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sábado, 6 de abril de 2019

Paradoxo “Estar em baixo para chegar mais alto”


Ball of Light, Denis Smith


Não é fácil digerir o impacto que pode ter em nós em termos de emoções negativas, constatarmos que em certas circunstâncias, determinadas pessoas com algum poder político, social…ou com pretensões a tal, fingem não nos reconhecer ou dar pela nossa humilde presença.
Por muita teoria sociológica a que possamos recorrer para explicar estes fenómenos, é possível simplificar: todas estas pessoas têm em comum, a preocupação pela sua imagem e a dependência da opinião dos outros. Também têm em comum, a necessidade de manter essa imagem positiva com base nos resultados (muitas vezes fantasiados) das suas atividades ou em aptidões. É também uma forma de se libertarem do medo do ridículo que as atormenta. 
No seu livro “A arte de não amargurar a vida – Pensar Bem para Viver Melhor” (um bom livro de auto-ajuda) o psicólogo Rafael Santandreu apresenta um paradoxo que seria a solução para estes comportamentos: “para chegar mais alto é preciso saber estar em baixo e sentir-se bem”. 
O caminho é ser capaz de imaginar que é possível ser-se “menos” (como não ser em algumas situações?), ter valor e sentir-se confortável com isso. 
Para esta filosofia libertadora, também ajuda concentrar-se no que é realmente importante: a capacidade de amar e fazer coisas úteis e positivas para si e para os outros (estar em "alto"), mesmo sendo pobre, feio, ou desajustado ou.....(estar em "baixo").
Quando nos cruzarmos com pessoas que só nos conhecem quando lhes convém, talvez seja melhor pensarmos que elas não sabem o segredo: que é possível não se precisar de ser “alto”, para se sentir poderoso, e ser essencial na vida de alguém, até num encontro breve com um desconhecido.


sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Lobo com pele de cordeiro # 2

George Lambert Portait of a Lady (detalhe) 1916

As estatísticas deste blog revelam um interesse em saber mais sobre as personagens conhecidas por “lobos com pele de cordeiro” – psicopatas passivos  (sem moral e sem sensibilidade) -, para com certeza as pessoas se precaverem, já que pelo recurso a este disfarce conseguem esconder (durante algum tempo), as suas verdadeiras intenções.
Aqui está um enxerto de um texto de um autor que muito admiro, e que acrescenta a um outro já colocado neste blog, duas características destas personagens: a (pseudo) submissão aos poderosos e a capacidade de adaptação (podemos imaginar os estragos que causam nas famílias e nas organizações):
“A diferenciação clínica, proposta por Henderson (Henderson, 1939; Henderson e Gillespie, 1969), entre psicopatas agressivos e passivos tem, a meu ver, um imenso valor clínico. O tipo passivo é muito menos perigoso, pelo que pode abrir uma alguma brecha para a intervenção psicoterapêutica, por mais que a sua eficácia seja questionada. (...) O psicopata passivo aprendeu a lidar com os poderosos através de uma pseudosubmissão, levando a melhor sobre eles, explorando-os de forma passiva-parasita, o que, apesar de tudo, demonstra a capacidade para controlar no imediato a raiva e a fúria e transformá-las numa agressão em câmara lenta, tal como a do “lobo em pele de cordeiro”. Estes doentes podem negar a sua agressividade, e a divisão do mundo em lobos e cordeiros é complementada pela função adaptativa que tem o lobo disfarçado de cordeiro.”
Otto Kernberg Agressividade Narcisismo e Auto-Destrutividade na Relação Psicoterapeutica Climepsi



terça-feira, 25 de outubro de 2011

Esforços para enlouquecer o outro


O filme Gaslight - o marido (que intencionalmente colocou o seu relógio na bolsa da mulher) tenta numa 2ª fase levá-la a acreditar que está louca.

É um processo intencional, consciente e construído. 
Numa 1ª fase o agressor trata de fragilizar a vítima. Quando ela já está fragilizada, ela vira a fragilidade contra ela, com comentários do tipo: 
Você é tão sensível.
Você é tão emocional.
Você está na defensiva.
Você está exagerando.
Acalme-se e relaxe.
Você está louca!
Eu só estava brincando, você não tem sentido de humor?
Você é tão dramática. Supere isso, já!

São frases típicas do manipulador/agressor.

"O objeto enlouquecedor desfaz. …o principal atributo e correspondente ação do objeto enlouquecedor é o ataque ao  pensamento do sujeito, ao seu território mental – instalando nele o medo, a dúvida, a confusão. O fito é obter a incapacidade de pensar do sujeito; e , por fim , é o que acontece – o desmantelamento mental da vítima, seja, a anarquia psíquica." António Coimbra de Matos Relações de Qualidade Climepsi Editores.
Um artigo sobre esta temática (assédio moral, gaslighting  ...), da autoria de Yashar Ali, com o título Why Women Aren’t Crazy - Has gaslighting conditioned women into thinking they’re emotionally unstable?, aqui (The Good Men Project).

O fabuloso conto de Charlotte Perkins Gilman "O papel de parede amarelo", AQUI

Outro artigo sobre o mesmo assunto, em:
http://www.goodtherapy.org/blog/unreality-check-cognitive-dissonance-in-narcissistic-abuse-1007144
ou
http://www.goodtherapy.org/blog/gaslighting-a-slow-burning-emotional-abuse-tactic-0121154



sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Compreender os efeitos da rejeição


Kruger, Barbara Untitled (You are not yourself) 1982
Ser ignorado pelos outros ou posto de parte - quanto é necessário para experimentar a dor e para duvidar do sentido da vida? A resposta rápida: "Não muito", refere Dr. Todd B. Kashdan psicólogo e professor de psicologia na George Mason University, no artigo Understanding Rejection's Psychological Sting (aqui).
Experiencias recentes com um grupo de pessoas num jogo de computador, simples e inútil, demonstram que depois de apenas cinco minutos de não receber a bola, as pessoas sentiram um aumento em desespero, tristeza e hostilidade, e uma diminuição na auto-estima, sentido de controlo e sentido na vida.
Todd B. Kashdan sublinha que é fácil subestimar o poder da inércia do ostracismo da parte de pais, professores, chefes e amigos, e por tal negligenciam as consequências do mesmo em termos de sofrimento psicológico.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

O ódio branco

Peter Blake Viewpoint 1979


Ódio parece-nos um sentimento muito forte. Neste caso do ódio branco, não se trata de uma força destrutiva que persegue e mata. Não neste caso. Mas não deixa de ser mortífero na mesma, porque expressa-se de uma maneira indirecta, sub-reptícia, atacando o amor-próprio daquele a quem se dirige. Por isso se chama de ódio branco ou violência oculta.
São todas aquelas atitudes em que um recusa-se a tratar o outro como pessoa, ignorando-o, negando-lhe o direito a uma opinião, a um lugar.
Algumas vezes, o ódio é de tal forma intenso que leva à destruíção da consciência dele mesmo (Otto Kernberg). Pelo que, não permite que o indivíduo corrija os comportamentos e os efeitos nocivos que causou no outro.
Constituem atitudes perversas, cuja natureza não permite que as enfrentemos directamente. Quando são denunciadas, é frequente a vítima ser acusada de ser sensível demais, ou ter manias de perseguição.
É um ódio muito presente nas nossas vidas pessoais e laborais.
“Perante ele (esse ódio branco), a única relação justa consiste então - já que o outro, por sua vontade, se ausentou da relação – em sermos justos para connosco: importa recorrer a uma força de resistência para salvaguardamos o nosso lugar e defendermos os nossos direitos, e tal força terá de ser pelo menos igual à força que o outro utiliza para no-los negar. “
O Ódio Necessário Nicole Jeammet Editorial Estampa
(Mas não necessariamente uma força com os mesmos métodos)

sábado, 26 de março de 2011

Lobo com pele de cordeiro # 1

de David Parkins

Poderia recorrer à fábula “O lobo com pele de cordeiro” para ilustrar o comportamento das pessoas que usam um modo camuflado de violência. Mas no livro de fábulas de Fredo “A irmã e o irmão” parece-me mais próxima da nossa realidade:
“Um certo homem tinha uma filha muito feia e um filho admirável pelo belo rosto. Estes, brincando puerilmente viram por acaso um espelho. O rapaz gaba-se por ser formoso, a rapariga que não suporta os gracejos do irmão, corre para o pai, a se queixar do comportamento daquele. O pai, abraçando um e outro, e repartindo beijos por ambos com doce amor, disse: “Quero que vós useis do espelho todos os dias. Tu filho, para que não corrompas a beleza com vícios de maldade. Tu, filha, para que venças esta face feia com bons costumes.”

Como nos parece bem-intencionado este pai! Mas sobre esta capa, não deixa de humilhar os seus filhos, só que o faz com “uma forma erótica da hostilidade”(Robert Stoller). Fá-lo indirectamente – coloca entre a sua intenção de humilhar, os valores de humildade e correcção que qualquer pessoa aprovaria. É um perverso narcísico que utiliza a violência oculta, que não se vê à primeira vista, mas que lhe dá, aos seus olhos, a valorização de ser um bom educador que ama os seus filhos. Faz o mal fingindo fazer o bem.
A vítima só muito mais tarde se dá conta de um desassossego. De um estado de angústia inominável que aos poucos pode ser de tal modo lesiva que toma conta do pensamento, deixando-a invadida por emoções negativas. 
Nem sempre a violência é oculta, mas o propósito será sempre fazer valer as  necessidades pessoais de quem a pratica.
No ambiente familiar ou em outros contextos, aqui vos deixo os perfis destas personagens, por muitos considerados psicopatas passivos, gente mal-amada, que utiliza a sua agressividade de um modo parasita, ou pela sedução, ou pelo ataque directo ao amor-próprio do outro:

“Certas personalidades psicopáticas, de malignidade encoberta mas altamente patogénicas, procedem de modo atrás referido – mantêm em segredo a sua violência e deslealdade: vestem pele de cordeiro mas devoram como lobos. Entram neste grupo as personalidades passivo-agressivas, certos paranóicos com necessidade de controlo omnipotente do desejo e vontade do outro, uns tantos sádicos e exploradores, alguns perversos, as personalidades obsessivo-compulsivas (que controlam pela força) ou histéricas (que controlam pela sedução) regularmente compensadas, muitos doentes com perturbação narcísica que usam e abusam do ataque camuflado mas persistente ao narcisismo do outro e, por último, outras tantas pessoas repletas de inveja”.
António Coimbra de Matos, Violência inconsciente, Revista Portuguesa de Pedopsiquiatria, 1991, nº 2

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Manobras (2)


Já alguém deu pelas suas ideias serem deturpadas pela boca de outra pessoa e, suspeitamos que intencionalmente?
Vivemos situações em que fomos elogiados de maneira tão generosa que até desconfiamos?
Já ficamos totalmente invisíveis para alguém, quando era suposto que fossemos vistos por ele e acolhidos na conversa?

Nicole Jeammet em “O Ódio Necessário”, citando Recamier, define estes comportamentos, como estratégias que pretendem agir sobre a mente do outro “sem passar por palavras ou intenções verbalizadas”, mesmo que possam ser inconscientes.

O seu autor não nega que esteja envolvido na situação, isto é, não nega que nos viu, por exemplo. Razão pela qual não se trata do mecanismo de defesa “negação”. É sim , uma “denegação”, porque o acontecimento é usado a seu jeito.
Deste modo, são as necessidades pessoais de quem faz uso destes mecanismos, que prevalecem com a intenção de valorização pessoal. Usadas em excesso, constituem modos perversos de relacionamento. Costumam ser um recurso habitual,  para quem pretende o êxito social e profissional.

Deixo-vos três tipos de "denegação":
Denegação da alteridade. Exemplo: Trata-se de dizer ao outro, como ele é maravilhoso, superiormente dotado, inigualável. Um amigo (sem nos conhecer)! Ao recorrer-se à sedução, pretende-se tirar disso proveito pessoal.

Denegação do sentido. Já não é a sedução que é utilizada, mas o ataque. Exemplo: As nossas palavras são subtilmente desqualificadas, como no caso de uma mãe que prepara o banho para a filha, mas como a água está muito quente, e perante as queixas da criança, a mãe desqualifica o lamento justo, com outro - tanto a filha como o pai não lhe dão o devido valor.

Denegação do significado ou de ligação: Exemplo: Para o outro, nós não temos qualquer interesse ou valor, ao ponto de sermos “invisíveis”.

São manifestações de ódio branco (violência oculta) e resultam da inveja e da frustração.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Manobras (1)



Na verdade, a literatura psicanalítica não se refere a “manobras”, mas a “compensações”, que são mecanismos (de defesa) que utilizamos quando o nosso amor-próprio é ferido, e que as personagens narcísicas utilizam em excesso.
Trata-se de atitudes agressivas. Estes comportamentos, pretendem restaurar o orgulho ferido, aliviar a tensão e recuperar o sentimento de controlo nos outros e sobre as coisas, visto que para o indivíduo é humilhante não ser como deveria ser, o que dá origem à ansiedade.

Seguindo o pensamento de Hugo Bleichemar em “O Narcisismo”, não existe agressividade sem uma ideia na base, mesmo que a pessoa não seja consciente da mesma. Essa ideia, que se procura comunicar ao outro, é habitualmente, “ Eu sou poderoso e não frágil”.
Neste contexto, um conceito importante sobre as personalidades narcísicas - repor o orgulho ferido é mais importante que a satisfação da troca com o outro. Além do mais, dependendo da vulnerabilidade sentida,  quase tudo pode ser entendido como um ataque à auto-estima.
Outra ideia que parece-me importante para compreendermos, por exemplo a megalomania, é que não há no humano, a possibilidade de se ter auto-estima a mais.

Aqui vos deixo, alguns exemplos de defesas perante a ansiedade narcísica:
Megalomania
Exibicionismo secundário (exemplo da verborreia em público)
Don- Juanismo
Raiva
Negativismo (usualmente as pessoas identificam como“estar sempre do contra”)
Cultivo do ressentimento
Abuso do poder
Sadismo (é uma variante do poder, que se traduz em ter prazer em fazer o outro sofrer)
Masoquismo
Desqualificação do outro.


sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A verdade

O psicanalista Zimerman, escreveu: A verdade sem amor é crueldade e o amor sem verdade é paixão.
Vocabulário Contemporâneo de Psicanálise

Mas hoje não me apetece pensar na paixão. A primeira afirmação parece-me bem mais interessante. Remete-nos para aquelas situações em que ouvimos uma verdade, mas de mansinho sentimos uma profunda dor, vergonha e raiva contra nós mesmas por não a aceitarmos, com naturalidade. Essa verdade deixa-nos desamparadas e desarmadas. Se desenvolvemos estas emoções, é porque fomos sujeitas à violência oculta. E, a razão porque não a aceitamos, é porque a atitude de quem a proferiu não nos teve em conta. Não nos reconheceu.

A verdade só é verdade, sem crueldade, se a conseguirmos entender e suportar, ao ponto de criarmos novas ideias e comportamentos. Esta sim, é uma verdade que cura e nos dá liberdade para evoluirmos.