sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O corpo

Lucian Freud, Leigh and Nicola Bowery


“…dos lábios, o esmalte dos olhos, um determinado sinal, uma maneira ao estender os dedos a fumar; estava fascinado – não sendo o fascínio, em suma, senão a extremidade do desprendimento – por essa espécie de figura colorida, de faiança, vitrificada, onde podia ler, sem nada compreender, a causa do meu desejo”.
Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso


De início está o corpo. Ele encerra uma sabedoria que não alcançamos e que se mantém adormecida até que as emoções elementares o despertam - o êxtase de um encontro ou um amor que morre.
É um sentir visceral, ligado à nossa raiz animal. Antecede qualquer esforço de racionalização.
O corpo diz-nos também que o amor já morreu. Por breves instantes, é a incomodidade pela presença do corpo do outro. Debatemo-nos porque não queremos aceitar como certa a emoção que nos provoca um território que se tornou hostil. Mas o corpo impõe-se. Subjuga-nos. É a agonia que mantemos secreta até encontrarmos as palavras.




quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Manobras (1)



Na verdade, a literatura psicanalítica não se refere a “manobras”, mas a “compensações”, que são mecanismos (de defesa) que utilizamos quando o nosso amor-próprio é ferido, e que as personagens narcísicas utilizam em excesso.
Trata-se de atitudes agressivas. Estes comportamentos, pretendem restaurar o orgulho ferido, aliviar a tensão e recuperar o sentimento de controlo nos outros e sobre as coisas, visto que para o indivíduo é humilhante não ser como deveria ser, o que dá origem à ansiedade.

Seguindo o pensamento de Hugo Bleichemar em “O Narcisismo”, não existe agressividade sem uma ideia na base, mesmo que a pessoa não seja consciente da mesma. Essa ideia, que se procura comunicar ao outro, é habitualmente, “ Eu sou poderoso e não frágil”.
Neste contexto, um conceito importante sobre as personalidades narcísicas - repor o orgulho ferido é mais importante que a satisfação da troca com o outro. Além do mais, dependendo da vulnerabilidade sentida,  quase tudo pode ser entendido como um ataque à auto-estima.
Outra ideia que parece-me importante para compreendermos, por exemplo a megalomania, é que não há no humano, a possibilidade de se ter auto-estima a mais.

Aqui vos deixo, alguns exemplos de defesas perante a ansiedade narcísica:
Megalomania
Exibicionismo secundário (exemplo da verborreia em público)
Don- Juanismo
Raiva
Negativismo (usualmente as pessoas identificam como“estar sempre do contra”)
Cultivo do ressentimento
Abuso do poder
Sadismo (é uma variante do poder, que se traduz em ter prazer em fazer o outro sofrer)
Masoquismo
Desqualificação do outro.


O divórcio em Branca de Neve

Sobre a simbologia dos anões, em Branca de Neve:
“De facto não são homens em qualquer sentido sexual – seu modo de vida e interesse em bens materiais com exclusão do amor…” .
Bruno Bettelheim em “A Psicanálise dos Contos de Fadas”

Para os que conhecem este conto infantil, Branca de Neve protegida e cuidada pelos anões, não tinha mais preocupações de sobrevivência ao longo da vida. A vida era  monótona. Desesperadamente confortável e chata, é certo. De tal modo que Branca de Neve debatia-se entre o compromisso, o esquecimento da sua individualidade, e a vontade de ser amada e de amar um outro que a fizesse vibrar. Tinha contudo medo de arriscar, pagar um preço, perder tudo, ficar sozinha e cair nas garras da bruxa má. De facto, a Rainha aproveitou-se do inconformismo de Branca de Neve, que se deixou seduzir com uma maçã envenenada. Mas, por último, é salva pelo príncipe. Valeu a pena ter arriscado!

Muitos homens e mulheres estão no lugar de Branca de Neve, seja no campo do amor, seja no campo profissional.
Não existindo circunstâncias de vida difíceis, ou mesmo na presença delas, o que permite passar para uma outra margem? Um menor medo do desamparo. Possivelmente também, o conservar a sensibilidade e a confiança pessoal que são capazes por si. E, no amor, novamente a confiança de merecer o amor de outro.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Já não te amo, mas...


“Fosse como fosse, ela já não me amava naquele momento: já não se preocupava com o efeito a produzir sobre mim”.
Marguerite Yourcenar, O Golpe de Misericórdia

Este amor que em Sofia perdeu a capacidade de renascer, já não integra o desejo.
Sofia não confessa, mas receia que outra ocupe aquele que foi o seu lugar, o que seria uma ferida no seu narcisismo.
Todos nós somos Sofia e costumamos confundir o interesse pelo outro, com o nosso amor-próprio ferido.


domingo, 24 de outubro de 2010

A base dos sentimentos

Entrevista de Ana Gerschenfeld  a António Damásio, neurocientista, a propósito da sua mais recente obra "O Livro da Consciência"

Ana Gerschenfeld: Também inclui no seu modelo uma estrutura chamada ínsula. Ela também faz parte do córtex?

António Damásio: "...O tronco cerebral faz os seus primeiros mapas — que são muito simples —, transforma esses sinais e inicia o sentimento. Depois, envia todos esses sinais para a ínsula, onde os mapas são completados e onde existe a possibilidade de os relacionar com os objectos que inicialmente desencadearam o processo — e que podem ser visuais, auditivos, etc. Por exemplo, se você ouvir uma grande peça de Bach, desencadeia-se um processo auditivo. Esse processo auditivo vai provocar uma série de emoções e de sentimentos; as transformações ligadas às emoções e aos sentimentos vão aparecer mapeadas primeiro pelo tronco cerebral; depois, o tronco cerebral vai transferi-los para o córtex, onde se irão ligar ao iniciador de todo o processo, que foi a audição da peça musical do sr. Bach. Esta visão não exclui nenhum sistema, mas enriquece a maquinaria cerebral que fornece dados ao córtex."
 Fonte : Jornal Publico, 18 de Out de 2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O medo do ridículo

Max Weber, Burlesque, 1909

É o medo do ridículo que me interessa, a que muitos de nós somos vulneráveis, ao ponto de este tipo particular de vergonha tornar-se opressivo, limitador da espontaneidade e, no limite, da tomada de decisões importantes na vida.
Consiste num medo de ser considerado aos olhos do outro, insignificante, ter pouco valor, provocar a troça e o riso, e que nos coloquemos à mercê do seu desprezo. Seria ficarmos completamente sozinhos, acreditamos.

Por este medo não se arriscam carreiras, amores, a criação de um estilo pessoal de ser, as mudanças de vida.
Na base deste medo costuma estar a nossa exagerada necessidade de controlo sobre o ambiente, ou seja, sobre os outros e o que poderão pensar de nós. Estão também as intensas pressões ou exigências que colocamos a nós próprios. Tão intensas, que somos capazes de nos culparmos por não vivermos de acordo com os ideais por nós estabelecidos. É a vergonha por si mesmo.
Mas o que sustenta a raiz deste medo, é sobretudo a vulnerabilidade da nossa auto-estima. Enquanto a nossa auto-estima depender que o outro aprove ou confirme quem somos e o que valemos, e não adquirirmos a confiança nas nossas capacidades, teremos dificuldades em tomar o rumo da nossa vida.




terça-feira, 19 de outubro de 2010

Aparências

Colecção Berardo

"É preciso imaginar Sísifo feliz", Albert Camus

Que bom seria levarmos menos a sério certas relações. Há quem leve. Quem pareça entregar-se à cadência dos dias sem se envolver na complexidade dos sentimentos e, desconfiamos, que por um sentido oculto do mundo, conquistam por isso a harmonia que desejamos. Podem estar aqui, acreditamos, as pessoas confiantes, e as simples de espírito, mas também as introvertidas, mas sobre estas os seus silêncios resultam num enigma.

As aparências iludem. Na nossa mente, baseamo-nos nos sinais do comportamento e juntamos  sentimentos. Mas podemos estar profundamente enganados a respeito de algumas pessoas, como prova esta experiência descrita por Graham Music em Afecto e emoção, Almedina editores.

Numa sala estava um grupo de crianças de 1 ano, cujas mães se ausentaram. A reacção de algumas crianças foi a aflição, enquanto outras pareciam não dar pela sua falta. No regresso das mães à sala, estas últimas crianças não evidenciaram entusiasmo, o mesmo não tendo acontecido com o primeiro grupo.
Contudo, na ausência das mães, o nível de adrenalina e cortisol que é prejudicial ao coração e está presente em situações de stress, nos dois grupos, é idêntico. O que se passou foi  que, as crianças que revelaram um comportamento indiferente, estão desligadas dos seus sentimentos. Tendo pela sua história passada desistido de se manifestarem,  têm probabilidade em se tornarem adultos que do ponto de vista afectivo, terão mais dificuldades de criar laços amorosos e serão menos capazes de falar de si próprios. Mas, podem sofrer os efeitos da ansiedade como todos nós ou até mais.



domingo, 17 de outubro de 2010

Os ciúmes em Branca de Neve

Paula Rego, A Madrasta

As histórias de princesas fizeram parte da minha infância, e  tinham de ser contadas repetidamente com os mesmos pormenores. Ainda me lembro das emoções que sentia. Mais tarde, percebi que a má, não é sempre má e o mesmo se passava com a boazinha.
Bruno Bettelheim em  A Psicanalise dos Contos de Fadas apresenta uma análise destas histórias infantis, mas é o conto da Branca de Neve e os Sete Anões que me interessa, por simbolizar o narcisismo patológico, isto é, o medo destrutivo da Rainha, que a Branca de Neve a supere. O seu narcisismo, está na necessidade de que o espelho confirme, que seja a mais bela de todas as mulheres. Até o dia, em que o espelho não confirma que seja mais bela que a sua enteada. Por não suportar a resposta, mesmo antes que a Branca de Neve exibisse os seus dotes (de beleza), a madrasta começa a se sentir ameaçada e ordena que Branca de Neve seja morta e que lhe tragam partes do seu corpo. É um ódio destrutivo, que persegue e mata. Mas também destrói quem o sente: a madrasta é obrigada a dançar para sempre com sapatos de ferro em brasa.
Branca de Neve foi salva, mas abandonada na floresta. Onde estava o seu pai, para a proteger? Um fraco!
Aquele autor, refere que os pais narcísicos não costumam sentir este ciúme enquanto o filho é criança, como se este ainda fosse uma parte deles próprios. Os problemas surgem quando o filho cresce e luta pela autonomia.

O modo saudável de gerir o ciúme por um filho ou filha que cresce, é ilustrado por Graham Music em Afecto e Emoção pela história de uma mãe, Sian, que numa festa sente-se desconfortável pelos elogios que a sua encantadora filha de 17 anos recebe das pessoas. O modo de reagir de Sian, foi esforçar-se por nessa noite ser mais amável para com a sua filha. Mais tarde, com a ajuda de amigas, percebeu os seus sentimentos. O quanto o seu ciúme foi normal, e o modo saudável que teve em se proteger e em proteger a filha.



Léo Ferré


Bela e triste, esta canção de Léo Ferré!
Com a passagem do tempo, será que tudo termina? Não existe consolação possível? A resposta pode estar, em vivermos até ao limite as nossas paixões. 

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A verdade

O psicanalista Zimerman, escreveu: A verdade sem amor é crueldade e o amor sem verdade é paixão.
Vocabulário Contemporâneo de Psicanálise

Mas hoje não me apetece pensar na paixão. A primeira afirmação parece-me bem mais interessante. Remete-nos para aquelas situações em que ouvimos uma verdade, mas de mansinho sentimos uma profunda dor, vergonha e raiva contra nós mesmas por não a aceitarmos, com naturalidade. Essa verdade deixa-nos desamparadas e desarmadas. Se desenvolvemos estas emoções, é porque fomos sujeitas à violência oculta. E, a razão porque não a aceitamos, é porque a atitude de quem a proferiu não nos teve em conta. Não nos reconheceu.

A verdade só é verdade, sem crueldade, se a conseguirmos entender e suportar, ao ponto de criarmos novas ideias e comportamentos. Esta sim, é uma verdade que cura e nos dá liberdade para evoluirmos.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O significado da maçã


A maçã que Eva dá a Adão, simboliza o abandono da sexualidade infantil e o acesso à sabedoria e à sexualidade adulta.

“Em muitos mitos e contos de fadas, a maçã representa o amor e o sexo, nos seus aspectos benevolentes e perigosos. Uma maçã dada a Afrodite, deusa do amor, mostrando que ela era a preferida de entre as deusas, levou à Guerra de Tróia. A maçã Bíblica seduziu o homem e fê-lo renunciar à inocência para conseguir conhecimento e sexualidade. Foi Eva quem foi tentada pelo macho, representado pela cobra, mas nem mesmo esta pôde fazer tudo sozinha - precisou da maçã, que na iconografia religiosa também simboliza o peito materno. No peito materno, todos tivemos uma atracção inicial para formar uma relação, e encontrar satisfação nisso. Em Branca de Neve, mãe e filha dividem a maçã. Esta simboliza algo que têm em comum e que vai mais a fundo do que os ciúmes mútuos - os desejos sexuais maduros de ambas. Para vencer as suspeitas de Branca de Neve, a rainha divide a maçã no meio, comendo a parte branca, enquanto Branca de Neve aceita a metade vermelha, "envenenada". “
Bruno Bettelheim, Psicanálise dos Contos de Fadas


Quadro de AAchen, Hans Von, Bacchus, Ceres and Cupid. Nesta cena, a mão de um homem, Baco (Deus do vinho e dos vícios), tenta afastar Ceres de Cupido, representado por uma criança.







segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O objectivo de ser amado é mais acentuado nas mulheres do que o objectivo de amar: a necessidade narcísica e a dependência em relação ao objecto são maiores.”
Otto Fenichel, Teoria Psicanalítica das Neuroses

A mentalidade  de uma época.  Hoje, faz ainda parte da metafísica masculina (de alguns homens), que as mulheres são dependentes. Talvez (algumas) contribuam para isso. Quem engana quem?



Otto Fenichel - Nasceu a 2 de Dez de 1897; Faleceu a 22 de Junho de 1946. Foi Psicanalista contemporâneo de Freud.

domingo, 10 de outubro de 2010

Nas minhas leituras, encontro curiosidades. Esta é uma delas. A próxima será sobre as mulheres. Retratam um pensamento e uma época histórica. Algumas serão intemporais. 

“Os homens narcísicos que, na infância ou na puberdade, gostam de pensar em si mesmos como se fossem meninas podem vir, posteriormente, a se apaixonarem por “menininhas” (mais ou menos másculas), nas quais vêem a reincarnação deles próprios; depois tratam essas meninas como gostariam de ser tratados pelas mães. Estes homens não amam os seus parceiros femininos como entidades individuais, mas, nelas amam as partes femininas do seu próprio ego."
Otto Fenichel, Teoria Psicanalítica das Neuroses

Otto Fenichel - Nasceu a 2 de Dez de 1897; Faleceu a 22 de Junho de 1946. Foi Psicanalista contemporâneo de Freud.

sábado, 9 de outubro de 2010

Defesas contra a esperança

Para o Dia Mundial da Saúde Mental (10 de Out), um alerta:

Somos muitas das vezes os inimigos de nós próprios. Somos fruto do amor que os pais nos dedicaram. A não termos uma reserva suficiente desse amor, e ao não conseguirmos adquirir confiança nos outros, montamos defesas contra a capacidade de ter experiências boas ou de esperança.
Essas defesas podem estar, em não conseguirmos ter amor ou amizade, por quem nos decepcionamos, ou no prazer sádico de fazer sofrer.

Deixo-vos um enxerto de Coimbra de Matos em “A Depressão”:
“O trágico é que o indivíduo que não foi amado não aprendeu a amar. E não sabendo amar dificilmente poderá vir a ser amado. A sua sede de amor é muito grande, mas o seu ódio à relação amorosa ou a sua descrença no amor levam-no a estragá-la ou nunca a conquistar – pela relação ambivalente* e depressivante ou pela relação perversa e deteriorante, às quais adere.

O trágico está também no facto deste ódio, que tem as suas origens na infância, não se basear numa avaliação realista dos relacionamentos,  devido por exemplo, às expectativas irrealistas sobre os mesmos, por não se ter consciência da sua origem, ou por dificuldade em reconhecê-lo, tal como em Narciso.
A cura está no sentir-se capaz de merecer e atrair o amor de outrem.” (Coimbra de Matos, A Depressão).

*Ambivalência significa amar e odiar a mesma pessoa, mas não é amor, porque este deve situar-se para além desta necessidade em conservar e destruir o vínculo.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Quando termina um amor?

Termina bem, quando a verdade do outro não mais nos interessa, e a luz especial que o envolvia já não existe. Sentimo-nos livres, mesmo na presença da tristeza ligada a qualquer perda.

Não nos libertamos de um amor, difícil, enquanto existir na relação sede de amor e ódio, e o sentimento insuportável que a ruptura leva uma parte de nós e nos deixa desamparadas.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

As mães dos narcísicos (2)


Picasso, Grand nu au fauteuil rouge (detalhe), 1929

Antes de me situar nas estratégias que determinadas mães usam nas interacções com os seus filhos, que favorecem o surgimento da patologia narcísica conforme prometi no post anterior, acho  importante um ponto da situação sobre questões do desenvolvimento.

Na adaptação ao cinema de “A Princesinha” de Frances Hodgson Burnell, Sara responde à crueldade de Miss Minchin, mais ou menos assim: “ (Deveria saber) que todas as crianças são princesas para seus pais.” Sara estava certa.
As pessoas enganam-se quando julgam que, olhar para os seus filhos e vê-los como únicos, especiais e perfeitos, é uma forma de criar crianças arrogantes e egoístas. Possivelmente, até podem estar possuídos pela melhor das intenções, julgando que, ao introduzir desde muito cedo as frustrações e as contrariedades, as preparam para a vida. Mas são justamente as frustrações vividas quando a criança não está preparada para elas, ou não é ajudada a superá-las, que podem criar perturbação narcísica, no desenvolvimento.
Tudo irá depender da situação traumática (traições, decepções….) ser devastadora, ser prolongada no tempo e expressar-se de diversas maneiras.
Quanto à realidade, as suas exigências far-se-ão sentir, até as decepções e traições, com peso e medida, como cometem todos os pais. Mas, a criança que recebe amor, irá interessar-se pelo mundo e perceber que os outros também têm vontades que é preciso ter em conta. Essa empatia, que é a capacidade de imaginarmos o que o outro pensa ou sente, e que está afectada nas perturbações narcísicas, é possível, porque a nossa mãe, ao nos compreender, fez-nos acreditar que há um outro que tem experiências semelhantes às nossas.

Recapitulando o post anterior (As mães dos narcísicos 1), Coimbra de Matos em “O Desespero”, expõe que estas mães têm tendência a investir no filho, de modo a que este deseje o que ela própria deseja. “E assim, esse filho, que ela considera uma continuação de si própria, irá por seu turno considerá-la a ela (e aos objectos/as pessoas que lhe sucedam), um prolongamento de si próprio". Tanto as mães sobreprotectoras como as negligentes, estão aqui incluídas, e são descritas na literatura, como tendo a característica comum, a frieza e a hostilidade, oculta ou não, para com a suas crianças. Em qualquer caso, as necessidades profundas destas não são levadas em consideração.

Podemos depreender que, o controlo omnipotente, a intrusão e a manipulação, são as estratégias privilegiadas destas mães e pais para lidarem com as suas crianças.
O amor, a existir, ainda de acordo com Coimbra de Matos, depende da criança completar a mãe, dar-lhe brilho, porque ela não tem ou julga não ter, sendo bom aluno, bonito, educado e por aí fora. A não corresponder, sujeita-se a  ser rejeitado. Outra característica desse amor é ser captativo. Dão com a intenção de receber. Caso o filho a contrarie, podemos imaginar o “arsenal de técnicas de manipulação e controlo”: fazer-se de vítima, acusá-lo de ingratidão e outras queixas mais.
Ainda de acordo com este autor, o resultado na criança pode revelar-se através da depressão, da culpabilização ou da agressividade.



sábado, 2 de outubro de 2010

O direito absoluto

Colecção Berardo


“ Defender em si o direito absoluto a ser uma pessoa perante um outro e a recusar ser negado, destruído ou enlouquecido é, sem dúvida alguma a forma mais acabada e mais difícil do amor”
Nicole Jeammet, O ódio necessário, Editorial Estampa

É a vitória da esperança sobre o medo e sobre falsas seguranças a que chamamos amor.