domingo, 30 de janeiro de 2011

João Seabra Diniz



Anabela Mota Ribeiro entrevista o psicanalista João Seabra Diniz. Publicada no Suplemento Publica de hoje, transcrevo partes desse diálogo:
Presidente da Associação Portuguesa de Psicanálise, João Seabra Diniz explica tudo o que sempre quis saber sobre psicanálise e nunca teve oportunidade de perguntar, numa altura em que a Associação Psicanalítica Internacional faz cem anos. O colóquio In.Tolerância - A In-Suportável Diferença, aberto ao público nos dias 4 e 5 de Fevereiro, assinala a data em Portugal.

Porque é que o ser humano, que é um ser racional, faz tantas coisas que não são racionais?
A teoria psicanalítica foi a primeira a perceber que há uma parte do homem que não é racional. A irracionalidade faz parte da humanidade. A desumanidade faz parte da humanidade. O que se faz com isso, a maneira como se lida com essas forças - essa é a questão

O que se diz, e como se diz, sem filtro? Medo, desamor: é aquilo de que as pessoas mais falam no divã? São duas coisas importantes.
Estão muitas vezes ligadas. É uma das coisas de que mais falam. Penso, ao fim de muitos anos de trabalho, que um dos grandes sofrimentos das pessoas é a dificuldade de arranjar uma relação amorosa que seja boa e que dure. Boa e breve, arranjam-se muitas. O amor seria um fruto de qualquer coisa que é contrária ao desamor. O medo acompanha a pessoa desde pequena. Leva à angústia, a sentimentos de abandono. Uma das funções fundamentais (do pai, do mãe) é a de consolar o filho. O filho que chora, que está triste, desconfortável. Ao observar as crianças, aprendemos coisas extraordinárias. Mas as crianças falam uma linguagem que não é exactamente a nossa.

Como decifrá-la? Como olhá-los com atenção?
Acho que é ouvi-los sem querer integrar aquilo que dizem dentro da nossa gramática. Lembro-me de um caso, num feriado do 1 de Maio, em que eu tinha saído para um fim-de-semana no campo com a minha mulher. Na aldeia da Beira Baixa, onde estávamos, comprámos um pão grande, branco, muito bonito. Pusemo-lo em cima de uma mesa, na casa de jantar. Veio visitar-nos uma pessoa que tinha uma filha com três anos; ela entrou, e a presença do pão grande, redondo, branco impunha-se. Ela ficou fascinada a olhar para a criança...

Lapso... Disse criança em vez de pão.
[riso] Já vai perceber porquê. Disse: "Olha, parece uma mãe." Parece absurdo. Como é que isto se processa? A criança não tinha a palavra adequada para dizer a emoção que sentia; dentro dela ficou à procura, entre as palavras que ela sabia, qual é que podia designar aquilo que estava a sentir. A palavra era "mãe". A mãe é que dá a alimentação. Aquela brancura [do pão]: Melanie Klein falaria do seio. Penso que não é necessariamente isso. Mas é uma sensação de plenitude, de inteireza, de aconchego.

De suficiência?
De suficiência. Uma das funções [da mãe] é trazer a solução para o medo, para a angústia. A mãe é um ambiente, um ecossistema de afectos de que a criança precisa para se sentir bem. As crianças pequenas, três, quatro, cinco anos, dizem, choramingando: "Quero a mãe." Não perguntam se a mãe sabe resolver aquele problema.

Somos, sobretudo, filhos de uma mãe ou de um pai? Uma das figuras parentais tem uma importância dominante sobre a outra na vida do filho?
O ideal seria que não houvesse preponderância, mas complementaridade e articulação. Muitas vezes acontece que um deles tem preponderância...

Muitas vezes? quase sempre?
Reparo numa coisa muito significativa: a maneira como as pessoas falam da casa paterna. A maior parte das pessoas diz: "A casa do meu pai" ou "A casa da minha mãe". Poucos são os que dizem: "A casa dos meus pais." Isto traduz atitudes diferentes em relação à preponderância de uma das figuras parentais. Aquele que se lembra de ser pequeno e ir para a cama da mãe. Ou para a cama dos meus pais. Isto tem importância no desenvolvimento de uma pessoa.

Na infância, o vínculo que se estabelece entre a criança e os pais, e a noção de que aquela plateia, que é constituída pelos pais, está interessada naquele conteúdo é fundamental. Pode falar deste aspecto?
Volto atrás. Há pouco tinha pensado dizer isto. Na relação primitiva da criança com a família, há alguns aspectos fundamentais apontados por Donald Meltzer, um autor muito respeitado na psicanálise. Vou dizer em inglês. A primeira é generating love. A segunda é promoting hope. A terceira é containing depressive anxiety, a quarta é thinking. No fim das quatro, vem o pensamento, sobre aquilo que se sentiu, se viveu. Veja a importância disto: poder gerar o amor, espontaneamente, numa relação que não é esforçada. O amor pode trazer muitas expectativas, muitas decepções; portanto, é importante que se promova a esperança. No meio disto, é possível acontecerem ansiedades, angústias, medos. Uma das funções fundamentais dos pais é serem capazes de conter a angústia da criança, dizerem-lhe: "Isto reconstrói-se." Depois, é preciso ensinar a criança a pensar nas coisas que sente.


Uma vez, numa sessão de análise, um jovem reflectia sobre a sua dificuldade em viver as decepções amorosas. Saiu-me, como interpretação, um terceto de Camões daquele poema famoso "Sete anos de pastor Jacob servia/ Labão, pai de Raquel, serrana bela/ Mas não servia ao pai, servia a ela,/ E a ela só por prémio pretendia." A história do Labão é que ele estava à espera da Raquel e quando chegou ao fim dos sete anos o pai deu-lhe a outra [filha]. Era um engano entre a pessoa que ele desejava e a pessoa que tinha.

O desencontro, nesse paciente, nesse poema, entre aquilo que ele queria e aquilo que acaba por encontrar; esse desencontro de nós com o destino, de nós connosco próprios, de nós com as nossas expectativas, e o desapontamento que resulta disso - não é inevitável esse desencontro?
É. O ponto passa pela maneira como a pessoa vive esse desencontro e o transforma numa construção. Há uma coisa inevitável: a consequência das escolhas. Não podemos viver sem fazer escolhas; uma das escolhas importantes é a escolha amorosa. À medida que escolhemos, renunciámos ao que ficou para trás.

Renunciamos?
[riso] É essa a questão. O escolher articula-se com o deixar para trás outras coisas.

Como é que se renuncia? Essa não é uma das enormes dificuldades? Como é que deixa de se ser criança que quer tudo?
Admito que outras pessoas possam ter outras opiniões, mas acho que nunca se renuncia completamente. Pode-se equilibrar as coisas, e a pessoa viver em paz com aquilo que não tem. Mas isso - viver em paz com o que não se tem - não é necessariamente o ter renunciado completamente. Isto fornece um estímulo para a procura de mais. Aquele que está sempre satisfeito não progride. Tem de haver sempre um objecto de amor, um ideal que se procura, e que continuamos a tentar alcançar e encontrar. As vias e os meios para fazer isso dependem imenso das circunstâncias, das pessoas. Isto faz-se muitas vezes de forma metafórica.


Por exemplo.
Um caso conhecidíssimo, o donjuanismo, aqueles homens que têm sempre de conquistar uma nova mulher. Mas isso faz com que nunca tenha nenhuma. É uma sensação de perda constante e de procura constante. É um jogo muito complexo de equilíbrios, para manter o equilíbrio do eu, dos investimentos afectivos, das frustrações, das agressividades. Uma vez ouvi a um psicanalista francês, um homem mais velho, com quem aprendi muito, esta imagem: os mobiles que se põem sobre a cama das crianças... aquilo está num equilíbrio precário. Se tocamos num deles, todos os outros têm de se reajustar. Ele dizia: "O equilíbrio do eu é assim." A arte de viver é isto, é conseguir novos equilíbrios, é progredir sempre.



sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Foge ao meu controlo


A exigência compulsiva de demonstrações de ser um “homem de reputação”.Ora o ódio, ora o amor.
O ódio venceu.

Cena do filme "ligações Perigosas"

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Insegurança prejudica a saúde

Carel Weight, The Freinds, 1968

O modo como nos ligamos aos outros, tem efeitos sobre a nossa saúde não só psicológica mas também geral.
Lachlan McWilliams da Acadia University (Canadá), parece ter encontrado a ligação possível nestes dois domínios, ao analisar os três tipos de relações de apego - o seguro, o evitante e o ansioso - e os indicadores de saúde, tais como o risco de acidentes vasculares cerebrais, ataque cardíaco e pressão arterial.

Os resultados a que chegou, apontam para que as pessoas que têm dúvidas sobre os outros, não gostam de ficar perto deles e não confiam (apego evitante), assim como as pessoas que querem chegar perto de outros, mas tem receios sobre a rejeição (apego ansioso), têm mais risco de contrair AVC, ter ataques cardíacos e pressão arterial elevada.

Fazem-me sentido os resultados do estudo, se considerarmos com base em John Bowlby que, existe uma ligação entre as experiências da infância e a capacidade posterior para estabelecer vínculos, e na vida adulta “certas variantes comuns dessa capacidade, manifestando-se em problemas conjugais e em dificuldades com os filhos, assim como nos sintomas neuróticos e distúrbios de personalidade”*, nos casos em que não foi possível criar a confiança nos outros e o conforto nas relações próximas e intimas.

Suspeito que as pessoas que insistem em aguentar firme sem pedir ajuda e em fazerem tudo sozinhas – autoconfiança compulsiva - também podem apresentar estes problemas de saúde. Nestas, tal como nos casos de pessoas com ligação ansiosa, “é provável que exista muito ressentimento subjacente …e também muito anseio inexprimido de amor e apoio.”*

Para saber mais sobre o referido estudo, aceda aqui.

*John Bowlby, Formação e rompimento dos laços afectivos, Martins Fontes

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A fórmula da felicidade?

A pergunta para 2010 que o site Edge colocou a mais de uma centena de cientistas e outros pensadores foi:
Qual será o conceito científico que, se toda a gente o dominasse, poderia representar um salto imenso na capacidade que as pessoas têm de perceber e participar activamente nos assuntos do mundo?

A resposta que  Martin Seligman, fundador da Psicologia Positiva deu, foi:  PERMA.
Apresenta-se como se fosse “a fórmula” a ser criada, se queremos conquistar bem-estar para as nossas vidas. Assim sendo, PERMA é constituída pelos seguintes elementos:

P Positive Emotion (emoções positivas)
E Engagement (envolvimento)
R Positive Relationships (relações positivas)
M Meaning and Purpose (sentido de vida ou propósito)
A Accomplishment (realização)

Para aceder à resposta de Martin Seligman ao site Edge, clique aqui

Um encontro de mentes - ENCONTRO entre Martin Seligman e Aaron Beck aqui

domingo, 23 de janeiro de 2011

Adolescentes narcísicos na escola



Devido à personalidade do adolescente ainda estar em formação, é necessário ter muito cuidado no diagnóstico das perturbações narcísicas da adolescência. Há contudo, orientações na literatura, mas ficam para outra ocasião.

No trato, os adolescentes que apresentam perturbação narcísica de personalidade - que se pode situar desde um nível mais grave (patologia anti-social) a um nível menos grave (patologia neurótica) – podem apresentar uma atitude de auto confiança e de encantadora sedução, ou então, de ansiedade, tensão ou timidez. O mesmo adolescente, pode também oscilar entre estes dois estados. Mas tanto uns quanto outros, sentem-se desligados emocionalmente dos demais e anseiam, na relação, pela satisfação das suas necessidades narcísicas. Também têm em comum, considerarem que "as regras não se aplicam” a eles, o que pode explicar as atitudes de recusa na aprendizagem escolar. Caso apresentem uma atitude crítica, com manifesta oposição, é habitual se o assunto não lhes interessa particularmente,  não estudarem ou se esforçarem o suficiente, de modo a terem uma opinião fundamentada de acordo com os ensinamentos do professor.

Deixo-vos uma caracterização destas perturbações na adolescência, que são um dos factores que contribuem para o insucesso escolar e outras atitudes face à escola:

Devido ao self grandioso patológico, estes adolescentes mostram uma exagerada auto-referência e são autocentrados, têm fantasias grandiosas que muitas vezes exprimem em traços exibicionistas, atitudes de superioridade, negligência e uma discrepância entre ambições e capacidades limitadas. São muito dependentes da admiração dos outros, mas demonstram pouco ou nenhuma gratidão para com aqueles de quem dependem. A superficialidade da sua vida emocional e experiências próprias reflecte-se, muitas vezes, num sentimento de vazio, aborrecimento e necessidade de estímulos.

Frequentemente o sintoma dominante é a falência escolar significativa. Estes adolescentes têm grande dificuldade em aprender através dos outros ou de livros, apesar da sua fantasia de que todo o conhecimento deriva de si próprios ou da sua incorporação sem esforço daquilo com que entram em contacto. Se um adolescente narcísico é muito brilhante, pode ser um excelente aluno desde que não tenha de fazer grande esforço; e muitas das vezes estes jovens mostram um excelente funcionamento em assuntos em que estão no topo e quebras totais em assuntos em que não estão no topo, nos quais deveriam ter de fazer esforço, e nos quais o esforço – e a inveja inconsciente que desencadeia – é sentido como um insulto à sua auto-estima. A desvalorização secundária dos assuntos nos quais não têm êxito leva-os a um círculo vicioso de falência escolar.
O sentimento de grandiosidade e de ter os direitos, a desordenada inveja e desvalorização, e as limitações da empatia e empenhamento são sintomas cardinais da personalidade narcísica, facialmente observáveis nos adolescentes narcísicos.

Otto Kernberg, Agressividade e Auto-destrutividade na Relação Psicoterapêutica, Climepsi Editores

A perturbação anti-social é para Otto kernberg, a forma mais grave de narcisismo patológico.
Nas patologias boderline e anti-social os comportamentos podem ser mais graves que os descritos.
Veja aqui.


quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Amar demais

"Apaixonar-se, enamorar-se, claro, não é perversão senão quando a única excitação sexual possível consiste em que o indivíduo sente a sua própria insignificância ante a magnificência do parceiro. Por aí se vê a perversão a que nos referimos é o estado de transição entre o amor e o masoquismo: em comum com aquele, tem o carácter mono maníaco; com este o gozo da sua própria insignificância."
Otto Fenichel,  Teoria Psicanalítica das Neuroses

Quando me deparei com este texto pela primeira vez, interroguei-me como pode o “gozo da sua própria insignificância” ser visto como uma atitude perversa. Não é habitual situar a perversão nesta perspectiva.

A explicação pode estar aqui:
“ O desejo e a sua não consumação é uma das características essências da perversão. Poderíamos dizer que o perverso é um conhecedor do desejo e do seu diferimento.”
“As pessoas perversas introduzem um objecto, fantasia, encenação dramática ou fetiche entre si próprias e o objecto de desejo”.
Claire Pajaczkowska, Perversão, Almedina

Li outra e outra vez, e julgo perceber melhor: “O gozo da sua própria insignificância ante a magnificência do parceiro”, é uma atitude perversa, porque pode-se desejar amar e ser amada, mas não se vive um amor cooperativo. Antes pelo contrário, a intensidade do prazer pelo sofrimento que se experimenta pela própria insignificância, é maior do que a vivência de um amor partilhado.
Cria-se uma fantasia que integra a crença que se partilha com o outro, uma cumplicidade, como acontece em toda a perversão. A relação torna-se repetitiva. Promete, mas não leva ao crescimento do casal.


Dali, Costume for a Nude (detalhe)



segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O erro de Einstein


E Einstein? Qual foi, afinal, o erro de Einstein? Einstein achava que as mulheres não tinham aptidão para a ciência por não serem criativas. Apesar disso, nutria sincera admiração por Madame Curie, considerando-a uma excepção à regra. Tal não o impediu de comentar a um amigo que ela "não era suficientemente atraente para ser perigosa para quem quer que seja". Einstein cometeu erros. Mas a depreciação que fez das mulheres foi, decerto, o seu maior erro.
Carlos Fiolhais, Físico, Professor universitário, Jornal Publico, 7/01/11


São atribuídos a Einstein um conjunto de pensamentos inspirados sobre o amor, que nos fazem pressentir a existência de uma alma gentil e delicada face às emoções do coração. Por esta razão, aproveitar o desabafo que Einstein fez ao amigo sobre Madame Curie, pode ser considerado no mínimo, uma apropriação selvagem que desconhece de igual modo a moralidade de uma época.
Mesmo assim prossigo. Os cientistas sociais chamar-lhe-iam um preconceito, uma crença, mas um prefiro considerá-lo um comportamento ambivalente – que manifesta uma atitude que desqualifica as mulheres e em simultâneo, um desejo por elas.

Einstein não conseguiu dar-se conta que a mulher também pode ser intelectualmente criativa.
Há múltiplas variantes desta fantasia: como pode ser bela e inteligente? Como pode ser moderna e sofisticada e saber governar uma casa?

A necessidade de isolar de um modo estanque, o bom de um lado e o mau de outro, tem na base a dificuldade em tolerar sentimentos positivos e negativos, pela mesma pessoa. E gostar dela ou amá-la para além disso.
O resultado costuma ser a dificuldade em confiar nas outras pessoas, cujos comportamentos mais evidentes, serão as manifestações de amor mas também de agressividade, por uma em particular. O conflito pode não ter solução.
De acordo com o modelo psicanalítico, “separar todas as pessoas e todas as coisas em categorias de comportamento completamente antitéticas”*, corresponde a uma fase de desenvolvimento, primitiva.

*Otto Fenichel, Teoria Psicanalítica das Neuroses


sábado, 15 de janeiro de 2011

Francisca Rebocho

Francisca Rebocho, de 30 anos, psicóloga, especialista em crimes sexuais, doutorada na Universidade do Minho, deu uma entrevista a Teresa Firmino, do Jornal Publico, publicada a 14 de Janeiro de 2011 a propósito do assassinato de Carlos Castro.
A crer nos relatos de tablóides norte-americanos, o corpo do cronista social Carlos Castro foi agredido, durante mais de uma hora, com um saca-rolhas e os órgãos genitais e globos oculares foram mutilados.

Transcrevo partes dessa entrevista, não com o objectivo de compreendemos o comportamento do suspeito no homicídio, Renato Seabra, mas sim com o propósito de registar algumas questões referentes à psicopatologia. Por esta razão, exclui quaisquer alusões directas ao eventual comportamento do suspeito.

Sobre as mutilações dos olhos
A mutilação dos olhos é bastante mais rara do que a dos órgãos genitais. Em qualquer das situações, é um homicídio com motivação sexual.
Na literatura científica, a mutilação dos olhos quase não é abordada. Francisca Rebocho, deparou-se só com um único estudo publicado em 1999, na revista Journal of the American Academy of Psychiatry and Law. E esse artigo baseia-se só em dez casos na Rússia e nos Estados Unidos.
É um fenómeno extremamente raro. Deve haver outros dados, mas não estão tratados. Os dez casos são todo o universo que há, não são uma amostra. Isto diz-nos da raridade deste comportamento e do seu valor interpretativo, realça a psicóloga, especializada em perfis psicológicos e geográficos.

Nos dez casos (cinco dos agressores eram psicopatas, um tinha uma deficiência mental e os restantes quatro eram psicóticos), a equipa do russo Alexander Bukhanovsky, que incluía cientistas americanos, estudou a patologia mental dos agressores, a idade, o género, a motivação para o crime ou o instrumento usado: Os resultados indicam que a mutilação dos globos oculares, extremamente rara, é mais frequente em ofensores psicopatas ou psicóticos, do sexo masculino, com idades entre os 20 e os 30 anos. Este tipo de mutilação surge na quase totalidade dos casos no contexto de um homicídio sexual, com uma motivação associada à raiva, sendo as armas de eleição instrumentos afiados. Em cerca de metade dos casos, ocorreu mutilação de outras áreas corporais.

Sobre a raiva
Numa análise comportamental, este crime sugere uma clara motivação sexual e afectiva, com grande libertação de raiva. A duração sugere a libertação de uma raiva acumulada, dado que a maioria dos crimes motivados pela raiva é caracterizada pela breve duração.
O tipo de mutilação envolvida, associado à duração, a escolha de uma arma de oportunidade e a opção pelo estrangulamento como modo de matar, são indicadores do que o FBI descreve como um ofensor desorganizado - na maioria dos casos, são sujeitos portadores de patologia mental severa do espectro psicótico.

Sobre um possível surto psicótico
Estes doentes vivem num mundo diferente quando deliram, o que pode durar dias ou semanas, e nessa fase podem ser perigosos para si e os outros. É como se tivessem umas lentes especiais para ver o mundo. Nos filmes, por vezes vemos doentes psicóticos com medo que os vizinhos lhes roubem os pensamentos. E aparecem com papel de alumínio na cabeça, conta, explicando que há vários subtipos de psicose, como a esquizofrenia e a paranóide.
Às vezes, uma crise psicótica começa com alterações dos sentidos, que duram horas ou dias. Noutros casos, o surto é fulminante e as pessoas ficam espantadas como aquilo aconteceu.
Estes primeiros surtos tendem a surgir (na juventude) podem levar a crimes violentos, caracterizados pela bizarria e violência exacerbada, com presença relativamente frequente de mutilação dos genitais.
Mas, como há excepções, pode ser um  indivíduo normal que teve um acesso de raiva excessiva por alguma razão. Geralmente, esses crimes são breves e não envolvem mutilação dos genitais. As pessoas acumulam muito stress e raiva, passam-se da cabeça e cometem um crime. Há violência extrema, mas abrange todo o corpo. Não é apontada a zonas específicas.

Sobre a motivação contra-fóbica
Outra hipótese ainda é a mutilação dos genitais ter tido uma motivação contra-fóbica em relação à homossexualidade. Ou seja, o agressor, um homossexual em negação ou em conflito interno quanto à sua sexualidade, fez tudo ao seu alcance para controlar esses impulsos. Sentiu-se mal, acumulou raiva contra si e os outros homossexuais e, face a um acontecimento que induziu stress acrescido, cometeu o crime num acesso de fúria.
Ou, ainda, pode ter tido uma motivação homofóbica. Kim Rossmo, da Universidade Estadual do Texas, contou um exemplo desse comportamento a Francisca Rebocho, descrevendo-lhe uma cena de crime com um cadáver deitado no sofá, estrangulado, com os genitais amputados e inseridos na boca, os braços sobre o peito numa pose ritualista e cortes verticais na face. Este crime resultou do avanço de um homossexual, a vítima, a um heterossexual, o agressor, ao ponto de o ofensor ir a casa da vítima e lhe amputar os genitais, como forma de neutralizar aquilo que percebia como uma ameaça. Introduziu-lhos na boca como forma de expressar repulsa pelas práticas sexuais homossexuais.

Sobre psicopatas
Uma hora a bater num indivíduo não é um comportamento psicopata. Os psicopatas são instrumentais na maneira como cometem o crime: é para matar. Podem pretender torturar, mas é de forma sistemática e organizada. Neste caso, a mutilação foi grosseira.

Entrevista  de Clara de Sousa, na RTP ao Psiquiatra e Psicanalista Carlos Amaral Dias, aqui.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Os verdadeiros enfermos


Esta foto retrata o momento em que Adrian Sobaru, electricista no canal de televisão estatal romeno, atirou-se das galerias do Parlamento em Bucareste para protestar contra as medidas de austeridade do Governo, enquanto gritava “liberdade” e “vocês têm o pão dos nossos filhos”. É pai de um adolescente autista.

É uma imagem do desespero, e poderá sugerir que Adrian Sobaru se encontrava psicologicamente perturbado. Mas “Os verdadeiros enfermos…são aqueles que nos querem impingir uma humanidade reduzida” Arno Gruen (psicanalista), A Traição do Eu

Adrian Sobaru sobreviveu à queda, sem ferimentos graves.
Tal como ele, se pensarmos um pouco no nosso percurso de vida, e que apesar das incertezas do futuro, nos levantamos todas as manhãs, realizamos múltiplas tarefas, algumas sem lhes conseguirmos atribuir um sentido que justifique o esforço, somos sobreviventes à nossa maneira.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O crime de Dorian Gray


O belo Dorian Gray, a personagem narcísica do romance de Oscar Wilde – O Retrato de Dorian Gray - é confrontado pelo seu amigo Basil Hallward com as acusações que correm nos salões da sociedade, de que Dorian tornara-se uma pessoa indecente perante a qual, nenhuma mulher casta, jovem ou cavalheiro, poderia partilhar a mesma sala. Nesta discussão, Basil revela não acreditar que Dorian fosse capaz de perder a noção de honra, e insiste que este se defenda das calúnias. 

Mais adiante na discussão, Basil retoma o relato sobre o capital social que Dorian tinha no passado, e as desditosas situações em que o seu nome tem sido envolvido, a que:
Dorian avisa-o : Tenha cuidado, Basil. Está-se adiantando demais.
Ao que Basil responde: “Hei-de falar, e você há-de ouvir-me. Tem de me ouvir.”

Basil volta a questionar-se incrédulo, como podem ter fundamento as acusações, e conclui que para se assegurar da verdadeira natureza de Dorian, teria de lhe ver a alma. A emoção que este comentário despertou em Dorian foi de medo, pelo que responde:

Dorian: Vou mostrar-lhe a minha alma. Verá coisas que mal imagina que o próprio Deus possa ver.
Hallward recuou: - É uma blasfémia, Dorian! – exclamou. – não deve dizer coisas dessas. São horríveis, nada significam.
Dorian:  Acha?
Riu-se de novo.
Hallward: Sei que assim é. Quanto ao que lhe disse há pouco, disse-lho para seu bem. Sabe que sempre foi seu amigo dedicado.
Dorian: Não me toque. Acabe o que tem a dizer.... Tenho um diário onde está a minha vida. Mostrar-lhe-ei, se vier comigo.

Basil acompanhou Dorian. Dai a pouco, Basil era morto por Dorian, com uma faca na grande veia por trás da orelha, e, esmagando-lhe a cabeça contra a mesa, vibrou-lhe facadas à doida.

Que direito tinha Basil Hallward a falar-lhe como lhe falara? Quem, o arvorara em juiz dos outros? Dissera coisas terríveis, pavorosas, insuportáveis…, pensa Dorian.

Neste cenário de discussão, estão patentes as características do sujeito narcísico: a omnipotência e a grandiosidade que se expressam, nomeadamente, no diálogo sobre a alma – ninguém tem acesso à sua intimidade que está ao nível do divino. A dificuldade em lidar com o confronto, é também uma manifestação do seu sentimento de superioridade, ou da sua fragilidade.
Dorian também se manifesta incapaz de reconhecer a verdadeira preocupação do amigo.
Basil pretendia ajudá-lo a redimir-se, mas Dorian recorre a uma demonstração do ódio. Basil não compreende que Dorian possa ter um falso self - ter uma personalidade delicada e gentil em certos contextos e ser outra pessoa em outros.

Percebido este diálogo como uma metáfora, todos nós podemos ser um pouco desta personagem de Dorian, ao fantasiarmos que nos devem aceitar sem crítica, e a não acreditarmos que possam gostar de nós apesar do que somos.

Jeremy Holmes, Narcisismo, Almedina



domingo, 9 de janeiro de 2011

Fadiga no trabalho

Edward Hopper, Office Night

Altas expectativas sobre o resultado do nosso desempenho, como o medo de falhar, de ser criticado, ou a extrema necessidade que o chefe reconheça e elogie o nosso trabalho, podem ser factores mais do que suficientes para um estado de fadiga e frustração (burnout), caso os resultados não sejam os esperados. Como consequência, surgem sentimentos de irritabilidade, intolerância e desadequação que, ao alimentarem o ciclo, reforçam o mal-estar.
Aquelas aspirações, poderão parecer legítimas para quem leva o trabalho a sério, mas na verdade, a dependência em excesso do "olhar do outro" e de um ideal a atingir, podem corresponder a um estrutura narcísica de personalidade, descrita como um conjunto de traços e atitudes relacionais que incluem auto-admiração e auto-importância excessivas, medo de falhar, exibicionismo, sentimentos de omnipotência, intolerância à crítica, fantasias de sucesso ilimitado ou grandioso, e uma certa crença em se ser especial ou único.

Miguel Tecedeiro realizou uma investigação - Estudo exploratório sobre burnout numa amostra portuguesa: O narcisismo como variável preditora da síndrome de burnout -  em 2010, que teve como objectivo testar a hipótese de o narcisismo ser uma característica de personalidade que representa uma vulnerabilidade para o burnout.
Os resultados a que chegou, confirmam que quanto mais fortes as características de personalidade narcísica do sujeito, maiores os scores nos diversos factores de burnout, com uma incidência particularmente significativa na exaustão.
Para aceder ao estudo, clique aqui




quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Resguardo

Larson, Jeffrey T. Rose Inprimir

Diz-se que uma raposa convidou primeiro uma cegonha para uma ceia, e lhe pusera num prato chato um caldo líquido que a cegonha, faminta, de nenhum modo pôde saborear. Como esta tivesse convidado a raposa, colocou-lhe diante uma garrafa cheia de comida migada. Ela própria satisfaz-se, metendo o bico nesta garrafa, e atormenta com fome a convidada. Como a raposa lambesse em vão o gargalo da garrafa, ouvimos dizer que a ave de arribação falou assim: - cada um deve sofrer com igual ânimo os seus exemplos.
Fábula de Fedro

Parece-me que as fábulas podem ser consideradas alegorias – têm um significado escondido como que por um véu, a partir da qual cada um de nós interpreta-as a seu modo, de acordo com as suas experiências pessoais.
A situação retratada entre a raposa e a cegonha pode ocorrer nas nossas relações sociais e profissionais, quando reproduzimos como por espelho, o comportamento do outro. Podemos fazê-lo impulsionados por diversos motivos, um deles, a vingança.
Seja qual for a nossa motivação, o nosso comportamento assemelha-se à construção de uma muralha a partir da qual nos escondemos do outro, tornando-nos semelhantes a ele.
Não sabemos se alguma vez vamos derrubar esse escudo. Mas é um lugar. O único que nos parece ser habitável e seguro.


terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Not aggressive enough

Barbara Kruger, Not cruel enough

“…quanto mais agressivo, menos deprimido”.
 
Coimbra de Matos O Desespero Climepsi Editores

Por desconhecimento ou por desatenção, nem sempre damos conta que o nosso comportamento cumpre uma função, resulte ou não de emoções que não controlamos ou de atitudes conscientes.
Isto poderá explicar as dificuldades que temos em mudarmos as atitudes.
Nestes contextos, faz sentido pensarmos na função que pode ter a agressividade.
Sendo o comportamento agressivo a projecção dos conflitos consigo próprio no exterior ou no outro devido às dificuldades em tolerar a frustração, pode ter a função de luta contra a depressão. Neste caso, o agir permite manter o conflito fora da consciência, evitando deste modo que o indíviduo deprima.