sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Feliz Ano Novo


PASSAGEM DO ANO
Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô morreu também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.
...

Carlos Drummond de Andrade, 60 anos de poesia



quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A vergonha

Waldmuler, Fedinand Georg., Jovem camponesa com os três filhos na janela (detalhe)

Heinz Kohut* considera que a vergonha acontece desde cedo na infância, quando a nossa emoção repleta de exibicionismo (saudável) é mobilizada e ocorre na expectativa que o outro aprove e confirme esse nosso comportamento. Segundo aquele autor, é “a inesperada ausência de cooperação” do outro, que cria um desequilíbrio entre a nossa expectativa e a resposta, que sendo difícil de gerir, dá origem à vergonha.

Na criança, a necessidade desajeitada de criar uma brincadeira e a falta de empatia do adulto, é fonte de vergonha. A repetição destas experiências ao longo do desenvolvimento, em conjunto com as humilhações, pode dar origem à vergonha das personalidades narcísicas, que se traduz num medo (paralisante, por vezes) de cair no ridículo. 

* Heinz Kohut, Self e Narcisismo, Zahar Editores

sábado, 25 de dezembro de 2010

Paz e sossego


Já estou a pensar no dia de amanhã.
Onde me apetece estar na 1ª oitava - junto ao mar, a tomar um café e sem veraneantes por perto.


quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O paradoxo do perdão

O (aparente) paradoxo do perdão:
“O animal homem esquece, mas raramente perdoa. E simplesmente perdoar as ofensas sofridas não é a atitude psicológica mais correcta e saudável. Contudo, o perdão é necessário à saúde mental. Como resolver então este aparente paradoxo. Parece complicado mas não é de todo. Para perdoar é preciso previamente ter acusado. Só depois de acusar, mover o processo de inculpação, é possível o perdão, a amnistia, a clemência.”

Coimbra de Matos, “Mais Amor Menos Doença: a psicossomática revisitada” Climepsi editores

Lembrei-me do tema “perdão”, porque não há Natal sem o gesto redentor para connosco e para com o outro. Diz-se. Com o Natal, também se criam proximidades, nem sempre pacificas, em parte por ressentimentos acumulados e não resolvidos.

Mas qual será a maneira mais saudável de perdoar a quem nos ofendeu, de modo a que possamos seguir em frente? Simplesmente perdoar, pode ser a atitude certa para assuntos menores. Não para o que atinge aquilo que defendemos e que damos tanto valor. As ofensas são muitas das vezes manifestações de desamor, em que o ódio, nas suas diversas manifestações, venceu.

As ofensas sofridas e não superadas, retêm-nos no passado.
Se não reagirmos intempestivamente ao sabor das emoções, damos voltas e voltas, e quando vislumbramos que um espaço aberto se criou, parece-nos que encontramos um modo de resolver connosco a situação. Mas surgem à revelia emoções, que não permitem o sossego: a raiva e a tristeza.

Acusar, far-nos-ia renascer. Restaurar a confiança perdida. Pelo que, é preciso superar o medo de nós próprios e da reacção do outro. São momentos de exposição, em que nos revelamos.
Mas, o que pressentimos da sua humanidade diz-nos que merece a pena.
Devemos encarar esta atitude como o triunfo do amor. Do respeito por nós e pelo outro.

 Aprender a perdoar  e Você deve perdoar? (às vezes é saudável não perdoar, como nos casos de violência doméstica), são dois artigos que podem ajudá-lo a compreender a complexidade do perdão. Mas,  os estudiosos conhecem muito pouco sobre as potenciais implicações negativas de perdão. ou seja, se mais vale perdoar ou não. Na dúvida, talvez seja boa ideia seguir o princípio básico: perdoar não é panaceia, ou seja, remédio para tudo.

* Capela de S. Vicente erguida em 1694

domingo, 19 de dezembro de 2010

Sindrome do Impostor

Até onde nos podem levar uma baixa auto-estima e a falta de confiança pessoal, na escola ou no local de trabalho? A desenvolvermos a Síndrome do Impostor.

São sentimentos de inadequação, de não merecermos as tarefas que nos foram confiadas, ou a autoridade que nos foi confiada, porque não nos julgamos  suficientemente inteligentes e competentes. Na verdade, acreditamos que somos uma fraude e num dias destes, seremos desmascarados.
São modos de sabotar a felicidade, que podem atingir qualquer pessoa, desde  um colegial a um líder de uma organização.

Segundo o psicólogo Michael Bader, para alguns é um sentimento leve de desconforto, para outros, é um sentimento crónico que atormenta.



Tudo começa pela nossa ambição, saudável, de querermos o sucesso, crescermos em termos pessoais e profissionais, mas depois surge esse mal-estar.

Para saber se tem a Sindroma do Impostor, faça o teste:
- Você secretamente teme que os outros vão descobrir que você não é tão inteligente e capaz como as outras pessoas pensam?
- Você às vezes se coíbe de desafios por causa da persistente auto-dúvida?
- Você tende a desvalorizar as suas realizações, justificando-as como uma "casualidade", "não são grande coisa" ou o facto de que as pessoas são apenas "como" você?
- Você odeia acometer um erro, sente-se menos preparado ou acha que não consegue fazer as coisas com perfeição?
- Você tende a sentir-se esmagado, mesmo por uma crítica construtiva, vendo-a como prova de sua "inépcia?"
- Quando você tem sucesso, você pensa: "Ufa, eu enganei-os neste momento, mas posso não ter tanta sorte da próxima vez." ?
- Você acredita que outras pessoas (alunos, colegas, concorrentes) são mais espertos e mais capazes do que você é?
-Você vive com medo de ser descoberto, sem máscara?

Se respondeu afirmativamente a algumas destas questões, possivelmente sofre da Síndrome do Impostor.
Para ler o artigo de Michael Bader e saber como lidar com o problema, clique aqui.
O site sobre este Sindroma, e o teste, encontram-se  aqui.


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Mae West


Mae West and Randolph Scott
Nos tempos modernos, a personagem feminina seria uma jovenzinha escanzelada
igual a tantas outras.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O ciúme

 Barbara Kruger, Untitled (We); 1985

Sobre a mulher de um paciente amigo:
“Às vezes, as mulheres que não amam verdadeiramente os maridos sentem ciúmes e destroem as amizades destes. Querem os maridos sem admitirem partilha, justamente porque não lhes pertencem. O núcleo de todo o ciúme é a falta de amor.”
Carl G. Jung, Memórias, Sonhos, Reflexões

Jung deveria estar muito zangado com a atitude da mulher do amigo, pensamos. A última parte da sentença, “porque não lhes pertencem” é aparentemente enigmática, pelo que merece que lhe prestemos atenção.
Talvez sugira que na base está o ciúme e a sua parente, a inveja.
A inveja pela vontade de se apoderar de uma amizade até ser capaz de a destruir, e o ciúme ligado ao desejo de ter o marido só para si, porque se receia perdê-lo. É o sentimento que não (nunca) se é suficientemente amada.
Dependente do grau (ciúme neurótico, ciúme patológico, ciúme delirante) pode ser uma luta desenfreada pelo impossível – a posse total e exclusiva do outro (Coimbra de Matos).
A relação com esse outro costuma ser ambivalente, ou seja, oscila entre o amor e o domínio, que é uma manifestação do ódio. Pelo que, "..não amam verdadeiramente os maridos" (Jung).

“ (o outro) não lhes pertence”, é a revelação que não confiamos que estamos no seu coração mesmo que recebamos um amor dedicado, porque lá atrás, na nossa infância, não nos ajudaram a aceitar um outro, para além da relação a dois.

Bruno Bettelheim em “Psicanálise dos contos de fadas”, sobre o ciúme que tem a sua origem na relação triangular, pai, mãe e filho:
“ Quando o cuidado terno e amoroso do pai do mesmo sexo não é bastante forte para formar laços positivos mais importantes com a criança edípica, naturalmente ciumenta, e com isso colocar o processo de identificação trabalhando contra esse ciúme, então esse domina a vida emocional da criança”.
Em suma, são venenos tóxicos,  a rivalidade e a competição com um filho.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

D. Giovanni

Ana:
”… que não tenhas ilusões, Giovanni. Dentro de dois meses as tuas hesitações serão ainda maiores. E, de repente descobrirás que deixaste de a amar. Não saberás quando foi, mas será assim. E verás que o que sempre te interessa não é o amor conquistado, mas o esforço para o conquistares. Ou melhor: amas o momento em que o amor se inicia, é a infância do amor que tu amas, as hesitações do princípio. Porque não te fazes alpinista?”
Augusto Abelaira, A Cidade das Flores

Giovanni necessita desta entrega aos devaneios da sedução. É como se enganasse a realidade tornando-a em fantasia, ou seja, numa realidade artificial.
As preocupações mundanas, e sobretudo, as necessidades reais do outro, não são para ele. Se assim fossem, teria de reconhecer a pessoa em cada namorada, o que não se passa. Não se importa com quem elas são, ou o que necessitam. Só se importa com a maneira como elas o fazem sentir.
Seria arriscado deixar-se ficar numa relação de intimidade e reciprocidade, inevitavelmente iria ser questionado, pelo que prefere negar a realidade.
Estas excitações também o ajudam a enganar o tédio.
A ser rejeitado, o que parece ser a dor pela falta que ela lhe faz, é na verdade a manifestação da fúria e ressentimento por alguém ter ousado abandoná-lo.
Giovanni que ama de modo sempre esquivo, é na realidade um amor por si mesmo. Um amor narcísico.



sábado, 11 de dezembro de 2010

O ingrediente secreto das religiões

Turner, The Angel standing in the Sun, 1846

É comum considerarmos que as pessoas que têm uma fé religiosa, são mais felizes. Os estudos de facto, parecem comprová-lo. Contudo, uma nova investigação de Chaeyoon Lim, sociólogo na Universidade de Wisconsin-Madison, concluiu que são as amizades construídas nas congregações religiosas, em vez da teologia ou espiritualidade, que dão satisfação à  vida.
Para saber mais, aqui

É esta a minha Mensagem de Natal: Que sejam felizes os momentos de convívio.




quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Reserva



Há situações na vida que nos provocam como defesa um certo retraimento. Podem estar relacionadas com atritos nas relações, ou perdas de vária ordem, como sejam os problemas financeiros, de saúde, luto ou divórcio. Resguardamo-nos. Porque quando as coisas são dolorosas vemo-las no campo das emoções e não no campo da consciência. Por isso faltam-nos durante algum tempo, as palavras para traduzir essas emoções, e os gestos dos quais possamos recuperar.
Culpamo-nos pela entrega a um tempo dorido e desajeitado.
Desconhecemos, que é um modo saudável e útil de nos protegermos.

Isabel Botelho no seu interessante texto “Do degelo psicológico como reanimação da paisagem” apresentado no Seminário "Amores em Tempos de Inverno" da Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica, refere-se a este processo, como se fosse um congelamento do nosso eu.

Deixo-vos o pensamento do psicólogo Winnicott sobre este assunto:
É necessário incluir-se na teoria que cada um tem do desenvolvimento de um ser humano a ideia de que é normal e saudável para o indivíduo ser capaz de defender o self contra a falha (falência) ambiental específica através de um congelamento da situação de falha (freezing of the failure situation). A par disto, junta-se uma suposição inconsciente (que se pode tornar numa esperança consciente) de que, numa data posterior, ocorrerá a oportunidade de uma renovada experiência na qual a situação de falha se tornará capaz de ser descongelada e reexperimentada, com o indivíduo num estado regredido, num ambiente que faz uma adaptação adequada. A teoria está aqui a apresentar a regressão enquanto parte do processo de cura, um fenómeno normal que, efectivamente, pode ser convenientemente estudado na pessoa saudável”



segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Amor em Tempos de Inverno

Este foi o título de um Seminário organizado pela Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica, que decorreu em Outubro passado. Foram oradores Coimbra de Matos e Carlos Amaral Dias, entre outros.

A expressão do amor: “Eu sei que tu percebes o que eu sinto, e que tu sabes que eu percebo o que tu sentes”, na comunicação de Coimbra de Matos














AS COMUNICAÇÕES:

Carlos Amaral Dias

Angela Lacerda Nobre

Avaliação Final

Caderno

Camilo Inacio

Carla Albano

Carlos Campos Morais

Coimbra de Matos

Considerações Finais

Dulce Vasconcelos

Filipa Costa Pereira

Isabel Botelho

João Balroa

João Pedro Dias

Jorge Caiado Gomes

José Manuel Matos Pinto

José Manuel Pinto

Luis Fagundes Duarte

Magda Furtado

Maria João  Saraiva

Miguel Correia



sábado, 4 de dezembro de 2010

O Mapa das Emoções

Emanuel Derman apresenta-nos um Mapa das Emoções a partir das emoções básicas do filósofo Spinoza: Prazer, Dor e Desejo. 
Repare-se que no Mapa,  embora no Amor possa haver prazer em causar dor, afirma-se para além daquele, e está muito longe da Crueldade. O Amor está muito próximo da Gratidão, da Aprovação, da Devoção e do Prazer.
  
Saiba mais aqui .
Leia também as respostas à  Pergunta do mês, da publicação Philosophy NowO que é o amor?


sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Narcisismo no DSM – 5

O transtorno de personalidade narcisista está em vias de extinção. Não é mais considerado uma  perturbação  psiquiátrica, porque foi eliminado no DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), que será lançado em 2013. Esta nova edição, eliminou cinco dos dez transtornos de personalidade que estavam identificados na edição anterior.
Vários investigadores já se manifestaram contra esta decisão, chamando de ignorantes aos autores do DSM 5.

É o momento de vos deixar a caracterização deste transtorno segundo Otto Kernberg :
O funcionamento dos indivíduos narcísicos depende da gravidade da sua patologia, numa escala que vai desde as personalidades quase “normais” até ao funcionamento quase limite.
Os que funcionam a um nível mais elevado (isto é têm uma patologia menos grave) não têm sintomas neuróticos e parecem adaptados à realidade social; têm pouca consciência da sua doença emocional, excepto uma sensação crónica de vazio ou aborrecimento e uma necessidade desgovernada de aprovação e êxito. Têm também uma notável incapacidade de empatia e de investimento emocional nos outros. Poucos procuram tratamento, mas posteriormente tendem a desenvolver complicações secundárias à sua patologia narcísica.
No nível mais baixo do contínuo (a patologia mais grave) encontram-se os doentes que apresentam funções defensivas desencadeadas por um self grandioso e patológico nas interacções sociais, mostram características borderline evidentes – isto é, falta de controlo dos impulsos, muito pouca tolerância à ansiedade, graves mutilações das capacidades sublimatórias, e uma predisposição para reacções explosivas ou raiva crónica ou para a execução de distorções paranóicos graves.

Otto Kernberg, Agressividade, Narcisismo e Auto-destrutividade na Relação Psicoterapêutica, Climpsi Editores

Para saber mais sobre a eliminação deste transtorno no DSM 5, clique (aqui).
O artigo de Peter Kinderman  no site "The Conversation": 
http://theconversation.com/explainer-what-is-the-dsm-14127

Para saber mais sobre este transtorno,  em que "...os pacientes não sofrem tanto de sintomas fixos e exuberantes na sua forma, mas, sim, de perturbações vagas, sentimentos de vazio e uma queixa frequente que se reflete na incapacidade de sentir as coisas e as pessoas", o artigo Ressonâncias do narcisismo na clínica


DSM -5 :
http://www.psychiatry.org/practice/dsm/dsm5/online-assessment-measures#Early






quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Otto Kernberg - Sobre o amor, o ódio e a inveja


A entrega

Filme: Lost in Translation

O homem que não atravessa o inferno das suas paixões não as supera. Elas se mudam para a casa vizinha e poderão atear o fogo que atingirá sua casa sem que ele perceba. Se abandonarmos, deixarmos de lado, e de algum modo esquecermo-nos excessivamente de algo, corremos o risco de vê-lo reaparecer com uma violência redobrada.
Carl G. Jung, Memórias, Sonhos e Reflexões

Na rotina de todos os dias nem damos conta que há ideias que vagueiam pela nossa mente, indefinidas, que persistem num vaivém até adquirirem uma forma, um desejo. Podem dizer respeito a uma pessoa ou a uma ocupação. Hesitamos. Antevemos a necessidade de mudança, mas se esta coloca em causa o que julgamos seguro, tememos a queda. Cientes do que sentimos e queremos, e se chegada a esta fronteira, não fizermos o que poderíamos fazer, amputamos uma parte de nós.
A convicção dos que respeitaram a sua vontade interior, dará lugar à serenidade. A dor é superada.
Numa paixão que não conferiu à existência, um amor, nem damos conta que sobrevivemos à travessia, até que surge de imprevisto uma súbita alegria e uma saudade por quem éramos e por quem nos esquecemos.