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domingo, 5 de fevereiro de 2017

O desprezo

Onda de debmphotos

“O desprezo sensação de autodefesa dos afortunados, é um afeto que não avaliamos, sem dúvida suficientemente, todas as consequências (Honneth, 2000). Ele desencadeia, em reação, novas vagas de emoções intensas. Para o melhor: uma imensa exigência de respeito. E para o pior: a raiva e o ódio, as explosões de violência súbita que o individuo desprezado já não pode conter”.
Jean – Claude Kaufmann A Invenção de si -uma teoria da identidade
A diferença entre os dois estados pode estar na presença ou na ausência do ódio.
Mas no geral, o desprezo é injustamente associado a um sentimento vil, resultado de uma falha na capacidade de resolução íntima das emoções, que nos deveria humilhar e culpabilizar, e que convém que seja superado por fragilizar o desejável vínculo social.
Raramente o consideramos uma qualidade dos afortunados que, sem ódio, ou com ele, lutam pelo reconhecimento e autodeterminação, de si próprios ou de um povo. Lutam por uma existência com sentido e identidade. 
Podemos não nos sentirmos confortáveis com a atribuição do conceito de desprezo nestas circunstâncias, e optemos por o substituir por outras forças de caráter, tal como a coragem, mas requer, sobretudo, outras qualidades como a disciplina mental, para continuar a desprezar o outro e manter-se civilizado.
A natureza do "desprezo" permanece imutável: a defesa em ser tratado como uma pessoa perante um outro que lhe nega o lugar e os direitos, reais ou imaginários.
Uma entrevista com o sociólogo Jean – Claude Kaufmann, no passado dia 15 de outubro:

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A decisão de preferir outra pessoa

Jack Vettriano A Carta


“ A decisão de preferir outra pessoa é mais mutiladora do que um luto porque é uma decisão que rejeita voluntariamente o parceiro. "
Marie - France Hirigoyen Assédio, Coação e Violência no Quotidiano Pergaminho
Não necessariamente mais dolorosa, esta situação, em relação a certos processos de luto, mas mais desestabilizadora, porque preferir outra pessoa coloca em causa o valor próprio do preterido, e na sua mente, a dúvida sobre a verdade do funcionamento relacional vivido até aí.
Pode aproximar-se de uma sensação de perda do sentimento de identidade, com o consequente manejo mais saudável ou menos saudável, da condição. Leva mais partes de nós.
Por habitualmente não ser considerado um luto, o desamparo social é maior. E, maior será se quem foi rejeitado passar a enfrentar dificuldades habitacionais, financeiras, em suma, de sobrevivência. Podem ser várias as perdas possíveis.
Também não há como assumir a dor. Seria impróprio o contínuo lamento, se o outro está por aí, bem vivo e dá provas de nova vida. O que pode tornar a resolução do sofrimento mais difícil, porque as notícias e as imagens desses acontecimentos, são pernanentemente revividas.
 A decisão de preferir outra pessoa pode ser mais mutiladora do que um luto. Para que conste.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Rejeitar um narcisista

Salvatore Albane The fallen angels

As personalidades narcísicas quando são abandonadas ou dececionadas, elas podem mostrar-se aparentemente deprimidas, “mas num exame atento, trata-se de cólera ou de ressentimento com desejos de desforra, mais do que uma verdadeira tristeza pela perda da pessoa que eles apreciavam.”
Otto Kernberg, A personalidade narcísica.

Como em todos nós, a rejeição ou a deceção chega às personalidades narcísicas como uma ferida no amor-próprio. Porem, nestas personalidades não se vive a saturação indiscritível da tristeza ou da depressão pela perda, porque o outro não chegou a fazer parte do eu.
Não experimentando estas reações e, não percebendo as emoções complexas da outra pessoa, toda a energia daquelas personagens concentra-se, não na tentativa de reparar ou recuperar a relação, mas em fazer-se valer através do ressentimento e da vingança, também movida pela necessidade de domínio e sentimento de posse.
E o amor!? Não é visto nem achado.

sábado, 13 de outubro de 2012

O infiel

Coleção Berardo

Diz Ernest Jones "A infidelidade marital tem, com maior frequência do que se crê, origem neurótica; não revela liberdade, nem potência, mas o contrário.” Mais frequente ainda do que o medo neurótico dos vínculos é, contudo, uma vinculação neurótica, o medo de qualquer mudança de objeto.
Otto Fenichel Teoria psicanalítica das neuroses Edições Athneu
Sobre a infidelidade, devo dizer que acho muito digno assumir para com o marido ou mulher, que se tem outra pessoa, em vez de se manter situações clandestinas e derespeituosas.
Será que a infidelidade marital revela medo da intimidade, vivida em exclusividade com alguém, ou revela sobretudo a ansiedade, nunca resolvida, em se libertar do compromisso com uma imagem fantasiosa e por quem em imaginário, se depende, razão pela qual pode ser procurada sem cessar, nesta ou naquela pessoa?

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O vazio

Tabitha Soren Running



“ Todos esses livros mal lidos, esses amigos mal amados, essas cidades mal visitadas, essas mulheres mal possuídas! Eu fazia gestos por enfado ou por distração. Os seres vinham logo atrás, queriam agarrar-se, mas não havia nada, e era a infelicidade. Para eles. Porque, quanto a mim, eu esquecia. Nunca me lembrei senão de mim mesmo.”

Albert Camus A Queda

Há muito tempo que estou para escrever sobre esta falta de sentido de ligação às pessoas e ao mundo, não por um estado depressivo, mas como o vazio de ser, em que as expressões afetivas não correspondem a sentimentos reais. Nem acredito que seja devido à condição de “Quero fazer-te aquilo que tenho terrivelmente medo que tu me faças”.
É como se entre essa pessoa e a outra, existisse uma parede de vidro que anulasse a capacidade de a reconhecer e valorizar,  sem culpa nem angústia, e a arriscar nesse caminho, continuamente, pelo que, as aproximações não permitem a reparação, sendo esta mais uma condição própria da natureza do vazio.
Procuro a dificuldade. Como situar quem só existe em rosto e lá dentro habita "o nada"? Como identificar quem não dá valor nem significado ao que tem? Que deveria estar e não está? Como nomear as emoções que provoca, de esperas, desesperanças e traições?
Para quem se relaciona com alguém com esta frágil solidez, é o infortúnio das almas rendidas que dão uma segunda oportunidade e não têm medo de ver o vazio bem fundo, não ignorando que este  pode ser a fonte para toda a violência. 

*O derradeiro impulso para escrever sobre este tema, surgiu quando recomendava a uma mãe aflita, que falasse ao ex-marido sobre o filho de ambos. Insisti neste indicação, ao que ela respondeu-me sempre de modo firme: “Não vale a pena”.






















terça-feira, 10 de julho de 2012

O ressentimento #2

Judith Beheading Holofernes Caravaggio

“Detenhamo-nos em outra forma de reafirmação narcisista. Em muitas circunstâncias, quando um sujeito briga com outro, tenta reforçar seu desgosto através de uma atitude que bem poderíamos qualificar de cultivo do ressentimento. Obtém um prazer especial em manter-se irritado e rejeitar o outro. Graças a esse cultivo do ressentimento, o sujeito reafirma-se em sua razão perante o outro, situando esse no lugar de culpável e, correlativamente a si mesmo, no de condenado. Consegue ocupar a posição narcisista privilegiada de ser aquele que rejeita o outro. O frequente sentimento de superioridade que o sujeito mostra no momento do ressentimento denuncia a sua função narcisista.”
Hugo Bleichmar O Narcisismo Artes Médicas
Para aquele que entrou pelas nossas fronteiras e se portou como um ladrão, a dor de início parece não vir de nenhum lugar, e continuar soa possível. Com o tempo, qualquer pequena coisa a convoca. É dormente e demorada. Nesta obscuridade, não se encontra maneira de tomar um rumo. Espreita a perda do sentido de quem somos. Com a coragem de sobreviver e se não houver medo de encarar o desespero, passada esta fase, assume-se a injúria de frente. Pode não ser a melhor condição de existência, mas chegamos enfim, a uma terra habitável. Com este chão, vem um sentimento de controlo e quem sabe, se chegue a perdoar, quem não experimentou ou percebeu o elementar.

Deixo-vos um enxerto de Anne Alvarez* sobre o ressentimento no romance A Brincadeira de Kundera:" (Um amigo que lhe traiu e fez com que ele fosse mandado para uma colônia penal por quinze anos). Ele pergunta: "Como explicaria que não podia fazer as pazes com ele?"...e, "Como poderia explicar que usava meu ódio para contrabalancear o peso do mal que carregava quando jovem...Como eu explicaria que precisava odiá-lo."


* Malignidade sem motivo: problemas na psicoterapia de pacientes psicopatas.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

O amor do pai



O amor do pai contribui - e muitas vezes mais – para o desenvolvimento da criança do que o amor de mãe. Esta é uma das conclusões de uma investigação realizada pela equipa de Ronald Rohner da Universidade de Connecticut e publicada recentemente em Personality and Social Psychology Review, que envolveu a análise da literatura científica nesta área.
Considero este estudo importante, porque nos ajuda a compreender que embora podendo ser compassivo o amor da mãe, pode não ser suficiente para compensar o desamor do pai, e que por isso, é esperado deste, a dedicação e a satisfação na relação com os seus filhos.
A importância do amor paterno parece estar relacionada com a tendência que crianças e jovens adultos têm, de prestar mais atenção ao elemento que atribuem mais prestígio – muitas vezes o pai, o qual consideram mais influente na sua vida. Esta investigação também demostra que a necessidade de amor é universal, ou seja, não está dependente da raça ou mesmo da cultura.
Os estudos analisados também assinalam que, na sequência da rejeição, as crianças tendem a ser mais ansiosas e inseguras, assim como hostis e agressivas para os outros. A dor da rejeição, especialmente se ocorre na infância, tende a fazer-se sentir na vida adulta, ao revelar-se nas dificuldades em criar intimidade e confiança nas outras pessoas.
“Contrariamente à dor física, as pessoas na vida adulta, podem reviver a dor emocional da rejeição, vezes sem conta, durante anos,” diz Rohner.
Aceder ao estudo integral aqui e o resumo na Science Daily

Referencia: A. Khaleque, R. P. Rohner. Transnational Relations Between Perceived Parental Acceptance and Personality Dispositions of Children and Adults: A Meta-Analytic Review. Personality and Social Psychology Review, 2011; 16 (2)

domingo, 10 de junho de 2012

O ressentimento #1


Diálogo do filme A Importância de Ser Ernesto de Barnaby Thompson: “Quem ventos semeia, colhe tempestades.”
“ No ressentimento trata-se de uma determinada reação emocional face a outra reação que sobrevive e é repetidamente revivida, escavando e penetra cada vez mais no centro da personalidade. É um voltar a viver a própria emoção: um voltar a sentir, um ressentir. Em segundo lugar, a palavra implica que a qualidade desta emoção é negativa, isto é, expressa um movimento de hostilidade. Talvez a palavra rancor fosse mais apropriada para indicar este elemento fundamental da significação. O rancor é, com efeito uma zanga retida, independente da atividade do Eu, que cruza o obscuro da lama e acaba de formar-se quando os sentimentos de ódio ou outras emoções hostis revivem repetidamente; não contém todavia nenhum desígnio hostil determinado, mas nutre com o seu sangue todos os desígnios possíveis deste tipo. O ressentimento é uma autointoxicação psíquica, com causas e consequências bem definidas.”
M. Scheler “El Resentimento en la moral” Buenos Aires México 1944
Mergulha-se nesta forma de ser que transfigura-nos.  Nega-se a realidade da passagem do tempo, num diálogo quotidiano com o sentimento de traição e com a convicção que o que aconteceu, não deveria ter acontecido. Acusa-se o outro, da inconsciência do risco comum. Entregamo-nos ao elogio de um conflito que nos parece, ou queremos que seja, inegociável. O que nos move, continuar, somente continuar. Mas só queremos nos sentir em paz.
Este ressentimento pode ser também por alguém que já faleceu. A zanga está em nos ter deixado, numa falta que julgamos, de momento, inconsolável. Mas também pode manifestar-se sobre nós próprios, por não sermos quem gostaríamos.  À medida que diminui o ressentimento, aumenta a preocupação e a responsabilidade.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Complexos de inferioridade

Diálogo do filme Os Marretas "Talvez não precises que o mundo todo te adore, sabes?"

A necessidade de provas constantes que o outro (mesmo com pouco significado para nós), nos aprove, ou a insatisfação com a pessoa que somos, faz com que a frase de Satre passe a ser “O inferno somos nós”:

"Certas pessoas, por exemplo, sentem-se facilmente desoladas devido à falta de apreço, demonstrada inclusive por indivíduos que pouco significam para elas; o motivo é que, em suas mentes inconscientes, sentem-se indignas de atenção de seus semelhantes, e uma reacção fria confirma sua suspeita a respeito dessa indignidade. Outras acham-se pouco satisfeitas consigo mesmas (não em termos objectivos) das mais variadas maneiras, por exemplo, no que concerne à sua aparência, ao seu trabalho, ou às suas habilidades em geral. Algumas dessas manifestações são bem comumente, reconhecidas e foram popularmente designadas de “complexos de inferioridade”.
   As descobertas psicanalíticas revelam que sentimentos dessa natureza acham-se mais profundamente enraizados do que se costuma supor e estão associados a um sentimento inconsciente de culpa. O motivo por que algumas pessoas experimentam necessidade tão intensa de elogio e aprovação públicos, reside na necessidade que sentem de provas de que são amáveis, dignas de amor. Tal sentimento provém do temor inconsciente de serem incapazes de amar outras pessoas de maneira suficiente ou verdadeira, e particularmente de não serem capazes de dominar impulsos agressivos para com outros: temem constituir um perigo para o ser amado. " Melaine Klein

Melaine Klein e Joan Riviere Amor, Ódio e Reparação Imago editora

O artigo de Amanda L. Chan “We feel hurt even when strangers ignore us”, refere estudo, aqui.





domingo, 27 de novembro de 2011

A desforra do jovem russo


Igreja de S. Domingos, na baixa de Lisboa

“ Em História de Uma Neurose Infantil” (1918) Freud notará esta característica da “servidão” submissa que é exigida ao objeto por parte da omnipotência do sujeito, e notará igualmente a necessidade de “rebaixar” o objeto que satisfaz, como forma de desforra em relação à humilhação narcísica sofrida. No caso em análise, o jovem russo procuraria as relações sexuais sempre com mulheres de baixa condição, como forma de aviltar a irmã, ou seja, aviltar a mulher perante a qual se sentira humilhado, narcisicamente.”
Cristina Fabião Narcisismo Defesas Primitivas e Separação Climepsi

Estou a pensar naqueles casais mais contemporâneos, em que num momento de crise, um deles por orgulho ferido, se envolve com outra pessoa de condição pessoal, social, económica ou profissional, inferior, com a intenção de humilhar a pessoa com quem até aí mantinha uma relação. 
Não nos esquecendo que a vida faz-se com base na tensão mantida entre o eu, a imagem que tenho do outro, e o outro real, o efeito pretendido poderá não ser rebaixar o amor-próprio da outra pessoa - com a mensagem "vales ainda menos" - visto esta estar consciente do seu próprio valor.
O que poderá ser destruído, é a imagem positiva que esta tinha do individuo que lhe pretende causar humilhação. Não atender a esta possibilidade, deve-se ao sentimento de omnipotência do sujeito - a crença exagerada no seu próprio valor ou importância.
E, porque o amor precisa sempre de uma pitada de admiração, chegado a este estado, o ponto de encontro é incerto.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Compreender os efeitos da rejeição


Kruger, Barbara Untitled (You are not yourself) 1982
Ser ignorado pelos outros ou posto de parte - quanto é necessário para experimentar a dor e para duvidar do sentido da vida? A resposta rápida: "Não muito", refere Dr. Todd B. Kashdan psicólogo e professor de psicologia na George Mason University, no artigo Understanding Rejection's Psychological Sting (aqui).
Experiencias recentes com um grupo de pessoas num jogo de computador, simples e inútil, demonstram que depois de apenas cinco minutos de não receber a bola, as pessoas sentiram um aumento em desespero, tristeza e hostilidade, e uma diminuição na auto-estima, sentido de controlo e sentido na vida.
Todd B. Kashdan sublinha que é fácil subestimar o poder da inércia do ostracismo da parte de pais, professores, chefes e amigos, e por tal negligenciam as consequências do mesmo em termos de sofrimento psicológico.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Já não te amo, mas...


“Fosse como fosse, ela já não me amava naquele momento: já não se preocupava com o efeito a produzir sobre mim”.
Marguerite Yourcenar, O Golpe de Misericórdia

Este amor que em Sofia perdeu a capacidade de renascer, já não integra o desejo.
Sofia não confessa, mas receia que outra ocupe aquele que foi o seu lugar, o que seria uma ferida no seu narcisismo.
Todos nós somos Sofia e costumamos confundir o interesse pelo outro, com o nosso amor-próprio ferido.


quarta-feira, 16 de junho de 2010

A perda


“Porque o amor exige um pouco de futuro e para nós só havia instantes. “
 A Peste, Albert Camus

O fim de uma relação - a agonia de uma esperança como diria Agustina Bessa Luís. Da perda de alguém? Ou da perda de um ideal de relação que não se alcançou?

Relembrando Freud e o seu trabalho sobre a perda, sabemos quem perdemos, mas sabemos o que perdemos com o fim da relação? É um exercício que vale a pena fazer. Sempre.

Foto: Imagem de Arte Sacra, cristina simões