terça-feira, 10 de julho de 2012

O ressentimento #2

Judith Beheading Holofernes Caravaggio

“Detenhamo-nos em outra forma de reafirmação narcisista. Em muitas circunstâncias, quando um sujeito briga com outro, tenta reforçar seu desgosto através de uma atitude que bem poderíamos qualificar de cultivo do ressentimento. Obtém um prazer especial em manter-se irritado e rejeitar o outro. Graças a esse cultivo do ressentimento, o sujeito reafirma-se em sua razão perante o outro, situando esse no lugar de culpável e, correlativamente a si mesmo, no de condenado. Consegue ocupar a posição narcisista privilegiada de ser aquele que rejeita o outro. O frequente sentimento de superioridade que o sujeito mostra no momento do ressentimento denuncia a sua função narcisista.”
Hugo Bleichmar O Narcisismo Artes Médicas
Para aquele que entrou pelas nossas fronteiras e se portou como um ladrão, a dor de início parece não vir de nenhum lugar, e continuar soa possível. Com o tempo, qualquer pequena coisa a convoca. É dormente e demorada. Nesta obscuridade, não se encontra maneira de tomar um rumo. Espreita a perda do sentido de quem somos. Com a coragem de sobreviver e se não houver medo de encarar o desespero, passada esta fase, assume-se a injúria de frente. Pode não ser a melhor condição de existência, mas chegamos enfim, a uma terra habitável. Com este chão, vem um sentimento de controlo e quem sabe, se chegue a perdoar, quem não experimentou ou percebeu o elementar.

Deixo-vos um enxerto de Anne Alvarez* sobre o ressentimento no romance A Brincadeira de Kundera:" (Um amigo que lhe traiu e fez com que ele fosse mandado para uma colônia penal por quinze anos). Ele pergunta: "Como explicaria que não podia fazer as pazes com ele?"...e, "Como poderia explicar que usava meu ódio para contrabalancear o peso do mal que carregava quando jovem...Como eu explicaria que precisava odiá-lo."


* Malignidade sem motivo: problemas na psicoterapia de pacientes psicopatas.

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