segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O infinito


Salvador Dali, Landscape with Butterflies


“Em nossas relações com os outros é também decisivo saber se o infinito de exprime ou não.”
Carl G. Jung, Memórias, Sonhos e Reflexões

É preciso que se diga com clareza: há relações que não valem a nossa atenção. Há pessoas que também não valem a pena, o que não quer dizer que não as respeitemos. Mas nós insistimos, às vezes para além do suportável.
Como podemos saber se esta pessoa ou situação, merece que atravessemos os nossos limites ou o inferno, se tiver de ser? Qual o critério? Jung (psicanalista) diz que deveria ser este: esta relação exprime o infinito, ou não? Isto é, crescemos ou não, na relação.
Se nos deparamos com alguma dificuldade em compreendermos o significado do infinito, talvez se torne compreensível se dissermos que a sua ausência, é o sentimento de que “sou apenas isto” ou, esta relação “é apenas isto”. Sabe a pouco.
Mas até este despertar, pouco queremos saber do sentido dos dias vividos um a um. Andamos. O horizonte está próximo e é um manto espesso. Mas em muitos de nós, vai crescendo de maneira inusitada um desassossego. Um desejo de seiva.

Surge então o primeiro momento em que acreditamos que é mais fácil separar as coisas que são fundamentais das futilidades que nos consomem, e das pessoas que não têm nada para nos dar. O ilimitado torna-se essencial. O que nos coloca  perto do mais íntimo de nós, e do mais natural em nós.




2 comentários:

Ana Maria disse...

Eu penso que esta insistência numa relação em que não somos sequer vistos pelo outro, esta resistência em não querer ver o que é evidente se deve a duas possíveis causas, quando a mim, completamente interligadas: A primeira, a nossa própria omnipotência. Achamos que algum dia o outro irá mudar... por nós. A expectativa delirante de que a nossa "entrega", o nosso investimento grandioso irá "tocar" o ser narcísico e salvá-lo do seu próprio sofrimento. A segunda é a experiência sado-masoquista. Quando, desde a infância, somos confrontados com um sadismo constante aprendemos a sobreviver sendo ora sádicos ora masoquistas. É a relação que conhecemos outrora que reproduzimos numa relação amorosa. Encontramos, ou melhor, procuramos (porque é de facto o que fazemos), alguém que se encaixa nesta nossa história antiga. É um reviver de algo que conhecemos tão bem: uma relação patológica, com morte anunciada e sem fim à vista porque assim o desejamos e assim já o vivenciámos. E é aqui que a experiência vivida na infância de uma relação sado-masoquista se liga ao nosso sentimento de omnipotência na perfeição: Eu vivi (passado), repito a experiência (presente), com o objectivo de reparar a vivência antiga. Acho-me incrívelmente capaz de alterar a situação, por tentativa/erro, vezes e vezes sem conta. Sem exaustão, sem cansaço.

cristina simões disse...

Concordo com as duas causas apontadas. Acrescento uma nota: quanto aos comportamentos sado-masoquistas que são expressões da agressividade, esta é aditiva - quanto mais agressivo se é, mais dá vontade em continuar a ser, o que ajuda a explicar a repetição. Também concordo: na base, está também, a identificação com o agressor. Reproduzo da minha história passada, o modo como fui (mal) amado.
No meu texto quis, ainda, mencionar aquelas situações em que queremos ir mais além. E para isso, há quem retome os bancos da escola, mude de vida….