sábado, 28 de janeiro de 2012

Receio-te quando te aproximas, amo-te quando estás longe

“Receio-te quando te aproximas, amo-te quando estás longe” O Outro Canto de Baile, Assim Falava Zarathustra, Nietzsche

Não me surpreende que Nietzsche tenha tido, na realidade, este tipo de sentimento de ambivalência (a vontade de destruir e o desejo de reter), pressuponho que por uma mulher, pelo que se sabe das suas opiniões sobre as mesmas. Num abuso de confiança da minha parte, utilizo a sua confissão para ilustrar a imagem do “porco-espinho”: ao idealizar o outro e faze-lo acreditar que é alvo de atenções especiais, este envaidecido aproxima-se, mas devido a essa proximidade, vê-se repelido. Esta reação ocorre porque o sujeito receia ser dominado.
Torna-se enlouquecedor, porque tende-se a ser mal tratado em ambas as situações, o que confunde e culpabiliza a vítima, e colocando-a numa relação de dependência, aumenta a fantasia grandiosa de poder do sujeito. 
Está próximo da expressão brasileira “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, ou seja, “o outro torna-se ameaçador quando está demasiado perto ou demasiado afastado” (Os estados – limite, Patrick Charrier e Astrid Hirschelmann-Ambrosi, Ed. Climepsi).
Um ótimo conselho: "Não confundir intensidade (destas relações quando levadas ao extremo) com intimidade", aqui.
É um modo de "amar" típico na patologia borderline.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A técnica de representar papeis



retirada da página do artista josef fischnaller

“Desempenhando um papel ou representando um personagem, o individuo esquizoide* é muitas vezes capaz de exprimir muitos sentimentos e estabelecer aquilo que parecem ser contactos sociais perfeitamente convincentes; mas, ao fazê-lo, não está realmente a dar nada, porque, dado que está apenas a representar um personagem, a sua própria personalidade não está envolvida. Secretamente renega o personagem que está a desempenhar; e assim procura manter a sua própria personalidade intacta e imune de compromissos. Deve acrescentar-se, contudo, que, enquanto em alguns casos o individuo está perfeitamente inconsciente do facto de estar a desempenhar um papel e apenas consegue compreender este facto durante o tratamento analítico.”
Ronald Fairbairn Estudos psicanalíticos da personalidade Editora Vega


A técnica das técnicas:  representar uma personagem. Todos nós o fazemos de vez em quando, por razões diversas, improvisadas no momento ou quando já desistimos de acreditar que vale a pena o contacto emocional genuíno com aquela pessoa, ou naquela situação. Defendemo-nos.
Alguns de nós excedem-se, contudo, no uso destas máscaras que com o tempo, por cobardia ou contingências da vida, fortificam-se e anulam o nosso verdadeiro eu.
É esta técnica do falso eu que contribui para explicar os casos em que na intimidade da família se possa comportar de determinado modo, e fora de casa se possa ser o seu oposto, ou um outro diferente.
Creio ser também a preferida das personalidades narcísicas, que pela manipulação, fazem a sua vítima acreditar que entre os dois há afinidades e cumplicidades - representam um papel - , mas que abandonam esta máscara passada aquela fase da sedução, dando lugar ao verdadeiro eu.

*São características esquizoides: uma atitude de omnipotência; uma atitude de isolamento e desinteresse; uma preocupação pela realidade interior.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Carlos Amaral Dias

O negativo só se pode transformar em positivo se falarmos a verdade sobre o que estamos a sentir”  -   o psiquiatra e psicanalista Carlos Amaral Dias na Grande Entrevista da RTP de 19.01.12, sobre as implicações da crise na saúde mental, aqui.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Bout d'essai Marlene Dietrich screentest por astre


Teste de Marlene Dietrich para o filme “O Anjo Azul” em que interpreta o papel de Lola – Lola, uma cantora sedutora de cabaré que se apresenta como “uma mulher livre que escolhe os seus homens, ganha a própria vida e vê o sexo como um desafio”. Foi um êxito!

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Autoestima em Narciso




"...as pessoas que têm autoestima elevada são muitas vezes humildes, ao passo que os narcisistas raramente o são.” Psychology Today

Acho feliz esta clarificação, visto muitos de nós confundirmos a arrogância com autoestima. Julgo que na base desse equívoco está uma certa crença que a humildade está ligada à insegurança e é por isso uma fraqueza a evitar por nos deixar vulneráveis aos abusos dos outros. O que nos leva a  associarmos a arrogância à determinação, mas ela na verdade é muitas das vezes a expressão do domínio sobre o outro, por alguém que precisa de reparar o amor-próprio ferido.
Estas noções sobre autoestima, vulnerabilidade e outras dimensões, são mais facilmente compreendidas se recorrermos ao funcionamento das personalidades narcísicas.
Sobre elas, é habitual considerar-se que têm autoestima elevada devido às manifestações de altivez que exibem. Mas “narcisismo não é a mesma coisa que autoestima”.
O que se ajusta com a patologia narcísica, é a necessidade que o mundo e os outros revelem ao indivíduo o quanto é especial e tem valor, a que alterna com sentimentos de extrema vulnerabilidade (narcísica) a pequenas desatenções ou a reparos, que frequentemente interpreta como rejeição ou ataques pessoais que o podem levar à depressão e ao desespero.
Num nível ou no outro, quer a arrogância, quer a vulnerabilidade, devem-se nestas personagens, a um ego grandioso que tenta excluir a incalculável imperfeição de todos nós.

Para saber mais: psychology today

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

(nova) campanha da APAV

Quero aqui dar realce à nova campanha da  Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) lançada  hoje contra a violência nas crianças e jovens, com o título “Corta contra a violência: quem não te respeita não te merece”.
Rosa Saavedra daquela organização afirma no Jornal Público de hoje que é “uma mensagem forte, emocional, firme e assertiva que pretende constituir-se como um lema para a vida dos jovens."
É dar visibilidade a formas de violência frequentemente menos valorizada pela comunidade em geral, como a intimidação, o gozo, a humilhação, atitudes controladoras no relacionamento do namoro. São comportamentos que têm um impacto físico menos óbvio e que por isso tendem a ser desvalorizados, quando sabemos que tendem a evoluir para formas de violência mais graves".
Muito bem, digo eu - a violência silenciosa está a merecer atenção!!!

O site da APAV: http://www.apav.pt/portal/

Para pais e educadores
Como se dar conta que um filho está a viver uma relação com um namorado/a violento/a? Como perceber os sinais? Como abordar com ele/ela o assunto?

O documento (em inglês) - A Parent s Guide to Teen Dating Violence - é um guia que orienta os pais sobre esta temática de modo a que possam ajudar o /a filho/a que vive uma relação abusiva. Aceder ao guia, aqui.
O guia foi retirado de:  http://loveisnotabuse.com/web/guest/home





Eu sou eu na minha circunstância

O que diz a filosofia: Eu sou eu e a minha circunstância. Ortega y Gasset

O que diz a psicologia: Eu sou eu na minha circunstância – o que significa que vivemos de acordo com as nossas forças e fraquezas, mas se aumentarmos a nossa compreensão, consciência e conhecimento sobre os nossos assuntos, lidamos com eles de modo diferente e promovemos o bem-estar. 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A fúria da Rainha Má



Cena da série "Era uma vez..." canal AXN Portugal, em que a  Rainha Má afirma: "Vou destruí-la, nem que seja a última coisa que eu faça."

"Por outro lado, aquele que sofreu uma ferida narcísica não consegue sossegar enquanto não tiver reduzido a pó um agressor vagamente percebido que se atreveu a contrariá-lo, a discordar dele ou a brilhar mais do que ele. “Mágico espelho meu, haverá no mundo alguém mais bonito do que eu?” pergunta o self grandioso-exibicionista. E quando se diz que há alguém mais bonito, ou mais forte, ou mais inteligente, então como a perversa madrasta da Branca de Neve, ele nunca mais terá sossego, pois nunca mais conseguirá apagar a evidência que desmentiu a convicção de ser singular e perfeito.
Ainda que sejam diferentes as suas manifestações, todos os casos de fúria narcísica têm alguns aspetos em comum porque todos surgem da matriz de uma visão do mundo narcísica ou pré-narcísica. O modo arcaico de vivenciar explica por que todos aqueles que estão possuídos de fúria narcísica mostram total falta de empatia para com aquele que os ofendeu. Isso explica o desejo intransigente de lavar a ofensa que foi cometida contra o self grandioso e a fúria implacável que surge quando se perde o controle sobre o selfobjecto especular ou quando o selfobjecto onipotente não está disponível. E o observador empático há de compreender a importância mais profunda do estimulo aparentemente insignificante que provocou o ataque de fúria e não vai surpreender-se pela gravidade aparentemente desproporcional da reação. "

Heinz Kohut Self e Narcisismo Zahar Editores.

Palavra- chave: Fúria narcísica


Freud, Sigmund 1937; Localização: Áustria, Viena, Grinzing

"Todo o mundo tende a reagir à psicanálise como a uma ferida narcísica porque ele desmente nossa convicção de que temos total controlo sobre nossa mente."
Freud 1917



sábado, 7 de janeiro de 2012

Ser independente ou diferente


Autor: Josef Fischnaller

“Em outras palavras, o facto puro e simples de a outra pessoa ser independente ou diferente é experimentado como ofensivo por aqueles que têm intensas necessidades narcísicas.”
Heinz Kohut Self e Narcisismo Zahar Editores

Uma das maiores fontes de prazer: ser independente, embora não signifique que se seja desligado e sem vínculos.
Também uma das maiores fontes de inveja para os indivíduos que têm uma imagem grandiosa de si próprios, não reconhecem os seus limites, tentam controlar o outro - que é independente ou diferente, confiante e com vitalidade que só a liberdade proporciona - que por isto mesmo, abalou a convicção daquele que se acha poderoso e especial.
A auto-estima destes indivíduos com intensas necessidades desta gratificação pode depender deste domínio, à custa de um direito de cada um de nós: sermos livres de escolhermos quem queremos ser.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

As diferenças entre zanga e ódio

Zeng Fanzhi This Land is so Rich in Beauty, 2010

“Também nos zangamos. Mas a zanga é para corrigir o objeto; entra ainda no círculo do amor (psicopatologicamente, faz parte do especto da neurose e da depressão).
Coisa diferente é o ódio, que visa destruir o outro e é atributo da porção psicótica e borderline do funcionamento mental”
António Coimbra de Matos Relação de Qualidade: penso em ti Climepsi

Ama-me quando eu não merecer, porque é nesse momento que eu mais preciso”, diz um proverbio chinês.
Após uma zanga, surge o remorso pela nossa agressividade e a necessidade que o outro nos perdoe. Nos confirme que merecemos continuar a ser amadas, apesar de termos ferido, ou, apesar do que somos. Aceitarem-nos de volta faz-nos renascer – a nossa agressividade não o destruiu, nem destruiu a relação. Entristecemos enquanto isso não acontece, e por vezes desajeitadamente, solicitamos a reconciliação e acabamos por facilitá-la porque o outro, com todos os seus defeitos e qualidades que reconhecemos, é importante na nossa vida.
Outra coisa diferente é o ódio, e ele habita dentro de todos nós. Pertence à parte psicótica e borderline da nossa personalidade. Mas como diz o povo, todos temos demónios só que alguns de nós têm controlo sobre eles.
O que as vítimas de violência domestica, por exemplo, conhecem, é o ódio e não a zanga.
O ódio nas suas diversas e quotidianas manifestações (desvalorização, humilhação, desdém….), não tem em conta o que cada um dá de bom à relação, e o que quer que o outro faça para agradar não altera a sua natureza. O ódio é imutável, e orientado para atacar o amor-próprio do outro que não é reconhecido como pessoa total. Basta um gesto, uma palavra…que podem ser mais do que suficientes para despoletar uma ofensa pessoal sem sentido - não se trata do que a vítima disse ou fez - mas naquele momento  ligou-se a algo primitivo, inominável, pelo que, tende-se a perder a capacidade de refletir e ser empático para com a outra pessoa.
As tentativas de reconciliação são primárias e revelam dificuldade em se desenvencilhar dos conflitos. As palavras tornam-se dispensáveis, porque não vale a pena contrapor a sua própria opinião, visto “cada um fica na sua” e porque os pensamentos não são articulados entre si.
Ao romper a parte psicótica e borderline da personalidade, ficam frágeis a responsabilidade e culpabilidade pelo efeito do nosso comportamento no outro.