quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Amar demais

"Apaixonar-se, enamorar-se, claro, não é perversão senão quando a única excitação sexual possível consiste em que o indivíduo sente a sua própria insignificância ante a magnificência do parceiro. Por aí se vê a perversão a que nos referimos é o estado de transição entre o amor e o masoquismo: em comum com aquele, tem o carácter mono maníaco; com este o gozo da sua própria insignificância."
Otto Fenichel,  Teoria Psicanalítica das Neuroses

Quando me deparei com este texto pela primeira vez, interroguei-me como pode o “gozo da sua própria insignificância” ser visto como uma atitude perversa. Não é habitual situar a perversão nesta perspectiva.

A explicação pode estar aqui:
“ O desejo e a sua não consumação é uma das características essências da perversão. Poderíamos dizer que o perverso é um conhecedor do desejo e do seu diferimento.”
“As pessoas perversas introduzem um objecto, fantasia, encenação dramática ou fetiche entre si próprias e o objecto de desejo”.
Claire Pajaczkowska, Perversão, Almedina

Li outra e outra vez, e julgo perceber melhor: “O gozo da sua própria insignificância ante a magnificência do parceiro”, é uma atitude perversa, porque pode-se desejar amar e ser amada, mas não se vive um amor cooperativo. Antes pelo contrário, a intensidade do prazer pelo sofrimento que se experimenta pela própria insignificância, é maior do que a vivência de um amor partilhado.
Cria-se uma fantasia que integra a crença que se partilha com o outro, uma cumplicidade, como acontece em toda a perversão. A relação torna-se repetitiva. Promete, mas não leva ao crescimento do casal.


Dali, Costume for a Nude (detalhe)



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