sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Os líderes narcisistas serão eficazes?

Os líderes narcisistas que exibem carisma e exaltam segurança pessoal (nem todos se manifestam de acordo com este perfil), costumam ser identificados como elementos eficazes nos ambientes de trabalho.
Sem a sua autoridade as “coisas não vão para a frente”, princípio que eles próprios recorrem para legitimar e alimentar a imagem de autoridade.
Serão mesmo eficazes?
O artigo Reality at Odds With Perceptions Narcissistic Leaders and Group Performance, publicado online na Psychological Science, em 19 de Set/2011, conclui que o narcisismo de um líder realmente inibe a troca de informações entre os membros de um agrupo e, assim, afecta negativamente o desempenho do mesmo.
Uma das autoras Barbora Nevicka, refere que os líderes narcisistas são demasiado egocêntricos (e invejosos, digo eu), para facilitar a comunicação e dar valor às opiniões dos outros elementos do grupo.
Na vida política, as pessoas costumam preferir líderes com este perfil para enfrentar as crises, de modo a reduzir as sensações de  incerteza e de stress.
Consultar o  Abstract.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Basta!



Kruger, Barbara Untitled (Be), from the Untitled Portfolio, 1985
“É preciso levar Ana a aceitar que, faça o que fizer, ela será sempre objecto de ódio para Paulo, aceitar que nada pode fazer para modificar esta relação, aceitar a sua impotência. Basta portanto que ela tenha uma imagem suficientemente boa dela própria para que as agressões de Paulo não ponham em causa a sua identidade. Assim, se deixar de ter medo do seu agressor, ela sairá do jogo e talvez possa desarmar a agressão”.
Marie – France Hirigoyen Assédio, Coacção, Violência no Quotidiano Pergaminho

Necessito clarificar o que se entende por ódio e o que se entende por amor. “O ódio é uma força destruidora e desintegradora tendendo para a privação e a morte, e o amor uma força unificadora e harmonizadora, tendendo para a vida e o prazer” (Joan Riviere), mesmo considerando que no amor possa estar presente a agressividade, e do mesmo modo, esta  presente no ódio, pode não ser destrutiva.

Quando se sai de vez, do domínio de uma relação desintegradora?
O texto é interessante pelas pistas: “aceitar que nada pode fazer para modificar esta relação, aceitar a sua impotência"; perceber que essa relação não a define – há um lado bom nela própria, há muito esquecido, mas ávido por renascer, e que, independente do que sente pelo outro, esta relação faz-lhe mal.
Se transferirmos estes sentimentos para os contextos de trabalho, cansados da inércia de nada funcionar como deveria, avizinha-se a vontade de mudança de vida.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Compreender os efeitos da rejeição


Kruger, Barbara Untitled (You are not yourself) 1982
Ser ignorado pelos outros ou posto de parte - quanto é necessário para experimentar a dor e para duvidar do sentido da vida? A resposta rápida: "Não muito", refere Dr. Todd B. Kashdan psicólogo e professor de psicologia na George Mason University, no artigo Understanding Rejection's Psychological Sting (aqui).
Experiencias recentes com um grupo de pessoas num jogo de computador, simples e inútil, demonstram que depois de apenas cinco minutos de não receber a bola, as pessoas sentiram um aumento em desespero, tristeza e hostilidade, e uma diminuição na auto-estima, sentido de controlo e sentido na vida.
Todd B. Kashdan sublinha que é fácil subestimar o poder da inércia do ostracismo da parte de pais, professores, chefes e amigos, e por tal negligenciam as consequências do mesmo em termos de sofrimento psicológico.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Narciso por Marie–France Hirigoyen


Caravaggio, Narciso

Sobre a personagem de Narciso do Mito de Narciso muito se escreve, mas Marie – France Hirigoyen é uma referência para a compreensão do narcisismo e da perversão narcísica, no quotidiano.

Desta autora, deixo-vos um pequeno texto sobre Narciso:
“Um Narciso, no sentido de Narciso de Ovídio*, é alguém que crê encontrar-se ao mirar-se ao espelho. A sua vida consiste em buscar o seu reflexo no olhar dos outros. O outro não existe enquanto individuo mas enquanto espelho. Um Narciso é uma casca de ovo vazia que não tem existência própria; é um “pseudo”, que procura iludir para mascarar o seu vazio. O seu destino é uma tentativa para evitar a morte. É alguém que nunca foi reconhecido como ser humano e que foi obrigado a construir para si um jogo de espelhos para se dar a ilusão de existir. Como um caleidoscópio, por mais do que este jogo de espelhos se repita e se multiplique, este indivíduo contínua construído sobre o vazio”.
* Ovídio* Les Métamorphoses
Marie – France Hirigoyen Assédio, Coação e Violência no Quotidiano Pergaminho

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Jan-Emmanuel De Neve


Joana Gorjão Henriques, jornalista, entrevistou Jan-Emmanuel De Neve, economista comportamental e cientista político sobre o resultado das suas investigações que pretendem clarificar a base genética da felicidade. Não sendo uma abordagem que particularmente me interesse, mas porque me pareceram honestas as respostas, aqui está na íntegra a entrevista publicada no Jornal Publico de ontem, com o título "A felicidade é tão complexa e tem tantas influências que não há nada que a explique a 100 por cento":

Haverá muitos genes que explicam a felicidade, mas o belga Jan-Emmanuel De Neve descobriu um deles: o 5-HTT. Economista comportamental e cientista político, diz que o gene ajuda a explicar por que é que há pessoas mais felizes do que outras. Mas avisa que há muito mais além da genética que explica a felicidade. Será que podemos mudá-la?
Costuma ver o copo meio cheio ou meio vazio? Parte da explicação pode estar nos genes, diz um estudo publicado em Maio, liderado pelo belga Jan-Emmanuel De Neve. Aos 32 anos, De Neve, economista comportamental e cientista político, "descobriu" o "gene da felicidade". O gene, 5-HTT, ajuda a explicar por que há pessoas mais felizes, mostram os resultados do estudo que De Neve publicou no Journal of Human Genetics, a partir da análise de 2574 participantes do National Longitudinal Study of Adolescent Health. Concluiu que quem tem versões longas do 5-HTT tem mais probabilidade de ser feliz. O 5-HTT é o gene do transportador da serotonina, um químico cerebral responsável pela sensação de bem-estar. Herdamos o gene, que pode ter uma versão longa ou uma versão curta, de cada um dos nossos pais. Podemos ter três combinações: longa-longa, longa-curta ou curta-curta. Segundo o estudo, quem tinha a primeira combinação tinha mais probabilidade de estar muito satisfeito com a vida: 35%, contra 19% dos últimos. Conversa em Londres com o investigador que não sabe se é feliz.

Não vem das ciências naturais mas sociais: foi uma limitação?
Fazer associações genéticas é muito diferente daquilo que fazemos nas ciências sociais - traz uma série de dificuldades e complexidades. Tive a sorte de ter a ajuda de James Fowler, o meu mentor, que me orientou em relação à metodologia. Por outro lado, lendo os textos escritos por geneticistas puros parece-me sempre que lhes falta olhar para um ser humano integrado no seu ambiente complexo.

Uma coisa é correlação e outra é relação de causalidade, o que significa exactamente que o gene 5-HTT está correlacionado com a felicidade?
Isso é uma questão fulcral. Aqui não se pode falar de relação causa-efeito, mas de correlação. Para se provar causalidade, teria que se confirmar que este tipo de gene, em todas as circunstâncias, para toda a gente, teria o mesmo efeito, qual a influência exacta e se não há mais nada que interfira nessa relação que explique os resultados. A felicidade é poligénica - há muitos genes que a influenciam, assim como factores ambientais. Por isso não se pode dizer que este gene seja a causa da felicidade. Dizer que o gene 5-HTT está correlacionado com a felicidade ajuda a explicar por que é que algumas pessoas são naturalmente felizes e dá-nos mais informação sobre por que alguns vêem o copo meio cheio e outros meio vazio.

Por que é que o estudo é importante?
Nos últimos anos, vários estudos sobre gémeos mostraram que os genes importam para a felicidade, mas ninguém encontrou uma correlação forte entre um gene em particular e a felicidade. Este é o primeiro.

O estudo revela que, dos que se sentem muito satisfeitos, 35,4% têm a versão longa do gene, contra apenas 19% que têm a versão curta. Quão significativa é esta diferença?
Há mais de 21 mil genes, por isso o efeito de um gene será sempre relativamente fraco. Comparando com outras variáveis como o casamento ou baixos salários - em que estes dois, por exemplo, explicam, cada, à volta de 3% da felicidade -, o efeito estatístico deste gene é bastante significativo. Os genes nunca explicarão a felicidade a 100%. Mas a felicidade é tão complexa e tem tantas influências que não há nada que a explique a 100%. Começámos a olhar para os genes porque psicólogos ou economistas comportamentais que estudam a felicidade descobriram que, mesmo quando coisas más ou coisas boas acontecem, não é preciso passar muito tempo para se voltar ao estado natural de felicidade. Por isso pensámos: será que há um patamar básico de felicidade no qual se gravita, que pode subir ou descer temporariamente, mas ao qual se regressa?

Quer dizer que não se pode fazer muita coisa para mudar os nossos níveis de felicidade?
Sim e não. Pensar que se pode mudar a felicidade de alguém de um extremo para outro é naif. Ao mesmo tempo, a genética explica qualquer coisa como entre um terço a metade da felicidade, mas variáveis socioeconómicas e ambientais - como a amizade ou o salário - ainda explicam a maioria das variações entre as pessoas, mais ainda do que o gene. No estudo dos gémeos, descobrimos que dois terços da felicidade se podem explicar com as experiências e variáveis socioeconómicas e um terço é mais ou menos estável através da genética e de traços de personalidade.

Mas então há um terço da felicidade que é determinista...
Não sei se tem irmãos, mas conhece-os desde sempre e há traços neles que não mudaram. Uns serão mais felizes. Portanto, a associação da felicidade a um gene não deveria ser surpresa, há determinadas coisas únicas em nós que são relativamente estáveis.

O estudo usa apenas uma pergunta, sobre o nível de satisfação das pessoas, para medir a felicidade. Como é que definiu o conceito de felicidade?
Não o definimos. É um conceito muito abrangente. A pergunta sobre o nível de satisfação com a vida é apenas uma - e mede algo que não abrange toda a questão da felicidade. Mas 20 anos de psicologia dizem que, se se tivesse apenas uma pergunta para fazer, seria esta. Porque, se se perguntar quão feliz a pessoa se sente neste momento, obtêm-se respostas mais hedónicas e mais relacionadas com o momento específico. Há um estudo que mostra que as medidas objectivas de qualidade de vida, como espaços, o tempo, etc., se relacionam de forma muito forte com medidas subjectivas de bem-estar. Portanto, a pergunta permite criar coerência entre os estudos sobre o assunto e fazer comparações, até entre países. Mas concordo que seria melhor ter um conceito abrangente que pudesse tentar medir todo o espectro da felicidade.

Este gene também está associado à depressão...
... Sim, o mesmo gene, mas a versão menos eficiente (mais curta).

Diria que felicidade e depressão são duas faces da mesma moeda?
A minha resposta imediata seria sim, mas muito provavelmente não, porque a depressão só afecta uma minoria da população enquanto a felicidade é algo que é importante para toda a gente em qualquer altura. Como objecto de estudo, a depressão foca-se mais num grupo específico, enquanto a felicidade diz respeito à população toda.

A felicidade tornou-se um enorme campo de pesquisa, muitas vezes ligada à psicologia positiva, e há países que até estão a pensar em medir os níveis de felicidade, ao lado do PIB. Por que é que se tornou uma preocupação no Ocidente?
As pessoas sempre falaram e estiveram interessadas na felicidade. Aristóteles terá sido dos primeiros. Porque importa. Se se perguntar às pessoas qual é a coisa mais importante na vida, elas põem a felicidade primeiro, da Amazónia a Nova Iorque. O movimento da psicologia positiva, liderado por Martin Seligman nos anos 1990, começou a olhar não para os problemas mentais, mas para o outro lado, para as pessoas que são optimistas e felizes. Nos últimos 20 anos, tornou-se um subcampo. Houve um grande salto nestes últimos 20 anos na ciência da felicidade, por isso se vêem muitos mais livros e académicos, artigos, pessoas a falar sobre o assunto. Os cientistas e académicos começaram a levar a felicidade mais a sério e têm meios para a estudar de forma mais sofisticada. Agora começamos a olhar para as consequências da felicidade: o que é que as pessoas que são felizes fazem de diferente?

E o que é?
Usam cintos de segurança mais frequentemente, estão menos envolvidas em acidentes de viação, vivem mais tempo, são mais saudáveis. Por isso esta é a razão mais importante pela qual os políticos se devem focar no bem-estar como um objectivo. Porque, se se focarem no bem-estar, as consequências são bastante positivas. As pessoas felizes são mais cuidadosas, por razões óbvias: gozam mais a vida e têm mais cuidado com os riscos físicos.

Mas para alguns a ideia de risco torna-as felizes. Como o explica?
Sim, coisas como bungee jumping envolvem adrenalina e risco, e há pessoas que o procuram. Mas estou a falar de riscos quotidianos. Aquilo que descobrimos é que as pessoas mais felizes também tendem a atrair salários mais altos, mas isso explica-se porque recebem mais atenção, são mais populares, atraem mais pessoas, mais facilmente se tornam líderes e assumem posições de chefia. Quanto à longevidade e saúde, é porque sentir-se bem tem influências psicológicas, o que significa que a saúde física tem menos problemas.

Há um movimento nos EUA que critica fortemente a psicologia positiva. Como responde a isto?
Concordo. Aristóteles via a felicidade não apenas como algo que tem a ver com sentirmo-nos bem ou mal, mas era um conceito que tinha a ver com relações e com o sentido da vida. O próprio Martin Seligman, que iniciou o movimento da psicologia positiva, reconhece que o movimento da psicologia positiva se foca demasiado nas emoções positivas, no conceito de felicidade em sentido limitado, e que de certa forma devíamos alargá-lo para um conceito que inclui emoções positivas mas também compromisso, relações, sentido da vida...

A felicidade é um tema tão popular que pedi no Facebook que me sugerissem perguntas. Aqui estão algumas: este mesmo gene influencia outros comportamentos?
O gene do transportador de serotonina influencia muitos outros comportamentos, doenças mentais, como a depressão, não apenas a felicidade.

Será que alguma vez vamos ser capazes de encontrar todos os genes responsáveis pelo nosso comportamento social?
No futuro distante, acho que sim. Vamos ter uma ideia cada vez melhor sobre que genes têm um impacto específico em diferentes comportamentos, da felicidade à liderança. Ao mesmo tempo, vamos poder mapear os efeitos específicos de determinados genes e os caminhos que levam a determinados comportamentos. Acho que nunca se terá o quadro completo, mas saberemos muito mais, isso é certo.

Isso significa que vamos poder ser mais felizes?
Se conseguíssemos descobrir todos os genes que influenciam a felicidade, combiná-los e gerar uma criança com eles, poderíamos ter alguém com mais predisposição para a felicidade - mas isso não significa que iria ser necessariamente mais feliz.

O que é a felicidade, é algo estável ou pode mudar?
Há um patamar que é bastante estável e único em cada um de nós ao longo da vida à volta do qual a felicidade gravita. Algumas coisas terão um impacto positivo, outras negativo, algumas experiências terão um impacto mais duradouro, como emprego, mas no final de contas tendemos a voltar ao nosso patamar base de felicidade. Pode mudar? Algumas pessoas dizem que se pode mudar um pouco esse patamar, outras que não - estou mais deste lado, acho que os patamares de felicidade são bastante estáveis.

A felicidade faz parte da evolução humana?
Sem dúvida. Há imensos académicos que estão a estudar se o facto de se ser feliz ou infeliz tem um bom ou mau efeito na evolução. Isso basicamente resume-se nesta pergunta: as pessoas têm mais ou menos filhos consoante são felizes ou não? Alguns defendem que as pessoas felizes atraem um parceiro mais facilmente, daí terem mais crianças, e esta predisposição é passada entre gerações. Há outros que dizem o oposto, que ser mais realista e não necessariamente optimista tem vantagens.

Este gene é específico dos humanos? Se não, que animais têm a versão longa e curta?
A maior parte dos animais tem sistema neurotransmissor, mas não tenho a certeza se têm a versão curta ou longa do gene.

É feliz?
Não sei! (Risos) Depende. Isso significa que a pergunta sobre a satisfação com a vida é limitada! Se alguém me perguntasse se estava satisfeito com a vida, não sei o que diria e não sei como é que a resposta mudaria se me perguntassem noutra altura. Mas a questão é esta: para as pessoas individualmente pode não fazer muito sentido, mas se se perguntar a 2000 pessoas detectam-se padrões. Daí a importância destes estudos.



sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Lembrando de quando tudo aconteceu

Frida Kahlo Dona Rosita Morillo (detalhe)

Como percepcionamos o tempo? Porque em certos encontros o tempo desliza vivo e veloz, enquanto em outros, os momentos parecem-nos longos e penosos, travados pelo outro, à beira do nosso desejo?

António Damásio director do Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina da University of Iowa, assina um artigo publicado na revista Scientific American, nº 40, Brasil, com o título “Lembrando de quando tudo aconteceu”, cuja temática é a construção do tempo mental.
No artigo pode-se ler como definição de tempo mental: "...diz respeito à maneira como experimentamos a passagem do tempo e como organizamos nossa cronologia."
Várias estruturas cerebrais entre elas o hipocampo, o cérebro anterior basal e o lobo temporal, contribuem para a percepção do “tempo mental”, mas parece que este é “...determinado pela atenção que dispensamos aos eventos e às emoções que sentimos quando eles ocorrem”, desconhecendo-se por enquanto outros mecanismos que o influenciam.
Assim,” …a experiência de duração do tempo …se baseia em factores tão diversos quanto o  conteúdo dos eventos que estejam percebidos, as reacções emocionais que esses eventos despertam, a maneira como as imagens são apresentadas a nós, assim como as inferências conscientes e inconscientes que as acompanham”.
É também curiosa outra explicação de António Damásio: “O conteúdo emocional do material pode também fazer com que o transcurso do tempo se desacelere. Quando estamos incomodados ou preocupados, frequentemente sentimos o tempo passar mais devagar, porque nos concentramos nas imagens negativas associadas à nossa ansiedade”.

sábado, 10 de setembro de 2011

Para que haja amor, é preciso que haja ódio algures

Peter Blake, Tuesday, 1961

Para poder idealizar um novo objecto de amor e manter a relação amorosa, um perverso tem necessidade de projectar tudo o que é mau sobre o parceiro precedente tornado bode expiatório. Tudo que é obstáculo a uma nova relação amorosa deve ser destruído como objecto incómodo. Assim, para que haja amor, é preciso que haja ódio algures. A nova relação amorosa constrói-se sobre o ódio ao parceiro precedente. Aquando das separações, este processo não é raro, mas o mais frequente é o ódio esfumar-se pouco a pouco, ao mesmo tempo que se esfuma a idealização do novo parceiro.”
Marie- France Hirigoyen Assédio Coação e Violência no Quotidiano Pergaminho

No percorrer as nossas experiências de vida, esta narrativa não nos parece de imediato familiar. É enigmática. Mas certamente já nos cruzamos com aqueles casais cujo ditado popular identifica como “A 1ªmulher (ou marido) é trapo a 2ªmulher (ou marido) é guardanapo”. Ter sido trapo, tem o significado de ter sido mal amada, ou até mal tratada.
Nas personalidades perversas, aquando da separação, ou com um novo amor, é com surpresa que as vemos amorosamente tolerantes para com a nova relação. Ao projectar sobre o parceiro anterior tudo de ruim, salvam o novo amor dos sentimentos de frustração que este lhes causa e que não conseguem tolerar a não ser através do maltrato ao parceiro anterior. Sendo esta a sua função, o que quer que este faça não costuma contribuir para melhorar a situação, a não ser esperar que “se esfume a idealização do novo parceiro”, e naturalmente, cuidar de si.
Acredito que "fazer-se de bonzinho" só com algumas pessoas, quer na vida amorosa, quer na vida social e profissional, é uma necessidade do perverso - faz-me lembrar aquela frase "até os psicopatas precisam de amor". É como se precisasse de de se convencer que é capaz. de se fazer amar. Só que esta relação, não é igualitária, estabelecesse com base nas suas condições - só ele a controla, só ele tem direitos.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Nós sempre teremos Paris!




Rick Blaine (Humphrey Bogart) a IIlsa Laszlo (Ingrid Bergman): Nós sempre teremos Paris! 
Filme Casablanca

“Quando o individuo está seguro de si e o investimento do objecto é genital, o objecto por muito que se ame é substituível.”
Coimbra de Matos Mais Amor Menos Doença Climepsi Editores

No filme Casablanca, Ilsa Lund Laszlo foge para a América com o marido e deixa o seu amante Rick Blaine para trás. Recusa-se contudo,  a partir. Não sabe como sobreviverá sem ele.
Tal como no filme, ou numa situação de luto ou separação, bem conseguidas, o respeito pela realidade prevalecerá sobre o laço afectivo.
Mas espera-a um processo lento em que a presença errante de recordações serve para enganar o desespero, e conservar o vínculo. É preciso acreditar que, onde quer ele esteja, com quem quer que esteja, ele pensa nela mesmo que seja num momento difuso e fugaz.
Pedaço por pedaço, parte por parte, a imagem dele solta-se, enfim, e ela encontra-se livre, inteira e desembaraçada para amar outra pessoa.
O outro por muito que se ame, é substituível.