quarta-feira, 9 de setembro de 2015

A metáfora do Turista e do Vagabundo


Jef f- Wall The Trinker, 1986

“Manter o jogo curto significa tomar cuidado com os compromissos a longo prazo. Recusar-se a “se fixar” de uma forma ou de outra. Não se prender a um lugar, por mais agradável que a escolha possa parecer. Não se ligar à vida, a uma vocação. Não jurar carência e lealdade a nada ou a ninguém (…) consequentemente, já não há “para a frente” ou “para trás” o que conta é exatamente a habilidade de se mover e não ficar parado.”
Zygmunt Bauman “O mal – estar da pós modernidade” Zahar Editor

Podem ser variados os ambientes em que nos depararmos com pessoas que não mostram interesse em conhecer e se comprometer com o outro e com a organização na qual estão inseridos. Comportam-se como se não tivessem obrigações, e se lhes detetamos alguma adesão a um objetivo comum, quando damos por nós, já perderam a firmeza - conectam e desconectam como no mundo virtual. E, se se movem, não parece que o façam com conhecimento das matérias/realidades e com séria vontade em resolver os problemas. 
Ao desabafarmos a nossa indignação ou perplexidade, com alguém da velha guarda ligado à saúde mental, para além de considerar que poderá revelar-se uma  postura  altamente danosa caso ocorra em certos contextos, - na saúde, educação, justiça,,,- dirá que essas personagens encontram-se na linha do psicótico autista, pela ausência de consciência e ligação com o real.
Mas, outra leitura deste mesmo fenónemo está caracterizado no livro “O mal – estar da pós modernidade” do sociólogo Zygmunt Bauman, cap.VI, que recorre a uma metáfora para descrever a experiência dos indivíduos na atualidade - os turistas, que se movem, mas sem objetivos definidos e que “colocam os sonhos de nostalgia acima das realidades da casa”, e os vagabundos que se julgam livres por não terem de viajar de um lado para outro, sendo o movimento para estes, uma imposição.
Ambos detetam-se pela inconstância e incoerência, pelo que, a ideia não é criar, descobrir um modo de ser, mas impedir que uma identidade se cole demasiado depressa ao corpo.  
São seres errantes, tal como reafirma Carlos Amaral Dias, em “O obscuro fio do desejo”, dotados de desinvestimento afetivo, falta de ancoragem, sem lealdade para com as pessoas e para com os lugares.
Se as minhas palavras não vos seduziram, devo dizer-vos que a leitura de Zygmunt Bauman divertiu-me imenso, é muito humorada, mas tive de pensar em alguém em particular, no mundo do trabalho. É assustador e hilariante ao mesmo tempo, relembrar que até a postura se assimilava à personagem incarnada, e consoante as pressões do ambiente (prazos a cumprir…), verificou-se a alternância de vagabundo para turista, sem contudo perder a fluidez.


Acrescente-se que, todos nós, qualquer organização e respetiva liderança, podemos estar confinados a nos situarmos num contínuo entre o “turista perfeito” e o “vagabundo incurável”.

Para quem, tal como eu, quer acreditar em outro lado da existência humana no trabalho:



The Secrets of People Who Love Their Jobs | Shane Lopez