quinta-feira, 30 de setembro de 2010

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

As mães dos narcísicos (1)

Picasso, Grand nu au fauteuil rouge, 1929


Neste quadro de Picasso, uma mulher angustiada vê-se ao espelho que nada reflecte, ou não reflecte vida. É este o sentimento vivido pelas crianças que não tiveram pais que levassem a sério as suas emoções.

Como são as mães dos narcísicos? Haverá modos de ser, típicos? A resposta é sim, com reservas, porque elas podem investir de determinada maneira num filho, ao ponto de gerar uma criança narcísica, mas relacionar-se de um modo mais saudável com outro filho.
Assim, o que é importante, é sobretudo o tipo de relação que determinadas mães ou substitutos, estabelecem com as suas crianças, ao ponto de gerar nestas características de narcisismo patológico. De facto, “o que é interiorizado não é a imagem do outro, mas o modelo de uma relação.” (D. Lagache). Ou seja, o modo como nos relacionamos hoje, assenta nessas experiências com as nossas mães e na maneira como as interpretamos. Melhor dizendo, o que conta é o modo como foram vividas as expectativas de sermos amados e decepcionados.

Uma característica geral destas mães, é a desproporção entre os cuidados que a criança necessitava e os que elas foram capazes de dar, devido à incapacidade de estarem em sintonia com os seus filhos. Otto Kernberg refere-se a estas mães, como mulheres que funcionam na aparência como compreensivas, mas de um modo subtil transmitem indiferença e ódio. Acrescenta que elas enfurecem de tal modo as suas crianças, que as deixam desoladas e inconsoláveis, sem capacidade para gerir essas emoções. As mães sobreprotectoras e as mães negligentes estão nesta categoria - fizeram o seu filho acreditar que é melhor do que os outros ou desligaram-se dele.
 A este propósito, Coimbra de Matos descreve-as, “o filho é sentido como um prolongamento da própria pessoa, e deverá pensar, sentir e agir como ela, e sobretudo desejar o que ela própria deseja”. E eu te amarei. É a mensagem (sobretudo implícita) destas mães. São sanguessugas, acrescenta. E foi isto que falhou: a capacidade de convencer o filho que o amava como uma pessoa, independente dela.

Como resultado deste tipo de relações, é comum identificarmos o egoísmo implacável destas crianças e a falta de empatia.
Sobre as perturbações narcísicas no adulto, Cristina Fabião, vai mais além: “…incapacidade de pensar acerca de si próprio, da sua relação com o mundo, e com os objectos (pessoas) (área que é obsessivamente avaliada); incapacidade de julgar e sobretudo julgar-se, de decidir-se e tomar o rumo pessoal”.

Como são na prática, as estratégias que estas mulheres usam?
Continua…

Elaborado com base em:
Cristina Fabião, Narcisismo, defesas primitivas e separação, Climepsi
Coimbra de Matos, O Desespero, Climepsi
Laplanche, J., A Angústia, Martins Fontes
Otto Kenberg, Agressividade, narcisismo e auto- agressividade na relação terapêutica, Climepsi
Ronald Fairbairn, Estudos psicanalíticos da personalidade, Vega


Para saber mais sobre o que é o narcisismo patológico, clique (aqui)







segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Inveja

Paula Rego, Branca de Neve e a sua Madrasta

Talvez as pessoas não saibam, eu não sabia até há pouco tempo, mas a literatura psicanalítica fala na possibilidade de se invejar a bondade, a capacidade de amar e ser amado, por serem qualidades positivas e admiradas pelo invejoso. Esta inveja (há outras), está muito próxima do ciúme e da dificuldade de aceitar as diferenças. 
Penso, por exemplo, que muitos já sentiram na pele, os efeitos da inveja porque são pessoas acarinhadas pelos outros, bem-dispostas e com força de viver.
As relações minadas pela inveja, são tóxicas. Para a vitima, que é objecto de um ódio por vezes camuflado, e por isso tem maior poder destruidor, e para o invejoso, que se torna consciente do quanto é limitado, para além de deixar-se afectar pela culpa e pela baixa auto-estima pelo facto de invejar. 
É de Melanie Klein o mais interessante estudo sobre a inveja. Klein escreveu, citada por Kate Barrows em, A Inveja, Editora Almedina: “A capacidade de dar e de preservar a vida é sentida como o maior dos dons e por isso a criatividade torna-se a principal causa da inveja”. Para além da criatividade, que pode ser invejada, “Klein sugeriu que a paz de espírito de uma outra pessoa pode suscitar inveja”.

A cura para o invejoso está na gratidão – preocupar-se com o outro, e ser capaz de aceitar o que este tem para dar.



domingo, 26 de setembro de 2010

O Livro da Consciência





A propósito do novo livro de António Damásio (neurologista) - O Livro da Consciência:

Entrevista de Ana Gerschenfeld do Jornal Público de 22/09/10: Mas então, como imagina o autor a mente de um cão "desde o interior"?
António Damásio: Como "um fluxo muito rico de imagens situadas no presente, com uma leve penumbra de passado e nem a mais mínima ideia de futuro". Mesmo assim, todos sabemos isso, uma mente capaz de amar, de sentir tristeza, medo ou ciúmes... mas não de reflectir sobre a sua condição, não de saber que sabe o que sente.

Os animais não são capazes de pensar no futuro, ao contrário do homem. Para o bem, pensar no futuro ajuda-nos a planear a vida e deste modo, a evitarmos dentro do possível acontecimentos negativos, e para o mal, quando o medo criado por esses pensamentos impedem-nos de viver o presente. Neste caso, está em jogo a ansiedade e a necessidade que temos em controlar os acontecimentos.
As palavras de António Damásio dão que pensar sobre o modo como tratamos os nossos animais, em particular os nossos cães.





sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O prazer de ser


Marilyn Monroe no seu ultimo filme (inacabado), Something's Got to Give

Um bom narcisismo:
Marilyn Monroe fabulosa, por tudo. Pelo prazer do jogo sedutor, e pela capacidade de afirmar as suas ideias sem medo de o perder (a personagem interpretada por Dean Martin).
Nem todas temos a sua beleza (física), mas podemos “trabalhar” as outras qualidades.


quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A memória na Depressão

"São pessoas (os deprimidos) que nunca estão total ou verdadeiramente no acontecimento. Aquilo que está acontecendo à sua volta, e mesmo consigo, lembra-lhes constantemente o que perderam, fazendo-os recolher para fantasias nostálgicas e recuar para projectos ultrapassados”.
Coimbra de Matos O Desespero Climpsi Editores

O viver e saborear o momento presente, fica assim comprometido, como se estivessem presas ao passado. 
As mais recentes investigações sobre a memória das pessoas deprimidas são apresentadas por Philippe Fossati, no artigo La dépression nous rend spectateurs de nos souvenirs, na publicação Les Dossiers de La Recherche n°40 - Août 2010, Le cerveau (aqui).

Síntese de Philippe Fossati, sobre a memória na depressão:
- As pessoas deprimidas descartam as memórias dos acontecimentos positivos.
- Ao viver episódios depressivos recorrentes, aumentam os seus problemas de memória.
- As perturbações da memória estão associadas com a alteração do tamanho e actividade de determinadas áreas do cérebro (que estão identificadas).
- As recordações das experiências de vida – memória autobiográfica, que é fundamental para o sentido de identidade pessoal - contêm poucos detalhes específicos.

Sendo a memória tão importante para cada um de nós, as suas perturbações contribuem para o risco de suicídio.Com um tratamento eficaz, as alterações a nível cerebral, desaparecem.

Philippe Fossati é professor na Universidade de Paris VI e realiza prática hospitalar em serviço de psiquiatria de adultos.

Sobre a depressão os sites:
 A depressão dóí

terça-feira, 21 de setembro de 2010

As vítimas do engano

Paula Rego, A fada azul sussura para Pinóquio

Esta é a história de Patrick e das suas namoradas, para  ilustrar o mecanismo de defesa projecção.
A projecção é uma operação pela qual todos nós, uma vez por outra, em maior ou menor grau, recorremos para controlar o sofrimento, ao infligirmos em outra pessoa, qualidades, sentimentos e desejos que desconhecemos ou nos recusamos a aceitar em nós próprios. Mas há quem utilize a projecção, como um traço de carácter. A nível do desenvolvimento, é uma defesa primitiva.

Confesso que até há bem pouco tempo, esta explicação do mecanismo, me satisfez, mas Graham Music em Afecto e Emoção, é incisivo: a “vítima” passa a sofrer de estados emocionais que nos recusamos a viver. É esta a função da projecção, usada nos relacionamentos pessoais, sociais e profissionais.

Aqui fica a história de Patrick, descrita por Graham Music. Nesta história, há quem veja só uma "vítima", há quem veja duas, contando com o próprio Patrick.
Quando Patrik era criança, sua mãe dedicou-lhe algum amor - a esperança de uma intimidade amorosa – mas esta esperança foi desfeita, pelo consumo materno de drogas. Patrick que tem dificuldades nas relações de intimidade, reproduz nos seus relacionamentos amorosos, este padrão, não é capaz de lhes dar continuidade.

“…é a experiencia que as suas vítimas sofrem com ele. Um sentimento que se revela insuportável é descarregado sobre outra pessoa, e é deste modo que as mulheres que se apaixonam por ele sofrem estados emocionais que ele não é capaz de suportar. Estas formas de comunicação podem tornar-se um traço enraizado, e o certo é que podem também trazer consigo certos benefícios secundários. As vítimas do engano, quando mais tarde enganam outras pessoas, começam, em alguns casos, por tentar assim livrar-se dos seus sentimentos servindo-se dos outros, mas começam depois a procurar o prazer do poder e do exercício do controlo.”Graham Music