quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Falsos Deuses - cuidado com a nossa bondade


Peter Blake, from Illustrations to Through the Looking-Glass
and to show you I'm not proud, you may shake hands with me 1970

Não precisamos de falsas autoridades, pessoas ou ideologias que possam confirmar o nosso valor e que reduzam a nossa dignidade, sob uma imagem de respeito ou preocupação, mas que escondem a sua negatividade ou o seu ódio. O que não faz de nós poderosos. Faz de nós responsáveis pela nossa própria vida. Só precisamos do amor nas suas variadas formas. 

De um autor preferido, para reflectirmos que sentido faz atribuirmos poder a certas pessoas ou entidades:
“Nós que ainda estamos ancorados na compaixão temos de aprender a ser consequentes. Não no sentido de poderosos, mas no sentido de deixarmos de querer seja o que for daqueles que nada têm para dar. É a calamidade interior, a necessidade inadmitida de nos fazermos amar pelo inimigo, que impossibilita lidarmos de forma consequente com o Mal. Quando os adeptos deste reclamam a nossa comiseração, não temos de mostrar-lhes que os amamos. O que está por detrás de tal altitude é o desejo deles nos amarem, e esse torna-se a nossa desgraça por queremos algo deles. É este o ensinamento mais duro, porque sempre estamos dispostos a acreditar que toda a gente é capaz de sentir o amor.
Mas na realidade há gente que está separada de si a tal ponto que o nosso desejo de grandeza se nos torna fatal. Não lhes entregarmos o poder, privamo-los do amor por não o esperarmos deles, é o antídoto com que podemos vencê-los. Quando eles deixarem de poder jogar com as nossas expectativas, terão perdido o seu poder sobre nós e nós podemos dedicar-nos à construção do mundo, em vez de passarmos o tempo a consertar o rasto de destruição que eles vão deixando atrás de si.”
Arno Gruen Falsos Deuses Editora Paz

O psicanalista Arno Gruen nasceu em Berlin em 1923. Faleceu em Outubro de 2015. 

ENTREVISTA a Boris Cyrulnik


Tema: Resiliência
Entrevista realizada por  Lic. Patricia Faur em 2014, Toulon, Francia, nas IV Jornadas de SAPINE.

Uma outra entrevista, em: http://www.sab.org.br/portal/

Dr Boris Cyrulnik é neurologista, psiquiatra e psicanalista. Foi um dos fundadores do Grupo de Etologia Humana, ensina Etologia e dirige um grupo de investigação na Faculdade de Medicina de Marselha. Publicou, Memória de Macaco e Palvras de Homem e Sob o Signo do Afeto; Os patinhos feios entre outras obras.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A distinção entre imigrante e refugiado vale em tempo de paz. Mas estamos em tempo de guerra


Entrevista da Ana Dias Cordeiro a Roberto Beneduce, que saíu no Jornal Publico,a 30.11.2015, com o título “A distinção entre imigrante e refugiado vale em tempo de paz. Mas estamos em tempo de guerra

"Temos a nossa quota-parte de responsabilidade na crise que agora nos sufoca", diz Roberto Beneduce, fundador do Centro Franz Fanon, de apoio psicológico aos imigrantes e refugiados, em Itália.

O psiquiatra e antropólogo italiano Roberto Beneduce dirige em Turim o Centro Frantz Fanon, de apoio psicológico a imigrantes e refugiados, que fundou em 1996. Na semana passada, esteve em Lisboa a convite do Instituto de Ciências Sociais (ICS) para a apresentação da palestra Europa, refugiados e retóricas de crise no IV Fórum da Associação Portuguesa de Antropologia. Em entrevista ao PÚBLICO, o professor da Universidade de Turim e autor de variadíssimos estudos académicos diz que “a fragilidade dos imigrantes e refugiados é materialmente produzida” pelos sistemas europeus, e “não unicamente pelos [seus] passados traumáticos”.
Quando os refugiados chegam a um país de acolhimento do que precisam concretamente?

A primeira necessidade é a de ser protegido relativamente a um mundo que é entendido como um mundo que ameaça, que persegue. É preciso imaginar os cuidados como uma protecção. É a partir dessa relação de protecção que podemos considerar um trabalho terapêutico autêntico. Os imigrantes perderam a confiança no mundo. É preciso saber trabalhar com pessoas que se sentem vigiadas, ameaçadas.

Esse é um dos desafios para os países que acolhem?

A imigração obriga-nos a reflectir ao mesmo tempo sobre nós mesmos e sobre os outros, sobre as nossas sociedades, os nossos sistemas, a nossa formação do Estado, a nossa História. A mensagem que tento passar — e tentei passar na conferência de quinta-feira — é que temos de imaginar uma abordagem nova relativamente à questão da imigração. Não apenas de um ponto de vista administrativo e das leis, mas também de um ponto de vista do conhecimento daqueles que cuidam dos refugiados. A ideia é aceitar o desafio da incerteza. Eu trabalho desde o início dos anos 90, mas tenho de começar sempre, e de novo, a pensar os problemas. Não é uma questão de retórica.

Porque as circunstâncias das pessoas que chegam são sempre diferentes?

As suas circunstâncias são, em cada momento, diferentes. Mas ao mesmo tempo, ao longo dos anos, tudo muda: as leis europeias, o perfil dos refugiados, o contexto geopolítico. Durante a guerra na ex-Jugoslávia houve uma atitude positiva e agora há uma resistência.

As pessoas são menos tolerantes agora do que eram nos anos 90?

Não é apenas isso. O caso do Balcãs foi um caso em que fomos [os países europeus] de certa maneira responsáveis. Decidimos de certa maneira intervir. Os problemas eram muito próximos de nós e sentíamos uma necessidade moral, não só política, de intervir. Agora, é como uma coisa imprevista que quereríamos repelir e que continua a pôr em causa as escolhas políticas dos nossos governos. Nós somos co-produtores da imigração, não somos apenas países que acolhem. Somos co-responsáveis pelo que se passa. Devemos reconhecer de forma autocrítica a nossa responsabilidade passada e presente.

O desafio é inédito ou o maior que alguma vez existiu desde os anos 40?

O desafio é inédito, porque põe a nu os erros de uma política internacional que começam em 2001 com o ataque às torres gémeas [em Nova Iorque]. A partir de 2001, reproduzimos erros atrás de erros. E construímos um território de guerra do Iraque e Afeganistão até à Líbia. Temos por isso a nossa quota-parte de responsabilidade na crise que agora nos sufoca.

Quando diz nós, refere-se a quem? Aos governos europeus e também aos Estados Unidos?

Sim. É preciso reconhecer que há uma ignorância dos nossos ministros dos Negócios Estrangeiros que não são capazes de prever o que se passa. Somos, cada vez mais, confrontados com problemas que nos ultrapassam. E os nossos governos não são capazes de assumir a responsabilidade de uma ignorância que é trágica, com as consequências que daí resultam.

Atribui o mesmo tipo de responsabilidade à Europa e aos Estados Unidos?

Não posso generalizar a todos os países europeus. Cada país assume a sua própria política. Mas não podemos deixar de nos interrogar sobre o que, por exemplo, a França fez na Líbia ou no Mali, e a Inglaterra no Iraque. Não nos podemos limitar a reconhecer os erros quando há milhares de mortes entre civis. Vamos estar perante estes problemas por muito tempo. Muito trabalho será exigido. As dificuldades económicas que estão, há anos, na origem deste problema migratório não encontram respostas para já. As desigualdades estão a aumentar. E as desigualdades dos direitos são uma das razões fundamentais deste processo caótico de imigração.

O compromisso de recolocar 160 mil refugiados foi assumido no Conselho Europeu no final de Setembro. Dois meses depois, o processo continua muito atrasado. Qual a razão?

Não é difícil reconhecer a distância entre a dimensão do problema e a pequena medida da solução. O número de refugiados não pára de aumentar. Não podemos fazer uma divisão destas pessoas [por diferentes países] e pensar que, com isso, os problemas ficam resolvidos. É um esforço, um começo de resposta, mas verdadeiramente apenas o início. A lentidão da nossa resposta só aumenta o ressentimento dos imigrantes.

Esta demora cria um impacto psicológico nas pessoas?

Esta imprevisibilidade das leis, que não tem nada que ver com uma ideia de direito, de assistência, uma ideia de saúde ou de vulnerabilidade, cria o problema e produz sintomas. Estamos a criar um mal-estar, um sofrimento, uma sintomatologia, mas também uma agressividade. Amigos meus refugiados dizem-me que, se os governos continuarem a não dar respostas autênticas à situação dos refugiados, criarão problemas sociais ainda maiores. Não podemos pensar que as pessoas permaneçam anos a fio à espera nestes territórios, em campos, face a leis que mudam consoante o país, consoante o governo. Não há direitos humanos que sejam reconhecíveis, apesar da retórica utilizada.

Cada país de acolhimento devia ter centros de apoio psicológico aos refugiados, como aquele que dirige em Turim?

Absolutamente. É preciso imaginar estruturas com competências. Na Itália, os serviços públicos não têm necessariamente a competência para escutar este tipo de problemas, muito complexos e não apenas ligados à língua ou à cultura. É preciso desenvolver competências entre os profissionais da saúde e ter centros que possam ser considerados também como laboratórios onde outros conceitos comecem a ser postos em prática. Na Itália, na França, na Suíça e em Inglaterra, houve nos anos passados centros que deram um contributo para repensar os meios da cura e a eficácia da escuta. E agora existem outros centros. O nosso centro continua a ser uma referência.

Ao cruzar os conhecimentos da antropologia e a psiquiatria?

No nosso centro, os colegas questionaram-se sobre os limites do conhecimento e encontraram na antropologia um território necessário no trabalho com pessoas provenientes de um outro contexto geopolítico e cultura. Passaram a ter uma dupla competência: clínica, terapêutica, e ao mesmo tempo antropológica. Não podemos imaginar cuidar dos refugiados sem repensarmos os nossos instrumentos, as nossas categorias.

No centro, acolhem todos os migrantes: refugiados de guerra ou imigrantes económicos?

O apoio psicológico é dado a todos sem distinção, pessoas com ou sem estatuto de refugiado, em situação clandestina, pessoas cujos problemas psicológicos ou psicossociais precisam de ser tratados. O contexto de quem, há décadas, está confrontado com uma guerra de alta ou baixa intensidade provoca pobreza, incerteza e cria imigrantes económicos que vêm de contextos de guerras. E vice-versa: a pobreza alimenta conflitos e violências de todo o tipo.

Mas não é necessário distinguir entre refugiado e imigrante, quando são assumidos compromissos para o acolhimento?

É uma distinção que pode valer em tempo de paz. Mas estamos em tempo de guerra. A Líbia, o Mali, o Iraque, o Afeganistão são países cujas economias foram destruídas. Uma pessoa que não estava directamente exposta à violência, à tortura ou à guerra está, mesmo assim, exposta à pobreza, à incerteza, e tem o mesmo direito de escapar a tudo isso do que um sírio. Um escritor senegalês dizia que o jovem que emigra de um país procura fugir de um destino de mediocridade. Acho este diagnóstico sociológico muito eficaz. Se não há uma guerra, há um destino de mediocridade que ninguém pode tolerar, hoje.

A perda de confiança dos imigrantes não é apenas no seu país de origem?

Consideremos os países em guerra, onde o inimigo pode ser também o vizinho, ou pode estar na mesma rede familiar. Essa é a primeira ferida. A guerra e a violência fazem ruir a nossa classificação do mundo. O amigo e o inimigo deixam de ser reconhecíveis como antes. Mas, além disso, ao longo dessa viagem dramática para a Europa, os outros são, muitas vezes, uma ameaça, porque exploram o desejo da pessoa de chegar ao destino. Mesmo aquele que viaja connosco pode transformar-se numa pessoa que manipula o nosso projecto e que pode roubar o nosso dinheiro. A fuga dos países de origem é acompanhada de uma enorme crise moral.

Essa perda de confiança no mundo acentua-se à chegada ao destino?

Com toda a bagagem de sofrimento, quando chegam à Europa e são confrontados com leis, muitas vezes, inexplicáveis, ou com limites burocráticos que parecem ignorar completamente a tragédia pela qual passaram, continuam a questionar-se sobre o que fazer para serem reconhecidos como seres humanos, antes de serem reconhecidos como refugiados. A fragilidade é materialmente produzida e construída pelos nossos sistemas, e não unicamente pelos passados traumáticos destas pessoas. E se, durante muitos anos, uma pessoa não tem o direito de trabalhar, nem a possibilidade de ter residência, o mundo desaba todos os dias debaixo dos seus pés. É preciso dar uma protecção, no longo prazo, à fragilidade destas pessoas, que não podem ser de novo confrontadas com sistemas persecutórios e unicamente de controlo.
O traumatismo pode ser permanente?

Há traumatismos que deixam feridas profundas, mas essa profundidade pode ser um reflexo da falta de respostas e da sensibilidade nas sociedades de acolhimento. Por isso, digo que o traumatismo é, em muitos casos, terrível e que muitos deles têm um futuro que está comprometido. Muitas vezes, pessoas que conheceram tragédias deste tipo revelam-se incapazes de responder às expectativas dos outros. Manifestam frequentemente sintomas muito graves. Não podemos pensar que somos omnipotentes, que somos capazes de responder a todos os problemas. Mas à medida que aumentamos a nossa sensibilidade, os traumatismos muito graves podem recompor-se. Conheci muitas histórias em que houve uma melhoria na capacidade de restabelecer relações e de voltar a imaginar projectos. Na minha experiência clínica, vi muitas pessoas que tinham passado por dramas e que foram capazes de recomeçar a sua vida e de imaginar uma família. E também de se tornar um sujeito político, que pensa como resolver o problema dos outros.

domingo, 29 de novembro de 2015

É preciso dar sentido ao medo, torná-lo inteligível



A entrevista de Ana Gerschenfeld a Hélène Romano que saiu no Jornal Publico a 20.11.2015, com o título “É preciso dar sentido ao medo, torná-lo inteligível”:

“É difícil imaginar o medo que sentiram – e sentem – os parisienses no rescaldo dos atentados terroristas de há uma semana na sua cidade. A psicóloga francesa Hélène Romano dá-nos algumas chaves para o perceber.
Hélène Romano é especialista em psico-traumatismo e trabalhou durante mais dez anos na célula de urgência médico-psicológica do Val-de-Marne (arredores de Paris). Lida sobretudo com os problemas das crianças e das suas famílias na sequência de eventos traumáticos e, nos últimos dias, tem sido solicitada não só no terreno, mas também pelos media franceses para aconselhar os pais sobre como explicarem aos seus filhos os ataques terroristas de 13 Novembro. Em conversa telefónica com o PÚBLICO, falou-nos das especificidades desse medo – que de terror imediato pode transformar-se numa coisa tóxica, crónica, que invade e envenena a vida – e de possíveis maneiras de o controlar.
O principal objectivo do terrorismo é provocar o medo – o terror – nas populações. Quais são as manifestações específicas do medo na sequência de atentados como os do 13 de Novembro em Paris?
O medo evolui com o tempo: há o medo no próprio dia, no dia seguinte, há o medo das crianças, dos adultos. No momento do atentado, o que as pessoas sentem é mesmo terror, porque não percebem, há um sentimento de irrealidade, de pesadelo. É um medo a que não conseguimos dar um nome, que não conseguimos perceber. E nesse instante, pode haver reacções totalmente inadaptadas – por exemplo, as pessoas não procuram abrigo, estão em negação total, fogem, entram em pânico.

Passadas 48 horas, começa a haver informação, começa-se a perceber melhor. A grande maioria das pessoas costuma recuperar minimamente – e o terror transforma-se num medo mais “razoável”, por assim dizer, um medo que percebemos porque sabemos o que aconteceu, onde aconteceu e eventualmente por que aconteceu. É um terror mais elaborado e as nossas reacções tornam-se mais adaptadas.
É preciso dizer que o medo é uma reacção adaptativa, é um modo de defesa que inicialmente nos protege, que nos permite permanecer alerta – é algo de positivo. Mas pode tornar-se tóxico – e podemos dizer que, nas semanas a seguir, vemos por vezes o medo evoluir e transformar-se num transtorno. O medo adquire um carácter irrazoável, que se pode manifestar por perturbações como ansiedade, fobias, atitudes de evitamento, transtornos obsessivos-compulsivos e ainda outras patologias.
Portanto, o medo tem vários rostos ao longo do tempo. Passa-se frequentemente de um medo sem nome, que é o terror, a um medo que começa a ser decodificado – sabemos por que temos medo. E finalmente, em certos casos, mas não em todos, vemos um medo que se torna patológico, tóxico, e onde a pessoa fica novamente esmagada, sem capacidade para descrever o porquê e o como.
Qual é a proporção de pessoas que evoluem desta forma?
Os estudos de acompanhamento de pessoas que foram confrontadas com acontecimentos traumáticos mostram que cerca de 37% desenvolvem transtornos persistentes. Não é a maioria, mas é um número substancial. 

No primeiro mês, em termos psicopatológicos, não falamos em transtornos. Nesse período, as reacções de stress agudo são consideradas como adaptativas. O que não quer dizer que não façamos nada entretanto: começamos logo a reconfortar as pessoas, a acompanhá-las para que não fiquem sozinhas, para evitar precisamente que as coisas se tornem patológicas.
Só começamos a falar em transtornos patológicos preocupantes quando, volvido pelo menos um mês desde os acontecimentos traumáticos, os problemas subsistem pelo menos mais um mês. Ou seja, só consideraremos que os problemas de ansiedade de uma pessoa, decorrentes dos atentados do 13 de Novembro, se possam tornar patológicos a partir de 13 de Dezembro. É só falaremos mesmo em transtornos instalados, crónicos, a partir de 13 de Janeiro de 2016.
O que complica a situação é que, por vezes, os transtornos surgem muito rapidamente, mas noutros casos as pessoas não parecem perturbadas e só descompensam mais tarde.
Por exemplo, telefonou-me uma amiga que estava em Paris aquando da onda de atentados de 1995 [atribuídos ao Grupo Islâmico Armado, entre outros, na estação de metro Saint-Michel]. Tinha sido ligeiramente ferida, mas tinha ultrapassado bem a situação.
Ela vive hoje na região de Charente (Sudoeste da França), mas desde os atentados de 13 de Novembro que não consegue sair de casa, por causa dos pesadelos que tem tido, não sobre estes ataques recentes, mas sobre os atentados de 1995.
Desenvolveu agora comportamentos fóbicos, ritualizados, que antes não tinha. Mas os acontecimentos traumáticos que a assombram remontam a 20 anos!
A minha amiga está actualmente a viver uma situação insuportável, que invade a sua vida toda. Foi ver um médico, que lhe disse para ser razoável. Mas é precisamente isso que acontece com os transtornos pós-traumáticos: manifestam-se muito tempo depois.
Um outro exemplo diz respeito aos atentados de Janeiro [noCharlie Hebdo]: vemos pessoas que tinham recuperado bastante bem, mas que agora estão a desmoronar-se completamente, porque os ataques da semana passada reactivaram angústias de atentados, de insegurança, o sentimento de terem perdido o controlo da situação.
De facto, qualquer estalido pode reactivar o medo e suscitar reacções complicadas. E as sirenes de ambulância tornam-se assustadoras.
Este medo é diferente do medo provocado por outras vivências traumáticas, tais como acidentes de viação, a morte de pessoas chegadas, a violência e o abuso sexuais?
A especificidade deste medo é que é provocado por algo que não pode ser circunscrito, na medida é que um acontecimento destes pode surgir em qualquer altura.

Isso é gerador de uma grande insegurança psíquica. Por exemplo, em relação aos atentados nos aviões, as pessoas podem simplesmente deixar de viajar de avião; e para evitar os acidentes da estrada, basta deixar de andar de carro. Mas no caso de atentados como os de agora em Paris, a única solução é não sair à rua. E, a menos que se fique fechado dentro de casa, não há estratégia de evitamento possível, o que é obviamente complicado e difícil de suportar.
O medo das pessoas que foram fisicamente atingidas pelos ataques – os sobreviventes – é diferente do medo daquelas que viram os ataques na televisão?
É. As pessoas que estavam nos locais atacados viram imagens, cheiraram odores, ouviram ruídos. Isso é algo de altamente gerador de trauma. As pessoas que viram os ataques na televisão viram imagens, mas o impacto traumatogénico da experiência sensorial dos sobreviventes é certamente muito maior.

É possível lutar contra esse medo? Existem estratégias que permitem controlá-lo?
Há 15 anos que trabalho com vítimas de atentados enquanto especialista de psico-traumatismos, nomeadamente em meio hospitalar.

A primeira coisa a fazer é não ficar em negação. Mais vale reconhecer que temos medo e saber o que fazer com ele. Saber como esse medo se manifesta – e que varia de uma pessoa para outra. De facto, para controlar melhor o medo é preciso pôr nomes nas coisas. E no caso das crianças, por exemplo, tentar determinar quando é que o medo de cada uma é mais intenso, para poder pôr em prática, nessas alturas, estratégias de reconforto.
É preciso dar sentido ao medo, torná-lo inteligível – e é isso que tentamos fazer no nosso trabalho. E uma vez ultrapassado o estado de negação, quando as pessoas percebem que não devem ter medo do medo, têm de se perguntar o que é que mais as ajuda quando têm medo. Em termos pessoais, individuais, e também em termos colectivos.
É desta forma que conseguimos ajudar uma criança ou um adulto a recuperar a sua capacidade psíquica de resistir às situações complicadas. E é isso que fazemos. Não no próprio dia, claro, porque logo a seguir ao acontecimento é sobretudo preciso dar-lhes reconforto e permitir-lhes encontrar um ambiente onde se sintam seguros, mas mal começam a surgir transtornos irracionais.
Em relação às crianças, o que se deve fazer? É importante falar com elas? Nós próprios temos dificuldade em perceber o sentido dos atentados, o que dificulta ainda as explicações que podemos dar às crianças…
Pois. As crianças precisam sobretudo de saber que os seus pais estão lá, que não os vão deixar cair. O facto de os pais explicarem o que se passa pode ajudar uma criança de quatro, cinco anos, a perceber por que é que agora, em Paris, há na rua tantos militares por todo o lado. Porque é um facto que a vida dos parisienses mudou, pelo menos nalguns bairros. É preciso explicar que há maus muito, muito maus – pode mesmo falar-se em terroristas e dizer que não são uns maus quaisquer.

Mas se os pais acharem muito complicado explicar essas coisas aos filhos, então podem sempre admitir, tanto aos mais pequenos como aos mais velhos, que acham complicado e que não conseguem explicar, porque não percebem bem o que está a acontecer.
E, sempre, repetir que estão junto deles, que gostam muito deles e que nunca os irão abandonar. Abraçá-los e dar-lhes beijinhos para os reconfortar. Isso dá às crianças um sentimento de segurança, o que já por si é um passo enorme, enorme.
Mas os pais de crianças mais velhas têm de lhes dar os meios de se protegerem quando estão na rua.
Sim, e é por isso que, em relação às crianças já com três, quatro anos, que vão a escola e que vêem o que se passa na rua, convém clarificar as coisas e explicar que vivemos num contexto particular. Os pequenos sabem o que é a guerra através dos filmesNão se trata de lhes dizer que o país inteiro está em guerra, porque a realidade também não é essa, mas que há actos de guerra, chamados actos terroristas, explicando-lhes que são pessoas más, más, más. E a partir dos cinco, seis anos, também é possível transmitir-lhes, embora elas possam não perceber logo, a ideia de que estes terroristas são “ideólogos” – que são pessoas que, quando os outros não pensam como elas, querem destruí-los. E que as vezes até estão dispostos a se destruírem a si próprios para destruir os outros.

Tudo isso permite dar sentido às coisas. É um pouco como quando um pai ou uma mãe tem um cancro. Como a palavra cancro mete medo a toda a gente porque é conotada com a morte, as crianças dizem que o pai ou a mãe “está doente”. Mas de cada vez que alguém estiver doente, a criança vai achar que é a mesma coisa. E nós vemos, nas crianças que acompanhamos, que é mais reconfortante e estruturante pôr as palavras certas nas coisas, e dizer que a mãe ou o pai tem uma doença muito, muito, muito grave – e eventualmente rara –, chamada cancro. É uma doença particular. O mesmo vale para as doenças psiquiátricas. “Não vamos falar em esquizofrenia”, ouvimos dizer, “é muito complicado!”. Mas em última análise, dizer a uma criança que alguém tem “um dói-dói na cabeça” não a faz sentir-se mais segura.  
Publicou um livro com o neuropsiquiatra francês Boris Cyrulnik, conhecido pelo seu trabalho sobre a noção de resiliência psicológica. O que é a resiliência?
A resiliência é a capacidade de se desligar de um impacto traumático. E o que sabemos através de estudos sobre a resiliência é que não estamos todos em pé de igualdade nesta matéria.

A resiliência depende dos recursos prévios, do contexto do trauma e dos recursos disponíveis a seguir. Os recursos prévios são a capacidade de se proteger. Uma criança que foi criada num clima de confiança em si e nos outros sabe que, quando acontece um drama, pode contar com os outros, que não está sozinha no mundo.
Depois há o contexto: durante os atentados, uma criança que estivesse sozinha, que não tivesse o pai ou a mãe para a reconfortar, enfrenta agora uma situação extremamente complicada. É o caso, por exemplo, de um menino que estou actualmente a acompanhar, que tem cinco anos e que perdeu o pai e a mãe nos ataques de 13 de Novembro.
Quanto aos recursos posteriores, sabemos que uma criança ou um adulto que consigam reencontrar um ambiente seguro, protector, os seus marcos de referência, que tenham pessoas que cuidam deles vão sair-se muito melhor do que alguém que fica sozinho. E mais ainda, quando está com pessoas que lhe dizem que afinal não está assim tão mal – nem sequer morreu. É por vezes difícil ser reconhecido como vítima, como ferido psíquico de um atentado.
Há personalidades mais resilientes do que outras face a ataques terroristas? Isso pode dar pistas sobre o que fazer para as pessoas se prepararem para acontecimentos futuros?
A resiliência de que fala Boris é a resiliência individual – e é certo que há pessoas mais resilientes do que outras. Mas há também um outro tipo de resiliência, que não é uma ideia nova – e que não faz de todo parte da cultura francesa. É a noção de resiliência colectiva, isto é, do grupo. A força da comunidade, da família, a valorização desses aspectos. A França é um país muito individualista.

Mas tem havido sinais, nos últimos dias, de uma certa resiliência colectiva por parte dos parisienses.
Sim, e o que esperamos é que a mobilização a que temos assistido nos últimos dias, com uma identificação mais forte das pessoas do que a seguir ao ataque ao Charlie Hebdo, permita que as pessoas reaprendam a cuidar de si e dos outros.

Em Janeiro, para além de a mobilização ter sido mais limitada (circunscrita a uma certa profissão e a questões religiosas), foi de curta duração, as pessoas esqueceram. O que esperamos é que agora ela dure mais do que uns dias.


sábado, 28 de novembro de 2015

Encontro Científico de Homenagem a António Coimbra de Matos

SABER mais: https://www.facebook.com/antoniocoimbradematos




ENTREVISTA de Clara Soares, psicóloga e jornalista, publicada na revista Visão, a 14.12.2015, com o título "O homem que trouxe o afeto à prática clínica"

domingo, 22 de novembro de 2015

Narciso por Carlos Amaral Dias

“Retomaríamos aqui, ainda que de outra forma, o mito de Narciso. A tragédia que o mito de Narciso descreve não diz respeito apenas à incapacidade de amar, ou ao amor voltado para si mesmo e que exclui o outro, mas também nos remete para a impossibilidade de alguns sujeitos terem uma vida própria, na medida em submergem no desejo ou na dificuldade de quem cuidou deles nos momentos iniciais, É que a mãe de Narciso, por temer que a beleza dele pudesse ofender os deuses ignora e interdita nele o que ele tem de mais particular: a sua beleza. Narciso, por sua vez, submetendo-se ao temor materno, fica cego em relação à sua própria beleza, desconhecendo o que há de mais singular em si próprio”.

Carlos Amaral Dias O obscuro fio do desejo Fim de século

A mãe de Narciso ao não reconhecer e aceitar o que o seu filho tinha de particular - a sua beleza -, e por temor dessa diferença, interpela sobre o futuro, Tirésias, que simboliza a autoridade do perito, o especialista, o poder masculino.
É a metáfora da obsessão pela normalidade, de uma mãe frágil, insegura do seu papel, estendendo estas dificuldades ao filho, que se manifesta, por isso, incapaz de trilhar a sua identidade única e singular.

O meu tributo a Carlos Amaral Dias, com quem se aprende sempre, penetrante, o que só acontece com os grandes autores.

Pintura de Jorge Rodriguez Gerada


sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Entrevista a Carl Gustav Jung


Entrevista realizada com o psicólogo suíço Carl Gustav Jung em sua residência, na cidade de Zurique, Suíça.

sábado, 17 de outubro de 2015

Sentido e significado

Daniel Blaufuks

O jovem de hoje, quando pergunta se você “está ligado?”, não está sendo tonto e nem superficial, como podem pensar os seus pais. Não se trata no “tá ligado?” de uma banal linguagem fática, de testagem do canal comunicativo. O que ele pergunta é se o que faz sentido para ele, de uma forma única, faz sentido para você. Sentido e não significado. Algo que toca um, também toca o outro, mas de maneira diferente. E essa diferença é sustentável. As pessoas não precisam compartir o mesmo significado para estarem juntas. “
Jorge Forbes Girassois clinicando as psicoses.


Cada um de nós ao longo da vida experienciou situações diferentes, com pessoas distintas, e em contextos emocionais irrepetíveis. Dessas vivências, em particular na família, vingaram significados pessoais sobre as coisas – a posse do outro sinónimo de “amor”; mais tarde, numa relação, achar que não é amado quando o outro se distancia….
O princípio de ficar próximo é compreendermos que,  com este património pessoal de significados, ouvir o outro é mudarmos a nossa percepção, desbravar memórias até ao osso, por vezes chegadas de tão longe, de maneira a nos aproximarmo-nos do seu real pensar e sentir, e encontrarmos, não necessariamente o mesmo significado – que milagre seria -, mas sentidos partilhados.
Não perceber o que toca ao outro, a persistir, é a expressão da não ligação, sem violência, sem crueldade, mas desoladora. Não há vida em conjunto para viver. 


sábado, 3 de outubro de 2015

Raivas adolescentes

Uma passagem do artigo de Daniel Sampaio psiquiatra e terapeuta familiar, editado na Pública de 29 de Maio 2011, com o título Raivas adolescentes:
 "  (...)
 A raiva é sempre destruidora se for deixada crescer sem a entendermos. Se a enterrarmos, poderá contribuir para uma depressão. Se a "tratarmos" com álcool ou drogas, procurando que essas substâncias a acalmem, passaremos a ter mais um problema. Se a exteriorizarmos sempre, poderemos transformar-nos em alguém conflituoso e insuportável.
    É fundamental conhecer a raiva destes adolescentes agressivos. Muitas vezes viveram com pessoas sem controlo emocional, que veicularam sempre a ideia de que a violência tudo pode resolver. Noutros casos, viveram em famílias "perfeitas", onde ninguém podia gritar e qualquer manifestação agressiva era associada à loucura: na adolescência, na luta pela autonomia, a raiva finalmente libertada encontra nos mais próximos o alvo preferido. Por vezes, são vinganças face a pais maltratantes na infância (abusadores, por exemplo), que explodem quando o medo físico dos familiares é agora ultrapassado por um corpo juvenil cheio de energia.
    Compreender não significa mudar. Feita a história da relação, é crucial intervir. Conhecer a raiva. Compreender que não se fica agressivo para sempre. Perceber que não se pode ficar parado, num ritual de progressiva auto-humilhação. Concluir que intimidar os outros nos pode deixar mais sós (....)"


AJUDAR OS ADOLESCENTES A DISCRIMINAR AS EMOÇÕES QUE ESTÃO NA BASE DA RAIVA (de modo a definir um plano de ação)



quarta-feira, 9 de setembro de 2015

A metáfora do Turista e do Vagabundo


Jef f- Wall The Trinker, 1986

“Manter o jogo curto significa tomar cuidado com os compromissos a longo prazo. Recusar-se a “se fixar” de uma forma ou de outra. Não se prender a um lugar, por mais agradável que a escolha possa parecer. Não se ligar à vida, a uma vocação. Não jurar carência e lealdade a nada ou a ninguém (…) consequentemente, já não há “para a frente” ou “para trás” o que conta é exatamente a habilidade de se mover e não ficar parado.”
Zygmunt Bauman “O mal – estar da pós modernidade” Zahar Editor

Podem ser variados os ambientes em que nos depararmos com pessoas que não mostram interesse em conhecer e se comprometer com o outro e com a organização na qual estão inseridos. Comportam-se como se não tivessem obrigações, e se lhes detetamos alguma adesão a um objetivo comum, quando damos por nós, já perderam a firmeza - conectam e desconectam como no mundo virtual. E, se se movem, não parece que o façam com conhecimento das matérias/realidades e com séria vontade em resolver os problemas. 
Ao desabafarmos a nossa indignação ou perplexidade, com alguém da velha guarda ligado à saúde mental, para além de considerar que poderá revelar-se uma  postura  altamente danosa caso ocorra em certos contextos, - na saúde, educação, justiça,,,- dirá que essas personagens encontram-se na linha do psicótico autista, pela ausência de consciência e ligação com o real.
Mas, outra leitura deste mesmo fenónemo está caracterizado no livro “O mal – estar da pós modernidade” do sociólogo Zygmunt Bauman, cap.VI, que recorre a uma metáfora para descrever a experiência dos indivíduos na atualidade - os turistas, que se movem, mas sem objetivos definidos e que “colocam os sonhos de nostalgia acima das realidades da casa”, e os vagabundos que se julgam livres por não terem de viajar de um lado para outro, sendo o movimento para estes, uma imposição.
Ambos detetam-se pela inconstância e incoerência, pelo que, a ideia não é criar, descobrir um modo de ser, mas impedir que uma identidade se cole demasiado depressa ao corpo.  
São seres errantes, tal como reafirma Carlos Amaral Dias, em “O obscuro fio do desejo”, dotados de desinvestimento afetivo, falta de ancoragem, sem lealdade para com as pessoas e para com os lugares.
Se as minhas palavras não vos seduziram, devo dizer-vos que a leitura de Zygmunt Bauman divertiu-me imenso, é muito humorada, mas tive de pensar em alguém em particular, no mundo do trabalho. É assustador e hilariante ao mesmo tempo, relembrar que até a postura se assimilava à personagem incarnada, e consoante as pressões do ambiente (prazos a cumprir…), verificou-se a alternância de vagabundo para turista, sem contudo perder a fluidez.


Acrescente-se que, todos nós, qualquer organização e respetiva liderança, podemos estar confinados a nos situarmos num contínuo entre o “turista perfeito” e o “vagabundo incurável”.

Para quem, tal como eu, quer acreditar em outro lado da existência humana no trabalho:



The Secrets of People Who Love Their Jobs | Shane Lopez 

domingo, 2 de agosto de 2015

Entrevistas na rádio


Shrink Rap Radio is a popular psychology podcast hosted by David Van Nuys, Ph.D., and features many leading experts in various categories of psychology, psychotherapy, and other mind/body related topics.  You can find this podcast by searching iTunes for “Shrink Rap Radio” under podcasts or go to the website www.shrinkrapradio.com and download the many interviews Dr Van Nuys has freely available. We would also encourage regular listeners to financially support Shrink Rap Radio as it is a wonderful treasure house of wisdom and knowledge for all psychologists and therapists alike.

http://shrinkrapradio.com/

segunda-feira, 13 de julho de 2015

A mais eficaz defesa contra a depressão

Leonardo da Vinci Estudos para a cabeça de dois soldados

“A melhor e mais eficaz defesa contra a depressão é a paranoia: a defesa à fase anterior da relação de objeto.”…”(Matos 1981)

Esta agressividade dirigida para fora é a melhor e mais eficaz defesa contra a recusa a entristecer e se colocar em questão, que poderia levar à autodestruição.
Vive-se, como se não se conseguisse identificar o ressentimento e a raiva, insuportáveis, mas que criam um estado de tensão que atravessa tudo, a exigir descarga de emergência, projetada nos outros, como se eles fossem a causa do seu sofrimento.
Não se tenta perceber porquê, podem pensar o que quiserem, os outros são o inimigo, os exploradores, aqueles de quem se deve suspeitar e com quem se tem de reagir, intensa e persistentemente. 
Nada é claro, tudo é retorcido.
A maior esperança é que  “…(os outros) se corresponsabilizem pelos seus impulsos e não se limitem a criticá-los por causa deles” (Domingos Neto).
O único conhecimento que se tem de si próprio é o que advém desse controle e sobre o qual se ergue o culto do eu.

sábado, 13 de junho de 2015

Da confiança

Alex Colville, Snow

“A um nível superior, as decisões dos indivíduos parecem ser guiadas por uma tendência geral em confiar nos outros, em detrimento de uma simples aproximação à maximização da utilidade esperada. No fundo, tal significa que estamos dispostos a aceitar algum grau de vulnerabilidade caso tenhamos uma expetativa positiva acerca do comportamento dos outros.”
Luís Fructuoso Martinez Uma questão de confiança Psicologia para todos
  
É preciso que se reafirme a ideia, a personalidade saudável tem como características a capacidade de confiar nos outros e saber em quem é conveniente confiar (John Bowlby), e, acrescento eu, na disfuncionalidade da relação, travar a tempo, antes da perda de confiança em si mesmo.  
É uma das nossas riquezas, a necessidade de acreditarmos no outro e de não estarmos sempre à defesa. 
Resta-nos esta dependência, que nos deixa à mercê de um encontro que irá trazer desilusões e introduzir contradições no eu, mas ao não ser perfeito, que se possa encontrar o semelhante, se encontrar no seu olhar, e que ele tenha um sentido de afeto.

domingo, 7 de junho de 2015

ENTREVISTA a José Gameiro


Entrevista de Anabela Mota Ribeiro ao psiquiatra José Gameiro, que saiu na Revista 2 do Jornal Publico a 5 de abril de 2015, como título “E se trocássemos umas ideias sobre a vida  do casal?:


"Há casais que o consultam e se sentam longe um do outro. Outros repetem que continuam a gostar da pessoa com quem vivem, não sabem é ser felizes com ela, no todos os dias. 

josé Gameiro nasceu em 1949. É psiquiatra. No consultório onde nos encontramos, numa manhã de terça-feira, há maples individuais e um sofá onde cabem dois. Há casais que o consultam e se sentam longe um do outro. Outros repetem que continuam a gostar da pessoa com quem vivem, não sabem é ser felizes com ela, no todos os dias. O problema é o todos os dias. O problema é o outro ter outro. O problema é o outro ser inaturável, criticar de mais, ter uma família de origem chata. Consultam-no a ver se ainda conseguem ser felizes. Alguns separam-se, outros reconstroem-se. Porquê, para ele, a terapia conjugal? “O meu fascínio profissional pelos casais tem tudo a ver com a história dos meus pais, ainda que o encontro com a terapia familiar tenha sido causal.” O que é que um terapeuta conjugal faz, exactamente? “Trabalho a possibilidade de o amor ser vivido.”


As pessoas estão numa relação para amar ou ser amadas?
A maior parte das pessoas está para as duas coisas. Ser amado é tão satisfatório como amar. As duas coisas são complementares. Mas ser amado é mais uma construção do que amar. Posso sentir que sou amado, e se perguntar à outra pessoa, ela pode achar que não me ama tanto, ou que me ama mais do que sinto.


A reciprocidade é fundamental para o sucesso de uma vida amorosa?
Para mim, individualmente, é fundamental. Já conheci pessoas que amaram com a sensação de não serem amadas da mesma forma e que conseguiram viver essa situação. Se vivem sem sofrimento, tudo bem. Também já vi muita gente que, em fases críticas de uma relação, achou que, para trás, nunca tinha sido amada, ou que nunca tinha amado. E alguém que está deprimido pode achar que faz sentido não ser amado porque não presta para nada.


Pergunta-se: “Porque é que o outro havia de gostar de mim?”
Sim. Há pessoas que vivem relações de 30 anos sempre a pensar: “Mas o que é que eu tenho para esta pessoa gostar de mim?” E começam à pesca das coisas que têm ou não têm.

Há resposta para isso?
Gosta-se porque se gosta, ama-se porque se ama. Quando amamos alguém, não sabemos muito bem porquê. Quando deixamos de amar, arranjamos 30 razões para dizer porquê.


Então gostar é um mistério.
Completamente. Já há muitos anos que desisti de perceber porque é que gostamos de outra pessoa. Há quem diga que é o cheiro.

A coisa animal...
É uma coisa irracional. Isto não tem nada que ver com a relação ser mantida. Se viver com alguém, tenho de me adaptar, e vice-versa, à pessoa. E as cedências, as negociações, são feitas em nome daquilo que sinto e que a outra pessoa sente. Se queremos estar juntos, não temos outro remédio senão adaptarmo-nos. Ou então separamo-nos. Separarmo-nos de uma pessoa de quem gostamos, e que gosta de nós, é estúpido.


Trabalha com casais em crise; eles continuam a gostar um do outro?, não sabem é estar juntos?
Parto do princípio, porque mo dizem, que continuam a gostar um do outro. Isso é uma coisa que não trabalho. O amor não é trabalhável. Trabalho a possibilidade de o amor ser vivido. Aí tem que ver com os comportamentos.

Ao cabo destes anos, tem uma definição sua para gostar?
A definição que vou dar é um bocadinho egoísta. É gostar de estar com a pessoa. Isto não chega... Mas é gostar de estar com a pessoa de uma forma bastante permanente. É gostar de ir ter com ela. É sentir necessidade de estar com ela. É sentir falta quando não se está. E é também uma espécie de solidariedade e de intimidade que se cria com alguém. Não posso estar com alguém com quem não estou solidário. Posso ter opiniões diferentes, mas tenho de ser solidário. Se a minha mulher vem falar da sua vida, do seu trabalho, ela não espera que me comporte como um colega. Espera que eu perceba qual é o seu ponto de vista. Não há objectividade numa relação amorosa, não pode haver.

E a competição que há entre os dois membros do casal? É o oposto da solidariedade. Não é preciso serem colegas, mas se forem isso torna-se mais taxativo. Competem em relação a ter melhor posição, reconhecimento.
Os casais que trabalham juntos podem ser um problema. O problema maior é a vida conjugal ser invadida pela vida laboral, e as discussões conjugais serem trazidas para a vida laboral. É uma situação especial, não aconselho. Mas há quem sobreviva bem a isso. A competição pela pressão social é sobretudo um problema dos homens. As mulheres estão cada vez mais em lugares de destaque, de maior visibilidade. Depois, há a questão do dinheiro. Um homem ganhar mais do que uma mulher não é um problema, uma mulher ganhar mais do que um homem é, muitas vezes.


Falamos de uns arquétipos que vão aparecendo na literatura, no cinema, nas conversas entre amigos. Aparecem, mais do que tudo, a partir da nossa história pessoal, daquilo que vimos em casa, na nossa família de origem? Foi aí que aprendemos o que é gostar, o que é estar com um cônjuge?
Se falar de mim, não. Sou um filho de pais separados. A relação conjugal que vi foi sempre de tensão e conflito. No entanto, o meu modelo de relação conjugal não é de modo nenhum esse. Vivo muito mal numa relação conjugal conflitual. Não tenho dúvidas de que a história pessoal influencia, mas com a idade e a experiência clínica acho cada vez mais que as pessoas se podem libertar da sua história passada.


Gostava de ouvir a história dos seus pais. Pode contar?
O meu fascínio profissional pelos casais tem tudo a ver com a história dos meus pais, ainda que o encontro com a terapia familiar tenha sido causal. Os meus pais casaram-se em 1944. Nasceu a minha irmã em 45 e eu em 49. É uma história de amor que durou até ao fim da vida dos dois, ainda que com a separação. Pode ser uma construção minha, mas tenho dados objectivos. O meu pai era um filho-família do Ribatejo, com algum poder económico.



Pelo que se vê da fotografia que aqui tem, muito poder económico. Casaram de fraque, com pompa.
Sim. Gente da Escola Agrícola de Santarém. Era o filho mais velho de três irmãos, com uma relação fusional com a minha avó (era o filho claramente preferido). Conheceu a minha mãe, que era filha única de um casal de origens pobres, da zona de Tomar. O meu avô materno foi para África em 1914 ou 1915, quando casou, e ganhou muito dinheiro no Lobito, com um negócio de venda de carros. A minha mãe nasceu lá. Vinha cá muitas vezes. Marcaram-me as histórias das viagens de barco da minha mãe.

O que é que contava? O que é que fazia nos barcos?
As viagens duravam um mês, do Lobito a Lisboa. Ia a bailes todas as noites, dançava, falava. Fez 15 ou 17 viagens. E num Verão conheceu o meu pai, na Nazaré. As pessoas do Ribatejo iam muito à Nazaré, à praia. Apaixonaram-se. Não tinham nada a ver um com o outro. A minha mãe estudou piano e falava Francês, literalmente.

Houve na sua família materna uma ascensão social muito rápida.
Sim. O meu avô vem de África, reforma-se. Comprou prédios em Lisboa, que ainda são nossos, e vivia dos rendimentos. Penso que também emprestava dinheiro, que funcionava como financiador das construções dos chamados “patos bravos”. Casam contra a vontade dos meus avós maternos. A história que ouvi é que receberam informações de que era de boas famílias, mas um bocadinho levantado.

Levantado?
Mulherengo. Sempre foi. Foram viver para Torres Novas, onde era a quinta dos meus avós.

A sua mãe não lhe deu nem um bocadinho com os pés, ao seu pai?
Não sei. A minha mãe tinha uma paixão muito grande pelo meu pai. Desde cedo correu mal. O meu pai ia a Lisboa quase todas as noites. Estamos a falar dos anos 40, as estradas eram como eram. Dizia que ia tomar café e ia passear com os amigos. Tinha três carros. Um com o qual ia, um em Lisboa para o caso de o outro se avariar, e outro para um amigo, para o desenrascar. O meu pai tem histórias, tem aventuras, mas a minha mãe aguentou sempre.

Sempre sabendo?
Sempre.

As pessoas, no fundo, sabem sempre quando há outras?
Sabem sempre. Aos meus oito anos, a minha irmã tinha 12, o meu pai apaixonou-se e saiu de casa. Uma das minhas memórias mais fortes é a saída do meu pai de casa. A minha mãe tenta que o meu pai não saia. “Não te vás embora!” Ofereceu-lhe de presente um estojo de barba muito bonito. Os meus avós ficaram muito contentes. Não gostavam do meu pai. E o meu pai achava os meus avós uma seca. Ao domingo tínhamos de ir todos passear o Mercedes para o Estoril. “O senhor do Mercedes”, como ele dizia, era o sogro.

Não podiam não ir?
Mais tarde falámos muito disto e o meu pai sempre disse que a minha mãe era controlada pelos pais, que não conseguia libertar-se daquilo. Passados dois ou três anos, há um processo em tribunal. Os meus avós resolvem fazer uma separação. Não havia divórcio. Aliás, nunca se divorciaram. O advogado da minha mãe é o Azeredo Perdigão, que dá cabo do meu pai.

É incrível pensar o quanto os seus avós maternos detestavam o seu pai. Preferiam a vergonha social da separação, que o era, à época.
Mas não provocaram a separação. Acontece que a minha mãe se torna... uma espécie de namorada do meu pai.

Namorada, como assim?
Mantêm uma relação, clandestina aos meus avós. Havia um problema importante, o económico. O meu pai tem uma relação com o dinheiro complicada. Ora tinha, ora não tinha. Era um tipo generosíssimo, mas muito irresponsável. Durante anos não nos deu um tostão. A minha mãe tem de ir ter com os meus avós para receber uma mesada. Quando a minha mãe e o meu pai começam a sair, de vez em quando saíamos os quatro no carro. A minha irmã e eu não percebíamos nada. Não podíamos dizer nada aos avós. Isto durou uns tempos.

Voltaram, às claras?
Não. O meu pai era regente agrícola, depois começou a vender imobiliário, depois voltou a ser regente agrícola. Teve uma vida profissional sempre oscilante. Várias vezes diz à minha mãe que quer voltar. A minha mãe diz sempre a mesma coisa: “Podes voltar, mas larga essa mulher. Vives sozinho durante uns tempos e depois voltas.” Parece uma coisa de bom senso. A determinada altura, penso que por dificuldades económicas, decide ir para São Tomé e Príncipe. Disse à minha mãe que ia sozinho, mas não foi. O meu pai não conseguia estar sozinho. Há-de confessar-me que não conseguia dormir sozinho.

O grande fantasma da solidão.
Sim. Em São Tomé tem um AVC, com 49 anos. Faz uma depressão violentíssima. Volta passado um ano e a situação mantém-se igual. Nunca consegue separar-se da mulher. Acho que a relação com a minha mãe nunca passou disto, não estou a ver que fosse uma relação íntima.

Não? Acho que está a ser um filho ingénuo que recusa a sexualidade dos pais. Essa paixão toda, que fazia com que não conseguissem deixar de estar um com o outro, e depois nada?
A minha mãe era muito especial nisso. Pode ser a minha visão, não sei. Não me faria confusão nenhuma, até achava graça, mas não acredito. O meu pai: deixou de trabalhar, herdou, fazia uma vida boémia. Ia para o Gambrinus todos os dias lanchar. Era o poiso dele na Baixa com os amigos. E muitas vezes, já com um copo a mais, telefonava à minha mãe.

Esse modelo de relação manteve-se durante anos?
Há vários interregnos nisto. Depois nasce a minha sobrinha, e a partir daí começam a encontrar-se na casa da minha irmã. Uma relação familiar. Mas nunca com a senhora. O meu pai nunca tenta impô-la. 

Teve relação com ela?
Conhecia-a desde sempre, ia lá a casa de vez em quando almoçar, jantar. A minha irmã, menos, tinha mais dificuldade nisso. Mas o meu pai ia muito a minha casa, no meu primeiro casamento, e a senhora nunca ia.

Percebo pelo que conta que teve uma relação de intimidade com o seu pai, que foi uma espécie de confidente do seu pai. Quando é que passou a ser assim?
Depois da separação, há longos períodos em que ele desaparece. Mais tarde explica que desaparece porque não tem dinheiro. (O meu pai separa-se em Outubro ou Novembro e vai no Natal lá a casa oferecer-me um comboio eléctrico. O primeiro que tive. Ainda hoje tenho comboios eléctricos.) Mais tarde a relação normaliza-se. Estou com ele frequentemente. Tiro a carta e empresta-me o carro, depois dá-me um carro. Inverte-se a relação: sou um bocadinho pai dele. Tem problemas de saúde, é hipertenso, come e bebe bem.

Começou mais cedo uma coisa que é constante nas nossas vidas: o momento em que começamos a ser os pais dos nossos pais.
O meu pai fazia as suas rábulas, dizia: “Tem juízo.” Mas nunca foi o meu educador. A minha mãe é a figura importante desse ponto de vista. O meu pai é o chamado “gajo porreiro”, de quem gostei muito, a quem perdoei o abandono. Não tenho nenhum conflito com ele neste momento. Na verdade, nunca cheguei a ter. Eu dava-lhe conselhos. Abria-se muito comigo, contou muita coisa dele.

Tomar conta é uma coisa. Ter uma relação de intimidade e ser o confidente é outro patamar.
Sim. Que nunca tive com a minha mãe. Era uma relação fortíssima, sofri muito com a morte dela em 2008. Foi um luto que demorou muito tempo a resolver-se. Mas é uma pessoa com quem quase não falei de mim. É paradoxal. A minha mãe não permitia muito isso, queria que estivesse tudo bem e tudo calmo. Separei-me e levei muito na cabeça. Nunca teve disponibilidade para ouvir o que sentíamos, como é que estávamos.

É a antítese desta conversa do partilhar, de ter a relação íntima.
A minha mãe tinha uma relação connosco muito pela comida e pela casa. Uma coisa muito primária. Sinto imenso a falta dela. Não para falar com ela. Para ela estar ali.

Já disse que o seu pai era irresponsável. É fundamental ser maduro enquanto pai? Hoje estamos cheios destes chavões...
Costumo dizer a brincar: tive pais separados quando ninguém tinha, tive um pai que foi irresponsável durante muito tempo, e estou aqui, não estou muito mal! [risos] 

Não estamos todos a ficar paranóicos com o que deve ser a educação?
Percebo que se pretende trabalhar com os pais nas suas dificuldades funcionais. Mas educação parental é uma coisa que não faz nenhum sentido. Há 20 mil maneiras de se ser pai. Aquilo que é o modelo de uma família funcional não existe. Pode haver famílias aos nossos olhos disfuncionais, em que os miúdos ficam sozinhos e não tomam banho, e que são funcionais. Os técnicos têm uma imagem e estão cheios de preconceitos. E muitas vezes aplicam estes preconceitos a famílias a que não faz sentido que sejam aplicados.

O âmago é a criança sentir-se amada?
Sim. E o sentir-se amada pode ser de 20 mil maneiras.

E é a trave a partir da qual se pode construir o edifício…
Uma criança para crescer e para ter alguma saúde mental tem de ter sido amada. Não tem de ser amada pelo pai e pela mãe, pode ser amada só pelo pai, só pela mãe, por uma tia, uma avó ou por uma figura muito importante.

Alguém que a sustém.
Alguém que seja contentora. Se isso tem de ser feito numa família tradicional? Nem pouco mais ou menos. A adopção por casais homossexuais: a questão que ponho é social. Como é que um miúdo na escola vive isso? É uma treta dizer-se que o miúdo precisa de uma figura masculina e de uma feminina.

Porque vão encontrando sempre figuras femininas e masculinas?
Eu posso ser uma figura feminina, apesar de ter pénis. No sentido de ser aquilo que é tradicional na figura feminina: mais acolhedor, mais colo. Não tem de passar pela anatomia das pessoas, muito menos pela orientação sexual.

Estamos a falar de estereótipos que hoje nos dominam. Também não há-de ser por acaso que cada vez mais as pessoas vão aos psicólogos, põem as crianças a fazer terapia, fazem terapia conjugal…
De mais.

Porque, na verdade, querem sentir-se normais, querem sentir-se bem? É esta a opinião que tem?
Não. Quem entra aqui está sofrer. Raramente uma pessoa entra aqui só para se conhecer a si própria, sem que tenha havido um gatilho de sofrimento.

O que queria dizer: as pessoas precisam de se sentir enquadradas socialmente e achar que a sua história, aquilo que vivem, encaixa no que se designa por situação normal.
Isso é verdade. As pessoas muitas vezes vêm aqui e dizem: “O que estou a sentir é isto. É normal?” As pessoas não são tão diferentes como isso em relação ao sofrimento. Quando percebem que aquilo que estão a sentir não é nada do outro mundo, que não estão sozinhas, e que é uma coisa que é trabalhável e ultrapassável, ficam mais tranquilas. Há pessoas que querem ser normais, formatadas, e há outras que não querem. Querem ter a sua individualidade e a sua maneira de estar. Não querem é sofrer com isso.

Voltando à história dos seus pais. Parece uma coisa muito passional, quase animal. Conte o resto.
Veio o 25 de Abril, o meu pai podia ter-se divorciado e nunca se divorciou. A minha mãe também nunca quis o divórcio. O meu pai morre bastante tempo antes da minha mãe. Tem um AVC e fica com uma demência vascular durante quatro ou cinco anos. Morre em 1987. A minha mãe faz um luto complicado. Nunca foi vê-lo, nunca conheceu a mulher com quem ele vivia. A história acaba assim. Até esse AVC a relação deles é muito frequente, quase todos os fins-de-semana se encontram. Creio que não tinham encontros só os dois.

Ela continuava a arranjar-se especialmente para esses encontros ao fim-de-semana, nas casas dos filhos?
Não sei dizer. Ela arranjava-se sempre bem. Havia um charme, tanto quanto a minha mãe conseguia ser charmosa. A vida fê-la dura. O meu pai esbanjava charme. Não havia nenhuma mulher que não gostasse dele. Mais tarde soube muita coisa através do Ayala, que foi secretário do meu pai. O Ayala tinha sido secretário do Humberto Delgado. Nunca disse ao meu pai que trabalhava na oposição. O meu pai era apolítico. Era contra o Salazar, mas não tinha actividade política. Venho a encontrar o Ayala quando estou na Câmara de Lisboa, com o Jorge Sampaio [foi assessor do ex-Presidente].

Quis ouvir as histórias do seu pai?
Quis. Eram sobretudo histórias de relações com mulheres. E histórias de dificuldades económicas que teve. 

Houve alguma coisa que o desapontasse muito? Há coisas que não devemos saber quando estamos a falar da família.
Houve. Uma vez o meu pai tentou falar da relação íntima com a minha mãe, a meio de um almoço já bem regado. Disse: “Pai, isso não quero.” Foi a única vez que me lembro de ter sentido incómodo. Nunca falei com a minha mãe sobre isso.

Na vida de todos os dias, devemos saber tudo dos nossos pais, do nosso marido, da nossa mulher? Impõe-se a verdade?
Não. Quando se fala de dizer tudo, normalmente fala-se de relações extraconjugais. Não é disso que estou a falar. Um exemplo: se a minha mulher, numa conversa com a mãe dela disser mal de mim, não quero saber. E a minha mulher terá o bom senso de não me dizer. Pode ser um desabafo do momento e vai inquinar a minha relação com a minha sogra e dificultar a minha relação conjugal.

Nas relações extraconjugais, deve-se dizer?
Será que preciso de saber que a outra pessoa teve uma relação ocasional com alguém? Se não souber, não me importo, se souber, importo-me. O que sei é que algumas relações conjugais estão paradas no tempo porque uma das pessoas tem uma relação fora do casamento e essa relação não é clara. A outra pessoa não sabe, ou se desconfia, [faz de conta que] não sabe. E a relação não avança nem recua porque há uma energia amorosa que não está investida ali.

Intervém de que modo?
Digo às pessoas — e são muitas as que me procuram numa situação desse tipo —, individualmente: “Há duas hipóteses: ou você diz e há uma crise, e a partir daí as coisas ficam diferentes, e não vai ser fácil; ou você não diz e isto não mexe.” O problema de uma pessoa que é casada e que tem uma relação extraconjugal, já com algum tempo, e que não consegue nem dizer nem sair da relação, é que aquilo fica parado. O sistema equilibra-se num certo sentido, tornando a relação conjugal numa relação tensa, sem resolução.

Uma boa parte das pessoas diz?
É apanhada. Não diz. O ser apanhado é bom no sentido da evolução. O casamento pode rebentar. A maior parte das vezes não rebenta. A partir daí nada será igual.

As pessoas não dizem e não provocam o rebentamento porque não conseguem decidir-se, porque não sabem o que querem?
O dizer tem duas consequências: a primeira é o medo que a outra pessoa lhe ponha as malinhas à porta. A outra: perde também a clandestinidade.

Que é um picante.
Dá uma força às relações, a clandestinidade.. 

Só a relação adúltera é que é picante? Muitas vezes, a pessoa, para compensar o facto de estar a pisar o risco, compensa o cônjuge, em casa.
Quando alguém se apaixona de facto fora de casa, é difícil manter uma energia na relação em casa. Se é uma relação “só física” (com todas as aspas), aí sim, pode trazer energia à relação de casa.

Continuam a usar os filhos para justificar o não saírem de casa? 
Menos.

E é uma ficção?
É. Os filhos não gostam que os pais se separem, mas sobrevivem. Sobrevivem mal é ao conflito depois da separação, se ele é violento e longo. Contudo, há quem fique porque acha que isso é traumático para os filhos. E há muita gente que adia cada vez mais a separação (agora os filhos têm um exame, depois vão fazer anos, depois há o Natal). Há pessoas a quem faz muita impressão que os filhos fiquem sem os pais juntos.

Tornou-se relativamente comum a guarda conjunta. Uma semana com o pai, uma semana com a mãe. Foi uma evolução muito rápida.
Sim. Hoje os pais mudam a fralda, limpam o cocó, dão banho. O vínculo que se cria com as crianças é muito mais forte. Tenho homens na consulta que sofrem horrores com a ausência dos filhos. E que se culpabilizam da separação.

E essa coisa de dizer ao amante, ou à amante, que não se tem sexo em casa há um ano?
Às vezes, é verdade, outras vezes é uma grande treta [risos]. Às vezes, a relação física em casa mantém-se muito boa. E ambas as relações físicas são muito boas.

É engraçado como as pessoas acreditam ou fingem acreditar...
Alguém que está sozinho e que tem uma relação com um homem ou com uma mulher casada vai acreditando que ele ou ela se vai separar. Até que há uma altura em que começa a não acreditar. E depois leva muito tempo a conseguir separar-se. A vida das pessoas é à base dos bocadinhos, das fugas, das coisas rápidas. Essas pessoas isolam-se muito para estarem sempre disponíveis. Têm vergonha em relação aos amigos. As relações de amantes têm uma semivida que não é eterna.

Algumas são muito longas.
Mas é muito difícil manter uma relação deste tipo durante muito tempo. Nos primeiros meses há projectos de vida em comum. Depois há um tempo em que, se esses projectos não se concretizam, a relação começa a decair. Há um tempo útil para a separação, após o qual é muito mais difícil separarem-se porque se instalam na situação. É muito raro, da minha experiência clínica, um casamento que acabe ao fim de anos de relação extraconjugal. É a relação extraconjugal que vai acabar ou que se vai espaçando. 

Fala-se da infidelidade como o grande fantasma das relações conjugais. É?
Não. O grande problema das relações conjugais é as pessoas deixarem de gostar uma da outra, obviamente.

Obviamente?
Hoje as pessoas separam-se porque são infelizes na relação conjugal. E são infelizes quando deixam de gostar ou quando deixam de sentir que a outra pessoa gosta delas. As razões por que isso acontece podem ser várias, mas é o que desencadeia a relação. E quer se queira, quer não, continuamos a acasalar para o resto da vida. Mesmo que estatisticamente isto seja um disparate.

Sonha-se que é para sempre, que daquela vez é que vai ser.
Quando as pessoas se juntam com alguém, nunca há a ideia da separação. E quando se confrontam com a situação de que são infelizes começam a pôr a relação em causa. Isso é um luto que tem de se fazer. Não é fácil para ninguém separar-se.

Custa o reconhecimento do falhanço?
Sim. Mesmo que queira separar-me (já passei por isso), mesmo que seja um alívio, é um falhanço. É uma coisa que não resultou. As relações falham porque as pessoas não conseguem adaptar-se a viver em comum. Viver em comum não é nada fácil. Há pessoas que estão sempre a criticar, a culpabilizar, a apontar defeitos. A coisa mais devastadora numa relação conjugal é a crítica.

A crítica? Pode esmiuçar?
Isto está estudado. É muito diferente dizer a uma pessoa: “Não ponhas a camisa aí, põe ali”, ou não dizer nada e mudar a camisa. Ou então dizer: “És uma besta, és desarrumada”, e atacar a pessoa por causa da porcaria de uma camisa.
Numa relação conjugal, é muito fácil criticar porque conheço a pessoa muito bem, sei onde é que vou atingi-la. Desde as coisas mais íntimas, ao nível da sexualidade, até às coisas banais do dia-a-dia. Ninguém sobrevive a um ataque sistemático. Posso gostar muito de alguém, mas não consigo aguentar estar sempre a ser posto em causa.

A questão do poder, que é diferente da crítica mas que pode derivar da crítica, é um ponto sensível das relações. Quais são os outros grandes problemas? A maneira como lidam com o dinheiro, com os filhos?
A relação com as famílias de origem. Se tenho uma relação difícil com a família da minha mulher, ela está metida num conflito de lealdades. Na cultura latina, as relações com a família são muito importantes. Há sogras muito intrusivas, difíceis de controlar. Se uma sogra chega a casa e começa a mandar palpites, aquilo ao fim de pouco tempo está estragado. E o marido, coitado, fica ali entalado no meio.

E que fazer quando há uma sogra que é essa mamma latina?
As sogras não são controláveis. Ninguém consegue controlar uma mãe quando ela tem o nariz empinado. São pessoas de uma certa idade que acham que fazem tudo muito bem. Tem de se viver com isso e aceitar que aquilo que a sogra diz, paciência, disse. Outra questão: os modelos diferentes de educação dos filhos. Quando se tem um filho adolescente que começa a querer sair, e um é mais liberal, e outro mais repressivo, há uma negociação que não é fácil. Uma negociação que passa muitas vezes pelo não verbal. (Nos casais o não verbal é muito importante. Posso estar a desqualificar o que a minha mulher está a dizer sem abrir a boca. São coisas muito finas, não explícitas, e que dão conteúdo à relação.)


Escreveu em várias crónicas que as pessoas se queixam muito de não ser ouvidas pelo outro. E que sentem que não são amadas porque não são ouvidas naquilo que é mais autêntico nelas.
E que a outra pessoa não tem disponibilidade, não tem pachorra, ou que está farta de a conversa ser sempre igual.

Também sei que não gosta de dar receitas, mas como é que se ouve o outro?
Em relação a isso, dou uma receita. Digo isto mais aos homens do que às mulheres. As mulheres têm mais pachorra para ouvir, gostam de dar palpites. “O casamento tem uma folha de serviços, que varia de casamento para casamento, mas há uma tarefa que tem de se habituar a fazer: ouvi-la.” É quase uma perspectiva machista.

Quase? E paternalista. Enquanto leitora feminina, já estou chocada.
“Ela está a falar do trabalho, você tem de ouvir. E tem de ouvir sem ler o jornal ao mesmo tempo, com a televisão desligada e com um ar atento, mesmo que seja a maior seca. Segunda coisa: não pode criticá-la nessa altura, mesmo que ache que aquilo é uma parvoíce. Mais tarde, fora desta conversa, se achar que há coisas que deve dizer, diz.” Pode dizer que isto é paternalismo. Por um lado, sim, por outro, não. Tenho de fazer muita coisa na relação conjugal em nome da outra pessoa. Desculpe a brutalidade do que vou dizer: qual é a diferença entre ter de ouvir a minha mulher e mais tarde ela ter de me lavar o rabo quando for velho? São duas coisas que podem não ser agradáveis, mas que devem ser feitas em nome da relação.

Essa receita choca com a ideia romântica de que se deve fazer o mínimo de fretes.
Não é possível um casamento sem fretes. Por exemplo, está-se com uma pessoa para quem é muito importante todas as semanas almoçar com a família. Até se acha a família simpática, mas não se tem grande conversa. Pode-se ir só uma vez por mês, se isso for possível e não for um problema. Se para ela for importante que o outro vá, e se não ir for sentido como uma coisa de desprezo pela família dela, tem de ir.

Sim, mas engole, engole sapos e um dia saem todos pela boca fora.
Há pessoas que entendem isto como engolir sapos e há pessoas que sentem isto como uma coisa que faz parte.

A maior parte dos casais que conhece fora do consultório são felizes?
[riso] Enquanto são casais, são felizes. Alguns já se separaram, voltaram a casar. Hoje, mais do que antigamente, a maior parte dos casais que estão em casal são felizes. Uma grande parte dos casais que estão infelizes, ao fim de um tempo, separam-se. Isto não quer dizer que não haja momentos de infelicidade na vida dos casais.

Mudou alguma coisa nestes anos de crise?
Com esta crise económica, muitas pessoas estão infelizes no trabalho, estão desempregadas, e cada vez mais a casa, a família, o casamento, é o local da sua felicidade. O casamento tornou-se uma coisa muito mais viva, muito mais forte do que era.