódio romanesco da obra de William Sansom, utilizado por Erving Gofffman* para ilustrar a comunicação. 
Na situação, as intenções (inconscientes ou não), de impressionar as outras pessoas que se encontram na praia, podem ser correta ou incorretamente compreendidas, resultado que escapa ao controle de Preedy, podendo ficar a um passo de tornar-se ridículo.  

*Erving Goffman "A representação do eu na vida de todos os dias” – uma obra essencial que eu conservo religiosamente e recorro sempre que necessito compreender melhor o comportamento humano em sociedade.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

O novo paradigma do sofrimento mental



Michelangelo Merisi da Caravaggio Penitent Magdalene

"Com essa falta de tempo (da falta de tempo na modernidade), você não tem uma construção complexa do espírito. Freud falava muito dos sintomas, das construções patológicas. Hoje as patologias ficaram simplórias e pobres de representação. O pânico, por exemplo. A pessoa acha que está morrendo e não sabe falar disso, não tem discurso. As depressões melancólicas são grandes vazios. A pessoa precisa ter repertório de sofrimento, senão ela fica muda diante dos fatos, paralisada, dá branco. Um analista era visto, no senso comum, como um interpretador. Agora tem de ser um construtor. Somos construtores de sonhos. Com seu paciente, o analista passa a ser um construtor de acervo onírico, construindo uma cultura pessoal. Essa é uma mudança radical de paradigma de sofrimento mental."
Leopold Nosek, psicanalista, um dos maiores especialistas em Freud

Esta é a resposta de Leopold Nosek a Alice Granato, face à pergunta “ Que tipos de problema isso (a falta de tempo na modernidade) pode gerar?”, em entrevista publicada recentemente na Revista Época.
Dou-lhe especial relevância, porque refere-se no meu entender, a um novo fenómeno que se observa, com frequência, no apoio psicológico: as narrativas pessoais dos sujeitos são desprovidas de profundidade emocional. Pouco ou nada é problematizado, sentido.
É como se coisa nenhuma se passasse dentro do individuo, que tivesse significado para ele, nem parece padecer de um vazio que, mesmo angustiante, se declare comovente para quem ouve. Falta-lhe consciência do sentido de existência.

A entrevista na íntegra com o título "As grandes infelicidades não aparecem nas redes sociais e as grandes felicidades também não.": 

domingo, 29 de julho de 2018

Os firmemente ancoradas na realidade

William McGregor Paxton, 1909 

“… pode-se afirmar que existem pessoas tão firmemente ancoradas na realidade objetivamente percebida que estão doentes no sentido oposto dada a sua perda de contato com o mundo subjetivo e a abordagem criativa dos fatos.”  

Winnicott O brincar e a realidade

Estou a pensar naquelas pessoas que embora pareçam saudáveis, estão doentes. Conhecemo-las. Traçam um percurso de vida com base em pensamentos pouco profundos de que não se deve perder tempo com pobres, fracos, gente que não tem nada para dar, e em torno do qual organizam um mundo pequeno, preconceituoso e racista. O que lhes permite viver a vida, julgam, sem serem invadidos pela dor e pela perda, porque não suportam estar a sós com as suas angústias (Amaral Dias). 
São híper adaptados a um real que não transformam pela emoção.
E, educam os filhos nessa disciplina mental, de saber escolher quem interessa e quem não interessa, de modo a serem e estarem entre os melhores.






domingo, 15 de julho de 2018

Loucura #1



Mural de Blu - Marrocos 2012

“Se um adulto nos reivindicar a aceitação da objetividade dos seus fenómenos subjetivos, discernimos ou diagnosticaremos nele loucura” 

Winnicott, D., O brincar e a realidade

sábado, 23 de junho de 2018

Sempre que o desejo está comprometido


de Kyuim Shim

Colina “O Transtorno do Défice de Atenção com Hiperactividade deve ver-se como a reacção infantil a um conflito que retém o desejo, e algo de similar cabe dizer de muitos comportamentos dos chamados transtornos limite da personalidade na adolescência e na idade adulta. (…) Isto é, sempre que o desejo está comprometido, a acção inibe-se ou intensifica-se” ( in C. Rey, 2012)." (...)


quinta-feira, 31 de maio de 2018

Saber é diferente de conhecer

Timoleon Marie Lobrichon, Promenade des enfants

“Saber é diferente de conhecer.
O saber exprime-se pelas leis e meios da língua. O conhecimento é uma vivência acompanhada de um relativo sentimento de certeza e pode expressar-se por uma linguagem poética, meta consciente, metafórica e simbólica. O conhecimento implica um saber mesmo relativo.
O pensamento cognitivo não se pode isolar da evolução afetiva e relacional. O afetivo depende do cognitivo e este é de origem afetiva.
A aprendizagem das funções, o uso de instrumentos, o investimento dos sistemas são de origem afetiva e relacional.”
Teresa Ferreira A psicose e a escola
 Revista Portuguesa de Pedopsiquiatria nº 1



sexta-feira, 20 de abril de 2018

Um mundo misterioso



Todos os anos sou convidada para visitar o maravilhoso jardim de rosas da minha amiga.  Já aqui coloquei essas fotos. Apercebo-me que virou tradição. 
A anfitriã escolhe o dia certo que considera que as rosas se encontram no seu pleno esplendor. Eu espero por esse dia. 
Como todos os anos, a visita decorre com uma certa cadência, com passos lentos que por vezes voltam atrás de modo a observarmos melhor a singularidade de cada rosa. Esta é magnífica, a mais bela de todas. Não, esta por ser tão singela, é a mais bela...não...aquela.... Por fim, concluo que não é possível escolher a mais bela de todas, só admirá-las. Rendo-me
Mas este ano, a minha amiga tinha reservado uma surpresa para o fim. Na entrada do jardim, bem perto da porta da rua, local de passagem de  pessoas e dos cães da casa, por cima da minha cabeça, e próximo do sininho de ferro que faz de campainha, escondido entre um roseiral (que vos mostro na foto), um ninho com passarinhos, que fotografei, mas tremi com medo que o flash os cegasse.

Como é possível o pássaro ter feito um ninho bem perto de nós, do movimento das pessoas, da rua, dos carros e da vivacidade dos cães?
Quando penso que a natureza tem as suas regras bem definidas, não sei nada. Este mundo é mesmo misterioso!


"O homem deve sentir que vive num mundo misterioso, sob certos aspectos, onde ocorrem coisas inauditas – que permanecem inexplicáveis – e não somente coisas que se desenvolvem nos limites do esperado. O inesperado e o inabitual fazem parte do mundo. Só então a vida é completa. Para mim desde o inicio, era infinitamente grande e inabarcável.”
Carl Jung (psicanalista) enxertos de uma carta a um jovem erudito






sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Se eu ousasse...



Paula Rego Mulher - Cão

“Se eu ousasse deixar correrem em mim os sentimentos que recalquei cá dentro, se por qualquer hipótese eu vivesse esses sentimentos, seria uma catástrofe.”
 Carl R. Rogers Tornar-se pessoa

Não se consegue bater com a porta, ser-se indiferente aos abusos, negligências, incompetências, injustiças, à falta de respeito.
Não se sente um grande vazio. Pelo contrário, estamos atulhados de doutrinas que nos provocam náusea e revolta. Ninguém pode imaginar. Aguenta-se à calada durante muitos anos e durante esse tempo reprimimos sentimentos e desapegamo-nos de nós mesmos. Perdemos a coerência. 
Fica assim embutido em nós, o medo que uma energia demoníaca se liberte por uma fresta.
Se nos libertarmos da ideia que a impotência é expressão do nosso falhanço, a raiva primitiva e potencialmente destruidora perderá a sua força. Mas precisamos primeiro, ajustar contas com a nossa bestialidade para alcançarmos uma forma mais elevada de visão espiritual.
É chegada a altura de definirmos aquilo em que nos queremos centrar?