quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O poder da gratidão

Não queria terminar o ano sem falar de gratidão que é a capacidade de nos sentirmos agradecidos pelo que temos. O que não deve ser confundido com conformismo. Este reconhecimento faz bem à saúde física e mental, e às relações.
Para melhor compreender os seus benefícios, o texto de Robert Emmons why gratitude is good  e vídeos deste investigador (ver curriculo aqui )

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Saber viver


Peephole - fotografia de Nadav Bagim (aqui )



Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exato.
E então, pude relaxar.
Hoje sei que isso tem nome…Auto-estima.

Quando me amei de verdade, pude perceber que minha angústia, meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou indo contra minhas verdades.
Hoje sei que isso é … Autenticidade.

Quando me amei de verdade, parei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento.
Hoje chamo isso de … Amadurecimento.

Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo.
Hoje sei que o nome disso é … Respeito.

Quando me amei de verdade comecei a me livrar de tudo que não fosse saudável… Pessoas, tarefas, tudo e qualquer coisa que me pusesse para baixo. De início minha razão chamou essa atitude de egoísmo.
Hoje sei que se chama… Amor-próprio.

Quando me amei de verdade , deixei de temer o meu tempo livre e desisti de fazer grandes planos, abandonei os projetos megalômanos de futuro.
Hoje faço o que acho certo, o que gosto, quando quero e no meu próprio ritmo.
Hoje sei que isso é … Simplicidade.

Quando me amei de verdade, desisti de querer sempre ter razão e, com isso, errei menos vezes.
Hoje descobri a … Humildade.

Quando me amei de verdade, desisti de ficar revivendo o passado e de me preocupar com o futuro. Agora, me mantenho no presente, que é onde a vida acontece.
Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é … Plenitude.

Quando me amei de verdade, percebi que minha mente pode me atormentar e me decepcionar. Mas quando a coloco a serviço do meu coração, ela se torna uma grande e valiosa aliada.
Tudo isso é… Saber viver !!!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.”

Carlos Drummond de Andrade


domingo, 25 de dezembro de 2011

Feliz Olhar Novo!



FELIZ OLHAR NOVO de Carlos Drummond de Andrade

O grande lance é viver cada momento como se a receita da felicidade fosse o AQUI e o AGORA.
Claro que a vida prega peças.
É lógico que, por vezes, o pneu fura, chove demais... mas, pensa só: tem
graça viver sem rir de gargalhar pelo menos uma vez ao dia?
Tem sentido ficar chateado durante o dia todo por causa de uma discussão na ida pro trabalho?
Quero viver bem. 2009 foi um ano cheio.

Foi cheio de coisas boas e realizações, mas também cheio de problemas e desilusões.
Normal.
A grana que não veio, o amigo que decepcionou, o amor que acabou.
Normal.
2010 não vai ser diferente.
Muda o século, o milênio muda, mas o homem é cheio de imperfeições, a natureza tem sua personalidade que nem sempre é a que a gente deseja, mas e aí? Fazer o quê? Acabar com seu dia? Com seu bom humor?
Com sua esperança?

O que eu desejo para todos nós é sabedoria!
E que todos saibamos transformar tudo em uma boa experiência! Que todos consigamos perdoar o desconhecido, o mal educado. Ele passou na sua vida. Não pode ser responsável por um dia ruim...
Entender o amigo que não merece nossa melhor parte. Se ele decepcionou,passe-o para a categoria 3. Ou mude de classe, transforme-o em colega. Além do mais, a gente, provavelmente, também já decepcionou alguém.
O nosso desejo não se realizou?
Beleza, não tava na hora, não deveria ser a melhor coisa prá esse momento (me lembro sempre de um lance que eu adoro:

CUIDADO COM SEUS DESEJOS, ELES PODEM SE TORNAR REALIDADE.
Chorar de dor, de solidão, de tristeza, faz parte do ser humano. Não adianta lutar contra isso. Mas se a gente se entende e permite olhar o outro e o mundo com generosidade, as coisas ficam diferentes.

Desejo para todo mundo esse olhar especial.
2010 pode ser um ano especial, muito legal, se entendermos nossas fragilidades e egoísmos e dermos a volta nisso. Somos fracos, mas podemos melhorar. Somos egoístas, mas podemos entender o outro.
2010 pode ser o bicho, o máximo, maravilhoso, lindo, espetacular...

ou... Pode ser puro orgulho!
Depende de mim, de você!
Pode ser. E que seja!!!

Feliz olhar novo!!!
Que a virada do ano não seja somente uma data, mas um momento para
repensarmos tudo o que fizemos e que
desejamos, afinal sonhos e desejos podem se tornar realidade somente se
fizermos jus e acreditarmos neles!"


quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Bom Natal


Autor: João Egídio

Decidi neste Natal lembrar todas as pessoas, os bem –aventurados,  que sabem dar aos outros o amor que eles próprios necessitam, apesar das privações que receberam ou sentem neste momento.
Transformamos em bons, os danos que nos causaram ou que causamos (mesmo em fantasia), é a prova que no coração de alguns de nós, o amor vence. Para ilustrar, a imagem que anuncia uma árvore humana.

Um texto de Melaine Klein:

"Se a voracidade frustrada, o ressentimento e o ódio que existem dentro de nós não perturbam o nosso relacionamento com o mundo externo, existem inúmeras maneiras de absorver a beleza, a bondade e o amor que nos vêm de fora. Assim agindo estamos aumentando continuamente o acervo de nossas lembranças felizes e erigindo gradualmente uma reserva de valores que nos conferem uma segurança difícil de ser abalada, e uma satisfação que impede o amargor de sentimentos. Acima de tudo, todas essas satisfações apresentam, além do prazer que fornecem, o efeito de reduzir as frustrações (ou antes, o sentimento de frustração) passadas e presentes, até as mais primitivas e fundamentais. Quanto mais verdadeira satisfação experimentarmos, e menos ressentirmos as privações, menos nos deixaremos governar pela voracidade e pelo ódio que existem em nós. Então estaremos realmente aptos a dar amor aos outros, e por sua vez a receber mais em troca. Em outras palavras, a capacidade essencial de “dar e receber” desenvolveu-se em nós de uma forma que assegura o nosso próprio desenvolvimento, e contribui para o prazer, o bem-estar ou a felicidade de outras pessoas."
In, Amor, Ódio e Reparação Imago Editores

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011



Não atribuo título a este post, porque há situações para as quais as palavras nos faltam.
Claire Felicie fotografou os rostos de militares da Royal Netherland Marine Corps, antes, durante e depois da guerra no Afeganistão, no período de 2009 - 2010. Chamou a este projecto Marked.Ver: http://www.clairefelicie.com/
São para mim muito evidentes os efeitos devastadores da guerra nos rostos e olhares destes jovens.
Uma possível explicação:

“Durante a guerra, encontraram-se condições semelhantes do bloqueio de afetos ou do desenvolvimento da apatia, e foram descritas por prisioneiros políticos que tinham sido submetidos a torturas. Aqui, aparentemente, os afetos de raiva agressiva eram compensados pela inibição imposta pelo poder externo. Dado que esta oscilação contínua de uma direção para outra não é nem económica nem tolerável para o aparelho psíquico, o individuo torna-se estupidificado. Este estado, porém, não é uma atitude passiva ou a ossificação final de uma situação dinâmica; é, como dissemos, o resultado de um conflito de forças.”
Wilhelm Reich A Análise do Carácter Publicações Dom Quixote



quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Capacidade para amar começa na infância


William - Adolph Bouguereau Maternal Admiration

Capacidade para confiar, amar e resolver os conflitos com os entes queridos, começa na infância, bem mais cedo do que possamos julgar. É a mensagem retirada de uma revisão da literatura científica publicada no jornal Current Direction in Psychological Science da da American Psychological Association com o título The Impact of Early Interpersonal Experience on Adult Romantic Relationship Functioning.

Sobre este estudo, os seus autores, os psicólogos Jeffry A. Simpson, da Universidade de Minnesota colegas W. Andrew Collins e E. Jessica Salvatore, afirmam “Suas experiências interpessoais com sua mãe durante os primeiros 12 a 18 meses de vida prever o seu comportamento em relacionamentos românticos 20 anos depois", "Antes que você possa se lembrar, antes de você ter linguagem para descrevê-las, e de maneiras que você não está consciente, atitudes implícitas elaboram um código na sua mente” sobre as expetativas de merecer amor e afeição.
A boa notícia: "Se você pode descobrir o que os modelos antigos são e verbalizá-los", e se você se envolver com um parceiro amoroso e confiável, diz Simpson, "você pode ser capaz de rever seus modelos e calibrar seu comportamento de forma diferente. " Velhos padrões podem ser superados. Um bebê maltratado pode tornar-se leal. Uma criança mal-amada pode aprender a amar.
É uma mensagem de esperança, mas para conquistar esta felicidade é preciso perder o medo de enfrentar as suas dores, e aprender a dar valor a quem nos quer bem, digo eu.
Para saber mais Science Daily

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O significado do mito de Édipo


Jean Auguste Dominique Ingres Édipo e a Esfinge

"O mito de Édipo tem a sua pré-história na condição, também ela mítica, de seu pai, Laio.
   Laio, rei de Tebas, era bissexual e abusara de um adolescente. Porém, nestes tempos recuados, a homossexualidade, privilégio dos deuses do Olimpo, era proibida aos humanos. Então o Oráculo avisa Laio que o castigo divino viria quando tivesse um filho: este matá - lo -ia e casava-se com a mãe, mulher de Laio, Jocasta.
   Quando nasce Édipo, Laio com a cumplicidade de Jocasta, manda expor o filho à morte por abandono nos montes Citeron, com os pés atados para não fugir. Édipo é salvo por um pastor e entregue aos reis de Corinto que, não tendo filhos, o adoptam.
   Em adulto, embora desconhecendo a história precoce e os pais biológicos – à revelia do consciente amor filial que lhes devotava, em leitura psicanalítica clássica -, vinga-se à mesma, matando Laio e casando com Jocasta.
   É este o destino do pai tirano – a morte afectiva na mente do filho (pela rejeição) – e pela infelicidade do tiranizado – a doença mental (pela tortura da culpa que lhe foi induzida). É a história do objecto patogénico e do sujeito patológico; da relação patológica e patogénica, disfuncional, doente e doentia, mórbida e morbígena – que produz e semeia doença. É a história do complexo de Édipo da neurose, da perseguição psicótica e da culpabilidade depressiva."

António Coimbra de Matos Relação de Qualidade penso em ti Climepsi Editores

sábado, 10 de dezembro de 2011

Looking up

de Joanathan Mak*

“Admiração. O nosso reconhecimento cortês de que a outra pessoa se assemelha a nós”
Ambrose Bierce (1842 – 1913) Jornalista e escritor.

Ao admirarmos alguém, essa pessoa assemelha-se à parte que apreciamos em nós, mas representa também as virtudes que nos esforçamos por alcançar. Liga-nos a um bem superior e ao futuro.

*imagem retirada da página do artista: http://jmak.tumblr.com/page/4


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Invejas partilhadas

"A inveja do homem pela mulher não é menos comum que a da mulher pelo homem, nem menos profunda. Mas ela é muito menos reconhecida e compreendida; e acredito que isso se deva não simplesmente ao preconceito masculino sobre esse delicado ponto, mas à natureza das coisas. No que concerne à inveja que o meninozinho sente pelos seios e pelo leite da sua mãe, ele mesmo é dotado de um órgão especial para enfrentá-los, o pénis. Ora suas irmãzinhas não possuem pénis ou seios, de forma que a sua satisfação e superioridade em possuir um pénis podem ser utilizadas para esconder e contrabalançar seu desejo de um corpo capaz de gerar e alimentar bebés. Durante toda a sua vida os homens continuam a utilizar-se dessa compensação contra a sua inveja das mulheres, e nessa compensação é encontrado um elemento de enorme significado psicológico do pénis. A principal razão porque a inveja dos homens em relação às mulheres permanece tão oculta é que ela diz respeito precisamente ao interior dos corpos femininos, às misteriosas funções e processos que se desenrolam, por assim dizer, magicamente, dentro das mulheres (suas mães), ao gerar bébés e produzir leite. É patente também que, da mesma forma que as mulheres invejam a iniciativa masculina, em contraposição os homens invejam a capacidade das mulheres em experiencias passivas, particularmente a capacidade de suportar e sofrer. O sofrimento atenua a culpa; em particular, a dor que traz a vida ao mundo é duplamente invejável, de maneira inconsciente, aos olhos dos homens." Joan Riviére

In Melaine Kleine e Joan Riviére Amor, Ódio e Reparação Imago Editora

Em texto foi publicado em 1937.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Os generosos e os egoístas

detalhe da arquitetura de um edifício na Praça da Figueira - Lisboa

“No caso dos indivíduos cujas relações de objeto estão predominantemente no mundo exterior, dar tem o efeito de criar e engrandecer valores e de promover o autorrespeito; mas no caso de indivíduos cujas relações de objetos são predominantemente no mundo interior, dar tem o efeito de depreciar os valores e de diminuir o autorrespeito. Quando estes indivíduos dão, tendem para se sentir empobrecidos, porque quando dão, dão à custa do seu mundo interior.”
Ronald Fairbairn Estudos Psicanalíticos da Personalidade Editorial Veja

Confesso que quando me deparei com este texto, pensei “aqui está a explicação para a dificuldade dos egoístas em se dar aos outros, e a explicação para a felicidade das pessoas generosas”.
Os primeiros quando dão algo de seu, tendem a sentir um sentimento de vazio, os segundos sentem-se mais enriquecidos. Estou a me lembrar do modo desajeitado como aqueles o fazem, e do sofrimento a que isso os pode levar. Não costumam ter uma resposta adequada e oportuna às necessidades da outra pessoa, porque estão muito centrados neles próprios, pouco (ou nada) interessados no bem-estar dos que os rodeiam, e partilham a crença (por vezes dissimulada), que o outro e a sua diferença não poderão enriquecê-los. Estes indivíduos, ao estabelecerem relações com o mundo a partir deles próprios e das suas necessidades - as relações de objetos são predominantemente no mundo interior - manifestam dificuldades em atender à outra pessoa como diferente e possivelmente a necessitar de ajuda. Para ilustrar, podem até dar o que não faz jeito nenhum, ou falar deles próprios, quando no momento, é o outro que interessa.
Os generosos - as relações de objeto estão predominantemente no mundo exterior - sabem cuidar de si próprios e dos outros. Sabem que o desejo de ajudar, primeiro tem de nascer de um desejo para si próprio, e que devem ser generosos só até onde for possível.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Há dias assim


Greta Garbo: "I want to be alone." Há dias assim, mas hoje não é um deles. Que bom!
Só me comove a absoluta necessidade de retirar-se do mundo, onde tudo está em demasia, e regressar a uma relação de intimidade consigo própria.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Maldades

Maldades são verdades que fazem mal, que nascem muitas vezes da inveja. Marie - France Hirigoyen

A perversidade está em desarmar a vítima - como denunciar uma verdade?





Zeng Fanzhi little boy 2006

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Conversas na rádio

As minhas preferidas da TSF:
Michel Onfray (filósofo), aqui.
José Gameiro (psiquiatra e terapeuta familiar), sobre as relações homem/mulher, aqui.
Com Carlos Vaz Marques em Pessoal ...e Transmissível.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011



Um indivíduo que se julga Psicopata.
DrºRobert Hare especialista em psicopatas,  faz comentários no vídeo.
"O psicopata é como o gato, que não pensa no que o rato sente. Ele só pensa em comida. A vantagem do rato sobre as vítimas do psicopata é que ele sempre sabe quem é o gato". Robert Hare em entrevista publicada na revista Veja.

Vídeo retirado daqui.
Um artigo publicado num jornal da Association for Psychological Science que faz uma resenha do que pode ser a psicopatia, com o título Psychopathy a misunderstood personality disorder.
Contudo, acho interessante o recente estudo de Steven Morris  One in 25 business leaders may be a psychopath, aqui.

domingo, 27 de novembro de 2011

A estranha nudez da intimidade



Filme: Klute 1971 com Jane  Fonda.
O vídeo não é grande coisa, mas a narrativa é fabulosa.

A desforra do jovem russo


Igreja de S. Domingos, na baixa de Lisboa

Em História de Uma Neurose Infantil” (1918) Freud notará esta característica da “servidão” submissa que é exigida ao objeto por parte da omnipotência do sujeito, e notará igualmente a necessidade de “rebaixar” o objeto que satisfaz, como forma de desforra em relação à humilhação narcísica sofrida. No caso em análise, o jovem russo procuraria as relações sexuais sempre com mulheres de baixa condição, como forma de aviltar a irmã, ou seja, aviltar a mulher perante a qual se sentira humilhado, narcisicamente.”
Cristina Fabião Narcisismo Defesas Primitivas e Separação Climepsi

Estou a pensar naqueles casais mais contemporâneos, em que num momento de crise, um deles por orgulho ferido, se envolve com outra pessoa de condição pessoal, social, económica ou profissional, inferior, com a intenção de humilhar a pessoa com quem até aí mantinha uma relação. 
Não nos esquecendo que a vida faz-se com base na tensão mantida entre o eu, a imagem que tenho do outro, e o outro real, o efeito pretendido poderá não ser rebaixar o amor-próprio da outra pessoa - com a mensagem "vales ainda menos" - visto esta estar consciente do seu próprio valor.
O que poderá ser destruído, é a imagem positiva que esta tinha do individuo que lhe pretende causar humilhação. Não atender a esta possibilidade, deve-se ao sentimento de omnipotência do sujeito - a crença exagerada no seu próprio valor ou importância.
E, porque o amor precisa sempre de uma pitada de admiração, chegado a este estado, o ponto de encontro é incerto.

PHANTOM WATER EDIT from Chris Bryan on Vimeo.


Fotógrafo Chris Bryan
O nosso maravilhoso mundo
Na Austrália

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

I'll never break up with you

foto a partir de um cinemagraphs de Jamie Beck, com o título I'll never break up with you

De nada me valeu pousar o olhar na linha do corpo e fazê-lo deslizar pela explanação das formas. Era a esperança que o sentimento original se reanimasse e preenchesse todo o espaço. Mas o meu olhar oscilava entre idas e voltas e perdas de sentido. As linhas do corpo já não resguardavam a perdição.
Orgulho-me dele, contudo. De certo modo continua a sua existência dentro de mim por representar as coisas singulares que posso reconhecer como boas.
Sim, há pessoas de quem nunca nos separamos.

o artista tem a habilidade e coragem

“…o artista tem a habilidade e coragem de estar em contacto com os processos primitivos aos quais o neurótico não tolera chegar, e que as pessoas sadias podem deixar passar para seu próprio empobrecimento.”
D. Winnicott (pediatra e psicanalista inglês – Nasceu a 7 de Abril de 1896; Faleceu a 28 de Janeiro de 1971)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Filme: Ivan childhood
Realizador: Tarkovsky
O filme retrata a violência sobre as crianças em tempos de guerra.
Nesta imagem, Klolin abraça e beija Masha ajudando-a deste modo a atravessar uma trincheira.
Poderá simbolizar o ditado: "Quem ama protege".

O artista e o pseudo-artista

“Há diferença nítida quanto ao tipo de êxito que precisam o pseudo- artista e o artista verdadeiro. O pseudo-artista precisa ser aceite como pessoa, exige aplauso a todo o custo; adapta-se à plateia a fim de garantir o aplauso. O artista precisa fazer que se aceite uma fantasia específica sua; quer aplauso para a sua obra, e não para para si mesmo.”
Otto Finichel Teoria Psicanalítica das Neuroses

Otto Finichel  - Nasceu a 2 de Dezembro 1897 e faleceu a 22 de Junho de 1946

sábado, 19 de novembro de 2011

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Devaneios



Filme: The Others
Realizador: Alexandro Amenábar
Ano: 2001

O filme decorre durante a II Guerra Mundial. Grace interpretada por Nicole Kidman vai viver para uma enorme mansão soturna, com dois filhos pequenos. Passado algum tempo, tanto elas quanto as crianças convencem-se que a casa está assombrada.
Este pequeno vídeo, retrata uma tentativa de Grace para enfrentar e resolver esta situação, ao procurar os fantasmas ou almas de outro mundo num dos muitos quartos fechados da mansão. Não consegue encontra-los.
Os seus medos têm outras manifestações. A mais exuberante é andar com um molho de chaves de modo a que os quartos estejam sempre fechados e as cortinas corridas, para evitar que filhos não possam ver a luz do sol, por acreditar que são fotossensíveis.
Mas a realidade é que tanto ela como as suas crianças, e a criadagem, são os verdadeiros fantasmas. Já morreram há muito. As crianças foram até assassinadas por Grace, num ato de desespero.

Este filme bem pode ser como uma metáfora àquelas situações em que expulsamos para o interior de outra pessoa o mau que recusamos a nós próprios, a fim de prejudicarmos essa pessoa, e ao mesmo tempo, para a controlarmos como parte de nós. E sentimo-nos aliviados por isso. Não somos já nós que sofremos, é o outro.
O filme poderá também representar como os nossos medos podem provocar a nossa rejeição, o que nos  garante que afinal, a vida é tal qual como a tínhamos previsto.
Mas também podemos atribuir a outra pessoa o nosso lado bom, imaginando que ela nos quer só bem, ou que nos ama, o que mais tarde desiludidos, nos apercebemos quão enganados estávamos.
O que acontece é que quando projetamos sobre o outro, maciçamente, as construções da nossa mente, deixamos de o ver, ele deixa de existir e no lugar dele ficam as nossas projeções (Amaral Dias*), ou sejam, os nossos devaneios, digo eu.

Palavra-chave: Identificação projetiva
*C. Amaral Dias Costurando as linhas da psicopatologia Borderland (estados-limite) Climepsi

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Gabriela Moita


Henri Matisse Le bonheur de vivre

Realizou-se ontem no Porto uma sessão com o título "Sexualidade: tudo o que querias saber mas não ousavas perguntar", organizada pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, em que estiveram presentes 300 jovens, dos 13 aos 18 anos.
Três especialistas em psiquiatria e sexologia - Margarida Braga, Gabriela Moita e Manuel Esteves -, moderados pelo psiquiatra Rui Mota Cardoso esclareceram as duvidas dos jovens.
São perguntas colocadas por “miúdos”, mas têm o seu interesse.
De acordo com o artigo de Alexandra Campos publicado no Jornal Publico de hoje, aqui estão as perguntas e respostas da Psicóloga Gabriela Moita (http://gabrielamoita.no.sapo.pt/).

As mulheres gostam mais da penetração de homens de raça branca ou negra?
Gabriela Moita: Esta pergunta contém muitas perguntas. Vou dividi-las: As mulheres gostam mais de penetração? Desde logo, [a penetração], para muitas mulheres, não é o que dá mais prazer. O centro do prazer da mulher não é propriamente a vagina. Mas o que esta pergunta esconde é o medo de que o pénis não tenha o tamanho suficiente. A cor não é importante. E o tamanho também não tem importância. A zona mais sensível [da mulher] tem seis centímetros e o terço externo da vagina tem dois. Alguém pensa que um pénis tem menos de dois centímetros? [Risos]. O prazer está mais associado a todo o encontro erótico.

Como localizar e como estimular o ponto G?
Gabriela Moita: Dentro da sexologia não há acordo [sobre o ponto G]. Alguns estudos apontam para a possibilidade de um ponto que possa dar mais prazer, mas isto não é consensual. O grande drama é quando, em vez de procurar o prazer, se começa a procurar o ponto G ["ponham binóculos", sugere um rapaz na assistência].

A masturbação é saudável?
Gabriela Moita: Se a resposta fosse sim, isso significaria que teríamos que pôr todas as pessoas a masturbar-se. A resposta é: não faz mal à saúde. Não faz mal e tem a vantagem de servir como fantasia para preparação do primeiro encontro sexual.

Como é que gosto desta pessoa que me faz tanto mal?
Gabriela Moita: A ideia de que o amor é a coisa mais bonita e tudo cura é das mais erradas. É grave dizer: "É uma pessoa tão excecional que se consegue manter naquela relação." Há pressões sociais e ideias feitas que nos impedem de tomar decisões. Felizmente, vivemos numa época em que não há nada que deva ser para toda a vida.

E se o preservativo romper?
Gabriela Moita: Podem dirigir-se a um centro de apoio a adolescentes ou a centros de saúde onde provavelmente vão receitar a pílula do dia seguinte. Em último caso, vão buscar à farmácia [sem receita].

O que é o sexo tântrico?
Gabriela Moita: Não sei explicar. Tem a ver com timings, capacidade de sentir, diminuição da ansiedade e possibilidade de elevar o prazer ao máximo com o esforço mínimo. É um jogo de encontro com o outro que leva horas.

É verdade que há uma doença da mulher dos 200 orgasmos?
Gabriela Moita: No século XIX, a mulher doente era aquela que tinha um orgasmo. Um especialista nessa altura até escreveu: "Existem algumas mulheres que podem ter prazer sexual e não são ninfomaníacas". São as épocas que vão definindo o que está certo ou não. Digamos que ter 200 orgasmos será para alguém que tem sorte e tempo...

domingo, 13 de novembro de 2011

2 anos!

Photobucket
Cinemagraphs Gifs de Jamie Beck

O blog faz hoje 2 anos.
Esta lembrança poderia servir como um separador para novos temas, novos estados de alma. Só a vida ditará.
O momento é de alegre vontade de continuar.
Obrigada aos autores dos comentários, que me confirmam que os meus pensamentos não são assim tão estranhos, porque há um outro semelhante a mim, apesar de diferente, a quem eles fazem sentido.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A técnica da cisão


indignados na Puerta del Sol (Madrid - Espanha)

“A era dos psicopatas e burocratas
Ambos cimentam e incentivam a fragmentação da nossa perspetiva e das nossas perceções porque a sua coesão pessoal precisa do estado de cisão. São eles os inimigos de qualquer integração que tenha por objetivo uma visão de conjunto dos assuntos pessoais, económicos e sociais. Por intermédio da técnica, o seu poder e, com isso, o perigo que eles representam para a Humanidade cresceu de forma incomensurável. Juntos combatem a coesão do nosso mundo. O psicopata, com a sua personalidade deslocada para o exterior, aspira ao controlo momentâneo sobre o outro. O burocrata defende o status quo para defender a sua coesão e existência."
Arno Gruen Falsos Deuses Editora Paz.

Lembrei-me deste pequeno texto, a propósito das reivindicações dos “indignados” e de todos os movimentos que lutam por medidas políticas económicas e sociais que tenham em conta uma visão integral da condição humana.
A não defesa dessa visão de conjunto, é considerado por Arno Gruen, uma técnica, ou seja, um mecanismo para fazer valer interesses pessoais ou de grupo.
Esta insensibilidade social ao sofrimento causado aos outros, faz deles os psicopatas da era moderna, que com a ajuda dos burocratas que cobardemente obedecem ao poder, provocam danos na vida das pessoas e nas instituições.
A utilização desta técnica não nos devia surpreender. É usada no nosso quotidiano, nos contextos de trabalho ou familiares, em que alguém para defender a sua posição, de modo relutante não manifesta uma visão global da situação e das suas possíveis implicações na vida do outro ou dos outros.
São estados  geradores de ansiedade, porque a nossa natureza é feita para que o nosso comportamento, sentimentos e necessidades, estejam em harmonia e não em desordem.

Arno Gruen é psicanalista.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Caetano Veloso - Sampa



Quando eu te encarei
Frente a frente
Não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi
de meu gosto o mau gosto
É que Narciso acha feio
O que não é espelho
E à mente apavora o que ainda
Não é mesmo velho
Nada do que era antes quando não somos mutantes

Caetano Veloso, em Sampa



segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Um Método Perigoso



Filme: A Dangerous Method
Realizador: David Cronenberg 

David Cronenberg  esteve ontem em Portugal para participar no Lisbon Estoril Festival Film, onde estreou o seu filme mais recente “Um Método Perigoso” que aborda a história da relação entre Sigmund Freud, Carl Jung e a paciente amante de Jung, Sabina Spielrein. Este filme ilustra o nascimento da Psicanálise.
Em entrevista com Alexandra Prado Coelho, publicada hoje no Jornal Publico, transcrevo as afirmações de David Cronenberg:

“ Chamo-lhe uma ménage à trois intelectual – sem dúvida que havia também amor entre Freud e Jung. De certa forma estas três pessoas inventaram o sec.XX. as relações que tinham, a forma como falavam uns com os outros, não tem precedentes”.

As três personagens “viviam na Europa Central, no que era então o império austro-húngaro, num ambiente muito controlado, onde toda a gente sabia o seu lugar, não se falava de sexo, ou do corpo e as pessoas pensavam que estavam a evoluir para uma maravilhosa civilização europeia que seria superior a tudo o que tinha existido antes”.

“ (Freud) veio dizer que, por baixo da superfície, e é uma superfície muito fina, há paixões e emoções incríveis, hostilidades tribais, onde o potencial para a barbárie e a violência é enorme. E que temos que ter consciência disso para não sermos controlados por essas emoções.”

“A I Guerra Mundial provou que Freud estava 100% certo.”

“ (O filme) é muito rigoroso." Tudo nele se baseia em cartas e documentos onde Freud e Jung detalhavam “ O que comiam, o que sonhavam, as suas vidas sexuais, quantos cigarros Freud fumava.”

“ A perspectiva feminina, num tempo em que não era suposto que as mulheres tivessem uma educação ou uma vida sexual”.

“Freud e Jung são dois homens muito sérios, e nas suas cartas estão a falar de coisas como ejaculação, esperma, excrementos, vaginas, abuso sexual de crianças, uma coisa que ninguém imaginava que pudesse acontecer, mas eles viam nos seus doentes que acontecia.”

“Jung acreditava que somos capazes de nos transcender a nós próprios. Algumas pessoas pensam que a teoria da evolução, descrita por Darwin, significa que partimos de uma coisa que não é boa e evoluímos sempre para melhor. Evolução significa mudança, sim, mas não necessariamente para melhor.”



quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Love fraud - incapacidade de amar



Clóvis Graciano O clarinetista

"…um outro laço assume as funções de laço amoroso, há uma substituição por outro tipo de laço – é o que designamos por vicariância."
Descrevemos três tipos fundamentais de vicariância:
Vicariância erótica: o laço erótico supre a não organização ou falência do laço amoroso. É típica de algumas personalidades histéricas e personalidades – limite; erotização das relações por incapacidade de amar e /ou ser desejado, já que não é amado. É própria também da personalidade histérica. "Ninguém me ama mas todos me desejam"
Vicariância narcísica: o desejo de amar é substituído pelo desejo de ser admirado. É típica das personalidades narcísicas; ser admirado uma vez que não consegue ser amado; e, complementarmente, brilhar/exibir-se porque não sabe dar e amar."Ninguém me ama, mas todos me admiram" - o grito de triunfo narcísico.
Vicariância agressiva: “ Não sou amado mas sou temido”. É própria dos psicopatas; ter poder ou dominar porque não se é desejado nem amado. Ser poderoso para iludir a ferida de ser, de facto, um Zé Ninguém. É  patognomónica do defeito narcísico-identitário, como do núcleo psicótico-psicopático ou perverso. Abunda nos ditadores de toda a espécie, feitios e graus. É o "poder da portinhola" - por onde sai a boca do canhão escondido.
Coimbra de Matos Relação de Qualidade: penso em ti Climepsi

A capacidade de amar ou fazer amigos está fora do alcance destas personagens, que como compensação recorrem à sedução, domínio, ou outros artifícios, para manter o outro. Podem no entanto, questionar-se porque magoam as pessoas que julgam amar. Só que, na realidade não amam.
Poder-se-á agora compreender porque não se foi amada/o por essa pessoa - porque ela/ele não é capaz de amar ninguém.
Se o orgasmo não está numa relação de prazer mútuo, onde é que ele está? Na sedução, só por si? Na manipulação ou pela humilhação do outro?

É um amor transvestido de amor, inchado de nada, descoberta tardia no desengano e na anarquia dos sentidos, em revolução, pela necessidade de ser-se amada por um outro que o saiba. Porta para a vida, como bênção.

Os serial lovers nas palavras de Jacques-Alain Miller, psicanalista:
“Alguns sabem provocar o amor no outro, os serial lovers – se posso dizer – homens e mulheres. Eles sabem quais botões apertar para se fazer amar. Porém, não necessariamente amam, mais brincam de gato e rato com suas presas. Para amar, é necessário confessar sua falta e reconhecer que se tem necessidade do outro, que ele lhe falta. Os que crêem ser completos sozinhos, ou querem ser, não sabem amar. E, às vezes, o constatam dolorosamente. Manipulam, mexem os pauzinhos, mas do amor não conhecem nem o risco, nem as delícias”.

O oposto da inveja

Zeng Fanzhi Mammoth's Tusks 2010
A inveja é o oposto da gratidão (Mélanie Klein).
A inveja é o oposto da compaixão, empatia, ressonância emocional e resposta afetiva adequada e oportuna. (Coimbra de Matos)*

Na inveja maligna, o desejo de destruir a coisa invejada ou o outro, resulta da incapacidade de guardar dentro de si, como seu, o que o outro tem de bom e esforçar-se por ser melhor cada dia. 
Não aproveitam de maneira construtiva o que o outro diz ou faz, pelo que, não se consegue criar cumplicidade.
Este vazio, torna possível toda a destrutividade.

*Coimbra de Matos Relação de Qualidade: penso em ti Climepsi

Némesis por Daniel Sampaio


Alfred Rethel Némesis

"Némesis era uma deusa grega, filha de Zeus, que vivia no Olimpo e era responsável pela retribuição da justiça divina. Nasceu ao mesmo tempo que Témis, a personificação da Ética, enquanto Némesis tinha a missão de combater todo o excesso e de controlar o destino humano. Venerada em Rhamnonte, uma pequena cidade da Ática onde estava o seu templo, passou também a personificar a vingança. Foi assim que castigou o Rei Creso e consta ter punido Narciso: depois de ouvir as queixas das mulheres por este abandonadas, Némesis provocou uma onda de calor que secou a água onde Narciso se contemplava, levando ao seu enfraquecimento progressivo."
Némesis, Pública de 23/10/11
Daniel Sampaio é psiquiatra e terapeuta familiar

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

À espera do que não existe


Lucian Freud Girl with a Kitten

Que força permite determinada mulher ou homem, suportar ser tratado como coisa, por um parceiro perverso narcísico?
Não se trata de uma relação sado-masoquista como por vezes se julga, ou de alguém que no lugar de vítima, provoca as agressões. Trata-se de “um casal conduzido por um perverso narcísico que constitui uma associação mortífera: a maledicência, os ataques subterrâneos são sistemáticos" (Hirigoyen). Esse processo só é possível pela exagerada tolerância da parceira (Hirigoyen), mas são as estratégias do perverso, que lhe provocam culpabilidade, medo e dúvidas.
O perverso narcísico não sabe ser de outro modo, enquanto a vítima tem possibilidade de escolher outro modo de vida.
É dessa tolerância que fala este texto de André Martins:

"O paradoxo é o de que a vítima se enreda e se torna vítima, justamente por julgar-se forte, ao menos no fundo; por julgar-se capaz de superar o sofrimento advindo da agressão injusta, e obter, ao final, a grande recompensa de sua capacidade de resiliência, persistência e habilidade sobre o outro: recompensa que é, precisamente, o amor do agressor que até então acena com este amor seduzindo- a, mas na prática a desprezando mais do que supostamente a ama. Ou ainda, a recompensa esperada pela vítima seria o reconhecimento, por parte do agressor, do amor que ele, na verdade e no fundo, sentiria pela vítima, mas não sabe, ou não consegue expressar, devido a suas dificuldades afetivas e relacionais. O jogo do agressor consiste, assim, em dar a entender que ama a vítima, mas em não declarar, não enunciar este amor, ou fazê-lo cada vez menos ao longo da relação, e sempre de maneira ambígua, ambivalente, fugidia. E em alternar entre seduzir a vítima, e, nos momentos de crise, agredi-la fortemente com palavras que tocam seus pontos fracos e a desestabilizam. As vítimas obedecem ao agressor “primeiro, para dar prazer a seu parceiro, [...] pois ele tem um ar infeliz.
Depois, [...] por medo” (HIRIGOYEN, 2002, p. 110). Nem que seja por medo de seu mau humor. “A submissão é aceita como necessidade de reconhecimento e parece preferível ao abandono” – reconhecimento que não virá nunca, ou se vier, virá sempre mitigado e parcial. “Como um perverso dá pouco e exige muito, uma chantagem implícita ou, pelo menos, uma dúvida torna-se possível: ‘Se eu me mostrar mais dócil, quem sabe ele poderá, enfim, me apreciar ou me amar.’ Busca sem fim, pois o outro não estará jamais satisfeito”. A vítima fica paralisada “pela recusa em ver que ela é rejeitada” ou para evitar o constrangimento e o desgaste de um conflito – pois sabe que qualquer contrariedade fará com que o agressor deflagre um conflito.
Assim, “o agressor mantém no outro uma tensão que equivale a um estado de estresse permanente”. Se isso fica explícito na relação de casal, algo análogo ocorre também em relações dentro de grupos sociais ou profissionais.
Enquanto que o ego do agressor se caracteriza por um narcisismo perverso, o ego da vítima é um ego paradoxalmente forte, não fraco, mas frágil e carente: não dependente da aprovação do outro, mas desejoso desta aprovação. É um ego desejoso de dar, de auxiliar, pois servir faz sentir-se dando ao outro aquilo que ele desejaria receber. Daí – de sua força, no sentido de resistência ao desamor – vem sua fragilidade que o faz colocar-se em relação com alguém que não lida bem com o receber, pois considera que a mãe, e portanto, o outro, o ambiente e o mundo, lhe deve algo, numa dívida sem fundo e sem fim. Um deseja dar amor ao ponto de buscar aquele que demasiadamente não o teve, enquanto que este cobra um amor que não existe, permanecendo insatisfeito.
Ao invés de reconhecer o amor do outro, sente necessidade em desmerecê-lo.
Quanto mais um se dedica ao outro, mais o outro despreza esta devoção. E trata de manter a relação manipulando-a através do assédio, aceito pelo outro na intenção de este findar, de superá-lo, de vencer as dificuldades da relação e se fazer amar."

André Martins, Uma violência silenciosa: considerações sobre a perversão narcísica Cadernos de Psicanálise, Rio de Janeiro, ano 31, nº22, 2009. Está online, aqui. ou aqui.





terça-feira, 25 de outubro de 2011

Esforços para enlouquecer o outro


O filme Gaslight - o marido (que intencionalmente colocou o seu relógio na bolsa da mulher) tenta numa 2ª fase levá-la a acreditar que está louca.

É um processo intencional, consciente e construído. 
Numa 1ª fase o agressor trata de fragilizar a vítima. Quando ela já está fragilizada, ela vira a fragilidade contra ela, com comentários do tipo: 
Você é tão sensível.
Você é tão emocional.
Você está na defensiva.
Você está exagerando.
Acalme-se e relaxe.
Você está louca!
Eu só estava brincando, você não tem sentido de humor?
Você é tão dramática. Supere isso, já!

São frases típicas do manipulador/agressor.

"O objeto enlouquecedor desfaz. …o principal atributo e correspondente ação do objeto enlouquecedor é o ataque ao  pensamento do sujeito, ao seu território mental – instalando nele o medo, a dúvida, a confusão. O fito é obter a incapacidade de pensar do sujeito; e , por fim , é o que acontece – o desmantelamento mental da vítima, seja, a anarquia psíquica." António Coimbra de Matos Relações de Qualidade Climepsi Editores.
Um artigo sobre esta temática (assédio moral, gaslighting  ...), da autoria de Yashar Ali, com o título Why Women Aren’t Crazy - Has gaslighting conditioned women into thinking they’re emotionally unstable?, aqui (The Good Men Project).

O fabuloso conto de Charlotte Perkins Gilman "O papel de parede amarelo"AQUI

Outro artigo sobre o mesmo assunto, em:
http://www.goodtherapy.org/blog/unreality-check-cognitive-dissonance-in-narcissistic-abuse-1007144
ou
http://www.goodtherapy.org/blog/gaslighting-a-slow-burning-emotional-abuse-tactic-0121154



sábado, 22 de outubro de 2011

Pequenas perceções

Photobucket
 Cinemagraphs Gifs de Jamie Beck

Consideremos um rosto e, nesse rosto, um sorriso. O sorriso pretende ser amigável, mas, apesar disso, apercebemo-nos de um não sei quê que nos revela exatamente ao contrário: esconde uma profunda antipatia, hostilidade até. Mas só um olhar atento capta este afastamento entre aquilo que o sorriso pretende exprimir e aquilo que realmente exprime. Este afastamento é apercebido graças às pequenas perceções: é um sorriso imperceptivalmente hipócrita. José. N. Gil, Les Enjeux du Sensible. Revista Chiméres, nº 39

Os nossos encontros são feitos destas pequenas perceções e das outras que nos fazem sentir verdadeiramente acompanhados.
São detalhes mínimos da comunicação que pertencem ao reino do indizível e do íntimo. Falar deles a alguém, é uma experiencia solitária.
Devíamos dar mais valor às pequenas perceções. Os nossos pensamentos sobre as pessoas nascem desta essência afetiva.




quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A técnica exibicionista



No filme de James L. Brooks , Melhor é impossível, Melvin Udall (Jack Nicholson), é um escritor com transtorno obsessivo compulsivo, arrogante e pouco sociável. Melvin tem este diálogo com uma secretária:

Ela: Você não tem ideia, do que a sua obra significa para mim. Como escreve mulheres tão reais?
Melvin: Eu penso num homem e tiro dele a razão e a responsabilidade.

O que pretendo ilustrar com este diálogo é a estratégia utilizada por Melvin, que corresponde a uma técnica de se revelar ao outro de um modo empático com a condição humana - pela escrita, no seu caso - desde que não envolva o contacto direto com as pessoas.
É um faz de conta, em que se exibe uma imagem de sociabilidade mas escondem-se dificuldades afetivas e  relacionais. 
Utilizada pelos indivíduos introvertidos, se esta explicação lhe faz sentido, pense nos múltiplos exemplos observados no meio social, profissional e virtual, em que estão presentes um sentimento (por vezes, secretamente escondido) de superioridade, um desinteresse pelo outro, a par de uma exclusiva preocupação por si próprio, e no entanto, exibem-se  manifestações com a intenção de fazer crer o oposto.

A  técnica exibicionista por Ronald Fairbairn:
… a atracão pelas atividades literárias ou artísticas em indivíduos com propensão esquizoide* deve-se em parte ao facto de que estas atividades fornecem um meio exibicionista de expressão, sem envolverem contacto social direto. O significado da exploração do exibicionismo como uma defesa reside no facto de que representa uma técnica para dar sem dar, por uma substituição de "mostrar" por "dar. in Estudos Psicanalíticos da Personalidade, biblioteca de psicanálise

* Esquizoide corresponde ao conceito de individuo introvertido para Carl Jung
Ronald Fairbairn (11 de agosto de 1889 - 31 de Dezembro de 1964) foi psiquiatra escocês e psicanalista.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Incesto soft

Nos tempos modernos, tropeçamos nesta perversão:

"...Recamier forjou um neologismo, o “Incestual” (incesto latente), que descreve o “ clima” particular de certas famílias, feita de uma atmosfera doentia, de proximidades ambíguas carregadas de olhares e de atitudes equívocas, de toques fortuitos, de alusões sexuais.
O incestual, ao contrario do incesto, não desemboca no ato sexual, mas mantém a confusão entre gerações e entre sexos, uma espécie de “incesto soft” (M-F Hirigoyen), testemunho da importância de uma área psíquica que Recamier chama “Antédipo” (que tem que ver ao mesmo tempo com ante = antes e com anti = contra).
Exemplos do “incestual”:
  • Uma mãe conta à filha de 12 anos as falhas sexuais do marido e compara os atributos deste com os dos seus amantes.
  • Um pai seduz as amigas da filha de 18 anos, faz-lhes festas na presença desta e leva-as à discoteca à noite.
  • Uma mãe viúva diz ao filho de 8 anos que agora ele é o homem da casa, e que até que atinja a maioridade se recusa a encontrar-se com outro homem. 
  • ...
Hoje em dia este clima “incestual” e de “sedução narcísica” para com as crianças e adolescentes encontra-se em todos os escalões de uma sociedade “adolescêntrica” que, particularmente na publicidade e nos media televisivos, utiliza o seu potencial físico de sedução, atrai-os, sedu-los, dá-lhes a palavra com a ilusão de que esta tem um valor maior do que a do adulto ou a da terceira - idade." 

Gérard Pirlot e Jean – Louis Pedinielli  As Perversões Sexuais e Narcísicas Climepsi Editores

Se a vítima rejeitar estes atos, é considerada fora de moda, ou quem sabe, tem algum problema - aqui reside uma característica da perversão.

Ilha da Madeira


Tenho andado à procura de vídeos da minha terra. Agrada-me este.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

As atitudes ficam com quem as pratica

Oratório Paula Rego

“Lá no fundo, a vontade de destruir, direcionada para os outros, não é mais que a vontade de nos destruirmos a nós mesmos.”
Valerio Albisetti Ser amigo ou ter amigo? E. Paulinas

Quem me ofereceu este livro surpreendeu-se que eu reconheça todo o sentido na frase “As atitudes ficam com quem as pratica”. Certamente as pessoas costumam associar a este pressuposto a ideia que somos os únicos responsáveis pelas nossas ações, e consequentemente, estamos dispostos a suportar as consequências (sobre as quais não temos nenhum controlo), se as houver. Se não houver consequências, ficamos bem. Não ficamos.
Este estado prende-se com a existência em nós, da imagem que cada um tem de si e da imagem que tem do outro, o outro presente em nós, do que ele representa. É o nosso património, causar-lhe dano, passa a ser a partir de agora, a vontade de nos destruirmos a nós mesmos, 
A inexistência desta continuidade – o eu, o outro em mim mesno - é o vazio,  fonte de todas as violências. É a ausência da ideia da própria bondade, e precisamos de nos considerarmos bons para viver - todas as pessoas que têm saúde mental se consideram decentes.
Deveríamos ter medo de quem não tem nada a perder. Ou de quem não quer saber de si.


No Brasil, o escritor português Valter Hugo Mãe.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Não está lindo?




O resultado das obras de restauro e recuperação do Ateneu Comercial do Funchal. Foi inaugurado ontem pelo Presidente do Governo Regional - Drº Alberto João Jardim.
A escada em ferro por onde descíamos aquando da exposição da flor. Soturna e encoberta nesse tempo. 
Não está lindo?(não é uma pergunta).
A origem do bom gosto madeirense? O nosso convívio com os ingleses deve ter contribuído. É outra das minhas teorias.

domingo, 2 de outubro de 2011

Sê minha da forma que imagino


Paul Cezanne Retrato de Gustave Geffroy (detalhe)

Sigmund Freud em carta à sua noiva Martha Bernays: "Sê minha da forma que imagino.”

Ilse Grubrich-Simitis psicanalista e especialista em Freud, que é uma das três editoras que assina a introdução do 1º volume das 1500 cartas trocadas entre o casal durante o noivado secreto de quatro anos, e que estão agora a ser publicadas em língua alemã, acrescenta: "Ele compreendeu muito rapidamente quão importante ela era para a sua estabilidade, como ligação ao mundo real"; "Ele percebeu ao longo da troca epistolar que era impossível moldá-la, e que não seria bom."

A editora alemã S. Fischer Verlag está a publicar as cartas, na íntegra. O 1º volume tem o título Die Brautbriefe, Band1.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Basta!



Kruger, Barbara Untitled (Be), from the Untitled Portfolio, 1985
“É preciso levar Ana a aceitar que, faça o que fizer, ela será sempre objecto de ódio para Paulo, aceitar que nada pode fazer para modificar esta relação, aceitar a sua impotência. Basta portanto que ela tenha uma imagem suficientemente boa dela própria para que as agressões de Paulo não ponham em causa a sua identidade. Assim, se deixar de ter medo do seu agressor, ela sairá do jogo e talvez possa desarmar a agressão”.
Marie – France Hirigoyen Assédio, Coacção, Violência no Quotidiano Pergaminho

Necessito clarificar o que se entende por ódio e o que se entende por amor. “O ódio é uma força destruidora e desintegradora tendendo para a privação e a morte, e o amor uma força unificadora e harmonizadora, tendendo para a vida e o prazer” (Joan Riviere), mesmo considerando que no amor possa estar presente a agressividade, e do mesmo modo, esta  presente no ódio, pode não ser destrutiva.

Quando se sai de vez, do domínio de uma relação desintegradora?
O texto é interessante pelas pistas: “aceitar que nada pode fazer para modificar esta relação, aceitar a sua impotência"; perceber que essa relação não a define – há um lado bom nela própria, há muito esquecido, mas ávido por renascer, e que, independente do que sente pelo outro, esta relação faz-lhe mal.
Se transferirmos estes sentimentos para os contextos de trabalho, cansados da inércia de nada funcionar como deveria, avizinha-se a vontade de mudança de vida.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Compreender os efeitos da rejeição


Kruger, Barbara Untitled (You are not yourself) 1982
Ser ignorado pelos outros ou posto de parte - quanto é necessário para experimentar a dor e para duvidar do sentido da vida? A resposta rápida: "Não muito", refere Dr. Todd B. Kashdan psicólogo e professor de psicologia na George Mason University, no artigo Understanding Rejection's Psychological Sting (aqui).
Experiencias recentes com um grupo de pessoas num jogo de computador, simples e inútil, demonstram que depois de apenas cinco minutos de não receber a bola, as pessoas sentiram um aumento em desespero, tristeza e hostilidade, e uma diminuição na auto-estima, sentido de controlo e sentido na vida.
Todd B. Kashdan sublinha que é fácil subestimar o poder da inércia do ostracismo da parte de pais, professores, chefes e amigos, e por tal negligenciam as consequências do mesmo em termos de sofrimento psicológico.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Narciso por Marie–France Hirigoyen


Caravaggio, Narciso

Sobre a personagem de Narciso do Mito de Narciso muito se escreve, mas Marie – France Hirigoyen é uma referência para a compreensão do narcisismo e da perversão narcísica, no quotidiano.

Desta autora, deixo-vos um pequeno texto sobre Narciso:
“Um Narciso, no sentido de Narciso de Ovídio*, é alguém que crê encontrar-se ao mirar-se ao espelho. A sua vida consiste em buscar o seu reflexo no olhar dos outros. O outro não existe enquanto individuo mas enquanto espelho. Um Narciso é uma casca de ovo vazia que não tem existência própria; é um “pseudo”, que procura iludir para mascarar o seu vazio. O seu destino é uma tentativa para evitar a morte. É alguém que nunca foi reconhecido como ser humano e que foi obrigado a construir para si um jogo de espelhos para se dar a ilusão de existir. Como um caleidoscópio, por mais do que este jogo de espelhos se repita e se multiplique, este indivíduo contínua construído sobre o vazio”.
* Ovídio* Les Métamorphoses
Marie – France Hirigoyen Assédio, Coação e Violência no Quotidiano Pergaminho

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Lembrando de quando tudo aconteceu

Frida Kahlo Dona Rosita Morillo (detalhe)

Como percepcionamos o tempo? Porque em certos encontros o tempo desliza vivo e veloz, enquanto em outros, os momentos parecem-nos longos e penosos, travados pelo outro, à beira do nosso desejo?

António Damásio director do Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina da University of Iowa, assina um artigo publicado na revista Scientific American, nº 40, Brasil, com o título “Lembrando de quando tudo aconteceu”, cuja temática é a construção do tempo mental.
No artigo pode-se ler como definição de tempo mental: "...diz respeito à maneira como experimentamos a passagem do tempo e como organizamos nossa cronologia."
Várias estruturas cerebrais entre elas o hipocampo, o cérebro anterior basal e o lobo temporal, contribuem para a percepção do “tempo mental”, mas parece que este é “...determinado pela atenção que dispensamos aos eventos e às emoções que sentimos quando eles ocorrem”, desconhecendo-se por enquanto outros mecanismos que o influenciam.
Assim,” …a experiência de duração do tempo …se baseia em factores tão diversos quanto o  conteúdo dos eventos que estejam percebidos, as reacções emocionais que esses eventos despertam, a maneira como as imagens são apresentadas a nós, assim como as inferências conscientes e inconscientes que as acompanham”.
É também curiosa outra explicação de António Damásio: “O conteúdo emocional do material pode também fazer com que o transcurso do tempo se desacelere. Quando estamos incomodados ou preocupados, frequentemente sentimos o tempo passar mais devagar, porque nos concentramos nas imagens negativas associadas à nossa ansiedade”.