segunda-feira, 20 de maio de 2013

A cultura separa


 
Parte da longa entrevista de Teresa de Sousa ao filósofo Eduardo Lourenço, com o título “Esta Europa tornou-se um museu de si mesma”, que saiu na Revista 2 do Jornal Publico, do passado domingo.
Esta entrevista tem como pretexto a última obra de Eduardo Lourenço, editada pela Gradiva, que é uma inesperada resenha de artigos escritos pelo nosso maior ensaísta antes do 25 de Abril ou nos dois anos seguintes. O tema parece estranho: Os Militares e o Poder. Há um texto final e actual sobre "o fim de todas as guerras e as guerras sem fim".
(…) 
O que fazer da Alemanha é de novo a grande questão?
É, de novo. Ou melhor, a pergunta é outra: o que é que a Alemanha vai fazer dela própria. Nós não temos a veleidade nem a pretensão de conseguir que a Alemanha faça isto ou faça aquilo.
E o que pensa que ela quer fazer dela própria? Quer continuar europeia?
Não pode ser outra coisa. Se nos colocarmos do ponto de vista alemão, a pergunta é: o que é que a Alemanha quer fazer da Europa da qual ela é o centro, do ponto de vista do seu poder económico?
Quer fazer uma Europa alemã, como agora se diz?
Não creio. Nunca o conseguiu fazer. A nossa geração pensou que, depois do que aconteceu, que a França e a Alemanha iriam entender-se melhor do que se têm entendido. Neste momento, à mínima dificuldade, vêm sempre as mesmas coisas ao de cima. Ultimamente, a propósito de uma exposição, a primeira que os franceses fazem sobre a pintura alemã...
Que está no Louvre.
E que eu vi. Os alemães não gostaram nada. Porque aquela visão franco-francesa da Alemanha é também uma cegueira da parte dos franceses, que deviam ser mais finos para compreenderem que há outra Alemanha.
Diferente daquela que está nessa exposição, apenas com a pintura até 1939.
O problema é que não há cidadezinha francesa que não tenha o seu monumento aos mortos da guerra. E se formos ao lado alemão, é a mesma coisa: lá estão os cemitérios. Essa é a tragédia europeia da qual Hitler foi a expressão patológica.
É a tragédia europeia que pensávamos que estaria definitivamente superada.
Mas não está. A verdade é que quando o Monnet dizia que era pela cultura que se devia ter começado, enganava-se. A cultura separa. Os intelectuais não querem perceber isso porque pensam que são eles os donos da cultura. A cultura marca as diferenças.
 
(…)
 

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